FIDALGO, Domingos Lopes - IMPRESSÕES DE UMA VISITA ÁS CADÊAS DO ALJUBE E RELAÇÃO DO PORTO. (Hygiene). Dissertação inaugural apresentada á Escola Medico-Cirurgica do Porto e defendida sob a presidencia do Ex.mo Snr. Dr. Agostinho Antonio do Souto. Porto, Papelaria e Typogragia Morgado, 1899. In-8.º (21x14 cm) de 76, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Importante trabalho académico sobre dois dos principais estabelecimentos prisionais da época - a Cadeia do
Aljube (junto à Sé, em Lisboa) e a Cadeia da Relação do Porto, famosa
por em tempos ter "abrigado", entre outros, Camilo Castelo Branco e o
bandoleiro Zé do Telhado -, e as deploráveis condições de salubridade e tratamento desumano observado em ambas.
Obra polémica, afrontosa dos poderes instalados, foi recebida com desconfiança e incómodo pelas autoridades.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa do autor a seu colega Albino Soares Martins.
"Á luz de uma analyse superficial e preconceituosa poderá parecer, que inutil, senão prejudicial, será quebrar lanças pela população das
cadêas, que só serve para manter a sociedade
em constante risco, invadindo os direitos individuaes ou attentando de qualquer forma contra
os interesses e liberdade dos outros.
Depressa, porém, conheceremos a injustiça,
se attendermos a que as prisões são habitadas
por accusados e condemnados; que áquelles póde
innocental-os amanhã uma investigação criminal
mais conscienciosa, e a alguns d'estes poderia ter
absolvido uma sociedade menos eivada de preconceitos, pois muitas vezes o pseudo-crime é
uma revolta legitima de sentimentos ou direitos
offendidos.
Uma grande parte dos miseraveis habitantes das prisões para alli foram arremessados,
porque a propria sociedade - honrada, porque
farta - lhes creou ou sustentou um conjuncto de circumstancias incompatíveis com o caminho
do dever. Mas o que é o dever? [...]
No nosso systema prisional o delinquente
tem ensejo, senão de se iniciar em todos os segredos do crime, pelo menos de requintar e radicar os seus habitos ou instinctos maleficos. As
prisões (exceptuada a penitenciaria central de
Lisboa) são uma optima eschola, onde constantemente se ouve a apologia tão seductora do vicio, patheticamente descripto pelos reincidentes
e já callejados.
O noviço, a principio por medo de ser mal
tractado ou vergonha de ser escarnecido e mais tarde com prazer, ouve e acquiesce a estas doutrinações. Pode ter entrado na cadêa innocente,
mas tem de sair criminoso!
Se n'uma sala encontramos, na mais perniciosa das misturas, assassinos, ladrões, salteadores, incendiários, devassos, etc., e n'outra mulheres honestas e prostitutas, creanças e velhas,
principiantes e reincidentes!...
Que bella eschola de encyclopedicos! [...]
Resumidamente, que mais não posso, procurarei esfumar os horripilantes quadros do Aljube, e das Cadêas da Relação do Porto.
Em seguida esforçar-me-hei por levantar
estatisticas da mortalidade geral e pela tuberculose nas citadas cadêas, e comparal-as-hei com
as congeneres da população livre do Porto e do
Paiz. Por ultimo apresentarei algumas observações clinicas, que farão a contra-prova."
(Excerto de Introducção)
Domingos Lopes Fidalgo (1873-1948). "Em 1910 proclamou, em Ovar a quem tudo deu, da varanda dos Paços do Concelho, o novo regime e hasteou a bandeira republicana. Na dissertação final de curso, o jovem vareiro, republicano e democrata, de espírito irrequieto, que morreu como nasceu, pobre, mas honrado, dedicou o seu trabalho final à memória de sua mãe. Completou o curso de medicina em 1899, com a classificação final de suficiente, muito especialmente porque a sua tese, duma audácia implicativa para a época, desagradou ao júri, a todo o corpo docente e a certas autoridades, como nos diz Zagalo dos Santos. Voltou a Ovar para fazer clínica e logo mostrou ser um carácter íntegro, despreocupado com os interesses materiais e dedicado aos seus doentes. Serviu a grei, foi um precursor da verdadeira arte de fazer o bem pelo bem. De uma austeridade simples, irradiante, formativa de homens de carácter, diz-nos o Dr. António Luiz Gomes, filho, ilustre conferencista.
Ao longo da sua vida foi:
Presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ovar. Secretário do embaixador António Luís Gomes, no Rio de Janeiro. Serviu, ainda com o que viria a ser presidente eleito da República Portuguesa, Bernardino Machado. Governador civil do distrito de Aveiro, de Leiria e de Lisboa. Director clínico do hospital da Misericórdia de Ovar. Capitão médico miliciano, como voluntário, onde em França combateu os alemães, durante a primeira guerra. Chefe dos serviços de saúde na Campanha do Vouga. Primeiro director da Escola Primária Superior. Ilustre e dinâmico provedor da Misericórdia de Ovar. Director do semanário local «A Pátria»."
Presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ovar. Secretário do embaixador António Luís Gomes, no Rio de Janeiro. Serviu, ainda com o que viria a ser presidente eleito da República Portuguesa, Bernardino Machado. Governador civil do distrito de Aveiro, de Leiria e de Lisboa. Director clínico do hospital da Misericórdia de Ovar. Capitão médico miliciano, como voluntário, onde em França combateu os alemães, durante a primeira guerra. Chefe dos serviços de saúde na Campanha do Vouga. Primeiro director da Escola Primária Superior. Ilustre e dinâmico provedor da Misericórdia de Ovar. Director do semanário local «A Pátria»."
(Fonte: https://www.ovarnews.pt/o-largo-de-sao-joao-de-ovar-e-o-dr-domingos-lopes-fidalgo-paulo-bonifacio/)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação.
Raro.
50€






















