Mostrar mensagens com a etiqueta Romantismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romantismo. Mostrar todas as mensagens

15 julho, 2026

PATRICIO, F. J. -
TELAS ROMANTICAS.
Collecção de contos. Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira, 1903. In-8.º (17x10,5 cm) de 120, [4] p. ; [1] f. il. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de pequenos contos - históricos uns, outros de época, - enquadráveis na corrente literária do romantismo tardio.
Obra rara e muito curiosa, organizada com intuitos patrióticos e moralizadores.
Ilustrada em separado com o retrato do autor.
"Pelas onze horas da noite ninguem via já signal de vigilia no castello de Benil; havia muito que as luzes dos diversos aposentos e dependencias se tinham ido apagando pouco a pouco. O silencio reinava alli apenas cortado a espaços pelo grasnar de algumas rãs nos lagos da extensa quinta. O clarão de lua que subia len tamente no horisonte, desenhava nos vestustos adarves as sombras do arvoredo, mostrava a fórma ogival das frestas e distinguia as caprichosas aberturas das setteiras.
De todos os habitantes de Benil, fidalgos da mais nobre estirpe, cavalleiros de maior nomeada, opulentos senhores que se orgulhavam de ter em seus salões os retratos de familia em que havia venerandos prelados, esforçados paladinos, austeras abbadessas, graves geraes de mosteiros, ousados navegadores e reputados lettrados; de todos os habitadores do velho castello, incluindo os mordomos e capellães, os pagens e escudeiroed, os homens d'armas e os numerosos creados, só estava disperta, acordada e vigilante uma formosa donzella como todo o prestigio da m ais extraordinaria belleza e todas as graças e encantos proprios de quem apenas contava dezanove primaveras; era Violante, a meiga e sympathica filha dos senhores de Benil."
(Excerto de Como se amava no seculo XV)
"[...] Alvaro de... (não denunciarei mais, pois um nome basta para o conto), Alvaro era um esforçado cavalleiro em todo o vigor da edade e com todo o realce da fidalguia.
Ora, como todos sabem, a edade media é um periodo que tem sombras como uma noite de tempestade e ao mesmo tempo idillios como uma alvorada primaveral,; a humanidade peregrinava em toda essa epocha como o viajeiro atravez d'uma floresta, defrontando apenas, de espaço a espaço, com a luz escassa de alguma clareira.
N'esses tempos de cavallaria o amor tinha impetos selvagens quando era deslealmente correspondido.
Os amores de Alavaro por uma dama tão gentil como voluvel, tiveram um desenlace funesto. O coração magoado pela traição afundou-se n'um pelago de odios, o espirito, obscurecido pelo ciume, precipitou o brioso cavalleiro nos abysmos da vingança.
- Á mulher que me trahiu, dizia elle, o meu odio interminavel, ao meu rival a lamina da minha espada!"
(Excerto de O filho do crime)
Indice:
Como se amava no seculo XV | A captiva | Beatriz | O remorso | Milzura | Catita | O segredo de ermitão | O filho do crime | O mysterio da herdade | O prologo d'um noivado | O raminho de violetas | O milagre do annel | O monge d'Alpendurada | O perfumado mysterio de mademoiselle X | Um crime no seculo XVI.
Francisco José Patrício CvSE (Vitória, Porto, 1850 - Porto, 1911). "Foi um sacerdote católico, ilustre orador sacro, e investigador histórico português. Notabilizou-se pela sua grande capacidade oratória, tendo sido responsável por fazer a prédica em diversos momentos notáveis. Os seus sermões foram mais tarde reunidos em diversos volumes, sob o título Trabalhos Oratórios. Enquanto escritor, deixou impresso um livro, Telas Românticas, que reuniu diversos escritos da sua juventude, bem como diversos artigos de investigação histórica sobre a origem de romarias e usos populares, a maior parte publicados no Comércio do Porto mas também no Comércio Português, Jornal do Porto, Província, e Jornal da Manhã. Foi eleito deputado pelo círculo eleitoral do Porto nas eleições de 1881, por Viana do Castelo em 1896, e novamente pelo Porto em 1901 e 1904; não se envolveu, contudo, em debates importantes."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação recente em skivertex com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura anterior.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

03 outubro, 2025

TAVARES, Eduardo -
HENRIQUE E LEONOR, OU O AMOR, E HEROISMO.
Romance original portuguez por... Lisboa: Typ. de A. F. Alcobia. 1852. In-8.º (15x9,5 cm) de 257, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Interessantíssimo romance histórico, cuja acção decorre na Margem Sul, na zona de Almada, por altura da primeira invasão (e ocupação) francesa, onde, no início da história, se procede aos preparativos para suster o avanço do invasor que se prepara para entrar em Lisboa.
Inclui um hino patriótico em verso (pp.107-108).
Raro e muito curioso.
Nada foi possível apurar acerca do autor. A BNP dá conta da obra, sem contudo referir a cota. Tem inscrito "sem informação exemplar".
"Em 1807 a villa de Almada apresentava um aspecto bem differente d'aquelle que hoje ostende. Habitada por menos habitantes, contendo menos menor numero de edifficios, e dos que tinha, parte em ruinas, Almada não deixou com tudo de ostentar sempre um todo romantico, e até magestoso. Collocada sobre uma elevada collina ao sul e Lisboa, se mostra orgulhosa, e matizada, e n'aquellas ers o seu castello vetusto se achava quazi de todo arruinado. Dizem que fôra obra de mouros, o que não garantimos, nem contestamos: o que sabemos porem é que, a salubridade desta villa tem attrahido ahi  muitas familias, que, pelo desenvolver dos annos, tem feito um grande augmento em sua população.
Era uma noute de Novembro: um vento rijo sibilava, promotor de uma chuva, que, copiosa, cahia. Ribombavão no ar trovões aos mil, e seu monotono som lá hia, repercutido pelo écho, comquebrar-se no espaço. No horisonte ennegrecido scintillavão de vez em vez fitas luminosas: dir-se-hia que os elementos furiosos se fazião mutuamente a guerra. Davão duas horas da noute os bronzes da torre da Camara: no silencio da noute, apenas perturbado pela tormenta, jazião embebidos em aprazivel somno os habitantes da villa. No momento em que acabava de soar a ultima badalada, um vulto negro, sustentando em uma das mãos uma lanterna de furta-fogo, corria apressurado pelo pequeno campo que se desliza na encosta da fortaleza. Um relampago vibra energicamente, e deixa ver, atravez sua electrica luzerna, um pé delicado, e... nada mais; assim o permittio a momentanea claridade.
Chegado á rócha que fica sobranceira ao logarejo denominado Ginjal, pára de repente, e levantando sobre a cabeça sua lanterna, assim persistio quasi dous minutos, findos os quaes a baixou, e sentou-se em uma pedra, que encontrou casualmente.
A chuva tinha cessado, e o horisonte um pouco mais limpo, bem que ainda sobremaneira ennegrecido, mostrava terem já passado os furores da tempestade. Um agudo assobio ferio os ares: o vulto até então sentado, levanta-se apressurado, e dirigindo seus olhos para o lado d'onde parecia partir o assobio, exclama Ah!... é elle.
Com effeito um outro vulto negro vem subindo a muito custo a escarpada rócha: alguns passos mais, e ei-lo afora de tão ingente precipicio, ao lado de esse outro ser que, tam misteriosamente, ahi o aguardava á alguns minutos.- Ninguem nos ouve? exclama o recem-chegado.
- Não... ninguem.
Ah! nem o horror da noute te deteve?...
- Oh! não querido Henrique... não.
- Amavel Leonor! oh! vem a meus braços... vem amante querida."
(Excerto de I - Almada em 1807. Entrevista na rócha)
Indice:
I - Almada em 1807. Entrevista na rócha. II - O Conde de F... e sua familia. III - Domicilio de Henrique, e sua familia. Os hospedes. IV - Henrique em caza do Conde F... Leonardo. V - Proclamação ao povo - Partida. VI - Seis mezes depois. - Regresso de D. Nuno Sancho. - Evasão de Leonardo. VII - Incendio, e seus resultados: VIII - A carta - O vendilhão dos boletins - Leonor e Ignez. IX - Leonor e Ignez - Partida de Ignez e Sancho. X - A Estalagem do Pato Bravo. XI - Ignez, ainda uma vez, salva o Barão. - Aprehensão de Leonardo - Comprometimento. XII - Desfecho. - A vaidade abatida pela generosidade e o heroismo pago pela gratidão. - Confissão de Leonardo.
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado conservação.
Muito raro.
Indisponível

