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08 julho, 2026

MATOS, Gastão de Melo -
A LENDA DO ABADE JOÃO.
[Por]... Da Associação dos Arquólogos Portugueses. Lisboa, Associação dos Arqueólogos Portugueses, 1951. In-4.º (24,5x18,5 cm) de 24, [4] p. (texto pp. 13-36) ; B.
1.ª edição independente.
Interessante estudo sobre a lenda do Abade João, ocorrida em tempos da Reconquista Cristã. Trata-se de uma história cuja origem é "disputada" por portugueses e espanhóis, publicada em separata de Arqueologia e História - 8.ª Série das Publicações, volume VII, não mencionado na BNP.
A Lenda do Abade João é uma narrativa trágica e milagrosa da Reconquista portuguesa associada ao Castelo de Montemor-o-Velho. Para evitar que mulheres e crianças fossem escravizadas pelos mouros durante um cerco, o abade e os seus cavaleiros degolaram os seus próprios familiares antes de um ataque suicida. Após a vitória, um milagre divino fez com que todos os mortos ressuscitassem.
O Castelo de Montemor-o-Velho fica a cerca de 25 km de Coimbra, no centro de Portugal, e na mitologia portuguesa a lenda simboliza o dramatismo das Terras de Fronteira durante a Reconquista. (IA)
"[...] Era D. João abade de um mosteiro muito antigo, já existente no tempo dos godos, que tinha sido consentido, por preitesia, durante o domínio moiro, e onde se professava a regra de Cister; mais tarde, a região onde ele se situava havia sido reconquistada pelos cristãos. Senhor de grandes rendas, e de todos os abades que, naquele tempo, existiam em Portugal, viveu durante o reinado de Ramiro III de Leão, em Montemor-o-Velho. Outra versão fala, mais vagamente, de um castelo chamado Montemor e de um rei Ramiro indeterminado; outra ainda faz o herói abade de Lorvão, embora senhor de Montemor.
Indo rezar matinas, numa noite de Natal, encontrou o abade à porta da igreja exposto um menino, que fora concebido em tremendo pecado, como filho que era de dois irmãos; este elemento novelesco falta nalgumas versões.
Baptizou-o com o nome de Garcia, e fê-lo criar e educar com especial carinho. Mais tarde, julgando reconhecer nele grandes virtudes cavalheirescas, enviou-o à Corte, onde o Rei o armou cavaleiro, em honra do abade, de quem, segundo uma das formas da lenda, o monarca era sobrinho.
Uma versão perdida, que serviu a Fr. Bernardo de Brito, dizia talvez que o abade, para dar a entender que tinha ao exposto amor como se fora seu pai, lhe deu o nome de Garcia Eanes.
Chamando-se já D. Garcia, voltou ele para Montemor; levava consigo trezentos cavaleiros que o Rei lhe deu, ou foi nomeado pelo abade D. João chefe da sua hoste, ao tempo inactiva por haver tréguas com os moiros.
Resolvido a atraiçoar a fé cristã, confessou o seu intuito, um dia em que andava à caça, a dois escudeiros (ou a alguns servidores) de quem fazia particular confiança, e convenceu-os a acompanhá-lo, depois do que regressou a Montemor, e disse ao abade que desejava ir fazer a guerra aos moiros."
(Excerto de I - Sobre a Lenda do Abade João)
Gastão de Melo de Matos (Aveiro, 1890 - Lisboa, 1971). "Militar e historiador. Nasceu em Aveiro, no dia 11 de dezembro de 1890, e faleceu em Lisboa, no dia 29 de dezembro de 1971. Oficial de Artilharia, com o curso da Escola do Exército, participou na Primeira Guerra Mundial. No ano de 1917 foi promovido a capitão, tendo sido demitido, por motivos políticos, no ano de 1919. Foi vogal da Comissão de Censura dos Espetáculos e membro da União Nacional, partido que governou o país durante o Estado Novo. Quando das divisões ocorridas dentro da União Nacional, na segunda metade da década de 1940, protagonizadas por Salazar e Marcello Caetano, Gastão de Melo de Matos foi apoiante deste último, também ele membro da Academia Portuguesa da História, da qual viria a ser presidente em 1948. Por isso, em 22 de janeiro desse ano de 1948, quando se formou o Centro de Ação Popular, um grupo dentro da União Nacional, ligado a Marcello Caetano, Gastão de Melo de Matos foi um dos seus aderentes.
Gastão de Melo de Matos distinguiu-se como historiador, sobretudo nas áreas de história militar e de heráldica."
(Fonte: https://archeevo.amap.pt/descriptions/153560)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
15€

16 março, 2026

CORREIA, Dr. Vergílio & GIRÃO, Dr. A. De Amorim & SOARES, Dr. Torquato de Souza – EXCURSÕES NO CENTRO DE PORTUGAL. [Paisagem - Arte - História]. Por... Professores da Faculdade de Letras. Instituto de Alta Cultura - Curso de Férias. Universidade de Coimbra : Faculdade de Letras. Coímbra, Publicação subsidiada pelo Instituto para a Alta Cultura, 1939. In-8.º (19,5x12 cm) de 160, [2] p. ; [1] mapa desdob. ; B.
1.ª edição.
Bonito guia paisagístico e cultural da zona centro do país.
Invulgar e muito interessante.
Livro totalmente impresso sobre papel couché, ilustrado com 101 fotogravuras no texto e um mapa desdobrável da Região Centro do país.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Invulgar.
Indisponível

