MENDES, Adelino - CARTAS DA GUERRA (janeiro a abril de 1917). Porto, Edição da «Renascença Portuguesa», 1917. In-8.º (19 cm) de 338, [6] p. ; E.
1.ª edição.
Volume de crónicas que o autor - jornalista português destacado na Flandres - produziu à laia de diário a partir de diversos pontos de França - Paris, Brest, Amiens, "Norte de França" e do front - durante a Grande Guerra, para publicação no jornal A Capital.
Trata-se de um importante subsídio para a história da Primeira Guerra Mundial, com relevância para a bibliografia WW1.
Raro e muito interessante.
Exemplar muito valorizado pela sua dedicatória autógrafa a Francisco Carrelhas.
"Numa tarde de gêlo e de neve, uma destas tardes do Norte da França sacudidas por uma brilha que retalha, encontraram-se, no campo de batalha do Somme, um jornalista, um coronel de artilharia e não sei quantos mais oficiais. Tomou-se uma chávena de chá, palestrou-se um pouco, e quando a claridade daquele dia baço de inverno começava a empalidecer, o jornalista levantou-se e pronunciou as primeiras palavras de agradecimento e de despedida. Então, o coronel, délgado, sêco, rijo, enérgico e vermelho como um inglês, erguendo-se também, disse para o seu hóspede com aquela simplicidade britânica, que não tem igual no mundo:
- Se quere assistir a alguma coisa de interessante deixe bater as seis horas. Vamos começar a bombardear a povoação de Irles...
O jornalista esperou. E daí a pouco, na penumbra triste e fria do entardecer, a grande sinfonia começava. Cem canhões de grosso calibre, postos em fila por detrás duma alta trincheira, arremessaram contra a povoação indicada a primeira rajada de aço a escaldar. E daí em diante, as mesmas gùelas de aço continuaram a vomitar as mesmas granadas, sem descanso, sem interrupção, sem um momento de repouso. A morte despenhava-se em catapultas, em cada segundo que os relógios contavam. O rugir da artilharia espalhava, pela solidão compacta que pesava sôbre as coisas destruidas, como que a última benção compassiva. Então, admirado com semelhante espectáculo, que jámais podera sonhar, o jornalista, voltando-se para o oficial que comandava, que dirigia o chuveiro incessante das granadas, preguntou-lhe quando ter minaria o inferno que começára momentos antes e que para êle era já qualquer coisa horrivelmente pavorosa.
- Durará até que a povoação bombardeada cáia em nosso poder. Contamos gastar sessenta mil projécteis e perder cento e vinte homens. Mas ámanhã ao meio dia tê-la-hemos em nosso poder..."
(Excerto de Sob a metralha - Frente inglesa, 25 de março)
Índice:
Em viagem | Uma vaga de gêlo | Os da rectaguarda | Oito negativos | «Les permissionaires» | O primeiro contingente português | Sãos e salvos | Males que perduram | Laranjas de Sagunto | As naus catarinetas | Os prisioneiros | A Inglaterra e a polícia dos mares | Paris não é uma cidade triste | O Clero e a Pátria | A guerra e os desenhadores | «Il ne manque que le pape!» | Os voluntários portugueses | O teatro e a guerra | A filantropia em acção | As montras dos jornais | Paris doutros tempos | A alegria dos ingleses.
Com o exército inglês: - Para o «front» - Na zona dos exércitos - Na zona dos exércitos - Era uma vez... - Os olhos dos exércitos - Os herois da quinta arma - Os novos artilheiros - I - Os novos artilheiros - II - Perto das trincheiras - A cidade de Albert - A virgem d'Albert - A batalha do Somme - I - A batalha do Somme - II - Thiepval, a destruida - A batalha do Ancre - Sob a metralha - Três horas num campo de batalha - Nesle, a libertada - A vila ressuscitada - Terras mortas - Nas regiões destruidas - Péronne - Bapaume - «Lerne Leiden, Ohne zu Klagen!» - Grutas de Trogloditas - O que é uma «base» - O que é uma «base» -O que é uma «base» - Domenico Oliva - Nota.
Adelino Lopes da Cunha Mendes
(1878-1963). "Jornalista e escritor, nasceu na Freguesia do Reguengo do
Fetal (Batalha), a 28-10-1878 e faleceu em Lisboa, a 26-08-1963. Era
filho de João José Gomes Mendes e de Maria Vitória Lopes da Cunha.
Depois de ter feito os Estudos Secundários em Leiria, iniciou a sua
carreira de Jornalista em O Século, do qual veio a tornar-se Redactor principal, a partir de 1925. Publicou numerosos artigos e reportagens em jornais diários (Novidades, República, A Capital, Jornal de Notícias, O Século,
etc), tendo participado com convicção e vigor em várias campanhas,
destacando-se entre elas a Crise do Douro (1909), o Terramoto de
Benavente (1910), a Revolução do 5 de Outubro (1910) e o Advento da
República em Espanha. Ocupou os cargos de Redactor do Diário do Senado e
de Arquivista Judicial da Boa Hora. Foi correspondente de guerra em
França, em 1917. Foi correspondente de guerra em França,em 1917.
Obras principais: Terras Malditas (Campanha Dum Repórter), (1909); O Algarve e Setúbal, (1916); Cartas de Guerra (Janeiro a Abril de 1917), (1917); Ares de Espanha. Política, Figuras e Paisagens, (1930); A Esplêndida Viagem, (crónicas, 1945); «Um panteísta - Afonso Lopes Vieira», (In Memoriam 1878-1946), (1947)."
(Fonte: https://ruascomhistoria.wordpress.com/2018/07/14/quem-foi-quem-na-toponimia-da-batalha/)
Obras principais: Terras Malditas (Campanha Dum Repórter), (1909); O Algarve e Setúbal, (1916); Cartas de Guerra (Janeiro a Abril de 1917), (1917); Ares de Espanha. Política, Figuras e Paisagens, (1930); A Esplêndida Viagem, (crónicas, 1945); «Um panteísta - Afonso Lopes Vieira», (In Memoriam 1878-1946), (1947)."
(Fonte: https://ruascomhistoria.wordpress.com/2018/07/14/quem-foi-quem-na-toponimia-da-batalha/)
Encadernação em meia de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico.
50€
Reservado


























