27 março, 2026

COSTA, Rodrigo Ferreira da - A LYRA INGENUA, OU COLLECÇÃO De Canções e Glozas em quadras.
E che sentirai tu s'Amor non senti, Sola cagion di ciò che sente il mondo. Il Pastor Fido. Em Toulouse, Na Imprensa de Benichet Ainé. 1814. In-8.º (12,5x8,5 cm) de 50, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Raríssima edição original da primeira obra do setubalense Rodrigo Ferreira da Costa, publicada anónima. A 2.ª edição, também rara, foi igualmente impressa sem o nome do autor, mas em Lisboa, na Impressão Régia (1818).
"Os versinhos, que publico, não são meus; porem deve-os o pùblico à minha curiosidade. Nascêrão nas margens do Mondego naquelles dourados tempos, em que os Cysnes Academicos ião decantar os seus amores à sombra dos salgueiros, ou no Penedo da saudade ao desafio com os melros, e rouxinòes.
São quase todos de hum moço mui prezado em Coimbra, o qual falleceu na flor dos annos com grande magoa de seus amigos, e saudade das Musas, que com felicissimo engenho cultivava. Não o nomeio por poupar à sua honrada memoria a macula de paixões, e de fraquezas."
(Excerto do Prologo)

"Nesta serra amena, e fresca,
Onde huma tarde subi,
Recostado n'um Penedo
Suspirando adormeci.

Tua ditosa morada
Buscava ver; mas não vi;
Cançado de procura-la
Suspirando adormeci.

No tronco de altivo freixo
A tua cifra insculpi:
Sentei-me, e co'os olhos nella
Suspirando adormeci.

Lembrado dos doces mimos,
Que hum dia te mereci,
Cheio de ternas saudades
Suspirando adormeci.

Em sonhos entre teus braços
Estreitado me senti:
Accordo; mas não te vendo
Suspirando adormeci.

Co'os olhos fitos na Lua
Com o pensamento em ti,
Desejando-te a meu lado
Suspirando adormeci.

N. B. O auctor dèrão-lhe nesta tarde as ternuras para dormir. Parece, que tinha tomado opio."

(Suspirando adormeci)

Rodrigo Ferreira da Costa (Setúbal, 1776 - Lisboa, 1825). "Poeta, musicólogo, filólogo e matemático. Licenciado em Leis (1800) e em Matemáticas (1804) pela Universidade de Coimbra. Estudioso de outras matérias, pode considerar-se como o primeiro musicólogo português, sendo também profundos os seus conhecimentos filológicos e linguísticos (dominava várias línguas, incluindo o grego e o latim). Posto isto, e talvez por destoar em seu saber e em suas ideias filosóficas, só em 1810 obteve colocação: oficial na secretaria do Comando Geral do Exército, qualidade em que acompanhou o Ajudante-General até ao final da Guerra Peninsular, em 1814. Em 1821 fizeram-no deputado às Cortes Constituintes e, em 1823, foi provido no lugar de Lente da Academia Real de Marinha. Era talvez para si o lugar mais adequado, mas durou pouco, pois morreria dois anos depois. Também foi membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, que em 1820 e 1824 publicou os dois volumes dos seus Princípios de Música.
Estreou-se literariamente em 1814 com a Lira Ingénua..., um livro de versos que publicou anónimo em Toulouse. A segunda edição, muito aumentada e já assinada, foi impressa em Lisboa, com o mesmo título, em 1818. Em 1835, José Inácio de Andrade, seu grande amigo, mandou imprimir a tradução que Ferreira da Costa havia feito do poema A Ventura de Helvecio (Claude Adrien Helvetius, 1715-1771, um dos ideólogos precursores da Revolução Francesa), a que juntou uma nota biobibliográfica do tradutor na qual afirma que também se lhe deve a tradução para português do Templo de Gnido de Montesquieu, publicada em Paris em 1828 e assinada «Uma Portuguesa».
Rodrigo Ferreira da Costa traduziu igualmente a segunda parte da Arte de Pensar de Condillac; a tradução da primeira parte deve-se a José Liberato Freire de Carvalho."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=12106)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Sem capas protectoras.
Muito raro.
Peça de colecção.
100€

26 março, 2026

ROCHA, Souza - MANUAL DO ORADOR.
Grande collecção de Discursos e Brindes adequados a variadissimos actos solemnes. Segunda edição melhorada. Porto, Livraria Portugueza, editora de Joaquim Maria da Costa, 1913. In-8.º (19x12 cm) de  192 p. ; B.
Curioso manual, pioneiro entre nós no género, e sobretudo na forma - simples, despretensioso.
"Compondo e dando a publico este livros, tivemos em vista dotar o nosso mercado litterario com uma obra cuja da ha muito ahi se fazia sentir, como o demonstra o empenho com que muitas pessoas, a cada passo, procuram um livro d'este genero.
É certo que ella vem preencher por completo tão importante lacuna; mas que será um aproveitavel subsidio, um meio prompto e facil para o leitor elaborar uma allocução que se proponha pronunciar em qualquer circumstancia solemne, isso é que não nos parece offerecer duvida alguma.
Os discursos e brindes que n'este livro se contéem - como o leitor verá - servem para um grandissimo numero de occasiões em que a pragmatica obriga a dizer duas palavras adequadas ao acontecimento que se celebra ou á pessoa a quem se  rende publica ou intima homenagem de consideração e estima."
(Excerto do preâmbulo - Ao leitor)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos. Interior correcto.
Invulgar.
20€