05 julho, 2025

MADAHIL, A. G. da Rocha -
TOMBO DAS ÁGUAS DE ÍLHAVO.
Organizado pelos donatários da Vila mediante provisão régia de 1772. [Por]... 1.º Conservador do Arquivo e Museu de Arte da Universidade de Coimbra. Figueira da Foz, Tipografia Popular, 1935. In-4.º (24,5x17 cm) de 18, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Importante subsídio monográfico para a história e geografia da cidade, na época vila, de Ílhavo. Estudo publicado em separata do Arquivo do Distrito de Aveiro.
"Para o estudo geográfico que venha a fazer-se do concelho de Ílhavo, estudo que até certo ponto conduzirá à compreensão dos destinos históricos da terra, e permitirá que se ensaie a filosofia da vida do município, remate e complemento da sua história, têm de ser tomados em consideração, como é intuitivo, os cursos de água locais. [...]
Não pode dizer-se que seja pouco rica de águas porque em quási todo o seu perímetro p sub-solo fornece à população, por intermédio de poços pouco profundos e que se abrem com facilidade, o caudal necessário para consumo e regas; fontes públicas abastecem, ainda, várias zonas da vila. Ílhavo é, contudo, pobre de cursos de água; três ribeiras atravessam o centro da povoação, algumas outras lhe correm a Norte e a Sul, mas tôdas de reduzido caudal. [...]
À volta dêsses cursos de água se desenvolveu e foi fixando, como quási sempre sucede, o pequeno núcleo de população que deu origem a uma parte da vila. [...]
Concedido o senhorio da terra a um donatário, compreende-se que os terrenos sôbre que incidiam os direitos senhoriais fôssem objecto de especial fiscalização; asim terá sido, portanto, que em 1772 D. José Joaquim Lôbo da Silveira requereu, na qualidade de administrador dos bens de sua espôsa, D. Joaquina Maria de Almada Castro e Noronha, 12.ª donatária de Ílhavo, provisão régia para continuar uma anterior tombação das águas das azenhas de todo o concelho, então interrompida, e fixar os foros e cabanarias por elas devidas."
(Excerto do Estudo)
António Gomes da Rocha Madahil (Ílhavo, 1893 - Lisboa, 1969). "Nasceu em Ílhavo, a 10 de Dezembro de 1893. Frequentou a Universidade de Coimbra, matriculando-se primeiro na Faculdade de Direito e mais tarde na Faculdade de Letras (secção de Filologia Românica). Em 1920 foi nomeado 3º oficial da secretaria do liceu José Falcão em Coimbra. Em Janeiro de 1932 ocupou o lugar de 1º conservador no Arquivo e Museu de Arte da Universidade de Coimbra. Fundou a revista Arquivo do Distrito de Aveiro em 1935 e, em 1937, o Museu Municipal de Ílhavo, que também organizou. Foi delegado em Portugal do pacto Roerich para a protecção de Monumentos e Museus em caso de guerra. Presidiu à direcção do Centro de Estudos para Formação Social e foi vice-presidente da Direcção da Sociedade de Defesa e Propaganda de Coimbra. Foi grande oficial, cavaleiro e comendador de várias Ordens. Paleógrafo, procedeu à leitura de numerosos documentos, contribuindo para o avanço dos estudos históricos. Colaborou em diversas revistas e jornais, tendo escrito dezenas de trabalhos. Faleceu em Lisboa, a 27 de Junho de 1969."
(Fonte: Jorge, Teresa Revés - António da Rocha Madahil: catálogo, Torre do Tombo, 2014)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa apresenta vinco no canto inferior direito.
Muito invulgar.
15€

30 abril, 2025

FRANCO, Renato -
ENSAIOS (contos).
[Prefacio de Luiz de Magalhães]. Aveiro, Imprensa Aveirense, 1893 [Capa, 1892]. In-8.º (21,5x14,5 cm) de [8], 198, [4] p. ; E.
1.ª edição.
Capa belíssima assinada "Rocha".
Colecção de sete contos marcados por alguma ingenuidade, por certo, devido à juventude do autor, recém iniciado nas lides literárias.
Obra valorizada pela carta-prefácio de Luiz de Magalhães (1859-1935).
Pouco foi possível apurar acerca do autor: Renato Melo Franco, de seu nome completo, seria natural de Aveiro e, de acordo com o Arquivo Histórico da Economia, terá nascido em 10.07.1862 e foi Escriturário de 1.ª classe na Direcção das Obras Públicas do Distrito de Aveiro. Além da presente obra (1893), publicou em 1919, pelo menos, dois artigos na Illustração Portuguesa: Mulheres de Aveiro e Aveiro, Terra Linda.
"- Assim continuas n'essa vida, mulher?
- Ora, deixa-me, deixa-me...
E a snr.ª Philomena, mulher do valente pescador Aniceto, de rosto pallido, olhos no chão, e marrafa a cobrir-lhe a testa, acocorava-se ao pé do borralho para começar a fazer o jantar do meio dia.
O marido resmungava pragas surdas, n'um desgosto pungente, e sahia depois para a rua.
- Vae-te démo negro, desafogava a boa snr.ª Philomena. Nem a gente é senhora das suas acções. Já se não pode amar a Deus socegadamente!
Ha um bom par de mezes que a snr.ª Philomena não deixava a egreja. Percorria em visita continua todas as capellas d'Aveiro e dos arredores, frequentando com fervor todos os sermões e mais officios divinos que se celebravam durante o dia. Depois que ouvira, uma vez, as predicas dos santos missionarios, o seu espirito fraco impressionou-se de tal modo que nunca mais pôde abandonar os santos logares, como ella dizia, para se entregar d'alma e coração a ferrenha beatisse.
Ás tres da madrugada o sino tocava a matinas. Ella saltava logo da cama, vestindo-se á pressa, a correr para a igreja. O marido esse, sobraçando as rêdes, lá ia para a pesca mais o camarada."
(Excerto de Os santos missionarios)
Indice:
I - A meus paes. II - Carta-prefacio. II - Os Santos Missionarios. IV - Passeiando... V - Os ninhos. VI - O Dominó Verde. VII - Illuzões perdidas. VIII - Inexperada fortuna. IX - Olympia.
Encadernação simples em meia de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura anterior.
Raro.
45€