17 fevereiro, 2025

BASTOS, José Joaquim Rodrigues de -
OS DOIS ARTISTAS OU ALBANO E VIRGINIA.
Pelo Conselheiro... Segunda edição. Porto: Na Typographia de Sebastião José Pereira, 1853. In-8.º (201x13 cm) de 242, [2] p. ; E.
Romance moralista ao gosto da época, exemplo típico da escola romântica.
"Em todas as idades o homem precisa de ser verdadeiro; mas esta precisão é ainda maior, se é possivel, quando elle está proximo a comparecer no Tribunal Divino. Assim, eu devo esperar que se me dê credito, ao protestar  que nada do que digo é allusivo a pessoa alguma.
Puz-me a caminho, e não vi nem me importaram pessoas; e para que me haviam ellas de importar? O escriptor moral deve esquecêl-as ao pegar da penna, para melhor avaliar as cousas: deve fechar os olhos a tudo, menos á razão, á justiça e á verdade.
O amor póde cegal-o, o odio extravial-o. As paixões são escolhos, de que o prudente navegador se afasta, para não correr o risco de naufragar."
(Excerto do Prefacio)
"O esculptor tinha um filho, Albano, que já em tenra idade dava grandes esperanças; e, querendo formar-lhe o coração antes do espirito, levava-o todos os dias aos templos, e lhe dava algum dinheiro com que elle podesse fazer suas esmolas, não se enfadando de lhe repetir, que nem ha verdadeira devoção sem caridade, sem verdadeira caridade sem devoção. [...]
Lembrando-se de que os antigos imprimiam na sua mocidade as regras de viver e a sciencia dos costumes, por meio de breves e vivas sentenças, que se retinham sem fadiga, e se repetiam com prazer, entregou-lhe uma judiciosa collecção de maximas, determinando-lhe que decorasse todos os dias uma porção d'ellas, de que lhe tomaria conta, e ficou admirado, quando, passadas vinte e quatro horas, vio que as tinha decorado todas."
(Excerto do Cap. II)
José Joaquim Rodrigues de Bastos (Conselheiro) (17477-1862). "Nasceu a 8 de Novembro de 1777 em Moutedo, Valongo do Vouga, e veio a falecer no Porto a 4 de Outubro de 1862. Matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra e formou-se em 1804, passando a exercer a advocacia no Porto. A partir de 1812 envereda pela magistratura ao ser nomeado Juiz de Fora em Eixo e vilas de Paus, Óis da Ribeira e Vilarinho do Bairro. Em 21 de Novembro de 1823 é nomeado Corregedor e Provedor da Comarca do Porto e, no ano seguinte, a 9 de Abril de 1824, é ordenado Cavaleiro da Ordem de Cristo. De 22 de Junho de 1825 a 16 de Agosto de 1826, exerce as funções de Desembargador da Relação e Casa do Porto, posto o que foi Intendente Geral da Policia da Corte e do Reino, em 1827, e tomou o título de Conselheiro. A 25 de Outubro de 1826 a Infanta regente, D. Isabel Maria, nomeia-o Fidalgo da Casa Real. Politicamente, milita nas fileiras do Partido Liberal Conservador, sendo eleito deputado pela Província do Minho em Dezembro de 1820, e tendo participado nas primeiras Assembleias Gerais Legislativas portuguesas. Em 1833 abandonou em definitivo a vida política e passou a dedicar-se, exclusivamente, à literatura e a estudos religiosos. Obras publicadas: “Colecção de Pensamentos, Máximas e Provérbios” (1847); “Meditações ou Discursos Religiosos” (1842); “A Virgem da Polónia” (1849); ”Os dois artistas ou Albano e Virginia” (1853); ”O Médico do deserto” (1857); “Biografia da Sereníssima Senhora Infanta D. Isabel Maria”.
(Fonte: https://agueda.bibliopolis.info/Catalogo/Autores-Locais/ModuleID/1497/ItemID/1068/mctl/EventDetails)
Encadernação meia de tecido com cantos em pele e rótulo com dourados na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Carimbo e rubrica de posse na f. rosto.
Raro.
Indisponível