25 março, 2026

CABREIRA, Antonio -
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O PLANETA MARTE.
Conferencia realisada em 18 de janeiro de 1901 no Instituto 19 de Setembro. Pelo fundador e secretario geral... Socio Correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa, [etc.]. Lisboa, Imprensa Lucas, 1901. In-4.º (23x16 cm) de 16 p. ; B.
1.ª edição.
Curiosíssimo trabalho sobre o planeta Marte - em 8 partes - vertido em conferência.
Trata-se das reflexões astronómicas do autor, trabalho pioneiro, dos primeiros que sobre o assunto se publicaram entre nós. Além de repetir o que se sabia na época sobre o "planeta vermelho", que era pouco, o autor interroga-se acerca da possibilidade de vida vegetal e animal em Marte, e num plano superior, aos "habitantes inteligentes".
Opúsculo raro e muito interessante.
"Quando Marte se constituiu, estava animado de uma temperatura proxima de 1995 graus centigrados. Dada pois a sua antiguidade, deve admittir-se que disporá já de pouco calor central
Os factos mais importantes da meteorologia do planeta são grandes oscillações de temperatura e enormes tempestades. O Sol da-lhe apenas 4 decimas do calor e da luz com que nos acalenta. As noites tornam-se excessivamente frias, porque a pouca espessura da atmosphera permitte uma forte irradiação dos terrenos. [...]
A constituição chimica da atmosphera de Marte deve ser egual á nossa, porque o seu espectro revella riscas de absorpção identicas ás do espectro d'esta ultima."
(Excerto do Cap. IV)
"Tendo-nos referido, muito summariamente, a Marte, sob os pontos de vista mathematico, meteorologico e geographico, vamos finalmente dizer duas palavras ácerca do mysterioso problema da sua biologia, tão envolto nas brumas do desconhecido e, por vezes, dourado pelos fulvos clarões da phantasia romantica.
Procedendo Marte da mesma origem que a Terra é provavel que a identidade de corpos simples não seja apenas a revellada nas respectivas atmospheras e que, portanto, haja tambem compostos analogos nos dois planetas; logo póde admittir-se que dos seus aggregados resultassem vegetaes, que teem ainda por si o facto favoravel da abundancia das chuvas. [...]
Acerca da vida animal, começaremos por affirmar que, considerada como termo superior de uma longa evolução organica, só surgiu, no mundo que habitamos, n'um certo estado cosmico, para alem de cujos limites não pode manter-se, e que as civilisações estabelecidas como modo de ser d'essa vida, só se definiram e ergueram quando o homem poude entregar-se mais á consciencia da sua funcção moral. [...]
Posto isto, embora as condições meteorologicas permittissem a habitabilidade nos continenentes de Marte, a civilisação seria sempre rudimentar; os seres poderiam attingitr uma fórma superior mas os fructos dos seu trabalho, por mais solidos que se supposessem, não poderia resistir nem ao destroço pelos vendavaes, tão frequentes, e muito menos á submersão pelas aguas do degelo, de onde resultaria, mesmo, uma enorme lentidão no progresso intellectual, que tanto carece do concurso d'esse trabalho. O unico abrigo seriam então as cavernas nas raras montanhas que existem, se é que fossem poupadas pe,os diluvios.
Tambem se torna facil demonstrar que é inconcebivel a vida superior nos ares do planeta.
E concluir-se-ha d'estas considerações que não ha vida em Marte? E quem nos diz que o estado cosmico do planeta jamais permittisse quasquer combinações organicas ou que todas ellas se extinguiram com os ultimos lampejos do fogo central?
Mas as mancha luminosas observadas em 1892, e ha poucos dias ainda um traço brilhante que, intermittentemente, durou uma hora, não signifficarão, por ventura, qualquer intencional tentativa feita por uma especie de seres, avida de relações com a Terra? E os proprios canaes de notavel rigos geometrico com os seus desdobramentos não constituirão outra prova da existencia de habitantes intteligentes em Marte?"
(Excerto do Cap. VI) 
António Cabreira (Tavira, 1868 - Lisboa, 1953). "Matemático, jornalista e publicista português, António Tomás da Guarda Cabreira de Faria e Alvelos Drago da Ponte nasceu a 30 de outubro de 1868, em Tavira, no distrito de Faro.
De uma família aristocrática liberal algarvia e irmão de Tomás Cabreira, formou-se em Matemática pela Escola Politécnica de Lisboa. Empenhado em ações políticas, participou, em 1891, em várias reivindicações estudantis, tornou-se redator político de A Nação e, entre 1892 e 1897, exerceu vários cargos no Partido Legitimista ao qual aderiu.
Sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, foi secretário da Secção do Ensino da Matemática, em 1895, e vice-presidente da Secção de Geografia, em 1896, participando nas atividades de exaltação colonial e nacionalista que surgiram em consequência dos acontecimentos de 1891.
Fundador do Instituto Dezanove de setembro, dedicou-se à gestão e à docência nessa instituição. Em 1895, criou um projeto para um Curso Colonial no Instituto destinado aos colonos e funcionários da administração colonial. Em 1899, foi designado docente das disciplinas de Mecânica Racional e de Filosofia das Matemáticas do Curso de Ciências do ensino secundário daquele Instituto.
Ligado à Academia das Ciências de Lisboa, conseguiu, com o seu desempenho, a criação de novos institutos, como o Instituto Teofiliano (1912), o Instituto de Trabalhos Sociais (1914), o Instituto Arqueológico do Algarve (1915), o Instituto Histórico do Minho (1916) e o Instituto António Cabreira (1919).
Como jornalista, fundou ainda O Clarim, um panfleto doutrinário. Participou e organizou alguns eventos importantes, como o I Congresso Arqueológico Nacional, o I Congresso Colonial de 1900 e o 1.º Congresso Pedagógico Nacional, em 1908.
Enquanto publicista, escreveu sobre vários assuntos, que vão desde questões matemáticas até problemáticas de ensino. Destacam-se algumas obras, como Análise Geométrica de Duas Espirais Parabólicas (1895), Sobre Algumas Aplicações do Teorema de Tinseau (1897), O Ensino Colonial e o Congresso de Lisboa (1902), O Milagre de Ourique e as Cortes de Lamego (1925) e Júlio Verne, Educador e Pedagogo (1925).
António Cabreira faleceu a 21 de novembro de 1953, em Lisboa."
(Fonte: Infopédia) 
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com pequenas falhas de papel marginais.
Raro.
30€

