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28 janeiro, 2026

ALBERGARIA, Sá d' -
A IRMÃ DOROTHÊA : romance.
Volume I [II; III]. Porto, Livraria Chardron, 1902. 3 vols in-8.º (18x12 cm) de [16], 382, [2] p. ; [1] f. il. (I) / [4], 388, [4] p. (II) / 255, [1] p. (III) ; E.
1.ª edição.
Interessantíssimo romance naturalista em 3 volumes (completo), rotulado pelo autor como "simplesmente uma obra de verdade", cujo tema, no entanto, desafia os cânones da época.
Obra oferecida por Sá de Albergaria a Camilo Castelo Branco, "o maior mestre da lingua e o mais popular dos romancistas portuguezes", incluindo dedicatória laudatória de 3 páginas intitulada «Mestre!».
I volume inclui retrato do autor separado do texto.
"A meio da estrada que, atravessando a Serra do Carvalho, vae da Povoa de Lanhoso a Braga, encontra-se quasi sumida na reentrancia de dois asperos sêrros, mesmo á beira do cam inho, uma casinhola de mesquinha apparencia, tendo por cima da unica porta d'entrada este singular letreiro:
BINHO E TAVACOS
Que arrojado espirito de ganancia pôde inspirar a alguem a ideia de ir alli estabelecer-se, no reconcavo de uma serra arida e deserta, com um negocio de vinhos e tabacos, quando é sabido que, mesmo nas grandes cidades, estes generos, se não teem um largo consummo, são de pouco convidativos lucros para quem n'elles negoceia?
Como no mundo tudo se explica e não ha coisa que não tenha a sua razão de ser, é possivel que no decorrer d'esta veridica historia, chegue-mos a comprehender o pensamento secreto que presidiu á estranha phantasia commercial do tio Domingos Perneta - que assim se chamava o proprietario da taberna alludida.
Por agora, baste-nos saber que a Serra do Carvalho, que defronta com a lendaria serra da Falperra, era, ao tempo em que se passam os acontecimentos que vamos narrar, mal frequentada, principalmente de noite, em que os carros da carreira entre Lanhoso e Braga soffriam repetidos assaltos de malfeitores que, á mão armada, exigiam dos viandantes a bolsa ou a vida. [...]
Estamos no dia 20 de Maio de 1880. São onze horas da noite, e o ultimo carro da carreira acaba de passar com um grande tinido de campainhas e estalos de chicote, sem que o cocheiro apressado se lembrasse sequer de parar um pouco para pedir cigarros ou molhar a palavra á custa de algum passageiro generoso, como sempre acontece quando vae pessoa de respeito no carro.
- O Papa-Legoas não parou - disse de um extremo do balcão o tio Domingos Perneta para a esposa, a tia Quiteria de Thayde, que estava no outro extremo, sentada em uma cadeira de pau, a fiar n'uma roca, á luz baça de um sujo candieiro de petroleo pregado na parede.
- É que não leva freguezia de geito... - respondeu a tia Quiteria molhando o fio na ponta da lingua e fazendo girar o fuso a todo o comprimento do braço.
- Que o leve o diabo! - rosnou o taberneiro levantando-se n'um movimento de mau humor e indo á porta passeiar os olhos por toda a extensão da estrada deserta."
(Excerto de I - O homem da mascara negra)
António da Costa Couto Sá de Albergaria (São Miguel do Mato, Arouca, 1850 - Porto, 1921). "Foi um professor, jornalista, dramaturgo e escritor português. Escreveu também com os pseudónimos de João Chorinca e Gabriel da Rasa. Dedicou-se sobretudo ao jornalismo e à actividade literária. Fez parte da redacção de vários jornais humorísticos, tendo inclusive fundado alguns deles, como «O Sorvete», em 1878, e «O Porto Cómico», em 1880. Dirigiu inúmeros jornais, tendo sido redactor do Jornal de Notícias, onde, durante largos anos, manteve a secção «De raspão», famosa pela sua popularidade e pela qualidade dos versos humorísticos, pautados pela crítica social de tom irónico. Publicou alguns romances, dos quais se destaca «O Segredo do Eremita», bem como inúmeras peças de teatro de revista. Com efeito, dentre elas, destaca-se a opereta «O Diabo Louro», que foi a peça de inauguração do Teatro Carlos Alberto, no Porto, 14 de Outubro de 1897 e «O Brasileiro Pancrácio» (1893), que lhe granjeou grande popularidade nos palcos lisboetas."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação do editor em percalina com ferros gravados a seco e a ouro nas pastas e na lombada.
Exemplares em bom estado geral de conservação. Encadernações algo desgastadas. Apresenta assinatura de posse na f. rosto dos 3 volumes.
Raro.
75€

