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23 novembro, 2025

LEAL, J. da S. Mendes -
INFAUSTAS AVENTURAS DE MESTRE MARÇAL ESTOURO : victima d'uma paixão
. Lisboa, Livraria de A. M. Pereira, 1863. In-8.º (17,5x11,5 cm) de VII, [1], 322, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Romance histórico cuja acção se divide entre Portugal e Brasil, reportando ao período de ocupação filipina do país.
"Mestre Marçal, que mal apparecia dava alegrão ao rapasio e vadiagem desde as portas de Alfôfa até ao arco dos Escudeiros, era em 1622 um individuo esguio, sinuoso, engoiado, alluido e desengonçado, cujo esqueleto, mal cosido n'uma rede de musculos por uns restos de membrana fibrosa, dançava um bolero desregrado e perpetuo no amplo interior do corpete e calções de estamenha, que fluctuavam ironicamente pelos contornos angulosos d'aquella mumia ambulante. O arcabouço, equilibrado nos fusos a que elle por basofia chamava as suas pernas, tinha por bases dois pés, que davam quatro, todos recortados de promontorios, e por cupula uma cara empastada em pergaminho, que poderia servir ás descripções analyticas do proprio Flourens e ás mais minuciosas observações de osteologia comparada.
Por que successivas degradações chegara mestre Marçal a este extremo de tenuidade, de esvasiamento, de exhaustação, de quasi transparencia? Aprenderá o mundo o que faz uma sina fatal, o que pode um affecto obstinado, e em que abysmos precipitam as cegueiras da paixão violenta e contrariada. [...]
Os gaiatos do sitio, afferrados á onomatopeia como todos os gaiatos de todas as épocas, tinham-lhe posto por alcunha: «mestre Estouro.»
Não podia o mestre sair á rua que o não seguisse um coro turbulento, grunhindo, guinchando, latindo, chiando e ganindo-lhe uma acclamação burlesca e estrepitosa, com taes variedades imitativas, que abrangiam o diapasão completo do reino animal.
- «Lá vae mestre Estouro, lá vae mestre Estouro!» - vozeava a turba maltrapilha apenas o avistava. E logo investia atraz d'elle, engrossando a cauda á sua popularidade alfamista.
Mestre Marçal porém ia seu caminho com a magestade dos graves infortunios, e só respondia com a silenciosa e magnanima superioridade, que dá o costume das catastrophes, deixando berrar a mó dos garotos, como hoje em dia um estadista impavido, que leu Horacio em pequeno, deixa trovejar as tempestades parlamentares.
- Mas por que motivo chamavam os gaiatos a mestre Marçal «mestre Estouro?» [...]
Era mestre Marçal natural de Lisboa, onde exercera em tempos elizes a profissão de fogueteiro, com tamanho applauso, que não havia festa ou romaria, um par de leguas em redondo, na qual se não invocasse o seu valioso auxilio, como se diz na actualidade."
(Excerto de I - De como mestre Marçal tomou estado)
José da Silva Mendes Leal (Lisboa, 1820 - Sintra, 1886). "Foi um escritor, jornalista, diplomata e político português. Trabalhou na Biblioteca Nacional de Lisboa, de que foi diretor, e dedicou-se ao jornalismo, colaborando na Revista Universal e em O Panorama, entre outras. Foi deputado, par do Reino e ministro de um dos governos de Costa Cabral, tendo terminado a sua carreira como ministro plenipotenciário de Portugal em Madrid e Paris. Foi grão-mestre da Maçonaria. Escritor ultra-romântico, notabilizou-se como dramaturgo de sucesso, embora tenha também publicado poesia, ficção e história e se tenha dedicado à tradução. O seu sucesso no teatro teve início em 1839 com o drama histórico O Homem da Máscara Negra."(Fonte: Wikipédia)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado. Pastas apresentam cantos esfolados. Se, f. ante-rosto.
Raro.
Indisponível