24 agosto, 2024

TORRES, José de - LENDAS PENINSULARES. Tomo I [Tomo II]. Lisboa, Livraria de Antonio Maria Pereira, 1861. 2 vols in-8.º (19x12 cm) de [4], 277, [3] p. ; [1] f. il.  (I) e [4], 270, [2] p. (II) ; E.
1.ª edição.
Interessante colecção de lendas da história da Península Ibérica. Obra em dois volumes (completa).
Exemplar ilustrado extra-texto com o retrato do autor no vol. I, entre a f. rosto e o ante-rosto.
"Havia tres dias e tres noites que o sino prioral do convento de Santiago de Uclés vibrava lugubremente, de hora em hora, tangendo á agonia d'um moribundo.
Os habitantes consternados puderam calcular pelo dobre, que se não interrompia nem repousava, o progresso d'uma morte lenta mas imminente. Na anxiedade de todos, nas pulsações de tantos peitos se conhecia, que era grande o personagem agonisante.
Com effeito, o homem que suscitava tudo isto era gran-mestre da ordem de Santiago. Havia treze annos que D. Vasco Rodrigues Coronado governava a ordem, com impaciencia da ambição dos que lhe cubiçavam a herança da dignidade, então egual ou superior á dos reis.
Uclés era n'aquelle tempo villa populosa; o convento de Santiago era a mais insigne e poderosa das fortalezas da ordem; e a dignidade magistral uma como soberania, ricamente dotada, e obedecida por numerosas hostes."
(Excerto de Vasco Lopes, Gran-Mestre de Santiago - T. I)
"A paixão immoderada não está longe do delirio, e não é raro ver acabar por elle o que a ambição humana começára.
Tem havido emprezas, combinações politicas sobretudo, tão extraordinariamente ousadas, que mal se creram, se a irrecusavel auctoridade da historia não viesse garantil-as. D'essas taes é indisputavelmente a que em 1595 se tramou em Madrigal, no interior de Castella, onde um homem se deu, e o deram, pelo recem-perdido rei portuguez D. Sebastião."
(Excerto de Rei ou Impostor? - T. II)
Índice:
Tomo I: Vasco Lopes, Gran-Mestre de Santiago (1337) | Brazão d'Elvas  (1438) | As Alpujarras (1568) | Ticiano Portuguez (1558-1590) | Constancia de Jesuita  (1587-1608) | Olho por olho, dente por dente (1845).
Tomo II: Rei ou Impostor? (1595) | Alda (1847) | Diluvio de Luz (...?) | Nota Final.
José de Torres (Ponta Delgada, 1827 - Lisboa, 1874). "Foi um escritor e jornalista açoriano que se notabilizou como bibliófilo e investigador da história açoriana. Reuniu uma volumosa colecção de documentos relativos aos Açores, hoje na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, a que deu o nome de Variedades Açorianas, a qual constitui hoje um acervo precioso para o estudo da história e cultura açorianas. Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e membro de várias sociedades científicas estrangeiras."
(Fonte: Wikipédia)
Bonita encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Aparado à cabeça.
Raro.
85€

11 julho, 2024

BORGES, Carlos - DOUS GENIOS DIFFERENTES : romance original.
Por...
Lisboa, Typ. Lusitana-Largo de S. Roque n.º 7 [Editor - Joaquim José Annaya], 1866. In-8.º (21,5 cm) de 156, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Livro de estreia do autor, publicado quando este contava apenas 17 anos. Obra romântica, ao gosto da época, oferecida a Camilo Castelo Branco, o "Principe dos romancistas da Peninsula", composta por um romance - Dous genios differentes, e a terminar, uma pequena novela - Christina.
Inclui na pág. 7 uma carta do autor «A Joaquim José Annaya», o editor, e nas págs 8 e 9 uma carta «A Camillo Castello Branco», respondendo Camilo na pág. 10 - «A Carlos Borges».
"Estavamos no inverno. O ceu carregado, opaco, ennevoado, o ar frio e pesado, a chuva caindo successivamente, nada faltava para o conjuncto das intemperies d'esta epoca de geada e tristeza.
As ruas do Porto, uma das mais bellas e lindas cidades de Portugal, estavam desertas e sombrias. Apenas no meio da escuridade, se divisava como em um quadro de Rembrandt, a sombra de uma elegante casa, brilhantemente illuminada no interior.
Esta casa pertencia ao conde de Vilmar. A porta principal estava aberta de par em par. Um portico juncado de ricos tapetes e guarnecido de magestosos candelabros conduzia á escada. Para o primeiro andar subia-se por entre duas fileiras de exoticos arbustos, cuja verdura e os mais odoriferos perfumes produziam, ao sahir da immensidade de chuva, que inundava a rua, um vivo sentimento de prazer: era a passagem repentina do inverno para a primavera.
A illuminação da casa, assim como este ornamento de flores, annunciava uma noute de festa: era o anniversario natalicio de Laura, interessante menina, neta do conde."
(Excerto do Cap. I - A neta do conde)
Carlos Borges (1849-1932). Pouco se sabe acerca do autor. De acordo com a Biblioteca Nacional, terá publicado alguns opúsculos de protesto político, peças de teatro e dois romances: Dous genios differentes (1866) e Eulalia (1868). Tem ainda listado em seu nome algumas traduções.
Exemplar brochado, ligeiramente aparado à cabeça, em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com pequena falha de papel no canto inferior esquerdo da capa. Sem f. ante-rosto.
Raro.
Com interesse camiliano.
35€

