MACHADO, Julio Cesar - MIL E UMA HISTORIAS. Por... Empreza Litteraria de Lisboa - Officina Typographica da Empreza Litteraria de Lisboa, 1888. In-4.º (22,5x14 cm) de 335, [1] p. ; il. ; E. 1.ª edição.
Interessante conjunto de pequenos contos e crónicas bem humoradas, não ficcionadas, pela pena de Júlio César Machado, conhecido jornalista e romancista lisboeta.
Obra ilustrada com o retrato do autor em página inteira precedendo a f. rosto.
"Publicada originalmente em 1888, esta coleção de contos oferece um retrato vívido e multifacetado da sociedade portuguesa do século XIX. Com uma escrita elegante e perspicaz, Machado tece narrativas curtas que exploram o quotidiano, os costumes e as idiossincrasias da época.
Cada história é uma janela para um mundo de personagens memoráveis e situações inusitadas, repletas de humor e reflexões sobre a condição humana."
(Fonte: Amazon)
"Que outros mettam hombros a grandes historias, romances em largos volumes, contos da proporção de romances; vamos, nós, a entreter-nos, se isto se puder conseguir, com os casos, os ditos, os feitos e gestos, de Pedro, de Paulo, de Sancho, de Martinho... Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anedocta!"
(Preâmbulo)
"De uma occasião, cavaqueando o Innocencio e o Meréllo, na loja do livreiro Rodrigues, da rua do Crucifixo, farejaram um livro de valia; cuidando qualquer dos dois, que, o outro, não houvesse dado por elle.
Principiaram então, como que ao desafio, em espertezas, procurando mutuamente afastar o competidor do logar da maravilha.
Já um chamava o outro para a porta, e lhe narrava não sei que historia em grandes ares de confidencia; - já o outro consultava o relogio e lhe dizia a hora, adiantando-a, ao passo que lhe perguntava qual fosse a sua hora de jantar... Nem o Meréllo nem o Innocencio arredavam um passo da baiuca do livreiro, recinto encantado da ambicionada joia.
N'isto, não se atrevendo nem um nem o outro a desampararem a caça, nem, tão pouco, a separarem-se, sairam juntos.
Innocencio, morava n'esse tempo, ao Rato, na rua de S. Filippe Nery; o Meréllo, como que deleitando-se com a sua conversação, foi indo até lá.
Uma vez chegado, disse-lhe o auctor do Diccionario Bibliographico:
- Você onde vae?
O Meréllo, titubiando, denunciou, porventura, na sua hesitação, o designio que guardava em seu animo? Chi lo sá?!
Respondeu conforme poude:
- Eu agora... estou capaz de ir... tenho por força de ir agora...
- Para cima?
- Não; ali, para aquelle lado...
Innocencio fixava-o no branco dos olhos."
(Excerto de Crónica)
"Porque em pequenita, o maior gosto d'ella fosse acompanhar com a voz as pancadas de um relogio de parede, que havia em casa, um d'aquelle antigos e grande relogios chamados de caixa, puzera-lhe a familia, por brincadeira, a alcunha de Ti-ki-ni.
O nome d'ella é... Deixemos. É melhor ficar-mos chamando chamando-lhe como em pequena a tratavam... Ti-ki-ni.
Nunca o sól illuminou mais alegre creaturinha, nem houve ainda pintor que conseguisse toques mais finos que as duas pregas pequeninas, que se lhe desenhavam nas faces quando ella ria.
Apparentou-lhe sempre o seu genio travesso um quê de diabrete; quebrar por gosto, rasgar para se entreter: demonio bom, - e mais vale isso do que anjo mau. Cresceu-me deante dos olhos...
De domingo para domingo, fazia differença na altura. Com que ufania nos contou, de uma occasião, haver feito a bainha da sáia mais estreita, para o vestido ficar mais comprido!
N'uma bella manhã, encontrando-a no Chiado, disse-me sorrindo.
- Caso-me amanhã."
(Excerto de Conto)

Júlio César da Costa Machado (Lisboa, 1835-1890). "Nasceu numa família de
posses e conviveu desde cedo, pela mão do pai, no meio literário e
teatral lisboeta. Foi jornalista, tradutor, autor de romances, contos e
peças de teatro, destacando-se como um dos mais célebres folhetinistas e
cronistas do seu tempo. Publicou o seu primeiro romance, Estrela d’Alva, com apenas 14 anos, na revista A Semana,
de Camilo Castelo Branco, de quem se tornaria amigo íntimo. O seu pai
morreu em 1852, deixando-lhe dívidas que o obrigaram a obter, desde
jovem, rendimento da escrita. Tornou-se tradutor, folhetinista,
cronista, colaborando em dezenas de periódicos: A Revolução de Setembro, Revista Universal Lisbonense, Diário de Notícias, Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, Revista Ocidental, Ilustração Portuguesa, Eco Literário,
este último cofundado por si em 1886. Os seus textos eram
simultaneamente populares e apreciados pelos pares, que lhe admiravam o
humor, o estilo coloquial e ligeiro, a atenção aos temas do quotidiano.
Publicou vários livros, nomeadamente Cláudio (1852), A Vida em Lisboa (1858), Contos ao Luar (1861), Cenas da minha Terra (1862) e Contos a Vapor (1863). Muitos dos seus folhetins e crónicas de viagem, entre os quais Do Chiado a Veneza, foram reunidos em volume. Em 1890, na sequência do suicídio do seu filho único, Júlio César Machado pôs termo à vida."
(Fonte: Wook)
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação.
Muito invulgar.
35€