24 março, 2026

MARRECAS, Candido - A MULHER NA GUERRA. [S.l.], [s.n.], [191-]. In-8.º (21,5x13,5 cm) de 11, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Conferência proferida pelo autor, em Lagos (Algarve), em benefício dos feridos da Grande Guerra.
Opúsculo revestido de belíssima capa, não assinada, publicado a expensas de João Calleça, que também assina o preâmbulo.
Raro, por certo com tiragem reduzida. Sem referências bibliográficas. A BNP não menciona.
"Em nenhuma epoca da historia talvez tanto como agora se tivesse oferecido á mulher ocasião de pôr em jogo a multiplice serie de virtudes de que ella tem feito a força da sua fraqueza.
O velho mundo atravessa uma formidavel crise de que é possivel que surja uma nova era para a humanidade. É a Europa inteira em armas; milhões de homens alapados em covas como lôbos, espreitando-se, tendo como fito unico exterminar o seu adversario e ocupar o terreno que elle não poude manter. São cidades que levaram seculos a erguer, demolidas num dia. [...]
São familias inteiras sem pão, fugindo deante do flagelo exterminador, tropegas de fadiga, chorando a casa destruida, as sementeiras devastadas e os filhos que ficaram mortos na lucta, confundidos nas enormaes valas que conteem centenas de cadaveres, dormindo sob os braços duma grande cruz feita de duas traves tôscas.
São os velhos sem arrimo, as creanças que perderam os paes, as mulheres vagueando tresloucadas pelos caminhos desertos, por entre a fumaceira das aldeias destruidas, e os troncos das arvores seculares que as balas esgalharam e que ficam, como atonitos gigantes, estendendo os braços impotentes para a miseria formidavel das coisas humanas.
São s ecolas transformadas em hospitaes, as egrejas em quarteis, os palacios em officinas de metralha.
São os monstros de aço, pavorosas machinas de exterminio que surgem um dia na costa e arremessam sobre as cidades indefesas a  morte vomitada pela guela escancarada dos seus canhões. [...]
No meio desta rajada formidavel de miseria e dôr, só a mulher tem um designio que não é de morte, um pensamento que não é de vingança...
A ela cabe um papel consolador e pacifico, de arrimo para a desgraça, de ternura para o sofrimento. Ela se torna no anjo bom do grande inferno em que se transformou o velho mundo e vê-se surgir, vestida de branco, com a cruz vermelha no braço, como um simbolo augusto de paz.
Depois de horas lentas de batalha, sob o troar da artilharia e a grita feroz dos assaltos, os que voltam feridos das trincheiras encontram-na junto ao leito do hospital com os cuidados solicitos duma enfermeira terna e com um dôce sorriso animador.
Ella vae aos escombros das casas derruidas, escutando os gemidos dos soterrados, arranca-los para a vida. Ela consola as creancinhas perdidas nos exodos, recolheno-as nas creches e é para ellas uma nova mãe.
Ella ouve e executa os derradeiros mandatos dos moribundos; e quando a sua cabeça toucada de b ranco se inclina sobre os peitos d'onde o halito vae fugir, o que morre entrevê no ultimo instante a sua figura terna de consoladora piedade.
Ella faz os fatos para os orphãos da guerra, as ligaduras para os feridos, os agasalhos para os soldados.
E emquanto o homem, armado até aos dentes, mais feroz que os brutos, com a sua força centuplicada pela sciencia e pela astucia, deitando fora de si a philantropia de racional que vinte seculos de civilisação não tornaram ainda mais duravel que uma ligeira mascara postiça; emquanto ella usa, para aniquilar o seu irmão, de requintes de inexcedivel barbaridade, com o prazer animal de embeber as armas em sangue, com a face transtornada e sinistra e os olhos injectados de bilis rancorosa, a mulher vae por entre a metralha recolhendo os feridos, calmando o desespero dos moribundos, sem armas nem abrigos, com o sorriso doce das grandes dedicações generosas..."
(Excerto da Conferência)
Exemplar em brochura, bem conservado. Capas frágeis, com pequenos defeitos. Contracapa apresenta vinco ao centro.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
45€
Reservado

23 março, 2026

PINHEIRO, João Carlos Morão - COLLECÇÃO DE CHARADAS, PARA ENTRETER E EXERCITAR O ENGENHO. PELA MAIOR PARTE ALLUSIVAS Á FABULA, Á HISTORIA, E Á GEOGRAFIA
. LISBOA: NA IMPRESSÃO REGIA. 1833. Com Licença. In-8.º (15,5x11 cm) de 77, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima, escrita em verso, julgamos que a primeira que sobre charadismo se publicou entre nós. 
Trabalho de referência, raro e muito interessante.
Embora não assinada, sabe-se que a autoria desta Collecção pertence a João Carlos Morão Pinheiro.
"Antes de me propor a dar estas Charadas á Luz, fiz muitas, que com facilidade dava, a quem gostava d'este genero de divertimento; não tenho tão feliz memoria, que possa recordar-me de todas, as que dei, e por isso pode acontecer que aqui vão algumas d'ellas. Declaro porem que nesta Collecção se não acahrá huma só Charada alhêa, e que não custasse o trabalho de a fazer. Se as achares boas, regala-te com ellas, e no caso contrario tem paciencia, porque eu tambem a tive, para te procurar este divertimento."
(Preâmbulo - Leitor)
Exemplar brochado, por aparar, com os cadernos por abrir, em bom estado de conservação. Sem capas de protecção.
Raro.
Peça de colecção.
85€

22 março, 2026

MAIA, Berta - AS MINHAS ENTREVISTAS COM ABEL OLIMPIO "O DENTE DE OURO".
Paginas para a historia da morte vil de Carlos da Maia, republicano - combatente de 5 de Outubro -
. Lisboa, [s.n. - Composto e impresso na Ottosgrafica - Lisboa], 1928. In-4.º (23x17,5 cm) de 64 p. ; B.

