BRANCO, Alfredo de Freitas - O DESTINO. Romance historico. Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1915. In-8.º (18,5x12 cm) de 63, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante romance histórico, com referências à Madeira, terra natal do autor.
Obra invulgar e muito curiosa, não mencionada na BNP.
"Nos confins da Europa, ao sul, isolada no meio do Atlantico a Madeira apparece aos olhos do viajante fatigado do horizonte immenso e monotono entre a agua e o espaço, como uma ilha encantada, surgindo das ondas com as suas negras montanhas cobertas de frondosos arvoredos, de exuberante vegetação, e indo os seus altos picos esconderem-se nas nuvens. [...]
Despido de monumentos, pobre de palacios e grandes edificios, com a sua vida muito calma, muito insipida, na sua simplicidade e no seu socego, o Funchal é encantador refugio para os espiritos doentes, atordoados e cançados do bulicio dos grandes centros.
Raros divertimentos ha além dos cinematographos. [...]
E na tão decantada «Perola do Oceano», esquecido, abandonado pelos governos, luctando para viver do seu proprio esforço, vive um Povo bom e laborioso... [...]
Mas o espirito de independencia nunca alvoraçou a alma dos Madeirenses que parecem felizes nas suas montanhas, no seu isolamento, no seu labutar esteril, com a sua vida monotona e calma, servindo de instrumento para o estrangeiro agglomerar riquezas, para os governos extorquirem impostos, contemplando os «touristes» que chegam de manhã trazendo a alegria e o bulicio e que ao entardecer, depois das excursões voltam para bordo, seguem pelo mar além emquanto a cidade recae no seu repouso triste, no seu silencio...
N'uma dessas apraziveis vivendas que se estendem isoladas, rodeadas de flôres e de arvoredo, para os lados dos Ilhéus, habita uma familia estrangeira. O Pae, um rapaz no vigor da vida, a Mãe joven ainda mas doente, pallida, uma tosse carvernosa destruindo-lhe, abalando-lhe o peito, e um filhinho de poucos annos, creança anemica e franzina confiada aos cuidados duma «institutrice». [...]
Aquella manhã de Maio despontou triste e chuvosa. Terminado o almoço em que escasseou a conversação entre os dois esposos, como sempre succede quando dois entes que se uniram sem paixão se encontram ligados para toda a vida, sem se sentirem familiares nem felizes na solidão. Rodrigo de Sequeira, sentado á secretária, olhava distrahido, através da vidraça, as enormes vagas do mar que vinham despedaçar-se com estrondo, levantando nuvens de espuma, sobre o caes e sobre os rochedos. Após uns instantes de contemplação, sacudindo a cabeça como para afastar pensamentos sombrios, escreveu por largo espaço, interropendo-se, monologando, e por fim leu:
«Meu varo Eduardo
Ha dois mezes que me encontro n'este isolamento sob a bandeira da «joven Republica Portugueza» tão indifferentemente recebida e em tão pouco tempo já odiada!"
(Excerto do Romance)
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi
também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e
doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade
incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e
identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de
uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A
viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934).
Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção
literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais,
culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade
madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da
atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa manchada à cabeça por acção da luz.
Muito invulgar.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€
Reservado



