15 fevereiro, 2025

CARVALHO, João Vasco de -
MONOGRAPHIA DA FREGUEZIA RURAL DE OVAR, CONCELHO DE OVAR, NO DISTRICTO DE AVEIRO. Pelo agronomo... Boletim da Direcção Geral da Agricultura. Undecimo Anno : N.º 5 - Ministerio do Fomento. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1912. In-4.º (24x16 cm) de 72, [4] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Estudo monográfico sobre Ovar e o seu concelho, com interesse histórico, rural, social, geográfico, etimológico e etnográfico.
Curioso. Invulgar e muito importante.
Ilustrado com tabelas e quadros estatísticos no texto.
"Quem ha ahi, em Portugal, que não conheça Ovar, ao menos por tradição?
Quem ao invocar aquelle nome não se recordará do typo caracteristico, inconfundivel, da ovarina que, de saias engueifadas, pé descalço, grandes arrecadas de oiro, giga á cabeça, moireja pelas ruas de Lisboa, atroando os ares com os seus pregões?
Quando o seu andar lesto e sacudido contrasta com o passo indolente e incerto da lisboeta.
É que é gente robusta, de admiravel arcaboiço, como a inglêsa, que assenta o pé com ar senhoril, em attitude de desafio. Adivinha-se nella uma força invejavel - a força que provém de uma saude de ferro. Ovarinas lhes chamam uns, varinas outros. [...]
A composição ethnica da população não tem soffrido alterações dignas de nota.
Por decreto de 24 de outubro de 1855 os limites do termo da freguezia soffreram uma importante alteração: a Costa Nova do Prado, povoação importante e frequentada praia de banhos, e o sitio da Gafanha que faziam parte da freguezia de Ovar, por decreto de 31 d e dezembro de 1853, foram por desistencia do bispo de Porto incorporados na freguezia de Ilhavo.
A propriedade rustica de ha 30 annos a esta parte tem-se dividido muito e continua a manifestar accentuada tendencia para o retalhamento. [...]
As culturas teem soffrido notaveis variantes de então para cá: o trigo, o centeio, a cevada, a aveia e o arroz e ainda as pastagens e pinhaes occupavam quasi exclusivamente o solo aravel da freguezia, salpicado aqui e alli, nos sitios mais lenteiros e fundaveis, por nesgas de hortas e alguns linhares.
Hoje a feição é mui diversa."
(Excerto de I - Introducção)
Indice:
I. Introducção. II. Estado actual da freguezia: 1.º - Situação topographica. 2.º - Territorio e clima. 3.º - População. 4.º - Predios urbanos. 5.º - Predios agricolas. 6.º - Agricultura: Culturas hortenses: - do milho; - do arroz; - da junça, bajunça e caniço; da vinha. Mattas; Gados; Apicultura; Caça; Pesca. 7.º - Exploração agricola. 8.º - Industria. 9.º - Commercio. 10.º - Exploração conjuncta. 11.º - Capitaes. 12.º - Trabalho. 13.º - Hygiene. 14.º - Instrucção. 15.º - Previdencia. 16.º - Assistencial. 17.º - Estado moral e social. 18.º - Conclusões.
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado geral de conservação. Capas manchadas, com pequenos cortes.
Raro.
25€

09 dezembro, 2024

SOROMENHO, Augusto -
DIWAN. De... Porto, [Typ do Portugal], [1855]. In-8.º (17x11,5 cm) de [164] p. ; E.
1.ª edição.
Raríssima edição original deste livro de poemas "em que ecoam traços orientalistas". Primeira obra do autor, publicada quando contava apenas 22 anos de idade.
Em Notas, na parte final do livro, Soromenho "explica" alguns versos: "Depois de escriptos e impressos esses poucos versos que ahi ficam, intendi dever acompanhar varios d'elles com notas explicativas, porque, na verdade, em alguns ha um tanto de enigmatico e obscuro. Ahi vão, pois, as que julguei necessarias. O numero romano corresponde a uma poesia com egual numero."

Quem canta seu mal espanta;
Quem chora seu mal augmenta;
E eu canto para espalhar
Uma dôr que me-atormenta!

"Que horrivel noite! O vento, a chuva, tudo
Contra mim se-conspira!
Trevas no céu, e trevas sobre a terra;
Em volta de mim trevas!
Apenas vejo alem uma luzinha,
Signal mysterioso,
Que me-faz ir chuchar um aguaceiro
A troco d'um bilhete
Perfumado d'almiscar! – Triste coisa
É andar enamorado!
Eu quando penso no que tenho feito,
Por causa das mulheres,
Pasmo! E a luz? Sumiu-se! Era o correio
Que vae para a Amarante!
"

(XLV.)

"Eu estava, hontem de tarde, a ler o Fausto,
Deitado n'um sofá,
Quando senti abrir-se a porta e, rindo,
Entrar o diabo. "Olá!
"Por aqui, é milagre!" – Mal tu sabes
O que eu venho pedir. –
"Não; decerto. Vejamos." – É uma Biblia. –
E desatou a rir...
"Uma Biblia?!" disse eu. – E então, que pensas?
Não serei eu capaz
De a-lêr? Não póde haver um litterato
Chamado Satanaz? –
"Póde. Ahi tens... Mas que buscas"? – Eu t'o-digo:
Estive, ha pouco, a lêr
O Paraizo de Milton, e ha lá historias
Que eu não posso saber
Onde-as fosse buscar. Conta lá coisas
De mim, que nem eu sei;
E venho vêr então se n'esta Biblia
Acaso as-acharei. –
"Duvido” – E tu que lês? – "O Fausto." – O Goethe!
Esse foi mais ratão.
Ao menos, teve graça. O Mephistóphles
É um grande maganão.
O Fausto é que era um parvo. – "Assim ha muitos!"
– E tu também o-és. –
"Obrigado." – E assentou-se folheando
Os Livros de Moisés.

Passado tempo, volto-me, e, que vejo!
Deitado sobre o chão
O bom do Satanaz, que adormecêra
A lêr o Salomão!..."

(CVI.)