28 junho, 2024

IVO, Pedro - O SELLO DA RODA. Por... Porto, Typ. do Commercio do Porto, 1876. In-8.º (18x13 cm) de 355, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Edição original do único romance do autor, mais conhecido pela sua faceta contista.
"Estamos em fins de setembro. A brisa dos montes leva de quebrada em quebrada os éccos de mil cantares. Corre a vindima com o cortejo de alegrias, esperanças e projectos, que a acompanham.
Espalhadas pelas encostas, movendo-se nas profundezas dos valles, centos de raparigas, de navalha em punho, lidam na corta das uvas, roubando um bago a cada cacho e provando ao sol, por mil fórmas, que mais ardente do que elle lhes gira o sangue nas veias.
Descendo em linha recta a montanha, saltando de socalco em socalco, uma linha interminavel de gallegos transporta aos hombros para os lagares os enormes cestos vindimos, fazendo lembrar de longe um exercito de formigas forrageando as provisões d'inverno."
(Excerto de Em Traz-os-Montes - I)
"Ainda tremo, só com lembrar-me d'aquelle rigoroso inverno de 186...!
A chuva cahia pulverisada e gélida, ensopando pouco e pouco as roupas e inteiriçando os membros.
Os ricos, os que podiam ficar em casa, contemplavam melancholicamente, atravez dos vidros das janellas, o ar lôbrego e plumbeo e bocejavam, minados pelo tedio.
Os transeuntes, passando, como sombras, rente ás casas, ou procurando, com vistas expressivas de repugnancia e despeito, uma passagem, um váo, para atravessarem as ruas transformadas em atoleiros, amaldiçoavam a sorte, que os forçava a sahir.
Rapariguinhas maltrapidas, com os braços cruzados sobre o eito, e as mãos abrigadas debaixo dos sovacos, arrastavam com difficuldade os pés doridos, sentindo vergar as pernas açoutadas pela orla humida e enlameada das saias, e revelavam no rosto roxeado pelo frio o desalento e cançasso."
(Excerto de A engeitada - I)
Índice:
Em Traz-os-Montes. A engeitada. Em familia. Epilogo.
Pedro Ivo, pseudónimo de Carlos Lopes (1842-1906). "Escritor português, de nome verdadeiro Carlos Lopes, nascido a 15 de janeiro de 1842, no Porto, e falecido a 4 de outubro de 1906, na mesma cidade.  Oriundo de uma família abastada, viveu na Inglaterra e na Alemanha, onde foi educado, traduzindo poesias de Schiller, Goethe, Uhland, Heine e Hoffman, entre outros.  Depois de uma estada de dois anos no Brasil, de regresso a Portugal, dedicou-se ao comércio e à atividade bancária, chegando a presidente da Real Companhia dos Caminhos de Ferro de África. Estreou-se na atividade literária com a publicação de Contos (1874), obra elogiada pela crítica, a que se seguiram o romance O selo da roda (1876), igualmente aplaudido, e nova coletânea de contos, Serões de inverno (1880).  A escrita de Pedro Ivo revela influências de Júlio Dinis e de Rodrigo Paganino, no tema da felicidade rústica e no carácter moralizador das narrativas, e de Camilo, quanto ao sentimentalismo trágico. O seu estilo sóbrio e coloquial caracteriza-se pelas constantes intromissões do narrador e pela aproximação à linguagem das personagens, mediante o uso de variantes regionais e populares."
(Fonte: Infopédia)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro la lombada. Sem capas de brochura
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado, com pequenas falhas nas pastas e na lombada. Interior correcto.
Raro.
75€

22 novembro, 2023

DUMAS, Alexandre - D. MARTIM DE FREITAS.
Romance historico portuguez. De... Traduzido por F. P. da C. Gonçalves. Lisboa, Imprensa de Hermenegildo Pires Marinho, 1854. In-8.º (16,5 cm) de 88, [6] p. ; [2] f. il. ; B.
1.ª edição.
Romance histórico inserido na corrente literária do Romantismo cuja acção decorre no século XIII, e retrata um dos mais emocionantes episódios da História de Portugal.
Trata-se da narrativa dos acontecimentos relacionados com a deposição do rei D. Sancho II por seu irmão D. Afonso III, e a comovente demonstração de fidelidade protagonizada pelo alcaide-mor do castelo de Coimbra - D. Martim de Freitas (c. 1215-1293) - pela resistência que ofereceu aos partidários do rei "usurpador", que lhe montou longo cerco, tendo apenas entregue as chaves da fortaleza sitiada após ter tido conhecimento (e confirmado) a morte de D. Afonso II no exílio, em Toledo.
A título da curiosidade vale a pena referir que existem sérias dúvidas acerca de "paternidade" desta obra. Sobre este assunto, reproduzimos excerto camiliano inserto num artigo da Biblioteca Nacional: Estudos sobre a vida e obra de Dumas, cujo link infra disponibilizamos:
"Tem sido interpretado em clave sisuda um parágrafo de Camilo sobre a «mentira no romance», exemplificado com Dumas - alegado autor de D. Martim de Freitas, que não consta das bibliografias oficiais - e sua «cornucópia de asneiras» ao falar de Portugal (ver prólogo de «A caveira», em Cenas Contemporâneas). É manifesta a ironia, nesse propósito tão camiliano de preparar o terreno e ofuscar o leitor." (in https://purl.pt/301/1/dumas-estudos/e-rodrigues-2.html)
Livro ilustrado com duas estampas extra-texto:
- D. Martim de Freitas;
- D. Martim de Freitas entrega as chaves ao defunto rei D. Sancho II.
"Mas, meu pai, disse sorrindo Mercédes, donde vos procede um amor tão grande e singular pelo rei D. Sancho II?
Aquella a quem a donsella dirigia esta pergunta era um velho de sessenta annos pouco mais ou menos, vestido com uma saia de malha, ajustada ao corpo com tanto cuidado como se estivesse em campo diante dos Mouros d'Ourique ou Cordova, e não no seu bom castello da Horta rodeado de uma fiel guarnição n'uma paz perfeita. Só o casco faltava á sua armadura completa de capitão, e esse mesmo apenas estava a alguns passos posto sobre uma arca, perto da qual um escudeiro se conservava de pé e prompto para obedecer ás ordens de seu amo. Podia-se vêr este veneravel rosto, em que luctava, semelhante ao leão, uma singular mistura de força e tranquilidade, coroado de compridos cabellos embranquecidos mais pela fadiga do que pela idade, juntando-lhe ainda uma ou duas cicatrises para provarem em como os golpes que se vêem são estimados."
(Excerto do Cap. I)
"Eis o que se havia passado em Lisboa entre D. Sancho II e os grande do seu reino.
Os nobres estavão reunidos na salla do conselho e esperavão el-rei D, Sancho II para com elle deliberarem negocios do reino. De repente abre-se a porta, e, em vez do rei, vê-se apparecer D. Fernando d'Almeida, seu favorito, vestido para montar a cavallo, uma bosina ao lado e um chicote na mão; vinha annunciar que el-rei seu senhor não podia vir presidir ao conselho, visto partir na madrugada seguinte para caçar nas suas florestas de Sarzedar e Castello Branco; e que, todo absorvido n'estes preparativos importantes, não se podia occupar dos negocios do Estado.
Esta missão, que o favorito desempenhou com a sua costumada arrogancia, foi seguida logo depois de sahir d'um murmurio terrivel em toda a assemblea."
(Excerto do Cap. II)
Exemplar brochado, aparado à cabeça, em bom estado geral de conservação, mas com pequenas falhas e defeitos. Sem capas, encontra-se revestido de capas protectoras simples, lisas. Sem F. ante-rosto.
Raro.
A BNP possui um exemplar desta obra, dando notícia de uma outra edição de 1855.
85€