1.ª edição.
Berta Maia, viúva de José Carlos da Maia - uma das vítimas da madrugada de 19 de Outubro, que para a história ficaria conhecida pela "Noite Sangrenta" - empenhou-se viva e corajosamente na busca da verdade: quem e porquê tinham sido os mandantes dos crimes, tendo para o efeito entrevistado na prisão Abel Olímpio - «o Dente de Ouro» - cabo da marinha, líder da "camionete fantasma" - responsável identificado pelo morticínio.
Ilustrado com fac-símiles dos Autos referentes às declarações de vários dos envolvidos neste processo "Noite Sangrenta".
"No dia 19 de outubro de 1921, eclode uma revolta militar sob o comando do coronel Manuel Maria Coelho, antigo revolucionário do Movimento Republicano de 31 de Janeiro de 1891. O chefe do Governo, António Granjo, apresenta a demissão, mas o Presidente da República, António José de Almeida, não nomeia um novo executivo.
Neste ambiente de impasse, na noite de 19 para 20 de outubro, um grupo de civis e militares, liderado pelo cabo marinheiro Abel Olímpio, conhecido por O Dente de Ouro, conduz os acontecimentos da designada Noite Sangrenta.
Uma camioneta – a "camioneta-fantasma" – percorre Lisboa em busca de diversas figuras do regime republicano, que, forçadas a entrar no veículo, são posteriormente executadas. Na Noite Sangrenta são assassinados, entre outros, o Primeiro-Ministro, António Granjo, e dois protagonistas da Revolução de 5 de Outubro de 1910, Machado Santos e Carlos da Maia."
(Fonte: https://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/noite-sangrenta.aspx)
"Tu, meu filhinho, ficaste órfão aos seis mezes, toda a tragedia se desenrolou á tua vista e tu sorrias, sorrias sempre! Deus Meu! Pensei que um dia a tua alma estimaria lêr estas páginas, escritas por tua Mãe, sem odios, sem gritos de vingança, e então uma lágrima rolaria pela tua face, serena, sem revoltas, amparado á cruz de Cristo, forte, altivo na tua dôr, orgulhoso de teu Pae!"
(Excerto de Porque escrevi este livro)
"Um mez e dias depois da morte do meu marido adorado, - estava eu prostrada no leito numa grande agonia, - trouxeram-me um cartão de visita: era da policia, do director Barbosa Viana, convidando-me a ir o Governo Civil. Levantei-me e fui. O Dr. Barbosa Viana escondeu-me numa sala e, sentada junto duma porta de vidro, foi-me possivel perceber o que se passava na sala contigua. Ouvia, não via, parecendo-me conhecer a voz de quem procurava defender-se. Eu tremia num desespero louco, ouvindo falar no que se passara em minha casa. Uma voz nega a celebre frase que lhe recordam:
- Então tu não disseste em cada de Carlos da Maia - «ele tambem não teve dó de mim, mandou-me para a Africa a ganhar 10 réis por dia e minha mãe morreu de dôr»? És capaz de manter essa negativa diante da viuva? Conhece-la?
- Sim, - respondeu.
A porta abre-se, e eu vejo o marinheiro cujo olhar terrivel e me gravara pra todo o sempre. Atiro para longe o chapeu e digo-lhe:
- Conheces-me? Olha bem para mim. Não me deste tiros, mas vê bem que eu sou um cadaver!
O Dr. Barbosa Viana agarra-me com força, pela frente, no momento em que tento avançar para o assassino, obriga-me a sentar num sofá, sofocada. Então, aquele homem frio, que dir-se-ia de gelo em minha casa, com uma lagrima nos olhos, fixando-me, diz:
- Esta senhora é a unica pessoa que me pode acusar..."
(Excerto de Depois da tragedia - No Governo Civil)
Índice:
Dedicatoria. | Porque escrevi este livro. | Depois da tragedia: No Governo Civil; Na Prisão da Junqueira. | Depois da condenação do Abel Olimpio: Na Penitenciaria de Coimbra - Primeira entrevista; Segunda entrevista; E o Abel falou - Terceira entrevista. | O Snr. Virgilio Pinhão em minha casa. | Os autos [Fac-símiles].
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado. Capas frágeis com defeitos.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
30€

21 março, 2026

FALCÃO, Armando de Sacadura -
A FAMÍLIA PONCES
. Lisboa, [sn. - Composto e impresso na egpl - Editora Gráfica Portuguesa, Lda. - Lisboa], 1984. In-4.º (24,5×17 cm) de 95, [3] p. ; [4] f. il. ; B.
1.ª edição independente.
Importante estudo genealógico sobre a família Ponces. Trabalho publicado em separata de Armas e Troféus : V Série, Tomos III e IV - 1982-1983.
Ilustrado em separado com 4 estampas impressas sobre papel couché:
- Brasão da Família Pons;
- Solar dos Ponces de Carvalho em Vilar Seco;
- Retrato de António de Pádua Ponces de Carvalho.
- Brasão passado a Miguel António Ponces de Carvalho a 21-7-1866.
"No sul de França, departamento de Charente Inferior, existe uma povoação cujo nome - Pons - se tornou apelido usado de um e outro lado dos Pirinéus. No norte de Espanha, Província de Lérida e antigo bispado de Urgel, em plena Catalunha com o seu altaneiro castelo e povoação de Ribelles. Os Barões deste castelo tiveram preponderante papel na Reconquista e, segundo a «Enciclopédia Ilustrada», edição de Madrid, além do senhorio de Ribelles, tiveram o de Alsina, Guardiola e Vilalte, sendo Barão em 1879 D. José Maria de Bofarull y Olzinelas. [...]
Os Ribelles figuram em toda a história da Catalunha medieval, ocupando grandes cargos e com relevantes serviços, mas nos fins do século XVI decaíram economicamente com pleitos e questões numerosas. No entanto, a baronia de Ribelles fora muito poderosa e dona de castelos e lugares como Pons, Artesa de Segre, Agramunt, parte de Baluanguer, etc.
Porém, em meados daquele século XVI, horas de cavalaria inquieta e romanesca aventura, dois mancebos do Castelo de Ribelles escaparam-se ao solarengo lar e correm à ventura, um para o norte e outro para o sul, atrás - sabe-se lá -, da fascinantes miragens. O que rumou ao sul veio dar a Viseu, e aqui, talvez exausto e desiludido, se quedou e, prosaicamente, se fixou, constituindo família e ocultando discretamente, na modéstia da sua nova condição, a grandeza da sua origem e o seu nome ilustre: passou a ser, ele que era um Pons, dos grandes da Catalunha, simplesmente João Catalão. Assim se inicia em Viseu, cortando a gloriosa tradição de heroísmo e grandeza dos senhores do Castelo de Ribelles, à sombra de um nome sem nome, o nome dos Ponsses (aportuguesando o plural) que, na Beira, viriam ainda a dar Ponsses ilustres, restando o apanágio de valor que foi timbre dos Ponsses da Catalunha."
(Excerto de Ponces da Beira)
Armando Freire Cabral de Sacadura Falcão (Lisboa, 1911-2007). "Foi um militar e genealogista português. Primogénito dos dois filhos varões do Dr. Armando de Sacadura Falcão e de sua mulher Ester da Conceição Fragoso da Lança de sua mulher Ester da Conceição Fragoso da Lança. Frequentou o curso dos Liceus em Lisboa, os estudos preparatórios na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e, nos anos de 1931 a 1934, o curso da Arma de Cavalaria na Escola Militar. […]
Atingiu o posto de Tenente-Coronel Piloto Aviador da Força Aérea, e foi Chefe de Missão Militar na Base Aérea de Châteauroux, em França, e na Base Aérea de Nouasseur, em Marrocos, ambas Americanas, etc. Pertenceu, na qualidade de Sócio Efectivo, à Associação dos Arqueólogos Portugueses, da qual foi Director, - Secção de História, ao Instituto Português de Heráldica, mais tarde também Honorário, à Sociedade de Geografia de Lisboa, à Associação Portuguesa de Genealogia e à Academia Portuguesa de Ex-Libris, e, na qualidade de Sócio Correspondente, ao Instituto Genealógico Brasileiro, de São Paulo. Foi Presidente da Comissão de Genealogia e Vogal do Conselho de Nobreza, Sócio Fundador da Associação de Nobreza Histórica de Portugal e Director da Sociedade Histórica da Independência de Portugal." Colaborou com revistas e outras publicações, e publicou diversas obras, versando sobretudo a genealogia.
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
35€
 