Augusto Pereira Soromenho (Apresentação, Aveiro, 1833 - Lisboa, 1878). "Mais conhecido por Augusto Soromenho, foi um professor, filólogo e escritor português. Adotou também o pseudónimo Abd-Allah e usou os nomes Augusto Pereira do Vabo e Anhaya Gallego Soromenho e os de Castro e Pedegache, afirmando que descendia de famílias nobres de Castela e do Algarve. Inocêncio Francisco da Silva lista o nome como Seromenho, grafia que o próprio não terá usado. Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e seu bibliotecário.
Considerado de génio volúvel e altivo, Camilo Castelo Branco, no 2.º volume do seu Cancioneiro Alegre, afirma que nunca viu ninguém com tantas artes para ganhar inimigos e que sacrificava os seus benfeitores àquilo a que a sua consciência chamava Justiça. O mesmo escritor afirma que o conhecera ainda muito novo e infeliz, ao que parece, sem protecção nem meios para se vestir e sustentar.
A incapacidade de manter relacionamentos dificultou-lhe sobremaneira a vida, por tinha poucos recursos, não os podendo obter da família, já que o pais, ao tempo director da alfândega de Vila do Conde, pouco o podia ajudar já que o emprego não seria muito rendoso.
Em 1855, com 22 anos de idade, publicou no Porto a sua primeira monografia, o volume de poesia intitulado Diwan, obra presentemente rara dada a escassa tiragem da edição.
Também por volta de 1855 obteve um modesto emprego na Biblioteca do Porto, onde durante os anos imediatos se dedicou ao estudo da história de Portugal e de arqueologia. Dos seus estudo resultou a publicação de numerosos artigos avulsos em diversos periódicos, que complementava com artigos de crítica literária. Entre estes últimos artigo dedicou alguns a acusações de plagiato, de que resultaram azedas polémicas.
Em inícios de 1858 conheceu Alexandre Herculano, que ao visitar a cidade do Porto o encontrou e ficou impressionado com os seus conhecimentos dos clássicos e da língua portuguesa, reconhecendo nele um mancebo de muito talento, muito estudioso e já então muito erudito. Desse encontro resultou ser convidado por Herculano para se transferir para Lisboa e passar a colaborar nos seus trabalhos de história de Portugal. Aceitou e a partir de meados de 1858 passou a trabalhar na biblioteca da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Augusto Soromenho foi um dos conferencistas das Conferências do Casino, nas quais a 6 de Junho de 1871 dissertou sobre A Literatura Portuguesa Contemporânea. Antes dele falara Antero de Quental e depois Eça de Queirós e Adolfo Coelho.
Foi feito sócio correspondente da Academia Real de Ciências e bibliotecário da mesma Academia, tendo nestas funções sucedido a Alexandre Herculano na coordenação da obra Portugaliæ Monumenta Historica. Apesar disso, e seguindo o seu padrão de relacionamento difícil, acabou por cortar relações com o seu antigo protector Alexandre Herculano, que em retaliação lhe cortou o acesso ao acervo da Torre do Tombo. Também no que respeita à Academia das Ciências, após múltiplas disputas, especialmente depois de uma grave pendência com o matemático Daniel Augusto da Silva, foi obrigado a demitir-se de sócio para evitar a expulsão.
Augusto Soromenho faleceu em 9 de Janeiro de 1878, vítima de tuberculose pulmonar. A revista literária O Ocidente publicou uma pequena biografia e o seu retrato. Deixou uma vasta obra em prosa e verso dispersas por múltiplos periódicos e inéditos muitos manuscritos."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado. Capas frágeis, com defeitos.
Raro.
Indisponível

17 agosto, 2024

CABRAL, Cezar Amadeu da Costa -
A ACÇÃO REPUBLICANA MILITAR NA PROVINCIA (Região central do paiz).
[Por]... Tenente d'Infanteria. Apontamentos para a Historia da Republica Portugueza. [Prefácio de Álvaro de Castro]. Coimbra, F. França Amado, Editor, 1911. In-8.º (19 cm) de 66, [2] p. ; [1] f. desdob. ; B.
1.ª edição.
Relatório sobre o movimento conspirativo militar que desencadeou a revolução republicana no centro do país, com epicentro em Coimbra. Trata-se de um raro e importante subsídio para a história da implantação da República em Portugal.
Prefácio de Álvaro de Castro, "jovem turco" da República.
Ilustrado em separado com folha desdobrável do autógrafo cifrado de J. A. Pereira de Vasconcelos "relativo á detenção dos militares manifestamente adverso à Republica no movimento revolucionario de 28 de janeiro". É muito interessante esta cifra, onde "os numeros que estám a seguir aos «sinais» indicam os individuos encarregados das respetivas detenções e outros trabalhos ali marcados", seguindo-se a exposição alfanumérica dos estudantes insurgentes, bem como outros revolucionários "estranhos á academia" - artistas, comerciantes, caixeiros e empregados públicos.
Inclui correspondência entre Costa Cabral e alguns dos insignes revolucionários republicanos.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa - curiosa - do autor ao conhecido professor e arqueólogo viseense Dr. José Coelho (1877-1977).
"O teu livro ficará sendo um precioso documento para a futura historia do movimento revolucionario.
E aqui tens o que necessitava dizer-te com toda a franqueza de amigo. [...]
Se procuras simplesmente o camarada que comtigo teve as mesmas decepções, as mesmas dores e eguaes esperanças isso é outra cousa, mas então este prefacio não é mais do que uma pagina de recordações.
O escrevel-a seria roubar-te uma parte dum futuro livro, onde descreverás os meios principaes da perseguição monarchica, a atmosphera politica de Coimbra antes da morte do rei Carlos e ainda as figuras comicas que constituiam os elementos de defeza do throno."
(Excerto do Prefacio)
Ao começar a escrever estas linhas, varias difficuldades se nos deparam.
Que nome deveremos pôr ao conjuncto destes apontamentos?
Relatorio! - não será fatuoso este nome, quando nelle se não descreve nenhum feito ostensivo, quando não tomámos parte, nem assistimos a nenhum dos combates, que tiveram por fim proclamar a Republica no paiz?
A Republica na Provincia! - Não será alargar demais a esphera d'acção que praticamente desconhecemos?
Não será abusar um pouco d'um vão personalismo, quando são exclusivamente collectivos os esforços empregados num mesmo trabalho?
A acção republicana militar na provincia (Região central do paiz).
Parece-me ser este o nome mais adequado, porquanto, se vão demonstrar os esforços praticados por um punhado de militares republicanos, e embora o seu campo de acção seja principalmente em Coimbra, elles irradiaram, como conhecemos, por outros pontos, taes como Figueitra da Foz, Thomar, Aveiro, e, portanto, podemos dizer região central do paiz. [...]
Com estes apontamentos, podemos ainda dar elementos a quem quizer fazer a historia completa do movimento republicano em Portugal. [...]
Estes apontamentos, que tenho a certeza, serão acolhidos com interesse no meio republicano, sê-lo-hão tambem no exercito, quer entre os camaradas que, tendo sido sempre liberaes (e essa era a maioria do exercito), só por uma noção mal comprehendida não collaboraram com os republicanos, mas que depois contribuiram para a completa consolidação da Republica, e pelos nossos camaradas revolucionarios de Lisboa e Porto."
(Excerto do Cap. I)
César Amadeu da Costa Cabral. Pouco se sabe acerca do autor deste relatório. A BNP dá notícia de, para além da presente obra, uma outra - Aleluia Portuguêsa! Alocução proferida... em homenagem aos Herois Desconhecidos da Grande Guerra (1921) e o jornal publicado em Aveiro A Portugueza : jornal republicano independente (1912-1913), de que foi director.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Ex-libris do Dr. José Coelho na f. ante-rosto.
Raro.
Com interesse histórico.
Indisponível