01 novembro, 2023

SÁ, D. Anna Maria Ribeiro de -
MATHILDE.
Romance original. Com um prologo do Ill.mo e Ex.mo Sr. M. Pinheiro Chagas. Bibliotheca Universal : Dedicada ao visconde de Castilho - N.º 9. Lisboa, Lucas & Filho, 1874. In-8.º (17,5x11,5 cm) de 277, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance baseado em factos do conhecimento da autora, cujas descrições assentam, nas palavras de Pinheiro Chagas, em "sobriedade de bom gosto, uma reserva elegante". Bem redigido, algo ingénuo, primeira obra da autora escrita em "plena fôr da vida", trata-se de um exemplo típico do romantismo literário.
"Quem não conhece, ao menos por tradição, a Varzea de Collares?
É delicioso aquelle sitio cheio de sombras e do frescura, como um idylio namorado. A agua corre alli, torcendo-se em graciosos meandros no seu leito todo bordado do flôres. As arvores dobrando-se do um para outro lado da corrente enlaçam os troncos amigos e a hera vem logo estreitar esta alliança, lançando-lhes por cima os seus abundantes festões. [...]
Ao pé da repreza ha um espaço sombreado pelos ramos de formosos platanos e onde se reunem todas as pessoas que vem de Cintra e de Collares passar algum tempo no logar mais ameno de quantos ha pelos arredores d'esta villa.
Ahi estavam ha bem poucos annos, sentadas nos bancos de pedra collocados á sombra das arvores, algumas pessoas e entre ellas duas, cuja historia talvez tenha algum interesse para quem deseja estudar o coração humano nas suas innumeraveis contradições.
Tinham dado duas horas e era chegado o momento em que as elegantes de Cintra vem passeiar até á Varzea. N'aquelle dia, fosse porque fosse, era pequena a concorrencia e apenas trez ou quatro familias tinham vindo para o favorito ponto de reunião. Só nos demoraremos a descrever as duas figuras mais importantes do grupo.
Uma d'ellas era um homem de sessenta annos, alto e robusto, com uma d'essas physionomias em que se lê como n'um livro aberto. São tão raras as caras assim! Tinha as feições bem accentuadas, e, apezar das rugas que lhe cortavam a fronte larga, e dos cabellos brancos, que abundantes lhe emmolduravam nos anneis de prata as fontes pensadoras, conheciam-se-lhe ainda vestigios de uma belleza varonil, que os pezares e o tempo não tinham podido apagar de todo. A cabeça tinha-a elle um pouco inclinada para traz com um gesto cheio de naturalidade, nos olhos pretos e brilhantes luzia a intelligencia e a franqueza; não usava barba alguma e a bocca desenhava-se-lhe graciosa, deixando perceber uma certa tendencia para a ironia fina, que, bem combinada, nem sempre prejudica a bondade; o nariz era aquilino. [...]
O homem de quem acabamos de esboçar o retrato, chamava-se Pedro da Silveira; passeiava encostado á sua bengala, e só interrompia o passeio para vir de vez em quando parar um instante diante de uma menina, que sentada desfolhava uma rosa sobre o liso espelho das aguas, onde se perdia o seu olhar distraído.
Esta menina era sobrinha de Pedro da Silveira e chamava-se Luiza. Teria pouco mais de dezoito annos e era bella; não da belleza sensual e robusta d'essas formosas estatuas em que só a custo se divisa o espirito, mas do outra mais elevada em que as feições são apenas um diaphano véo, atravez do qual scintilla a formosura d'alma. Era formosa, formosissima até, mas Rubens não a saberia retratar; só Raphael acharia nas suas paletas divinas o segredo de transportar para a tela toda a etherea expressão d'aquelle rosto angelico."
(Excerto do Cap. I)
"O visconde de Lorval era um elegante do primeira ordem, e parece-me que muito pouco mais. Não tinha feia figura e o seu rosto poderia até chamar-se formoso, se não fosse a nullidade intellectual, que a natureza, ajudada pela educação, tinha gravado nas suas feições, bellas, mas frias, porque raras vezes as aquecia a chamma do pensamento.
O visconde julgava-se muito intelligente e muito instruido. Era um d'estes papagaios da civilisação, que aprendem nas modernas encyclopedias tanto quanto é preciso para estar pouco mais ou menos á altura de todas as conversações, que se podem travar na sociedade. Aprendem do cór meia duzia de nomes proprios, uma certa quantidade de bons pensamentos, e algumas definições scientificas, que sabem empregar menos mal. Ordinariamente os sabios d'esta tempera são bastante habeis para se retirarem a tempo quando o terreno começa a ser escabroso, e quando das generalidades se passa a questões mais positivas, em que só a verdadeira sciencia não faz naufragio. O peior é que o apparato falso com que se apresentam engana muito, e estes eruditos improvisados passam ás vezes por homens muito instruidos.
O visconde de Lorval tinha tambem a pretenção de falar muito bem francez. Despresava profundamente a lingua materna, e para elle uma pessoa que não falasse francez e que não tivesse maneiras do parisiense, era pouco mais de um aborto."
(Excerto do Cap. II)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Mancha de humidade desvanecida, à cabeça, acompanha as primeiras 10 páginas do livro.
Raro.
Indisponível

