COSTA, Rodrigo Ferreira da - A LYRA INGENUA, OU COLLECÇÃO De Canções e Glozas em quadras. E che sentirai tu s'Amor non senti, Sola cagion di ciò che sente il mondo. Il Pastor Fido. Em Toulouse, Na Imprensa de Benichet Ainé. 1814. In-8.º (12,5x8,5 cm) de 50, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Raríssima edição original da primeira obra do setubalense Rodrigo Ferreira da Costa, publicada anónima. A 2.ª edição, também rara, foi igualmente impressa sem o nome do autor, mas em Lisboa, na Impressão Régia (1818). Só mais tarde Inocêncio Francisco da Silva desvendou e confirmou oficialmente a autoria da obra.
Curiosamente, a primeira edição tornou-se extremamente rara na história da bibliofilia portuguesa: após o lançamento, um estudante de Coimbra e futuro pároco, chamado Clemente José de Mello, publicou uma crítica literária feroz e satírica contra o livro. Magoado com as críticas agressivas ao seu "trabalho de juventude", Rodrigo Ferreira da Costa tentou comprar e recolher todos os exemplares que pôde no mercado para os destruir, tornando a edição original um verdadeiro "tesouro" para os colecionadores. Refeito das amarguras causadas por esta impressão, mais maduro e pragmático, permitiu que Impressão Régia reimprimisse a obra. Mas desta feita, para prevenir eventuais ataques, o livro incluiu em subtítulo "Trabalhos Poeticos de um Moço Académico", justificando publicamente que aqueles versos pertenciam ao passado e ao contexto irreverente da vida de estudante. (IA)
"Os versinhos, que publico, não são meus; porem deve-os o pùblico à minha curiosidade. Nascêrão nas margens do Mondego naquelles dourados tempos, em que os Cysnes Academicos ião decantar os seus amores à sombra dos salgueiros, ou no Penedo da saudade ao desafio com os melros, e rouxinòes.
São quase todos de hum moço mui prezado em Coimbra, o qual falleceu na flor dos annos com grande magoa de seus amigos, e saudade das Musas, que com felicissimo engenho cultivava. Não o nomeio por poupar à sua honrada memoria a macula de paixões, e de fraquezas."
(Excerto do Prologo)
"Nesta serra amena, e fresca,
Onde huma tarde subi,
Recostado n'um Penedo
Suspirando adormeci.
Tua ditosa morada
Buscava ver; mas não vi;
Cançado de procura-la
Suspirando adormeci.
No tronco de altivo freixo
A tua cifra insculpi:
Sentei-me, e co'os olhos nella
Suspirando adormeci.
Lembrado dos doces mimos,
Que hum dia te mereci,
Cheio de ternas saudades
Suspirando adormeci.
Em sonhos entre teus braços
Estreitado me senti:
Accordo; mas não te vendo
Suspirando adormeci.
Co'os olhos fitos na Lua
Com o pensamento em ti,
Desejando-te a meu lado
Suspirando adormeci.
N. B. O auctor dèrão-lhe nesta tarde as ternuras para dormir. Parece, que tinha tomado opio."
(Suspirando adormeci)
Rodrigo Ferreira da Costa (Setúbal, 1776 - Lisboa, 1825). "Poeta, musicólogo, filólogo e matemático. Licenciado em Leis (1800) e em Matemáticas (1804) pela Universidade de Coimbra. Estudioso de outras matérias, pode considerar-se como o primeiro musicólogo português, sendo também profundos os seus conhecimentos filológicos e linguísticos (dominava várias línguas, incluindo o grego e o latim). Posto isto, e talvez por destoar em seu saber e em suas ideias filosóficas, só em 1810 obteve colocação: oficial na secretaria do Comando Geral do Exército, qualidade em que acompanhou o Ajudante-General até ao final da Guerra Peninsular, em 1814. Em 1821 fizeram-no deputado às Cortes Constituintes e, em 1823, foi provido no lugar de Lente da Academia Real de Marinha. Era talvez para si o lugar mais adequado, mas durou pouco, pois morreria dois anos depois. Também foi membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, que em 1820 e 1824 publicou os dois volumes dos seus Princípios de Música.
Estreou-se literariamente em 1814 com a Lira Ingénua..., um livro de versos que publicou anónimo em Toulouse. A segunda edição, muito aumentada e já assinada, foi impressa em Lisboa, com o mesmo título, em 1818. Em 1835, José Inácio de Andrade, seu grande amigo, mandou imprimir a tradução que Ferreira da Costa havia feito do poema A Ventura de Helvecio (Claude Adrien Helvetius, 1715-1771, um dos ideólogos precursores da Revolução Francesa), a que juntou uma nota biobibliográfica do tradutor na qual afirma que também se lhe deve a tradução para português do Templo de Gnido de Montesquieu, publicada em Paris em 1828 e assinada «Uma Portuguesa».
Rodrigo Ferreira da Costa traduziu igualmente a segunda parte da Arte de Pensar de Condillac; a tradução da primeira parte deve-se a José Liberato Freire de Carvalho."
Rodrigo Ferreira da Costa traduziu igualmente a segunda parte da Arte de Pensar de Condillac; a tradução da primeira parte deve-se a José Liberato Freire de Carvalho."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=12106)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Sem a capilha anterior; a capilha posterior apresenta rasgão ao centro (sem perda de suporte).
Muito raro.
Peça de colecção.
100€






























