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23 junho, 2025

MORAES, Anacleto da Silva -
MALHOADA : poema heroi-comico em 5 cantos. Por... (Impresso em 1881 e publicado em 1894)
. Barcellos, Typographia da Aurora do Cavado, 1884 [capa, 1894]. In-8.º (17x12,5 cm) de VIII, 58, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Obra maior do autor. Trata-se de uma paródia a António Malhão, poeta em voga na época em que o poema foi composto, no final do século XVIII, tendo o poema circulado através de cópias manuscritas, como era uso então, até à sua publicação em livro - a presente edição.
"Este poema, que ficou inédito, foi composto em verso solto e 5 cantos por Anacleto da Silva Morais, oficial maior do antigo tribunal da junta do comércio. Em 1894 o dr. Rodrigo Veloso salvou da obscuri- dade a Malhoada, dando-a a público em Barcelos, e bem haja por fazê-lo, pois que ela é um dos nossos melhores poemas heroi-cómicos depois do Hissope. Menos ampla na arquitectura e vitalizada por menor fôlego, merecia contudo as honras da impressão. Como sátira pessoal que é, de carácter principalmente literário, não desluz hoje, antes aviva, a memória do protagonista: António Gomes da Silveira Malhão. Ainda que a existência de Anacleto de Morais haja excedido o primeiro quartel do século XIX, pode fixar-se com segurança a época da elaboração da MaIhoada; foi anterior a 1786, ano em que faleceu António Malhão."
(Fonte: Pimentel, Alberto - Poemas Herói-Cómicos Portugueses, Renascença-Porto, 1922)

"Canto o Malhão, e a vida extravagante
De insipido trovista, que arrojára
Avesso Fado, desde os patrios lares
A ver de Luso a capital da cidade.
Jocosa Musa, que em tão tenros annos
Quizeste bafejar-me a vaste ideia,
Não te envergonhesd de invocar teu nome
Para cantar assumptos tão rasteiros,
Emquanto as debeis penugentas azas
Não me permittem revoas mais alto,
E tu, Lereno amigo, que em meu canto
Sempre ao lado serás sobre as estrellas,
Acolhe a bronca Lyra, que dedico
Á gratidão e á candida amizade.
Se o teu saber profundo e se o teu braço
Para me defender ao lado tenho,
Verás como encarando a vil caterva
De atrevidos pedantes, que me insultam,
Qual carniceiro lobo invisto, aterro
Pavorosa phalange de rafeiros.
Grande Lisboa, abrigo de caturras,
Quam funerea te foi a infausta perda
Do gritador Valverde, que inda choram
Um Luiz Gaspar, um Braga, um Talaveira!
Façanhudo Dom Felix que assombraste
Da rua suja as bellas moradoras,
Inda limpando a esqualida ramela,
Solicito cultor do cemiterio,
Em quanto arranca sobre o teu sepulchro
As crespas couves, os succosos nabos
Repete os versos teus, chora o teu fado!
[...]
Emquanto houver Malhões, que o mundo alegrem.
A Fortuna, que ouvio da triste Lisia
Pela falta de bobos consternada,
Os lastimosos, vividos suspiros,
Em dar-lhe não tardou prompto remedio.
Na testa de um aalgosa penedia
Que humanas forças escalar não pódem..."

(Excerto do Poema)