07 maio, 2024

LIMA, Jayme de Magalhães -
SONHO DE PERFEIÇÃO
. Porto, Typographia Pereira, 1901. In-8.º (21,5x14,5 cm) de [6], 392 p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance rural cuja acção decorre na zona de Aveiro, em meados do século XIX.
"O dr. Mateus era um santo homem. A pé logo ao amanhecer, em singelo esmero, a face barbeada, cabellos brancos, poucos e desalinhados, conserva-se agora, aos cincoenta annos, como sempre fôra desde que saiu de Coimbra. Bondoso, d'uma inalteravel bondade, o olhar calmo, cheio d'indulgente sympathia, todo o tempo se lhe divide entre o escriptorio, onde trabalha e ouve os clientes, o tribunal da villa da Eirinha e o seu quintal, de que brotam com opulencia fructos, vegetações e flôres - unico, mas infinito prazer da sua vida. Conservára-se solteiro, vivendo sob a tutela benefica e doce da irmã, mais velha, que tudo mandava em casa, mandando bem, modesta e ordenadamente. Desprezando os regalos do matrimonio, nunca se resolvera a casar. Além d'isso, não faltavam herdeiros: tinha os sobrinhos, os filhos do irmão, juiz n'uma comarca do Minho. Demais, os clientes eram tantos!... coitados! não os podia desamparar. Renunciava a uma familia limitada, porque adoptára outra, incerta, vaga e extensa - a dos que precisam d'auxilio."
(Excerto do Cap. I)
Jaime de Magalhães Lima (1859-1936). Natural de Aveiro. Foi um pensador, poeta, ensaísta e crítico literário português, irmão do jornalista e político republicano Sebastião de Magalhães Lima. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1888, onde conheceu Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e o seu grande amigo Antero de Quental. Era admirador de Tolstoi, que conheceu quando foi à Rússia, conforme relata no seu livro Cidades e paisagens (1889). Dirigiu a revista Galeria Republicana (1882-1883) e colaborou na Revista de Portugal de Eça de Queiroz. Colaborou ainda com regularidade no mensário O Vegetariano, dirigido por Amílcar de Sousa e em diversas publicações periódicas, nomeadamente nas revistas: A semana de Lisboa (1893-1895), Branco e negro (1896-1898), Atlântida (1915-1920), Pela Grei (1918-1919) e na revista Homens Livres (1923). A sua bibliografia é variada. Escreveu romances, ensaios e biografias.
(Fonte: Wikipédia)
Magnífica encadernação em meia de pele com cantos, com dourados e ferros gravados a ouro sobre rótulos carmim na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação. Ex-libris colado no verso da f. rosto. Ausência f. ante-rosto(?).
Raro.
Indisponível

20 março, 2024

DUARTE, Mario - OVOS MOLLES E MEXILHÕES. Besbelhotice mensal d'Aveiro. Com quatro palavras de Fialho d'Almeida. N.º 1 - Março de 1893. Aveiro, Imprensa Aveirense, 1893. In-8.º (18x12,5 cm) de 32 p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de curiosíssimas crónicas satíricas relacionadas com Aveiro e os aveirenses. De acordo com a BNP, terá saído um 2.º número desta interessante publicação (Abril de 1893).
Obra abrilhantada pela apresentação de Fialho de Almeida à laia de prefácio intitulada Quatro palavras.
"A maledicencia foi dada ao homem não só como estimulo mas tambem como como distracção; porque é commentando os ridiculos dos outros que o homem aprende a corrigir os seus, e é deformando a monotonia da vida pela troça que elle consegue fugir á tristeza da realidade agreste que o rodeia. N'esta conformidade, e sem por forma alguma pensarem em crear para a ironia formas imprevistas, vão os redactores d'este jornal tentar um esforçosinho de má lingua que os ajuda a romper a atomia sentimental das terras pequenas, a sorrir á mocidade o seu riso sceptico e vermelho, e a espicaçar o bicho proximo com a garrocha do escarneo, unica que hillaria a trincheira e resigna a saude pela explosão d'uma franca carcachada.
Quando se diz que os Mexilhões e Ovos molles são um jornal de maledicencia, bom será presupôr que os redactores não abdicam, pelo facto de caricaturistas, do seu papel de cavalheiros, nem tam pouco estão dispostos a tomar maledicencia no sentido peor de diffamação. Alli esta por exemplo aquelle proprietario obeso, com a barba e a bossalidade em passa-piolho sob o queixo, legitimo filho da rotina soez do burgo que o aviscondalhou nas ultimas eleições.
Alli está aquella langorosa menina, educada a pão com manteiga e a folhetins francezes, e affeita a decipar á familia a charada pornographica do Pimpão..."
(Excerto de Quatro palavras)
"A medida policial prohibindo a permanencia do sexo forte juncto ao chafariz dos Balcões, veio tirar ás sopeiras uma garantia, que embora não prevista na Carta, tinha já fóros tão tradiccionaes e tão antigos, que só uma injusta lei poderia revogar.
E quando ellas ainda no comprimento de um dever vêm procurar allivio ás suas magoas, tentando distrahir-se na conversa geral da fonte, ponto obrigado de bisbilhotice, encontram-se privadas d'um dos seus mais divertidos passatempos!!"
(Excerto de Outra vez a policia e as sopeiras)
Summario:
Simphonia da Primavera | A Policia e os cães | A serração da Velha | A eleição da Commissão districtal | Socorros a Naufragos | Exportação de laranjas | Tres livros novos: o Piano, Ensaios e Tristia | Outra vez a policia e as sopeiras | Algumas palavras a proposito de uma moldura | A Feira de Março.
Mário Ferreira Duarte (Anadia, Arcos, 1869 - Aveiro, 1939). "Nasceu em Anadia. Radicou-se em Aveiro onde exerceu as funções de funcionário público, como director de Finanças. Foi casado com a Baronesa da Recosta, D. Maria Teresa de Melo que, para a época, era uma notável desportista. Foi praticante de hipismo, automobilismo, ciclismo, ténis e golfe. Mário Duarte foi um apaixonado pelo desporto em geral praticando com grande mestria o futebol, o golfe, o ciclismo, a ginástica, o ténis, o remo, a vela, a natação, a esgrima, a luta greco-romana, a halterofilia e o tiro. Era o que se poderia considerar um verdadeiro “sportsman”. Em 1898, no Campo Pequeno até brilhou como toureiro. Tal polivalência desportiva conferiu-lhe reconhecimento público. Em 1905, num plebiscito organizado pelo jornal “ Os Sports” foi eleito o “desportista mais completo de Portugal”. Foi fundador da Associação de Futebol de Aveiro e presidente, por diversas vezes, do Congresso da Federação Portuguesa de Futebol. [Deu o seu nome ao antigo Estádio Municipal de Aveiro do Sport Clube Beira Mar de Aveiro]. Obra bibliográfica: Em 1893 editou a publicação Ovos-Moles e Mexilhões que se subintitulava Bisbilhotice Mensal de Aveiro. Um dia, um dos seus filhos, Francisco Duarte, dele escreveu que o pai “o tinha ensinado, assim como aos seus irmãos, a perder sem azedume ou a ganhar sem ofender o vencido”."
(Fonte: Silva, Carlos Alberto T. Soares da - A História da Natação Portuguesa. Os percursores da natação em Portugal : dos seus inícios até à implantação da República - 1910, FPN, 2017)
Encadernação inteira de pele com ferros gravados a seco e a ouro na pasta anterior. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Capas de brochura frágeis, com manchas e pequenos defeitos.
Raro.
Peça de colecção.
35€