30 agosto, 2023

RAMOS, J. B. da Silva - O CAPITÃO ANGELO : romance original.
Por... Braga: Typographia Luzitana, 1879. In-8.º (15,5x11 cm) de 105, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Romance histórico, moralista, algo ingénuo e "beato", exemplo típico do Romantismo tardio. A acção decorre no Porto e em Braga, com início no final da 3.ª Invasão Francesa, sendo ainda criança de tenra idade o "herói" da história - o Capitão Ângelo.
Obra dedicada pelo autor a D. Antónia Augusta Teixeira de Vasconcelos, da Casa de Marbom, em Celorico de Basto. Rara e muito interessante.
Nada foi possível apurar acerca do autor dado não existirem quaisquer referências biobibliográficas a seu respeito, incluindo na Biblioteca Nacional.
"Aos 6 de janeiro de 1811, estava n'uma sala do 2.º andar, do largo da Batalha, no Porto, o reverendo João de Mascarenhas, seriam 10 horas da manhã, almoçando com sua irmã D. Leonor de Mascarenhas, separados apenas por uma brazeira.
N'esta éra, o chá e o café existiam ainda foragidos nos vasos das boticas, figurando entre as melhores familias, o simples caldo d'unto, ou a açorda. Estes almoços, se não eram tão delicados e commodos, como os d'hoje, eram mais substanciaes e saudaveis. Pois nem mais nem menos; o nosso reverendo João de Mascarenhas, que era conego na Sé d'aquella cidade, estava almoçando açorda, com sua irmã.
Na madrugada d'este dia tinha caido grande quantidade de neve. Nos telhados media ella mais de tres pollegadas d'espessura; nas ruas, com o attrito dos carros, gente, etc., estava menos espessa; nos sitios, porém, onde se escoava alguma agua, formava uma especie de chrystal negro aonde os viandantes com facilidade escorregavam e caiam; - era uma verdadeira ratoeira armada pela natureza aos descuidados.
Foi pois n'este dia que o conego Mascarenhas, depois de ter ido á Sé rezar o officio e dizer missa, procurava, em frente do brazeiro e com o almoço, afugentar o frio e satisfazer a primeira necessidade da vida.
Na mesma salla traquinava uma menina, de tres para quatro annos, viva como uma doninha, e formosa como um querubim: era sobrinha d'ambos, e filha segunda d'uma nobre familia do Minho. [...]
N'este momento ouve-se um grito agudo, que vibrou na casa - lavadeira!
- Ora vá, continuou o bom do conego, vá aquecer os pés ajuntando a roupa para lavar.
- Valha-me Deus!... estava aqui tão bem...
D. Leonor levantou-se e disse a uma creada que fizesse subir a lavadeira.
- Dá licença, snr.ª D. Leonor?
- Entre Joanna.
Assomou então á porta da salla uma mulher que indicava ter 40 annos, de estatura mais que regular, de constituição forte e sadia, e d'uma physionomia que indicava bondade. Trazia pela mão um menino de edade de 6 annos, de cabellos louros e ondeados, cuidadosamente penteados; de tez fina e branca e com uns olhos vivos como os do basilisco; vestia roupas usadas, mas ainda boas e em moda n'aquelle tempo.
- Vá beijar a mão ao snr. conego, ande... disse a lavadeira para o menino, que obedeceu promptamente... Agora beije a mão á snr.ª D. Leonor.
Mariquinhas tinha deixado de correr para empregar todas as attenções no joven hospede. Sendo isto notado pela lavadeira, dirigiu-se esta ao menino:
- Angelo, dá tambem um abraço n'aquella menina."
(Excerto do Cap. I)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos. Carimbo de posse na f. rosto "Braga da Cruz, Casal do Assento, Tadim - Braga".
Muito raro.
Sem registo na BNP.
Indisponível

17 abril, 2023

MELLO, D. Thomaz de - MODESTA : memorias de um degredado. Romance original. [Introdução de Pinheiro Chagas]. Lisboa, Typ. Modesta, 1874. In-8.º (17,5 cm) de 262 p. ; E.
1.ª edição.
Obra típica do Romantismo, de acordo com Pinheiro Chagas (na introdução), redigido em "estylo brando e ameno, muitas vezes humedecido de lagrimas", e reforça: "ha commoção sincera na historia de Martha, a victima infeliz dos zelos de uma fidalga".
Romance de época, raro e muito curioso, oferecido pelo autor ao poeta Bulhão Pato. A história será verídica, elaborada a partir de um manuscrito entregue a D. Tomás de Melo por um seu amigo, proprietário no Alentejo: "Estes papeis, disse elle, foram dados em Loanda a um sobrinho meu, pela propria pessoa que os escrevêra. Esse individuo, dois mezes depois tomou tal porção de veneno, que d'ali a instantes era cadaver!"
"D. Thomaz de Mello ha de ser para o futuro uma das figuras legendarias do nosso tempo. A sua paixão pela aventura, o seu odio pelo convencional, o arrojo das sua idéas, a tranquillidade com que affrontava os acasos, os perigos muitas vezes de uma existencia nomada para fugir da trivialidade da vida monotona das salas, tudo isso deu-lhe até certo ponto o caracter de um heróe de Murger."
(Excerto da Introducção)
"Havia dois annos que eu tinha sepultado a minha felicidade no fundo de um valle circumdado por montanhas tristes e melancolicas para todos, menos para mim que as estremecia como a unica recordação de um passado cheio de espinhos e saudades!
Foi ali que sentira pela primeira vez roçar-me a face o anjo das emoções divinas para me chamar á vida do coração; existencia com que eu sonhava, quando refugiado no mais recondito da minha solidão, pedia a Deus um raio de luz, para, iluminando-me o espirito, me substituir por flores, as usnas que se prendiam ás ruinas do meu pensamento.
Tinha eu então vinte annos. Amara pela primeira vez! As rosas d'aquelle afecto, cahiram como as folhas no outomno. Seccas e desfolhadas, teceu-as o tempo n'um diadema de espinhos, que mais tarde, havia de coroar esta fronte de martyr!"
(Cap. I)
Tomás de Melo (na grafia de então, Thomaz de Mello) (1836-1905). Foi um escritor português, casado com D. Maria de Jesus de Bragança, filha ilegítima de D. Miguel I. Sobre a sua conduta de bon vivant e bom garfo lemos na revista O António Maria:
"Quem o não conhece, ao D. Thomaz de Mello, como um dos mais patuscos, mais curiosos, mais attrahentes typos d'essa bohemia de melhores tempos que lhe valeu agora, em boas reminiscencias, um alegre livro?! Quem o não conhece, ao da grande pera e mais o grande bigode, grande chapeu desabado e grande pança cahida, dilatada por quantas ceias e idas ás hortas memoraveis de que nos falla a Historia, e em que elle tomou parte, denodadamente, em tremendissimas pandegas de estalo!"
Foi autor dos seguintes livros: Cenas de Lisboa (1874); Modesta: memórias de um degredado (1874); O Conde de S. Luís (1874; 2.ª ed. 1903); A espera de touros em Carriche (1879); Boémia antiga (1897); Contos e casos (1904); Recordando "O Negro de Alcântara": tragédia em 4 actos, paródia do "Otelo" (1904). Foi ainda proprietário da revista O reclamo: órgão da Agência Universal de Anúncios, publicada pela casa Júlio Rodrigues, em 1892."
(Fonte: wikipédia)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação.. Envelhecido; pastas gastas; trabalho de traça, marginal, na dedicatória; pequena falha de papel nas duas primeiras folhas da introdução; sem f. ante-rosto.
Raro.
Indisponível