20 março, 2026

VICTÓRIA, Margarida -
AMORES DA CADELA "PURA".
Volume I. Confissões. [Volume II. Memórias da Marquesa de Jácome Corrêa]. Lisboa, Bertrand Editora : Chiado, 2004. 2 vols in-4.º (23x15 cm) de 291, [1] p. ; [8] p. il. (I) e 188, [20] p. il. (II) ; B.
1.ª edição.
Memórias da Marquesa de Jácome Corrêa, mulher irreverente, cosmopolita, à frente do seu tempo, viveu em São Miguel, Lisboa, Paris e no Cairo. Obra completa, em dois tomos. O primeiro volume teve edição em 1976, sendo o segundo inédito, editado apenas em 2004, postumamente.
Obra ilustrada com inúmeras fotografias distribuídas por 28 páginas extra-texto: 8 no 1.º volume; 20 no 2.º volume.
"Margarida Victória nasceu em Ponta Delgada em 1919, no seio de uma aristocrática e abastada família.
Estas confissões são um relato apaixonado e pungente de uma vida de encontros e desencontros.
Corajosamente verdadeiro, Amores de uma Cadela "Pura", é sem dúvida um grande documento humano."
(Retirado da badana anterior)
"Margarida Victória Borges de Sousa Jácome Correia nasceu em Ponta Delgada, em 31 de Março de 1919, no seio de uma aristocracia e abastada família açoriana. Com uma infância dominada pelos fortes traços do carácter do pai, o Marquês de Jácome Correia, e pela formação ultraconservadora da mãe, Margarida Victória cresceu quase entregue a si própria e viria a prender-se muito cedo a um casamento irremediavelmente condenado. A partir daí a vida de Margarida Victória foi um constante laboratório das mais ímpares experiências humanas, umas envoltas pelo véu de um romantismo exótico, fantástico e cosmopolita, outras eivadas de um entendimento terno e simples, onde o denominador comum residia sempre numa forte cumplicidade e numa natural adesão a espíritos cultos e sensíveis. Margarida Jácome Correia, Margarida Victória, Marquesa de Jacóme Correia ou, simplesmente, para muitos da sua Fajã natal, a marquesinha, soube resistir à força das convenções, dos espartilhos rígidos e das razões preconcebidas."
(Fonte: Wook)
"O livro de memórias de Margarida Victória tem o título forte e original de Amores de uma Cadela "Pura". A sua leitura suscita várias interrogações: é a confissão de uma vida? o auto-retrato de uma mulher infeliz? a autópsia de uma família? a denúncia de uma época e de um lugar, a sociedade fechada e hipócrita da ilha de São Miguel? É, de acto, isto tudo. E o segundo volume com o mesmo título, até agora inédito, vem completar o itinerário recordado desta mulher invulgar. Do que ela foi, do que quis ser ou do que a obrigaram a ser. Haverá diferenças ou aproximações entre a Cadela Pura (e os seus amores) e a Macaca de Fogo, última musa de Vitorino Nemésio, celebrada nos seus derradeiros poemas, envolvidos com as chamas de um amor tardio mas vulcânico?"
(Excerto de Retrato (incompleto) de Margarida Jácome)
Margarida Jácome Correia (Ponta Delgada, 1919 - Lisboa, 1996). "Detentora de grande beleza, de forte personalidade, e de considerável fortuna familiar, Margarida Vitória Borges de Sousa Jácome Correia, Marquesa de Jácome Correia ou, para o povo da Ilha de S. Miguel, A Marquesinha, era filha de Aires Jácome Correia, marquês de Jácome Correia, e de Dona Joana Chaves Cymbron Borges de Sousa. Cultivou relações com personalidades importantes do meio cultural português, designadamente os escritores Armando Côrtes-Rodrigues, com quem foi casada, Domingos Monteiro, Hernâni Cidade, Natália Correia e Vitorino Nemésio.
A sua vida afetiva, recheada de acidentes por vezes dramáticos, por vezes pitorescos, atingiu contornos escandalosos para os padrões portugueses e sobretudo insulares da época. Foi através de Côrtes-Rodrigues que Margarida Vitória conheceu Vitorino Nemésio, que por ela se apaixonou, vivendo os dois uma relação amorosa de enorme intensidade que durou até à morte de Nemésio e que este registou nos poemas que viria a reunir no livro Caderno de Caligraphia. Encontram-se ecos desta relação nas memórias de Margarida Vitória, o polémico Amores de Cadela «Pura»: confissões, cujo primeiro volume (1976) foi escrito com o apoio de Vitorino Nemésio – e sobretudo no segundo volume, concluído pouco antes da morte da autora e que só viria a ser publicado em 2004."
(Fonte: https://www.agendalx.pt/events/event/margarida-jacome-correia/)
Exemplares em brochura, bem conservados.
Esgotado.
35€