20 abril, 2019

PINTO, José Nuno Pereira - ALVARENGA E O MOTIM DE 1942. [Prefácio de Fernando Dacosta]. Arouca, Associação de Defesa do Património Arouquense, 2008. In-4.º (24cm) de 252 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Importante subsídio para a história do Estado Novo: A extracção e fornecimento de volfrâmio às potências contendoras durante a 2.ª Guerra Mundial, e a revolta dos arouquenses - naturais da zona de extracção do minério - contra os abusos discricionários da polícia política.
Ilustrado no texto com fotografias a cores, e em página inteira com reprodução de processos criminais e fac-símiles de relatórios da PVDE.
Tiragem: 650 exemplares.
"Desconhecida do grande público, a revolta dos habitantes de Alvarenga contra a polícia política de então, por causa do controlo do volfrâmio - estava-se em 1942, em plena guerra mundial -, constitui, pela singularidade e inedetismo contidos, um episódio marcante no Estado Novo. [...]
Detentor, sobretudo no nordeste, de férteis jazidas de volfrâmio, algumas a céu aberto, o País encontrou na sua comercialização uma inesperada "árvore das patacas".
A neutralidade conseguida por Salazar levou os dois beligerantes centrais (Grã-Bretanha e Alemanha) a encontrarem na importação do minério em causa um elemento decisivo para as respectivas indústrias armamentistas.
Como consequência o seu preço disparou fazendo, de um dia para o outro, inúmeros portugueses (rurais, comerciantes, exportadores, contrabandistas) multimilionários. Por outro lado, permitiu ao Estado arrecadar toneladas de barras de ouro enviadas por Hitler para Lisboa através da banca suíça, e receber assíduas benesses de Churchill.
A acção do presente livro situa-se nesse contexto, revelando as manobras das autoridades, as trapaças dos intermediários e a cupidez instalada no sector. [...]
A ira dos populares revoltosos contra a intervenção das autoridades e os subterfúgios destas, com diversos agentes encurralados na zona, criam dinâmicas que José Nuno Pereira Pinto capta e transmite com excepcional apuro estilístico.
"Foi caso único na história", destaca o escritor, "de tão terrível, quão treinada e poderosa polícia: serem confrontados e postos em fuga por um povo amotinado". O revés dos antecessores da PIDE desencadeou, com efeito, reacções brutais. A vingança sobre os cabecilhas detidos e condenados tornou-se verdadeiramente "abominável".
A incompetência, a selvajaria reveladas por vários agentes levaria, aliás, que instâncias superiores determinassem a expulsão de alguns dos seus quadros.
Salazar intervém e ordena, por telegrama pessoal enviado à delegação do Porto da PVDE, que fica estarrecida, a libertação de um dos detidos. Meses depois, no Verão de 1943, o presidente do Conselho assina uma amnistia a favor dos inculpados na revolta contra a polícia política - o que surpreende e desconcerta todos os que têm conhecimento do facto.
A vida extravagante dos recém enriquecidos com o volfrâmio (havia que acendesse em público charutos com notas de mil escudos - uma pequena fortuna!) ultrapassa a natureza da ficção, não parecendo conter limites para o bom senso."
(Excerto do Prefácio)
Índice:
[Prefácio]. // - Breve notícia Histórico-Geográfica. - Breve conspecto social de Alvarenga, entre 1939-1942. - Os preparativos da alegada venda do volfrâmio. - Os acontecimentos de nove e dez de Maio de 1942. - Os relatórios dos agentes da P.V.D.E., relativos aos acontecimentos de 9 de Maio de 1942. - O dia 10 de Maio, na perspectiva dos agentes. - Os depoimentos dos detidos. - Os salvo-condutos. - O minério levado para Cabril. - O relatório final do chefe Júlio Almeida. - Os maus-tratos infligidos aos presos. - Das diligências e intervenções perante o poder político, com vista à libertação dos Presos. -Os fugitivos. - A libertação dos presos e julgamento de alguns deles. - O processo de infracção fiscal. - Repercussão do Motim nos meios de comunicação de então. - A fuga e o processo judicial de Manuel Noronha Tavares. // Anexo I; II; III; IV; V; VI; V; VI; VII. // Bibliografia.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico.
Indisponível