12 março, 2023

ALMEIDA, Carlos Pinto d' - OS CONSPIRADORES.
Romance original portuguez. Volume I. Lisboa, Typographia da Empreza Serões Romanticos, [1879?]. In-8.º (19,5 cm) de 307, [5] p. ; [3] f. il. ; E. Col. Bibliotheca Serões Romanticos - Volume I
1.ª edição.
Romance de capa e espada, exemplo típico do período literário do romantismo, que se desenrola durante a Revolução Francesa, numa primeira fase, em Lisboa, e depois, nos campos de batalha de França.
Livro ilustrado com 3 belíssimas estampas extra-texto, abertas em metal, com desenhos de Manuel de Macedo.
"O dia 27 de abril do anno da graça de 1792 estava bello e esplendido.
Um sol brilhante dourava as cumiadas dos montes e as mais altas serranias. O ambiente que se aspirava era embalsemado pelo aroma perfumado das flores, que, ridentes, alcatifavam as vastas planicies, que os lavradores deixavam incultas; e por onde não passára a relha do arado.
O vento soprava do norte, a temperatura era amena, propria da estação da primavera.
O brando ciciar dos arvoredos e o alegre chalrear dos passarinhos, convidava os pacificos habitantes da cidade de Lisboa, a darem um passeio pelo campo.
O Tejo espreguiçava-se com indolente voluptuosidade; e numerosas pessoas passeiavam pelo Terreiro do Paço, gosando o magnifico panorama, que offerece aquella praça.
Seriam cinco horas da tarde. As ruas de Lisboa estavam animadas cheias de vida, por ser de ha muitos annos, um centro de grande importancia commercial.
Quem n'aquelle dia passasse pela rua, que seguia desde as portas da Cruz da Pedra, até ao caes dos Soldados, havia de necessariamente reparar n'um joven, que, descuidoso, a percorria, montado n'uma pequena mulla, de grande orelhas e côr cinzenta. [...]
O mancebo teria dezoito annos; era de estatura meã, não excederia a sessenta pollegadas, a sua fronte era porém sympathica, bella e não destituida de energia. Tinha os olhos grandes, pretos; sobrancelhas arquedas; nariz aquilino, bocca regular. Nos labios, transparecia-lhe, por vezes, um sorriso zombeteiro, que revellava um espirito claro, um caracter travesso e picaresco.
Trajava uns calções de panno verde, uma vestia e collete da mesma côr; na cabeça trazia um chapéo tricornio com a aba dianteira levantada, ao lado caindo-lhe um formulavel espadim, que lhe batia constantemente nas pernas.
Quantas pessoas reparavam n'este original sorriam e diziam com os seus botões:
- É um pobre provinciano. Mais um pobre diabo que vem perder-se para esta Babilonia.
Mas se os velhos diziam esta geremiada, os rapazes riam-se; é certo porém que não se animavam a dirigir-lhe qualquer dito espirituoso, nem uma sombra de ridiculo!"
(Excerto do Cap. I - Duas aventuras)
Carlos Pinto de Almeida (1831-1891). Foi um escritor e tradutor português. Distinguiu-se na produção de romances históricos - género literário em voga na época - onde atingiu projecção de relevo.
Manuel de Macedo ( (Verride, 1839 - Lisboa, 1915)). "Foi conservador do Museu Nacional de Bellas Artes e Archeologia e do Museu Nacional de Arte Antiga, a partir de 1911. Professor na Escola de Belas Artes de Lisboa, dedicou-se a várias áreas artísticas. De 1864 a 1883 foi o cenógrafo de vários teatros lisboetas. Editou o Albúm de Costumes Portugueses, em 1888, em conjunto com Rafael Bordalo Pinheiro e Roque Gameiro. Foi aguarelista e caricaturista da sociedade burguesa lisboeta, tradutor e ilustrador de vários romances. Participou, como Director Artístico, na fundação da revista Ocidente, em 1878, publicada até ao ano da sua morte."
(Fonte: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4720933)
Encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação, sendo que, as pastas se apresentam manuseadas e gastas, com falhas no revestimento.
Raro.
Sem registo na BNP (menciona apenas a 2.ª edição).
Indisponível

08 fevereiro, 2023

O SOLITARIO DE TERRASSON.
HISTORIA VERDADEIRA, E MUITO INTERESSANTE
. Lisboa. M. DCCCVI. Na Offic. de Simão Thadeo Ferreira. Com licença de Sua Alteza Real. In-8.º (13,5 cm) de 156, [10] p. ; B.
1.ª edição.
História de um eremita. Novela traduzida do francês, ao gosto da época, referenciada como assente em factos verídicos. As 10 últimas páginas são preenchidas com a Lista dos Assignantes - onde constam os nomes dos subscritores da obra.
Nota biobibliográfica da BNP: "Not. 494 in Gonçalves Rodrigues A Novelística estrangeira em versão portuguesa no periodo pré-romântico. Indicação de Balbi le Solitaire de Terrasson, histoire intéressante por Madame de..., Paris, 1733, 182 p. Jones, 65, atribui-o à Marquesa de Merville (Mme Bruneau de la Rabatalliére Merville)"
"Desejando sempre com muita satisfação cumprir as ordens de V. Excellencia, tenho agora o maior prazer em executar a que V. Excellencia me dá, para a informar exactamente de tudo quanto diz respeito ao Solitario de Terrasson; porque tenho a certeza de que esta narração poderá entreter a V. Excellencia alguns momentos. Desejo unicamente, que o modo de a escrever não diminua a belleza do assumpto: mas a pezar da falta  de delicadeza, e graça, que são talentos totalmente desconhecidos neste Paiz, seguro a V. Excellencia, que a relação será muito exacta, e sincera; e espero que a ordem, que V. Excellencia me deo de não omittir nenhum particular, fará desculpavel a extensão desta Carta. [...]
Princípio por dizer a V. Excellencia, que o Solitario de Terrasson só foi conhecido por este nome, pelo espaço de hum anno, tendo chegado a este deserto no rigor do inverno do anno de mil seiscentos e setenta e quatro. He notorio, que este Paiz he muito frio, e particularmente nas montanhas; elle escolheo huma para o seu retiro, no cume da qual ha huma gruta muito espaçosa, que a natureza formou em hum rochedo, e que o nosso Solitario arranjou de modo, que hum  homem a podesse habitar, não commodamente, mas que o abrigasse contra as féras selvagens.
(Excerto de Carta á Duqueza de...)
Exemplar brochado, desencadernado, em bom estado de conservação.
Raro.
20€