19 março, 2026

RAPOSO, Hipólito -
JARDIM SUSPENSO. Guimarães, [s.n. - Grandes Oficinas Gráficas «Minerva» de Gaspar Pinto de Sousa, Sucessores, Ltd.ª - Vila Nova de Famalicão], MCML [1950]. In-4.º (24x16 cm) de 21, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Apanhado de cantigas de índole popular composta por 215 pequenas poesias colecionadas pelo autor, reminiscências do seu tempo de rapaz no lar paterno.
Trabalho pouco conhecido, de índole intimista, o seu último publicado em vida, mas muitíssimo interessante. Saiu em separata dos n.os 3-4 e 5-6 do vol. 1.º (2.ª série) da revista Gil Vicente.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor a José de Campos e Sousa.
"Durante dois serões das férias do Natal de há cinquenta anos, na vila beiroa em que nascemos, meu Pai e minha Mãe, sentados comigo à roda do lume, iam-me ditando, alternadamente, a sorrir na desgarrada, as simples cantigas adiante transcritas.
Por então, debaixo da laranjeira do nosso quintal, hirsutamente rosnava um cão, o vigilante Fantoche, a dar alarme contra suspeitos ruídos de metediços ou ratoneiros que se afoitassem na solidão, ao favor do negrume da noite.
À porta da nossa casa, era certo passar o retumbo da arruada, com o famoso Tiago no meio, ora a tossir turvamente da bronquite sarrosa do vinho, ora a cantar fundo e claro à viola de cordas de tripa, pois na terra não havia guitarras, nem o povo fora ainda infeccionado pela sórdida lepra do Fado da Mouraria. [...]
Escritos a lápis no papel dos cadernos da escola, com as folhas dobradas em quatro, a toda a altura, desta maneira, em silêncio e paz, estes versos populares foram atravessando a maior parte da minha vida, em diversas fases muito salteada de ondas, ressacas e escarcéus. [...]
Com muito fiel e pronta memória, por meus Pais foram recitadas quase todas estas cantigas; mas algumas, aqui e além, eram pausadamente proferidas, como se lhes estivessem brotando das almas em cauteloso improviso. [...]
Na variada colecção que vai ler-se, esses estudiosos da alma popular, poderão gostosamente vê-la reflectida em cândidos paralelismos, claros reflexos e vivos contrastes, pela indefinida série das suas expressões espontâneas, desde o amor-saudade, do sonho, da desgraça e da ventura, até ao desengano, à mágoa, ao desprezo e a outros sentimentos humanos. Popularismo castiço, poesia sem jaça exótica, nem artificiosa. Por estas composições senti despertar a minha admiração pelo Poeta-Povo, e sempre me ficaria o gosto da primeira lição da sua Literatura, em boa hora recebida das bocas daqueles que me procriaram, e por entre brandos cuidados e carícias me ensinaram a falar português."
(Excerto do Preâmbulo)
Hipólito Raposo (1885-1953). "Advogado, escritor, historiador e político, natural de S. Vicente da Beira, foi um dos mais destacados dirigentes do Integralismo Lusitano.
Começou a sua carreira profissional como professor de Geografia no Liceu Passos Manuel (1911-12) e como professor de Filosofia Geral das Artes no Conservatório de Lisboa (1912-). Em 1914, participou na preparação e lançamento da revista Nação Portuguesa e, no ano seguinte, proferiu a conferência A Língua e a Arte no âmbito do ciclo de conferências sobre A Questão Ibérica na Liga Naval de Lisboa, em que apresenta uma profunda análise das diferenças e especificidades culturais, linguísticas, literárias e artísticas de Portugal e Espanha, concluindo que uma união ibérica seria realizar "o absurdo de fundir uma gota de sangue com uma lágrima."
A Hipólito Raposo, mais tarde secretário da organização política do Integralismo Lusitano (1916-1933), se devem as primeiras exposições dos conceitos fundamentais do seu ideário político, em artigos como "A voz do profeta" (acerca do municipalismo de Alexandre Herculano), Natureza da Representação e Conceito Nacional de Soberania. 
Em 1919, era director do jornal A Monarquia quando desempenhou destacado papel no pronunciamento monárquico de Monsanto, vindo a ser demitido de todos os cargos públicos, julgado no Tribunal Militar de Santa Clara por "crime de imprensa" e a cumprir pena de prisão em S. Julião da Barra (1920). Afonso Lopes Vieira vestiu então a toga de advogado, pela primeira e única vez, em defesa do seu amigo. Exerceu advocacia em Angola (1922-23).
Reintegrado como professor no Conservatório (1926), defendeu a recusa de colaboração dos monárquicos à União Nacional (partido único) e ao regime do "Estado Novo", acabando por ser de novo demitido de todos os cargos públicos, e deportado para os Açores, na sequência da virulenta denuncia da "Salazarquia" que fez no livro Amar e Servir (1940). Subscreveu a reactualização doutrinária integralista Portugal restaurado pela Monarquia (1950)."
(Fonte: https://www.estudosportugueses.com/hipolito_raposo.html)
Exemplar em brochura, presos por atilho, em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico e etnográfico.
Indisponível

18 março, 2026

UM CAPÍTULO DA ETNOGRAFIA BARCELENSE : As Olarias
. Barcelos, Companhia Editora do Minho, [1951?]. In-8.º (22,5x14 cm) de 37, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Importante contributo para a história da olaria produzida na região de Barcelos, famosa pela sua originalidade e cunho popular.
Embora não assinada, sabe-se que a autoria deste estudo - vertido em conferência - pertence a Joaquim Sellés Pais de Vila Boas.
Obra invulgar, com interesse histórico e etnográfico, por certo com tiragem reduzida.
Impressa em papel de superior qualidade, ilustrada no texto com bonitos desenhos, símbolos e marcas de fabricantes.
"Foi generosa a terra barcelense dando ao oleiro os meios de que carecia; o barro e a madeira.
Do barro se fazem as peças e as tintas mais antigas; da madeira se fabrica a roda e as ferramentas.
Argila vermelha dissolvida em água dá o vermelho típico do vidrado; barro branco dá o amarelo tão usado nas decorações.
A história da ferramenta quer seja de fazer ou de pintar acompanha a história onatómica da peça a fabricar, sem nunca chegar a atingir o seu grau de evolução ou beleza estética.
Filha do espírito criativo do oleiro, este fabrica-a a canivete ou navalha, na forma e geito do fim em vista... só para ele.
Produto regional?
Sem dúvida alguma, no seu tipológico desenvolvimento, sem paralelo nos outros centros que estudei - desde Canha a Vagos, de Malhada Sôrda a Vilar de Nantes em Chaves."
(Excerto de 1 - a geologia da região)
Índice:
a - apresentação. b - preparação do tema. c - olarias: 1 - a geologia da região; 2 - origem da história; o aparecimento no concelho; 3 - os materiais de fabrico, produtos do meio; 4 - a evolução das formas; 5 - primitivismo nos temas: o n.º 7, louça branca, estatuária, ferramentas, decoração; 6 - o meio e a sua influência na cor; 7 - decadência.
Joaquim Sellés Paes de Villas-Bôas (1913-1990). "Etnógrafo, arqueólogo, crítico de arte, cavaleiro e comentador hípico e oficial de cavalaria do Exército Português, nasceu em Madrid em 11 de Fevereiro de 1913. Era filho de Joaquim Gonçalves Paes de Villas-Boas, advogado e proprietário, presidente da Direção do Grémio da Lavoura de Barcelos, comandante do Batalhão n.º 12 da Legião Portuguesa, com sede em Barcelos, Provedor da Real Irmandade do Senhor Bom Jesus da Cruz, conselheiro Municipal e representante da Causa Monárquica e de D. Elisa Sellés y Rivas, filha de D. Eugénio de Sellés y Angel, 2º Marquês de Gerona e Visconde de Castro y Orosco, governador das províncias de Sevilha, León e Granada, autor dramático, membro da Real Academia de Espanha e presidente da Sociedade de Autores Espanhóis. Faleceu em Lisboa em 14 de Maio de 1990, com 77 anos."
(Fonte: https://archeevo.amap.pt/descriptions/40344) 
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
20€