Anacleto da Silva Moraes foi Official maior da Secretaria do Tribunal do Commercio, extincto em 1833. - Creio que foi Socio da Academia de Bellas Artes de Lisboa, mais conhecida pela denominação Nova Arcadia. Pelo menos é certo que tinha grande intimidade com o presidente d'aquella Academia Domingos Caldas Barbosa: e no Almanach das Musas, parte IV a pag. 78, vem uma Ode sua. - Ignoro a sua naturalidade, mas sei que falleceu em Lisboa, na freguesia da Encarnação, a 17 de Dezembro de 1831, em edade provecta. [...]
Entre o grande numero de poesias que escrevera, e que ou se extraviaram por sua morte, ou existem talvez em poder dos seus parentes, avulta um poema heroi-comico em cinco cantos, hoje quasi desconhecido, e composto, segundo parece nos fins do seculo passado. Serviu d'assumpto a esta composição a pessoa e obras do poeta Malhão, de Obidos, que por esse tempo gosava em Lisboa de alguma celibridade como improvisador facil e conceituoso. Intitula-se A Malhoada, é em verso solto, e offerece por todo o seu conceito notaveis pontas de similhança com o Hyssope. Ha mesmo alguns episodios em que ninguem poderá  desconhecer a imitação caracteristica e bem pronunciada. Todavia, á parte o senão de satyra pessoal, parece-me bem escripto, e prova irrefregavel do talento do auctor. Possuo d'elle uma copia, extrahida ha já bastantes annos de outra, que um amigo me facilitou, e é possivel que em Lisboa existam mais algumas, de que eu não tenha noticia."
(Breve noticia do auctor da «Malhoada», extrahida do «Diccionario Bibliographico Portuguez»)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos. Lombada apresenta restauro tosco.
Raro.
Peça de colecção.
35€

07 abril, 2025

COSTA, José Daniel Rodrigues da -
O HOMEM DOS PEZADÊLOS OU TRESVALIOS DO SOMNO; que podem ser postos em ordem pelos acordados
. Lisboa: 1823. Na Impressão de Victorino Rodrigues da Silva. Calçada do Collegio N.º 6. In-8.º (20x14 cm) de 24 p. ; E.
1.ª edição.
Curioso folheto de cordel. Foi reimpresso no ano seguinte (1824), Na Impressão de João Nunes Esteves.
"Discreto e amavel Leitor, eu dormi, sonhei, e escrevi os sonhos que tive com os olhos fechados, que talvez aproveitem aos que tem os olhos abertos: Os sonhos desta qualidade não fazem cólica, porque não são daquelles do entrudo com recheio de descomposturas regateiraes, que atacão hoje em dia toda a qualidade de Pessoa.
Sei que não nos he permittido dar credito a sonhos; porque o que se passa a dormir, he o mesmo que nada; mas o certo he, que quando eu sonho cousas de gosto, mesmo dormindo me alegro; porque não conheço alli a sua falsidade; em fim receba estes sonhos cada hum como quizer."
(Excerto do Prologo)
José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Foi um poeta português, natural de Colmeias, Leiria. Pertenceu à Arcádia Lusitana. Como poeta árcade, utilizou o pseudónimo Josino Leiriense. Teve uma vida de notoriedade social e intelectual activa, testemunhada pelas várias obras literárias que publicou, quase sempre sob a forma de opúsculos que se vendiam como "livros de cordel". Foi popular a sua rivalidade com Bocage.
Encadernação em tela com ferros gravado a seco e a ouro na pasta anterior.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
25€