02 fevereiro, 2023

CASTELLO BRANCO, Camilo - AMOR DE PERDICIÓN : novela completa.
Por...
Madrid, Revista Literaria Novelas y Cuentos, 1950. In-8.º (22,5 cm) de 65, [3] p. (inc. capas) ; B.
Capa (belíssima) do conhecido ilustrador andaluz Manolo Prieto (1912-1991).
Novela completa: Una emoción desgarradora impregna los capítulos de esta historia, acerca de la qual ha dicho Unamuno: "Es la novela de pasión amorosa más intensa y más profunda que se haya escrito en la península, y uno de los pocos libros representativos de nuestra común alma ibérica.
Amor de Perdição, obra maior de Camilo Castelo Branco, e uma das mais emblemáticas da literatura nacional, aqui apresentada sob a forma de "folheto de cordel"(!) - publicação semanal duma revista madrilena - a Revista Literaria Novelas y Cuentos, datada de 10 de Dezembro de 1950. O formato editorial e fraca qualidade do papel remete para o atraso e pobreza generalizada em que se encontrava mergulhado o país vizinho, uma década após o final da Guerra Civil.
O romance é precedido de um breve resumo bio-bibliográfico de Camilo e do Amor de Perdição.
Peça camiliana rara, com interesse para a bibliografia do grande prosador.
"Amor de Perdición", segundo Azorin, "es una de las novelas más intensas que ha producido la literatura portuguesa..." Fué escrita en 1861, durante la permanencia de su autor en una carcél de Oporto, a la cual le llevó un escandaloso proceso de adulterio. "Amor de Perdición" es el relato vivido de los trágicos amores de un tio suyo. La novela tiene bien justificado su título, puesto que en ella el amor es la causa de la perdición de todos sus personajes pricipales, tan hábilmente descritos por el agudo ingenio de Castello Branco, que vertió todas las exquisiteces de su pluma en esta obra maestra."
(Excerto do Resumo)
"Hojeando los libros antiguos de registro de la cárcel de la audiencia de Oporto, leí en el de entradas de presos de 1803 a 1805, al folio 232, lo siguiente:
"Simón Antonio Botello, que asi dijo llamarse, soltero, estudiante de la Universidad de Coimbra, natural de la ciudad de Lisboa, y residente en Vizeu en la época en que fué denetido, de dieciocho años de edad, hijo de Domingo José Correia Botello y de doña Rita Preciosa Caldeira Castello Branco, estatura ordinaria, cara redonda, ojos castaños, pelo y barba negros, vestido con chaquetón de bayeta azul, chaleco de color y pantalón de paño pardo. Cuyo asiento fué echo por mí, y lo firmo.
Felipe Moreira Diaz."
Al margen izquierdo del asiento se ve escrito:
"Salió para la India en 17 de marzo de 1807."
No entiendo que sea confiar demasiado en la sensibilidad del lector el creer que la deportación de un joven de dieciocho años le ha de causar lástima."
(Excerto da Introduccion)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, alvo de restauro, bem como a segunda folha de texto. Terceira folha apresenta pequena falha de papel no pé, com perda de suporte, afectando marginalmente o texto.
Muito raro.
Com interesse camiliano.
35€

22 julho, 2022

CAMPOS, Claudia de - A ESPHINGE
. Lisboa, M. Gomes - Editor : Livreiros de Suas Magestades e Altezas, 1897. In-8.º (19,5 cm) de [6], 377, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Romance com epicentro em Lisboa, e que discorre sobre os amores "desencontrados" de Alfredo - o conde de Villar, e Lydia Thorel, filha de um capitalista.
Empresa literária que contrasta com o estilo prático da autora, é, em todo o caso, uma história interessante e bem contada - excelente exemplo do romantismo tardio.
"Tia Evelina, que lhe pareço com este vestido e este penteado? perguntou Lydia Thorel, entrando na pequena sala onde uma senhora de quarenta annos, pouco mais ou menos, franzina, elegante, distincta, vestida simplesmente de escuro e extendida n'uma chaise-longue, se entretinha a lêr.
Ao ouvir esta pergunta, Evelina pousou o livro nos joelhos e ergueu os olhos, ao mesmo tempo que os labios se despregavam n'um sorriso bondoso e alegre, que lhe era peculiar.
- Como estás bonita, minha filha! Pareces mais do que nunca a verdadeira fada loura dos contos que eu te lia em pequenina.
E o cumprimento era merecido. Lydia estava encantadora em todo o frescor dos seus dezeseis annos - aurora incomparavel de ephemera juventude - radiante na sua primeira toilette de baile, em tulle de seda rosa bordada a matriz, casando-se, n'uma deliciosa harmonia de côres, com a pelle de uma alvura lirial, os cabellos de um louro ardente, e os olhos de um azul luminoso; e radiante ainda por se sentir formosa, rica, nova, e ter deante de si a desenrolar-se, em ondas de luz, a Vida."
(Excerto do Cap. I)
Maria Cláudia de Campos Matos (1859-1916). "Conhecida por Cláudia de Campos, nasceu no dia 28 de janeiro de 1859, em Sines, filha de Francisco António de Campos e de Maria Augusta Palma de Campos. Teve uma educação esmerada, da qual fizeram parte as literaturas inglesa e alemã.
Casou aos 16 anos com Joaquim Ornelas e Matos e, após alguns anos de casamento, estabeleceram-se em Lisboa. A vida conjugal não foi bem-sucedida, apesar dos dois filhos do casal e, em 1888, Cláudia de Campos e Joaquim Ornelas e Matos separaram-se judicialmente. A escritora tornou-se uma mulher autónoma, e iniciou uma nova fase da sua vida.
Após a separação, a escritora publicou a sua primeira obra, a coletânea de contos Rindo (1892). Foi na última década do século XIX que se concentrou a sua produção literária e ensaística. Já Coelho Neto (1864-1934), no dealbar do século XX, em carta dirigida a Garcia Redondo (1854-1916), se lhe referia nos seguintes termos: «[…] vou escrever sobre ela um artigo na Gazeta. Não conheço outra mulher que escreva a nossa língua com mais desembaraço do que essa formosa autora. […] Li os seus livros – e neles achei encanto e amargura, mel e travo – não são escritos banais, têm observação e trabalho […]». Da mesma forma, a polaca feminista, publicista e pacifista, Maria Cheliga-Loevy (1854-1927), cedo afirma acerca da autora «[…] portuguesa, cuja pátria intelectual é a Inglaterra, escritora conscienciosa, madame Cláudia de Campos tem, sobretudo, uma inclinação especial para os trabalhos de crítica. Jornalista uma vez por outra, nos seus artigos robustos, marcados por um estilo nítido, claro e preciso, dá testemunho incontestável de um espírito bem mais solidamente equilibrado do que o possuem bastantes detratores da mulher».
Além da literatura, teve um papel cívico relevante até se afastar da ribalta e da vida social. Em 1906 fez parte da direção da Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz e foi eleita vogal do Comité Português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes. Vem a falecer em 30 de dezembro de 1916, fora dos grandes holofotes."
(Fonte: http://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1217%3Amostra-claudia-de-campos-1859-1916-da-literatura-a-intervencao-civica-25-nov-16-16h30&catid=166%3A2016&Itemid=1235&lang=pt)
Exemplar brochado em razoável estado de conservação. Sem capas. Rasgões e falhas de papel nas primeiras folhas e na lombada. Pelo interesse e raridade, justifica encadernar.
Raro.
Indisponível