17 março, 2026

VASCONCELLOS, Henrique de -
A MENTIRA VITAL. Coimbra, Edição da Imprensa da Universidade, 1896 [capa, 1897]. In-8.º (22x14 cm) de XVI, 188, [8] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de contos, alguns históricos, outros fantásticos, como o encontro surreal entre um abade e o Tentador (Satan), outros ainda impregnados de erotismo, o que, na época, configuraria certo arrojo literário. Inclui ainda um capítulo dedicado aos touros de morte, e outro devotado a três cidades portuguesas: Coimbra; Aveiro; Viana do Castelo. Sete dos contos estão referenciados no Dicionário de Literatura Gay, 7.ª edição, Index, 2022. Relativamente a este assunto, no mesmo Dicionário, é citado António Fernando Cascais: "A Mentira Vital, [está] todo ele recheado de contos (A Elipse; Cerebrais; No Terraço; Eros Trágico; Alma a Penar; O Tentador e A Mentira Vital, que dá título ao volume) sumamente sugestivos do ponto de vista queer." 
Obra ecléctica, invulgar e surpreendente, impressa em papel encorpado.
O autor, assumidamente balzaquiano, no extenso prólogo defende-se das críticas e justifica a obra:
"Abominando os chamados realistas e em geral todas as coteries, sou um discipulo de Balzac. Outra coisa não deve ser o romance ou o conto, senão a analyse d'uma Alma ou d'um estado d'Alma, transitorio ou permanente.
Nos ligeiros contos que apresento ao leitor, em que ás vezes o pensamento parece ficar suspenso, não quis fazer outra coisa.
«Dizer o que vi, o que pensei, o que senti, na melhor prosa de que pude dispôr», foi esta a minha ambição, durante todo o tempo que gastei a escrever as paginas que vão seguir-se."
(Excerto do Prólogo - Isagoge)
"O abbade dormia na rude gruta, sobre um punhado de feno, quando lhe appareceu o Tentador, bello, supremamente bello; no seu olhar nadavam á mistura um grande orgulho e uma grande dôr.
O abbade dormia. Abertas as eclusas, o sonho voava para o peccado. Na noite rasgava-se uma aurora, onde elle via, o pobre santo, montões d'oiro, montões de soes a chamal-o. Caiam pedrarias, como chuvas, caíam oiros, toda a riqueza; levantavam-se palacios magnificos do solo, a recebel-o antre theorias deslumbrantes de raparigas batendo crotalos, antre theorias de escravos illuminando com archotes, firmes como estatuas. [...]
Ouvindo passos, o abbade abriu os olhos,
- Sonho!... sonho!... gemeu com infinita amargura, misturada com o prazer de não ter peccado.
- Dormes? O somno é um peccado, porque a Alma não está com Deus. Vagueia pelo mundo, ora subindo aos altos pincaros para cuspir o céu, ora descendo aos poços envenenados onde a Luxuria estreita os corpos, abraça as Almas. O teu espirito não vae pela escada que o pastor viu no céu, em peregrinação para Deus: erra pelos prados, onde cantaste outr'ora a belleza das cearas e os corpos alvos das ceifeiras...
O abbade crendo ser um anjo, pela belleza surprehendente, rojou-se, beijou-lhe os pés brancos e afilados.
- Perdoae-me, Senhor, perdoae-me! Sonhar não é peccado, porque a Alma está desarmada; se o Demonio vem travar batalha, qual o soldado que despertará? A Alma é então como um campo onde houve carnificina...
- Vês? retorquiu Satan. Emquanto dormias deixaste entrar em tua casa o ladrão..."
(Excerto de O Tentador)
Henrique de Vasconcelos (São Filipe, Cabo Verde, 1876 - Lisboa, 1924). "Diplomata, político, jornalista e escritor português, colaborador e amigo de Afonso Costa, deputado em várias legislaturas da Primeira República Portuguesa. Poeta decadentista, autor da Missa negra, foi Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta biblioteca.
Cabo-verdiano de nascimento, radicou-se cedo em Lisboa, desfrutando de prestígio literário em Portugal. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em legações e missões diplomáticas em vários países.
Com uma obra de temática europeia, foi autor, entre outras, das seguintes obras: Flores cinzentas, poesia (Coimbra, 1893); Os esotéricos, poesia (Lisboa, 1894); A Harpa de Vanádio, poesia (Coimbra, 1894); Amor Perfeito, poesia (Lisboa, 1895); A mentira vital, contos (Coimbra, 1897); Contos novos, contos (Lisboa, 1903); Flirts, contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e Sangue das rosas, poesia (Lisboa, 1912). Também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas O Branco e Negro (1899), Ave Azul (1899-1900), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920)."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado de conservação
Raro.
40€
Reservado

16 março, 2026

CORREIA, Dr. Vergílio & GIRÃO, Dr. A. De Amorim & SOARES, Dr. Torquato de Souza – EXCURSÕES NO CENTRO DE PORTUGAL. [Paisagem - Arte - História]. Por... Professores da Faculdade de Letras. Instituto de Alta Cultura - Curso de Férias. Universidade de Coimbra : Faculdade de Letras. Coímbra, Publicação subsidiada pelo Instituto para a Alta Cultura, 1939. In-8.º (19,5x12 cm) de 160, [2] p. ; [1] mapa desdob. ; B.
1.ª edição.
Bonito guia paisagístico e cultural da zona centro do país.
Invulgar e muito interessante.
Livro totalmente impresso sobre papel couché, ilustrado com 101 fotogravuras no texto e um mapa desdobrável da Região Centro do país.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Invulgar.
Indisponível

