BOCAGE, Manoel Maria de Barbosa du - RIMAS, DEDICADAS Á AMIZADE. De... Tomo II. Terceira Edição, correcta pelo Author. LISBOA. M. DCCC. XIII. Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. Com licença da Meza do Desembargo do Paço. Vende-se na mesma Officina na Calçada Salitre Nº 84. In-8.º (14x9,5 cm) de [10, 368, [2] p. ; E. Segundo volume das Rimas dedicado à amizade, no qual o Bocage agradece a todos aqueles que contribuíram para aliviar as suas angústias, especialmente nos momentos de maior adversidade, quando doente ou em reclusão. Nestes versos, Bocage afasta-se da matiz estritamente satírica ou erótica e dirige-se aos amigos que o apoiaram nos momentos de maior dificuldade..
"A Maior parte das Poesias que publico, foi recobrada com a memoria em casa do meu officioso Amigo José Salinas de Benavides, huma das pessoas mais benemeritas, e qualificadas de Santarem, onde me avisárão de que, affectada a minha letra por algum de muitos malévolos, que, á maneira de lobos, matão ás vezes o que não hão de comer, ou, deixando figuras, por algum dos que prejudicão sem utilizar-se, fôra em meu nome extrahida aos depositario dos meus bens poeticos a caixa, em que jazião, com os trastes proporcionados á minha profissão, e hum tanto peores, que os versos. Temendo a perda do que, para mim ao menos, era prcioso, examinei o livro interior, que me não pódem roubar, e com effeito copiei delle tudo o que dou á luz não relativo a hum desastre tão impensado, como penoso, que me sobreveio depois, e occasionou as producções, em que o chóro.
Leitor intelligente, verdadeiro Crítico (e não a chusma de Zoilos, que usa infestar a República literaria, e crê que a mordacidade suppre o talento) o Sábio imparcial (em que só me louvo) talvez não desdenhe estas novas Rimas... [...]
Poderáõ os Zoilos abocanhar a m inha Musa, mas serão obrigados a reconhecer a minha gratidão na Epistola dedicatoria, que dirijo ao extremoso Amigo, cuja beneficiencia me adoçou o infortunio, e deo a saber que o seculo do Egoismo ainda soffre excepções proveitosas aos infelices."
(Excerto de Ao Leitor)
"Vós, que de meus extremos sois a historia,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co’ promto auxilio de fiel memoria:
Da Inveja conseguindo alta victoria,
Ide, meus Versos, em Amor fiados,
Que delle só dependem vossos Fados,
Que nelle só demando a minha gloria:
Não vos importe o público juizo;
Da Voz que pelo Mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.
Voai aos olhos, cuja luz me inflamma;
Tereis de Anarda approvador sorriso;
Hum sorriso de Anarda he mais que a Fama."
(Soneto I.)
Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805). " Foi o maior poeta português do século XVIII, que se irmana com Camões no destino do estro e nas desventuras de uma existência repartida entre Portugal e a Índia. Manuel Maria l' Hedois de Barbosa du Bocage – de seu nome completo – era filho de um advogado e de uma senhora francesa de ascendência normanda. Orfão de mãe desde os dez anos, assentou praça em Setúbal em 1781, tendo-se alistado dois anos depois na recém-fundada Academia dos Guardas-Marinhas, em Lisboa. Conheceu então a boémia lisboeta, os botequins, o Nicola, onde o seu génio poético se afirmou no improviso e lhe ganhou aplausos. Subitamente, ao fim de dez meses de frequência do curso, Bocage abandonou os estudos, sendo dado como desertor em 6 de Junho de 1784. Nomeado guarda-marinha, partiu para a Índia a 4 de Abril de 1786, fazendo escala no Rio de Janeiro, tendo chegado a Goa a 20 de Outubro. A sua estada na Índia foi por ele comparada ao exílio de Ovídio entre os Getas – os «bárbaros» indianos que o rodeavam. Promovido ao posto de tenente, foi destacado em Damão, mas só aí permaneceu dois dias, 7 a 8 de Abril de 1789, refugiando-se em Macau de onde viajou para Lisboa, em 1790. No seu regresso, Bocage aderiu à Nova Arcádia, onde assumiu o pseudónimo literário de Elmano Sadino. Em 10 de Agosto de 1797 foi preso por ordem do intendente Pina Manique, acusado de ser «autor de papéis ímpios e sediciosos». A peça principal do auto de acusação era o poema Pavorosa Ilusão da Eternidade. A 7 de Novembro do mesmo ano foi transferido para os cárceres da Inquisição, daí seguindo, a 22 de Março de 1798, para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, dirigida pelos padres do Oratório.
Toda a poesia de Bocage se nutre das suas vicissitudes biográficas. O amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas, vibram nos seus versos com a intensidade do excesso, que a forma apurada e o rigor verbal dominam, tornando mais impressionante o seu efeito estético. O poeta cultiva com igual desenvoltura todos os géneros, desde o soneto de fina conceituação petrarquista ao verso fescenino, servindo-se ainda dos códigos de um discurso classicizante, onde prorrompe já um vigoroso individualismo em revolta com as normas e os tabus da sociedade vigente. A atitude do poeta contra a tirania e o despotismo não implica, no entanto, a aceitação do radicalismo da Revolução Francesa, a que se opõe, nem a via do libertino, que o seduziu, esmoreceu nele as suas crenças e convicções de católico. Bocage foi um ser contraditório, que soube viver intensamente na sua poesia as suas contradições existenciais. O seu fascínio pela morte e a expressão da sua extrema emotividade fazem dele um precursor do Romantismo, cujos desbordamentos evitou no apego à contenção clássica, impondo-se como um artífice do verso, o chamado elmanismo, que tanto atrairá os parnasianos portugueses e brasileiros."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?autorid=7375)
Encadernação coeva em pele.
Exemplar em razoável estado de conservação. Cansado. Pastas e lombada apresentam falhas no revestimento. F. rosto com pequeno orifício ao centro. Aparado à cabeça.
Raro.
15€