31 janeiro, 2023

LEAL, J. da S. Mendes - OS MOSQUETEIROS D'AFRICA
. Lisboa, Livraria de A. M. Pereira, 1865. In-8.º (18 cm) de IX, [1], 393, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Edição original de uma das mais estimadas obras de Mendes Leal. Obra que se insere na corrente literária do ultra-romantismo, trata-se de um romance histórico cuja acção decorre em Lisboa, na época da Restauração da nacionalidade.
"Era a ultima noite de novembro do anno do Senhor 1640. Prateava os ares um luar como de dia, pesava na cidade um silencio como de deserto.
Ao nascente do Rocio ficava então o dormitorio do mosteiro dominicano occupando quasi um terço da praça por aquelle lado. Seguia-se-lhe o ádito do Hospicio da Senhora do Amparo, e o sumptuoso edificio do Hospital de Todos os Santos, tudo na mesma linha.
A arcada do dormitorio dos frades e a do Hospital, constituindo um formoso corpo de cantaria e servindo de passagem coberta, eram n'aquella época singularmente conhecidas e affamadas. Nos bancos de pedra, que interiormente guarneciam o largo corredor, faziam todas as terças feiras seu mercado os vendedores de holanda, canequim, linho, cassa, rendas, trancelins e outras meudesas. [...]
Os raios da lua, passando serena no profundo anil do ceu, clareavam em cheio a frontaria do palacio, em quanto sob a arcada era profunda a obscuridade, como que mais entenebrecida ainda pela opposição d'aquelles palidos reflexos.
Além a zona luminosa, e da orla branca do luar, as trévas carregavam-se, e condensavam-se mais e mais, como acontece quando a noite se adianta com as horas que precedem o alvorecer.
Todavia, quem rondasse o largo e attentasse bem, poderia ver sentado n'um dos bancos de pedra, ao fundo, entre as pilastras da arcada, um vulto cuidadosamente envolto n'uma capa de estramenha escura, fraco resguardo para o frio cortante que fazia."
(Excerto do Cap. I - Os arcos do Rocio)
José da Silva Mendes Leal (1818-1886). "Poeta, romancista, crítico e historiador português, de nome completo José da Silva Mendes Leal Júnior, nascido a 18 de outubro de 1818, em Lisboa, e falecido a 22 de agosto de 1886, em Sintra. Destacou-se sobretudo como dramaturgo. Foi bibliotecário-mor da Biblioteca Nacional, sócio da Academia Real das Ciências e membro do Conservatório, entre outras associações científicas e literárias, deputado pelo partido cabralista e ministro. Entre poesias, publicações de romances em folhetim e textos de crítica e teorização literárias, deixará uma vasta colaboração em periódicos como O Panorama, a Revista Universal Lisbonense, o Cosmorama Literário, O Clamor Público, A Época e A Aurora, de que será diretor, em 1845."
(Fonte: infopédia)
Belíssima encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Mancha junto do corte lateral atinge primeiras folhas do livro, sem contudo perturbar o texto.
Raro.
45€

08 janeiro, 2023

CUNHA, Sebastião Pereira da - O SAIO DE MALHA : drama historico e original, em tres actos
. Vianna, Typographia Silva Braga, 1893. In-8.º (21 cm) de 85, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Peça histórica em verso cuja acção decorre em Portugal, no século  XIII. "O 1.º e 2.º actos passam-se na freguezia de Airó, junto a Barcellos, e o 3.º em Braga nos paços do arcebispo D. João Egas. Epocha; 1245 a 1248."
Exemplar com dedicatória autógrafa de António Pereira da Cunha, filho do autor.

Egreja rustica na freguezia de Airó. Em frente a serra do mesmo nome e ao lado a cabana palhiça de Martim Peres. Á porta da parochial, sentado em uma cadeira de pedra, João Annes, o abbade da freguezia, acaba de fazer a catechese e diz dirigindo-se ao grupo de vilões, que respeitosamente o tem escutado:

Terminou a oração. Agora, podeis ir
Filhos em Jesus Christo. Ide folgar e rir.
Raparigas, cuidado! A honra da donzella
É grão thesoiro, e, como a chamma de uma vella,
Qualquer sopro a desfaz. Folgae, mas sêde honestas.
Moços, amae a Deus, a patria, e as vossas béstas.
Combatei pela cruz, que a guerra é santa quando
Tem por fim destruir as hostes do nefando
Propheta Mahomet.