07 janeiro, 2024

SOROMENHO, Augusto - DIWAN. De... Porto, [Typ do Portugal], [1855]. In-8.º (17x11,5 cm) de [164] p. ; E.
1.ª edição.
Raríssima edição original deste livro de poemas "em que ecoam traços orientalistas". Primeira obra do autor, publicada quando contava apenas 22 anos de idade.
Em Notas, na parte final do livro, Soromenho "explica" alguns versos: "Depois de escriptos e impressos esses poucos versos que ahi ficam, intendi dever acompanhar varios d'elles com notas explicativas, porque, na verdade, em alguns ha um tanto de enigmatico e obscuro. Ahi vão, pois, as que julguei necessarias. O numero romano corresponde a uma poesia com egual numero."

Quem canta seu mal espanta;
Quem chora seu mal augmenta;
E eu canto para espalhar
Uma dôr que me-atormenta!

"Que horrivel noite! O vento, a chuva, tudo
Contra mim se-conspira!
Trevas no céu, e trevas sobre a terra;
Em volta de mim trevas!
Apenas vejo alem uma luzinha,
Signal mysterioso,
Que me-faz ir chuchar um aguaceiro
A troco d'um bilhete
Perfumado d'almiscar! – Triste coisa
É andar enamorado!
Eu quando penso no que tenho feito,
Por causa das mulheres,
Pasmo! E a luz? Sumiu-se! Era o correio
Que vae para a Amarante!
"

(XLV.)

"Eu estava, hontem de tarde, a ler o Fausto,
Deitado n'um sofá,
Quando senti abrir-se a porta e, rindo,
Entrar o diabo. "Olá!
"Por aqui, é milagre!" – Mal tu sabes
O que eu venho pedir. –
"Não; decerto. Vejamos." – É uma Biblia. –
E desatou a rir...
"Uma Biblia?!" disse eu. – E então, que pensas?
Não serei eu capaz
De a-lêr? Não póde haver um litterato
Chamado Satanaz? –
"Póde. Ahi tens... Mas que buscas"? – Eu t'o-digo:
Estive, ha pouco, a lêr
O Paraizo de Milton, e ha lá historias
Que eu não posso saber
Onde-as fosse buscar. Conta lá coisas
De mim, que nem eu sei;
E venho vêr então se n'esta Biblia
Acaso as-acharei. –
"Duvido” – E tu que lês? – "O Fausto." – O Goethe!
Esse foi mais ratão.
Ao menos, teve graça. O Mephistóphles
É um grande maganão.
O Fausto é que era um parvo. – "Assim ha muitos!"
– E tu também o-és. –
"Obrigado." – E assentou-se folheando
Os Livros de Moisés.

Passado tempo, volto-me, e, que vejo!
Deitado sobre o chão
O bom do Satanaz, que adormecêra
A lêr o Salomão!..."

(CVI.)

Augusto Pereira Soromenho (Apresentação, Aveiro, 1833 - Lisboa, 1878). "Mais conhecido por Augusto Soromenho, foi um professor, filólogo e escritor português. Adotou também o pseudónimo Abd-Allah e usou os nomes Augusto Pereira do Vabo e Anhaya Gallego Soromenho e os de Castro e Pedegache, afirmando que descendia de famílias nobres de Castela e do Algarve. Inocêncio Francisco da Silva lista o nome como Seromenho, grafia que o próprio não terá usado. Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e seu bibliotecário.
Considerado de génio volúvel e altivo, Camilo Castelo Branco, no 2.º volume do seu Cancioneiro Alegre, afirma que nunca viu ninguém com tantas artes para ganhar inimigos e que sacrificava os seus benfeitores àquilo a que a sua consciência chamava Justiça. O mesmo escritor afirma que o conhecera ainda muito novo e infeliz, ao que parece, sem protecção nem meios para se vestir e sustentar.
A incapacidade de manter relacionamentos dificultou-lhe sobremaneira a vida, por tinha poucos recursos, não os podendo obter da família, já que o pais, ao tempo director da alfândega de Vila do Conde, pouco o podia ajudar já que o emprego não seria muito rendoso.
Em 1855, com 22 anos de idade, publicou no Porto a sua primeira monografia, o volume de poesia intitulado Diwan, obra presentemente rara dada a escassa tiragem da edição.
Também por volta de 1855 obteve um modesto emprego na Biblioteca do Porto, onde durante os anos imediatos se dedicou ao estudo da história de Portugal e de arqueologia. Dos seus estudo resultou a publicação de numerosos artigos avulsos em diversos periódicos, que complementava com artigos de crítica literária. Entre estes últimos artigo dedicou alguns a acusações de plagiato, de que resultaram azedas polémicas.
Em inícios de 1858 conheceu Alexandre Herculano, que ao visitar a cidade do Porto o encontrou e ficou impressionado com os seus conhecimentos dos clássicos e da língua portuguesa, reconhecendo nele um mancebo de muito talento, muito estudioso e já então muito erudito. Desse encontro resultou ser convidado por Herculano para se transferir para Lisboa e passar a colaborar nos seus trabalhos de história de Portugal. Aceitou e a partir de meados de 1858 passou a trabalhar na biblioteca da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Augusto Soromenho foi um dos conferencistas das Conferências do Casino, nas quais a 6 de Junho de 1871 dissertou sobre A Literatura Portuguesa Contemporânea. Antes dele falara Antero de Quental e depois Eça de Queirós e Adolfo Coelho.
Foi feito sócio correspondente da Academia Real de Ciências e bibliotecário da mesma Academia, tendo nestas funções sucedido a Alexandre Herculano na coordenação da obra Portugaliæ Monumenta Historica. Apesar disso, e seguindo o seu padrão de relacionamento difícil, acabou por cortar relações com o seu antigo protector Alexandre Herculano, que em retaliação lhe cortou o acesso ao acervo da Torre do Tombo. Também no que respeita à Academia das Ciências, após múltiplas disputas, especialmente depois de uma grave pendência com o matemático Daniel Augusto da Silva, foi obrigado a demitir-se de sócio para evitar a expulsão.
Augusto Soromenho faleceu em 9 de Janeiro de 1878, vítima de tuberculose pulmonar. A revista literária O Ocidente publicou uma pequena biografia e o seu retrato. Deixou uma vasta obra em prosa e verso dispersas por múltiplos periódicos e inéditos muitos manuscritos."
(Fonte: Wikipédia)
Belíssima encadernação meia de pele com rótulos, nervuras e dourados na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Corte superior carminado. Dedicatória (não do autor), no verso da f. ante-rosto, ao distinto médico e bibliófilo aveirense Manuel Lavrador.
Muito raro.
Peça de colecção.
85€

