VACCHI, Dante - PENTEADOS DE ANGOLA. [S.l.], Dante Vacchi, 1965. In-4.º (23x20,5 cm) de [76] p. ; mto il. ; E.
1.ª edição.
Importante subsídio etnográfico sobre os ornamentos e arranjos capilares femininos em Angola.
Trata-se de um photobook etnográfico e antropológico da autoria de Cesare Dante Vacchi, jornalista e aventureiro, famoso pela paternidade (atribuída) da formação e preparação dos Comandos, tropa de elite portuguesa, pouco tempo após o início da Guerra Colonial. A obra regista os elaborados penteados tradicionais de várias tribos angolanas.
Obra trilingue (português/francês/inglês), executada com grande sentido estético e apuro gráfico, ilustrada a cores com fotografias de dezenas de modelos femininos pertencentes a diversas etnias da ex-colónia portuguesa, captadas em diversos estágios da sua vida.
"Nem uma voz humana, guincho, gritos, sussurros, rugidos cavos, melopeias e tam-tans. A alma da noite africana envolve-nos como longos braços frenéticos e um medo primordial surge nos nossos corações. O homem forte é ali redimencionado pela barreira impenetrável do arvoredo que o cerca e a escuridão da noite que repentinamente cai.
Treme, o homem, e teme.
Rasga a escuridão no meio de um Kimbo, uma fogueira, ou o rebrilhar aceso dos olhos de um felino.
No Kimbo a música e a dança, que aqui são verdadeiramente qualquer coisa de outro mundo, seguem leis imutáveis, atávicas; o mais pequeno gesto tem um significado bem definido, cuja origem se perde na noite dos tempos.
Um simbolismo verdadeiramente impenetrável acompanha todas as manifestações de vida negra. Exteriorizadas através de pulseiras, argolas, tatuagens, penteados, pela música e pela dança, pelas fogueiras, por melopeias e feitiços, estas manifestações compõem um quadro completo da vida quotidiana do povoado. [...]
E é a cerimónia da puberdade que dá início aos fantasmagóricos penteados, cerimónia que se reveste, quase sempre, de um carácter ritual pròpriamente dito.
Neste período, mal começam as festas, liberta-se a imaginação em complicados desenhos, arranjo de contas coloridas enfiadas nos cabelos, mantidos compactos e tintos com uma mistura de barro, resina e gordura vegetal ou animal. Então, os penteados mostram se a rapariga celebrou o rito da puberdade antes, durante ou depois da cerimónia ritual. Noutras mulheres, é indicativo apenas da tribo a que pertencem.
Hoje em dia é difícil distinguir, pelo penteado, a tribo à qual a negra pertence, pois as diferenças são tão pequenas que deixam perplexos mesmo os mais conhecedores. Outras vezes indica se é casada ou tem filhos, enquanto que o luto é representado por um penteado simples ao qual faltam os ornamentos vistosos do tempo das festas.
Os cabelos das mulheres são mantidos brilhantes e duros pelo contínuo uso da manteiga e óleos vegetais finíssimos, misturados com substâncias corantes: pó vermelho tirado da casca de certa árvore ou de uma pedra do rochoso planalto, ou de folhas pulverizadas que conservam a cor natural dos cabelos."
(Excerto do Preâmbulo)
Cesare Dante Vacchi (1925-?). Foi um jornalista e aventureiro italiano, considerado o "pai fantasma" e impulsionador da criação dos Comandos, a notável tropa de elite do Exército Português. Nascido em Itália, pouco se sabe da sua infância. Apresentou-se como voluntário no Exército italiano aos 15 anos de idade. No entanto, a sua verdadeira experiência como combatente e líder militar desenvolveu-se mais tarde, na década de 1940, quando comandou milícias em cenário de guerrilha na Itália ocupada. Foi toda essa bagagem adquirida em solo europeu, que o capacitou para preparar os soldados portugueses para esse tipo de confronto no palco africano mais de vinte anos depois.
Na década de 60, viajou como repórter fotográfico para Angola com a foto-jornalista Anne Gauzes, documentando a realidade da Guerra Colonial. Devido ao seu passado militar e tácticas de contra-guerrilha, foi convidado em 1962 a instruir as primeiras unidades de combate do CI 21 em Zemba, Angola, que viriam a dar origem aos Comandos. A sua personalidade e o seu desaparecimento repentino após o treino inicial conferiram-lhe um estatuto lendário e misterioso na história militar portuguesa. Deixou publicada obra multifacetada como autor e fotógrafo, destacando-se livros como Angola 1961-1963 (1964), Penteados de Angola (1965) e Porto (1965), sobre o Douro vinhateiro. Publicou ainda uma reportagem interessantíssima sobre a pesca longínqua portuguesa nos bancos da Terra Nova, redigida a partir do Gil Eannes, na revista Eva do Natal. (1967) (IA)
Encadernação editorial em tela branca com letras a seco e a negro na pasta anterior e na lombada. Vem revestida com sobrecapa policromada.
Exemplar em bom estado de conservação. Dedicatória de oferta (não do autor) no interior. Sobrecapa apresenta desgaste marginal, manchas e restauro.
Raro.
45€




