(Excerto da 1.º Acto - Scena I)

Sebastião Pereira da Cunha (1850-1896). "Nasceu em Viana do Castelo, a 9 de fevereiro de 1850 e faleceu a 20 de setembro de 1896, na mesma cidade. Senhor do Castelo de Portuzelo por sucessão, poeta e prosador como seu pai, [António Pereira da Cunha] - coronel de milícias de Viana, e combatente na Guerra Peninsular. Publicou a maior parte da sua obra em Viana do Castelo. Participou na revista literária Pero Galelo no ano de 1882, dirigiu e criou juntamente com João Caetano da Silva Campos e Rocha Páris, no jornal Bandeira Branca em 1893. Autor de uma obra literária diversificada, na qual se incluem O saio de malha (1893) e o ensaio, Os heróis de África (1895). Mas foi sobretudo como poeta ultra-romântico que se destacou, sendo as suas obras mais conhecidas, Martim de Freitas, datada de 1887, A cidade vermelha de 1894 e Serões de Portuzelo do ano de 1928 (“Vida Cultural em cidades de província,” n.d.)"
(Fonte: Martins, Sara Filipa Ramos Martins, O Castelo de Portuzelo: Análise interpretativa de uma construção romântica, Universidade do Minho-Escola de Arquitectura, 2019)

Encadernação em meia de percalina com ferros gravados a ouro na ombada. Conserva a capa frontal.
Exemplar em bom estado de conservação. Capa frágil, algo oxidada.
Raro.
Indisponível