02 novembro, 2023

NOGUEIRA, R. de Sá -
SUBSÍDIOS PARA O ESTUDO DA LINGUAGEM DAS SALINAS.
Por... (Separata de "A Língua Portuguesa", Vol IV). Lisboa, [s.n.], 1935. In-4.º (23,5 cm) de 70, [2] p. (75-144 pp.) : [8] p. il. ; B.
1.ª edição independente.
Importante subsídio filológico e etnográfico sobre a "linguagem" dos salineiros. Trata-se do glossário de termos, parte de um plano mais vasto que o autor nunca viria a concretizar.
Livro ilustrado em 4 páginas com:
- Mapa de Portugal, em página inteira, com a indicação por meio de setas, das regiões onde há salinas.
- Plantas de localidades salineiras distribuídas por 3 páginas:
• Aveiro, Figueira da Foz e Buarcos;
• [Vila Franca de Xira] - marinhas localizadas a norte e sul de Ponta d'Erva, Póvoa de Santa Iria e Unhos;
• Setúbal, Álcacer do Sal e Montalvo.
Ilustrado ainda no final, em separado, com 12 fotogravuras de momentos da faina espalhadas por 8 páginas.
"«O Dicionário da Língua», completo e seguro, é das obras mais urgentes e meritórias que podem ocupar o espírito dos nossos investigadores da matéria filológica. Êsse dicionário, porém, completo e seguro, é inexqüível, enquanto não forem publicados trabalhos parciais, que sirvam de base ao lexicógrafo. [...]
É necessário, pois, que trabalhos subsidiários apareçam. Dêstes, os mais preciosos e urgentes são glossários parciais, como o do presente estudo, sobretudo se forem feitos com escrúpulo e minuciosidade.
Calcule-se o que será a tarefa do lexicógrafo no dia em que houver um glossário perfeito da linguagem das salinas, outro da linguagem da pesca, outro a das cortiças, outro da dos lacticínios, etc., etc.
Quanto não vale mais publicar um trabalho dêsses, completo e substancioso, do que artigos dispersos e superficiais sôbre muitos e variados assuntos.
Foi com esta convicção que me levou a empreender o estudo da linguagem das salinas."
(Excerto da Introdução)
Rodrigo de Sá Nogueira (1892-1979). "Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi 1.º oficial da Academia das Ciências de Lisboa. Doutor de Capelo e Borla pela Universidade de Coimbra, foi autor de várias publicações sobre filologia: Contribuição para o estudo das onomatopeias (1948), Elementos para um tratado de fonética portuguesa (1989), Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (1995), Guia Alfabética de Pontuação: acompanhada com os termos gramaticais conexos com a pontuação (1989), Estudos sobre as onomatopeias (1950), Dicionário Ronga-Português (1960), entre outras obras."
(Fonte: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/autores/rodrigo-de-sa-nogueira/169/pagina/1 [consultado em 18-08-2023])
Exemplar brochado em bom estado de geral conservação. Ligeiramente oxidado.
Raro.
45€

02 setembro, 2023

FARIA, Carlos -
O PIANO.
Desenhos de A. C. Sobral. Lisboa, Deposito na Livraria de Antonio Maria Pereira, 1893. In-4.º (23 cm) de 188, [4] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Romance passado em Lisboa, remete para a vida de Olímpio, um pianista - professor e compositor - que se apaixona por Ema, filha do capitalista Gomes, que desagradado com esse amor correspondido, faz a vida negra ao músico.
Livro ilustrado com belíssimos desenhos de Sobral, que também assina a capa.
Obra interessante, muito bem redigida, sendo o vocabulário cuidado. Inclui expressões de certos tipos de Lisboa, muito engraçadas, - do burguês ao guarda-portão -, que por norma traduzem desprezo. A BNP refere a obra com a indicação "sem informação exemplar".
"Estamos a 30 de Novembro. São 7 horas e meia da manhã. O ceu como um caldeirão velho cujo fundo começa a descoser-se, vae largando cada vez maiores e mais frequentes os pingos de um negro aguaceiro.
O pobre pianista fecha o seu

«Quarto independente para homem só com porta para a escada e sem comida, na rua dos Corrieiros n.º...»

