1.ª edição.
Junto com:
ALMEIDA, Eduardo d' - DISCURSOS. Guimarães, Editores Cunha & Lemos (Tabacaria e Papelaria Lemos) - Compôsto e impresso na Tipografia Minerva Vimaranense de Antonio Luiz da Silva Dantas, 1921. In-8.º (21,5x14 cm) de [10], 274, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Duas obras de Eduardo de Almeida, ilustre causídico, proprietário e homem da cultura de Guimarães, encadernadas num único tomo. O primeiro volume - Almas do Purgatório - é um conjunto de contos, dois de alguma dimensão; o segundo - Discursos - reproduz as suas intervenções de maior relevo até 1921.
O título Discursos encontra-se autografado pelo autor com dedicatória a António do Amaral.
"Acordo queimado de febre, a estranha sensação do côrpo rechinando num lençol de suor frio, ainda na convulsa epilepsia dum mau pesadêlo.
Falta-me o ar. A muito custo, fazendo estalar os ossos empedernidos, busco uma caixa de fósforos, com mão nervosa, pesada, e, se já me arripia o contacto metálico do relógio, ao tocar os dêdos formiguentos no mármore da cabeceira, a descarga duma faísca electrica atravessa-me, deslumbradôra como fôgo de santelmo.
Vejo, olhos abertos na escuridão abafada do quarto, destacando-se de brancura escultural, as ultimas imagens do sonho - a deusa da Morte, na cinica e vulgar figura de Parca, (como a dum conhecido moimento do cemitério da Atouguia) mitológica e ausente, cortando-me o fio da vida; e, logo, sôbre o meu próprio cadaver amortalhado no hábito de irmão franciscano, o coveiro atira, em burocráticos movimentos indiferentes, grossa pàsádas de lama...
Na sacudida tenacidade do desejo, com a ância de acordar, a alucinação esvai-se; só, por largo tempo, erguidas ao meio do quarto, com violência luminosa de fotosfera, as mãos da estatua funerária não desarmam o gesto - e é dento do meu peito que êle se reflecte como se, na verdade, as tesoiras de aço me desfibrassem as raízes do coração.
Assusta-me o silêncio. [...]
Penso em chamar um criado. - mas envergonha-me a alarmante cobardia -; em sair, errar ao acaso, a ver se topo o sinal duma outra vida, que me dê reconfortadôra impressão de ser um facto a minha própria vida."
(Excerto de Agonia de amor)
Eduardo Manuel de Almeida Júnior (1884-1958). "Nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1884, numa casa na rua de S. Dâmaso, em Guimarães. O seu pai, de quem tomou o nome, era um destacado homem de negócios. Estudou no Colégio de S. Dâmaso, que então funcionava no antigo Convento da Costa, onde completou o ensino secundário. Partiu para Coimbra em 1900, com o mesmo destino da maioria dos filhos da burguesia da terra que prosseguiam estudos superiores, inscrevendo-se na Faculdade de Direito da Universidade, cujo curso completaria em 1905, aos 21 anos.
Concluído o curso, regressa a Guimarães, onde se faz advogado, onde cedo consolidaria a sua fama de causídico competente e eloquente, com o um memorável tirocínio num caso particularmente difícil, em que assumiu a defesa de Antónia de Macedo, a Tiça, mulher do povo acusada da prática de triplo infanticídio e que, lida a sentença, acabaria absolvida.
Eduardo de Almeida foi, antes do mais, um homem de letras. Publicou o seu primeiro romance, A Lama, em 1905, ainda em Coimbra, um manifesto dirigido contra a sociedade decadente e desigual, onde proliferava a miséria, com uma clara influência da obra de Émile Zola. Desde muito jovem, colabora em inúmeras publicações periódicas, por onde irá dispersar incontáveis textos dedicados aos mais variados assuntos. O seu primeiro artigo na Revista de Guimarães foi publicado em 1906.
Eduardo de Almeida destacou-se como escritor, de grande mérito, sendo autor de uma obra que vai da ficção (publicou um romance e quatro volumes de novelas) aos estudos jurídicos e sociológicos. Quando assumiu a Direcção da Sociedade Martins Sarmento e da Revista de Guimarães, deu início às suas investigações históricas, publicando uma notável série de estudos dedicados à história de Guimarães."
(Fonte: https://pedraformosa.blogspot.com/2008/01/no-cinquentenrio-da-morte-de-eduardo-de.html)
Encadernação meia de percalina com ferros gravados a seco e a negro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado.
Raro.
30€

