06 agosto, 2017

O TROVADOR. Collecção de poesias contemporaneas redigida por uma sociedade d'academicos. Coimbra: Na Imprensa de E. Trovão, 1845-1848 [na f. rosto, 1848]. In-8.º (20x13 cm) de [8], 400 p. ; E.
1.ª edição.
Colectânea de poesias de inspiração ultra-romântica assinadas por jovens estudantes da Universidade de Coimbra, sendo a organização da responsabilidade de João de Lemos e António Xavier Rodrigues Cordeiro.
No final do livro é narrado o passeio de barco pelo Mondego que em 1844 fizeram "os mancebos poetas d'O Trovador", seguido de animado repasto na Quinta das Varandas.
Colaboraram nesta publicação: A. Cabral Couceiro; A. Gonçalves Dias; A. Maria do Couto Monteiro; A. Pereira da Cunha; A. De Serpa; A. X. R. Cordeiro; A. Lima; Ayres de Sá Pereira e Castro; Evaristo Basto; F. de Castro Freyre; F. Palla; H. O’ Neill; J. A., J. da Costa Cascaes; J. Freyre de Serpa; J. Fructuoso; D. João de Azevedo; J. de Lemos; J. M. Borges; J. A. Palmeirim; L. Correia Caldeira; L. da Costa Pereira; L. da Silva Mousinho d’ Albuquerque; Nuno Maria de Sousa Moura. Almeida Garrett também emprestou a sua colaboração (pp. 151), preferindo no entanto não assinar o seu texto.
"O Trovador não é um simples jornal, que represente o pensamento de um homem, nem é tambem a expressão de nova corporação, como talvez parece.
Além do merito pessoal dos seus redactores, além do mui elevado conceito, que a todos merece a Universidade de Coimbra, existe uma idêa grandiosa, que hade communicar ao Trovador a immortalidade.
Os sons maviosos com que a sua lyra louva a Religião de nossos maiores, as canções em que a honra e o valor portuguez brilham cercadas pela gloria, são o pensamento da nova geração.
O Trovador irá até á posteridade coroado com os louros que o adornam, porque traz no peito como divisa a cruz, e traja as côres nacionaes. [...]
A religião e a nacionalidade brilham nas suas paginas. - É um livro que não ha de morrer. A sua collecção será um dia precioso thesouro para os que tiverem de formar a historia litteraria do nosso seculo.
Esperamos que a mocidade academica não interromperá nunca uma publicação, que não será o menor padrão da sua gloria."
(Excerto de Juizo, Sobre o Trovador...)
João de Lemos de Seixas Castelo Branco Nascimento (1819-1890). Poeta ultra-romântico português, natural do Peso da Régua. “O «trovador» João de Lemos, como era conhecido desde o tempo de Coimbra, onde se formou em direito, pela publicação do jornal poético O Trovador, interessantíssimo repositório das produções poéticas dum grupo de moços estudantes. Além dele, alma e director dessa publicação, faziam parte do Trovador Luís da Costa Pereira, António Xavier Rodrigues Cordeiro, José Freire de Serpa, Augusto Lima e Couto Monteiro.”
“Além de poesias de pendor ultra-romântico, escreveu o livro em prosa Serões da Aldeia. O seu lirismo piegas foi criticado pelos escritores realistas. O poema "A Lua de Londres" é ridicularizado numa passagem de Os Maias de Eça de Queirós.
Obras: Poesia – Cancioneiro (1858-1867); O Livro de Elisa: Fragmentos (1869); Canções da Tarde (1875); O Tio Damião (poema lírico, 1886); O Monge Pintor (1889). Prosa – Serões de Aldeia (1876). Teatro – Maria Pais Ribeira (drama em 4 atos); Um Susto Feliz (comédia).”
António Xavier Rodrigues Cordeiro (Cortes, Leiria, 28 de Dezembro de 1819 - Lisboa, 11 de Dezembro de 1896). "Foi um poeta ultrarromântico, jornalista e político português.
Graduado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi, por várias vezes, deputado às Cortes. Combateu a ditadura cabralista, tendo participado da revolta da Maria da Fonte (1846) e da guerra da Patuleia (1846-1847).
Colaborou em diversos jornais e revistas, alguns dos quais fundou e dirigiu. Em 1844 fundou, com João de Lemos, o jornal de poesias O Trovador, órgão da juventude estudantil conimbricense da década de 1840 e um dos principais repositórios do ideário poético da segunda geração romântica. Em 1854 fundou O Leiriense, onde publicou as crónicas históricas posteriormente coligidas nos dois volumes de contos de Leituras ao serão. A partir de 1862 dirigiu o Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, onde publicou várias biografias de escritores portugueses e brasileiros. Colaborou com artigos literários e poesias em vários outros periódicos, como O Bardo, O Panorama, o Jornal de Belas-artes, a Revista Académica de Coimbra, O Instituto, A Revolução de Setembro, o Jornal de domingo (1881-1888) e a Revista Universal Lisbonense (1841-1859). Em 1889 reuniu a sua obra poética nos dois volumes de Esparsas. Em sua homenagem, a Cartes - Associação de Autores das Cortes instituiu o Prémio Literário Rodrigues Cordeiro, em parceira com a Casa Museu Centro Cultural João Soares.
Entre seus trabalhos conhecidos destacam-se os artigos de natureza política, além de uma série de pequenas crónicas históricas (que foram mais tarde editadas em dois tomos, com o título Serões de História) e poemas, alguns dos quais se tornaram muito populares, como, por exemplo, "A doida de Albano" (1874), "Tasso no hospital dos doidos", "O Outono", "O conde de Alarcos" – lenda popular impressa na Revista Académica de Coimbra (1845).
Rodrigues Cordeiro era tio-avô de Afonso Lopes Vieira."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação coeva em meia de pele com cantos, e ferros gravados a ouro na lombada. Corte das folhas pintado de amarelo.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Com mancha antiga de humidade no terço inferior do livro, mais visível nas primeiras folhas.
Raro.
Peça de colecção.
85€