como textualmente annunciara o Diario de Noticias.
Desceu vagarosamente levando na mão uma pequena mala de coiro. Vae começar a sua tarefa quotidiana.
A corda d'agua como fina vergasta metalica chicoteava as pedras da rua. A chuva produzia o ruido estrelante da agua caindo sobre lume. Era o caldeirão que se arrombava.
No portão da escada, em defeza da tremenda batega, entrara uma roliça creada e logo após um policia.
- Jesus do ceu! Que carga d'agua! - dizia ella sacudindo o chale depois de largar o cabaz das compras.
- Quem dera que durasse para ter a Luisinha ao pé de mim, retorquiu galante o defensor da propriedade, vida e honra das familias de Lisboa. E ajudava a creada a enxugar-se com tanta dedicação que o pianista iria jurar que vira os ardentes beiços milicianos chuparem uns pingos de chuva que Luisinha tinha na cara."
(Excerto do Cap. I)
Carlos de Faria e Melo (1849-1917). "Escritor, jornalista, político e diplomata. Natural de Lisboa, Carlos de Faria e Melo fixou residência em Aveiro, cidade onde se notabilizou como jornalista e escritor, tendo sido agraciado pelo Rei D. Carlos com o título de 1.º Barão de Cadoro. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Carlos de Faria iniciou, ainda muito novo, a sua carreira jornalística, tendo fundado e dirigido diversos jornais, alguns de cariz literário. Como escritor, publicou vários livros. Para além disso, desempenhou cargos políticos, designadamente o de Administrador do Concelho de Aveiro e o de Governador Civil do Distrito de Aveiro, tendo sido também Cônsul de Espanha em Aveiro. Carlos Faria foi redator efetivo do jornal O Povo de Aveiro. Fundou e dirigiu o jornal A Locomotiva (que se auto-intitulava Periódico dos Caminhos de Ferro). Com Gervásio Lobato, fundou o periódico Comédia Portuguesa, tendo ainda integrado a redação do Jornal do Norte, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. Como escritor, Carlos de Faria publicou várias obras de ficção, nomeadamente os livros intitulados 1:000$000 reis, [189-], O Piano (1893), Portugueses Cosmopolitas (?) e Diniz (1898). Em colaboração com Joaquim de Melo Freitas, publicou a obra Homenagem ao distinto explorador de África Serpa Pinto. Para além disso, cooperou em diversas iniciativas de relevo na vida social e cultural aveirense."
(Fonte: http://sites.ecclesia.pt/cv/carlos-de-faria-jornalista-e-escritor/)
Encadernação em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Páginas apresentam acidez.
Raro.
Indisponível

19 julho, 2023

A REGIÃO DO VOUGA.
Aveiro, Agueda, S. Pedro do Sul, Vizeu. Indicações geraes para uso dos viajantes - Sociedade Propaganda de Portugal. Lisboa, Composto e impresso na Typ. da «Gazeta dos Caminhos de Ferro», 1917. In-8.º (15,5 cm) de 63, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante roteiro turístico.
Assinala os locais e monumentos emblemáticos dos concelhos situados na região de Lafões, tudo devidamente acompanhado de apontamentos históricos e geográficos sobre as vilas e cidades mais relevantes.
"Esta linha que tem o seu inicio em Espinho e o seu terminus em Vizeu, desenvolve-se na mais pictoresca a accidentada directriz, na extensão de 141 kilometros, atravessando uma região verdadeiramente encantadora, bordejando precipicios, contornando montanhas e apresentando aos olhares extasiados do turista as mais diversas e variadas paisagens, os mais surprehendentes pontos de vista, os mais risonhos e alegres panoramas. [...]
A concepção do traçado e a sua execução rapida e feliz, constituem uma gloria da engenharia portugueza, incluindo as suas obras de arte pontes arrojadas e viaductos importantes, todos de alvenaria, e, alguns, de vãos muito superiores aos maiores até agora admitidos entre nós, o que representa, na phrase, concisa mas sobremodo justa, do illustre engenheiro Sr. J. Fernando de Sousa, «licção e exemplo valioso»."
(Excerto de A linha do Valle do Vouga)
Índice:
A linha do Valle do Vouga. | Aveiro. | Agueda. | S. Pedro do Sul. | Vizeu.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico.
Indisponível

14 abril, 2023

BAPTISTA, Augusto Soares de Sousa -
SÔZA.
[Por]... Do Instituto de Coimbra. Aveiro, [s.n. - Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, L.da - Coimbra], 1955. In-4.º (24,5 cm) de 11, [1] p. ; B. Separata do vol. XXI do Arquivo do Distrito de Aveiro
1.ª edição independente.
Curiosa monografia histórica sobre Soza, castiça vila do concelho de Vagos - Aveiro.
"Entende cada um que a sua vila ou aldeia não é digna nem honrada e tiver as raízes à flor do tempo e, por isso, lhas mergulha nas mais distantes camadas, onde à luz titubeante da verdade nasce a História humana. Assim sucede a Sôza, assim acontece com todas. E. todavia, foi só a partir de 1088 que tivemos conhecimento da existência desta terra linda, que, no dizer errado de alguns de seus filhos, só dá mulheres feias. Já lá vão mais de oito séculos, mas o que é isso para quem foi buscar as suas origens para além dos Romanos?
Será assim? É o que vamos ver.
Em 1015 ou 1016 Afonso V de Leão decidiu-se  recuperar as terras dentre Douro e Mondego que desde 987 andavam em mãos de mouros governados pelo renegado Froila Gonçalves. O seu exército vitorioso entrou em Montemor e o Rei, pondo ali a Mendo Luz como governador fiel, voltou a Leão. Os mouros, porém, não se acomodaram com a derrota; reagiram e em consequência retirou-se Mendo Luz para as terras de Santa Maria; de novo recuaram as fronteiras dos estados cristãos, agora para uma linha que ia da foz do Vouga ao Caramulo, por entre as actuais Mealhada e Anadia, que naquele tempo ainda não existiam. Também o Vouga levava as águas directamente ao mar por ainda não estar formada aquela faixa de areia que o separa da ria. E foi assim que as terras da margem esquerda do Vouga, junto à sua foz, ficaram novamente sob a jurisdição mourisca, enquanto as da direita formavam, com as que ficavam a norte da linha acima referida, as Terras do Julgado de Vouga, sob domínio cristão."
(Excerto do texto)
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
Com interesse histórico e regional.
15€

01 abril, 2023

CHRISTO, António -
CANCIONEIRO DE SANTA JOANA PRINCESA
. Porto, [s.n.], 1956. In-8.º (19,5 cm) de 26, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Trabalho pioneiro de recolha de composições poéticas alusivas a Santa Joana Princesa.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa do autor ao Dr. Alberto Soares Machado, ilustre médico aveirense.
"São pouco numerosas, e nem sempre felizes, as composições dramáticas e poéticas sobre a «excelente Infante e singular Princesa», filha excelsa de El-Rei D. Afonso V e padroeira celeste dos aveirenses.
Não atino com explicação cabal para esta desoladora penúria, em flagrante contraste com uma abundantíssima e muito valiosa produção de outros géneros literários, em que sobressaem os cronistas, os historiadores, os biógrafo, os panegiristas e os críticos.
Merece, todavia, ser estudado o que se conhece de dramaturgos e poetas sobre a esbelta e virtuosa Princesa-Infanta.
Se é certo que em literatura só permanece o que atinge expressão perfeita e que não podem dizer-se impecáveis todos os autos e versos inspirados na vida luminosa de Santa Joana, não é menos verdade que alguns conseguiram alcançar notável beleza e despertar fundas emoções."
(Excerto da introdução)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas algo oxidadas.
Raro.
15€