15 março, 2026

PORTO DA CRUZ, Visconde do -
A VIAGEM AVENTUROSA DE SUVENINE BOLIFACE A ZELSTRUFS.
[Pelo]... Socio Efectivo da Associação dos Arqueologos Portuguezes, Socio Correspondente do Instituto Portuguez de Historia, Arqueologia e Etnologia, etc. [S.l.], [s.n. - Comp. e imp. na Imprensa Lucas & C.ª - Lisboa], Janeiro - 1934. In-8.º (18x11,5 cm) de 133, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima, enquadrável no domínio da narrativa fantástica e de ficção científica. A viagem de Suvenine Boniface na sua nave - o Passaro Novo - pelo espaço sideral, mais não é que um ensaio satírico de crítica de costumes políticos e sociais do país, e da Madeira em particular, substituindo o nome de Portugal, Lisboa e Funchal por nomes de ficcionados de um planeta distante, com hábitos idênticos aos nossos.
Trata-se antes de tudo, de um exercício irónico sobre o carácter das elites lisboetas e do povo madeirense, do mais "ilustrado" ao mais "simplório", contando histórias e episódios, verídicos, por certo, sob a capa de nomes de família e empresas "alternativos", que farão as delícias de quem estiver na disposição de tentar desvendar os destinatários das farpas, numa e noutra região. 
No início da história, ainda nos EUA, ponto de partida da viagem, o autor alude com fina ironia ao modo de vida americano. No final refere-se a Salazar como o grande «Apostolo» de Benciana, "sacerdote muito subtil, muito serafico que sabia mais de diplomacia que os mais afamados diplomatas... [que] com untuosidade tinha sabido dominar na vida publica dos velhos tempos idos e com o novo estado de cousas lá ia fazendo chegar a braza á sua sardinha...".
Romance "fora da caixa" estas 'memórias' de Suvenine Boliface, raro e muito interessante, certamente com tiragem reduzida.
"Estava a dar a hora da partida quando o Jornalista entrou precipitadamente naquele compartimento de 1.ª classe...
A noticia de que Suvenine Boliface chegára a Lisboa e seguia, em rigoroso incognito, no rápido do Norte caíra inesperadamente na redacção.
Tornava-se indispensavel descobrir aquele sabio audacioso que, em parte, realisára um sonho de Julio Verne atravessando o espaço e chegando a um planeta desconhecido...
O feito apaixonára os estudiosos, os homens de ciências e até os prosaicos burguezes! Na verdade é merecedor de assombro e da curiosidade o homem que abandona a Terra, atravessa o espaço como um meteóro, chega a um outro planeta e, depois de tudo isto, ainda encontra coragem e energia para regressar heroicamente ao nosso triste «vale de lágrimas».
Quando Suvenine Boliface, depois da sua viagem maravilhosa, aterrou proximo de New-York sentiu-se tão infeliz com a imprevista celebridade que deliberou esquivar-se ás mais simples revelações. Os Reporters, com a audaciosa impertinencia profissional, afligiam-no de tal forma que resolveu fugir... Andou pelos vastos Estados Americanos mas, quando menos esperava, surgiu-lhe um Reporter implacavel, com o «Kodak», o lapis e o bloco, na ancia de colher elementos com que saciar a bisbilhotice internacional da Imprensa. [...]
O planeta a que me tinha levado o audacioso empreendimento era designado, pelos homens que o habitavam, por Zelstrufs.
Não tardou a que me certificasse de que ali, tal como na Terra, os homens eram identicos e nutriam os mesmos instintos, a mesma alma, as mesmas ambições... Aconteceria assim em todos os outros planetas que povoam o espaço?
Havia em Zelstrufs varios paizes e homens de raças diversas.
O Passaro Novo levou-me por felicidade para um dos paizes que mais contingentes déra ao progresso e á civilisação.
Uma especie de monarca governava o estado mas a sua acção nunca podia actuar beneficamente porque os organismos publicos e ainda mais os politicos dominados pela cegueira das democracias prejudicavam todos os planos e a boa vontade do Principe que só queria bem servir a Patria e assegurar ao seu Povo paz e prosperidade."
(Excerto do Romance) 
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934). Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais, culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar em brochura, revestido de cartolina negra (substituindo as capas originais), em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico e regional.
50€
Indisponível

14 março, 2026

MOSER, Isabel Pestana -
ECUMENISMO E IRENISMO NO PENSAMENTO DE DAMIÃO DE GÓIS
. Lisboa, Ediual, 2006. In-4.º (23,5x17 cm) de 402, [2] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Obra de fôlego. Importante subsídio biográfico sobre Damião de Góis - o homem, o humanista, o seu pensamento.
Ilustrada em página inteira com retratos do biografado, a cores e p.b. (3), e outros filósofos coevos: Erasmo; Lutero; Melanchthon.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa da autora.
"Damião de Goes, sem dúvida o português mais erasmista e em especial irenista, pelo seus diálogos com os humanistas católicos e protestantes já em plena Reforma mas abertos à paz, pela sua defesa dos Lapões serem ensinados e não forçados a converterem-se, e pela valorização do cristianismo etíope dos Prestes João e de uma religião de coração e não de ritos, preceitos, intermediários e superstições."
(Fonte: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/01/humanismo-e-irenismo-no-renascimento-e.html?m=1)
"O trabalho que hoje apresento vem na sequência das investigações que, desde há muito, tenho efectuado sobre a vida e a obra de Damião de Góis, o mais europeu dos humanistas portugueses, particularmente no que respeita à prática e conceito do Irenismo e Ecumenismo de que deu exemplo constante ao longo da sua vida, e da larga repercussão que a figura ainda representa nos dias de hoje..."
(Excerto da Introdução)
Índice:
Apresentação | Agradecimentos | Introdução | I - A Vida de Damião de Góis e a Crítica Moderna. II - Humanismo, Movimento de Diáspora. III - Damião de Góis e a História: Atitudes e Critérios. IV - Damião de Góis e o Irenismo. V - Damião de Góis e o Ecumenismo. O Processo na Inquisição. Estudo Crítico. | Conclusão | Bibliografia | Índice Remissivo.
Damião de Góis (Alenquer, 1502-1574). "Historiador e humanista, epistológrafo, viajante, diplomata e alto funcionário régio, foi figura ímpar e uma das personalidades mais relevantes do Renascimento em Portugal. De cultura enciclopédica e dotado de um dos espíritos mais abertos e críticos da sua época, pode ser considerado como um verdadeiro traço de união entre Portugal e a Europa culta do século XVI. Foi hóspede de Erasmo de Roterdão e privou com humanistas como Glareanus, Veit Amerbach, Albrecht Dürer, Sebastian Münster, os cardeais Pietro Bembo e Jacopo Sadoleto e o historiador e geógrafo Giovàn Battista Ramùsio. Conheceu Inácio de Loyola. Frequentou a Universidade de Pádua, entre 1534 e 1539, e completou a sua formação no Colégio Trilingue da Universidade de Lovaina.
Em 1545 a convite do rei D. João III, mudou-se para Portugal com a família, ao tempo a mulher e três filhos, para ser mestre do príncipe D. João. Contudo, apesar de ter regressado aureolado de prestígio pelas amizades que contraíra na Europa e da evidente protecção régia, ainda assim foram-lhe movidos dois processos no Tribunal do Santo Ofício, o primeiro dos quais, logo em 1545, ao ser acusado de heterodoxia e denunciado à Inquisição pelo seu antigo companheiro de estudos, o padre Simão Rodrigues, ao tempo o preceptor do príncipe herdeiro D. João e pouco depois nomeado por Inácio de Loyola como primeiro provincial da Província Portuguesa."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Indisponível