12 abril, 2022

PALMA-FERREIRA, João - ACADEMIAS LITERÁRIAS DOS SÉCULOS XVII E XVIII.
Ministério da Cultura e Coordenação Científica : Secretaria de Estado da Cultura
. Lisboa, Biblioteca Nacional, 1982. In-4.º (23,5 cm) de 60, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Importante ensaio histórico sobre o academismo.
"A notícia acerca das primitivas Academias, intimamente ligas ao passado remoto e mítico, estão amplamente divulgadas.
A palavra «academia» é muito velha. Deriva de Ekademos ou Akademos, o homem que revelou aos perseguidores de Helena e de Teseu o local onde a heroína se escondia, um jardim das cercanias de Atenas que Akademos legou ao povo. [...]
"Mais modernamente passou a entender-se por Academia uma instituição que não se destina ao ensino sistematizado de todas as ciências, mas apenas de uma ou de várias ou que - o que é mais comum - se aplica a estudos artísticos. Na essência, porém, as Academias como tal tradicionalizadas continuam a ser autênticas sociedades de erudição, regidas por estatutos próprios, tendo como modelo mais recente a Academia Francesa. A sua intervenção cultural, notável em finais do século XVIII e no século XIX, tem sofrido as consequências naturais do envelhecimento das instituições e do desgaste da reacção antiacadémica que começa fazer sentir-se a partir das últimas décadas do século XIX.
Não convém esquecer que o próprio associativismo (que em Portugal floresceu depois de 1860) timbrou de um cariz social específico as Academias fundadas a partir dos últimos decénios de Oitocentos, muito distintas já das suas congéneres dos séculos XVII e XVIII e com as quais, aliás, têm poucas afinidades; algumas dessas últimas Academias, instituições de compromisso das novas tendências associativas e das velhas motivações académicas, receberam, em muitos casos, o nomes significativos de associações e sociedades, num caso e noutro respondendo as graus diferentes de exclusividade e vocação e interesses, de objectivos científicos ou meramente sociais, repetindo, na prática, conceitos em voga noutros sectores, muito distintos, de convívio e de preocupações."
(Excerto do preâmbulo - Nota prévia)
Índice:
Nota prévia. | O academismo no século XVII. Aspectos gerais. II - No século XVII: Academia dos Singulares de Lisboa; Academia dos Generosos; Academia Instantânea; Academia dos Únicos; Academia dos Estudiosos. III - No século XVIII: Academia dos Ocultos; Academia dos Anónimos; Academia dos Ilustrados; Academia Problemática; Academia dos Aplicados; Academia dos Unidos de Torre de Moncorvo; Academia Vimaranense; Academia dos Escolhidos; Outras Academia; Arcádia Lusitana ou Olissiponense;A Nova Arcádia. IV - Academias eclesiásticas: Academia Eborense; Academia Conimbricense; Academia Bracarense ou dos Engenhosos Bracarenses; Academia do Núncio; Outras Academias eclesiásticas. V - Paródias académicas: Academias dos Sovelantes e dos Fleumáticos. VI - As Academias no Brasil: Academia Brasílica dos Esquecidos; Academia Brasílica dos Renascidos; Outras Academias brasileiras. | Alguns textos exemplificativos: António Serrão de Castro; Bartolomeu de Faria; Francisco Lopes Sueiro; Sebastião da Fonseca e Paiva; André Leitão de Faria; António de Brito e Oliveira; Vicente da Silva; Pedro José da Silva Botelho; Joaquim Bernardes de Santa Ana; Pedro António Correia Garção; Lourenço Botelho Soto Maior; José do Couto Pestana. | Bibliografia seleccionada.
Exemplar em brochura, bem conservado.
Invulgar.
Com interesse histórico e literário.
25€

22 setembro, 2020

AMARAL, Eloy do - BOCAGE. Fragmento de um estudo auto-biographico. Por... Figueira, Imprensa Lusitana de Augusto da Veiga, 1912 [capa, 1913]. In-8.º (23,5 cm) de 40 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Importante peça bocagiana. Edição original, impressa na Figueira da Foz, deste curioso estudo biográfico e poético sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), poeta árcade natural de Setúbal.
Ilustrado com um retrato de Bocage em página inteira.
"Ha sobre a vida, epoca e obra do glorioso Elmano, trabalhos d'um alto valor litterario e historico, como os de Rebello da Silva, dr. Theophilo Braga e Pinheiro Chagas, mas estes, além de serem muito extensos e largamente documentados, não são como o nosso, um estudo auto-biographico, onde quasi que exclusivamente aproveitámos os versos do poeta, conseguindo dar assim, em poucas paginas, uma synthese biographica d'essa extranha e complexa individualidade poetica do seculo XVIII, d'esse famoso vate tão sublime de inspiração e lyrismo, tão vibrante na satyra e no epigramma, incomparavel no soneto, e, como dissémos tambem em algumas linhas para acompanhar o retrato do genial bardo sadino, o mais legitimo representante do repentismo poetico nacional.
É sempre agradavel ter occasião de pôr em evidencia o estro fecundo e admiravel de Elmano, tanto mais que elle é ainda para muitos sómente o poeta chocarreiro dos botequins e dos terreiros dos conventos, o bohemio das arruaças, turbulento e audacioso, sempre em companhia de fidalgos estouvados e frades foliões, quando não apenas conhecido por simples brégeiro.
E é a mulher, a mulher por quem elle tinha um verdadeiro culto, que cantou com tanto enthusiamo, tão lindamente, tão apaixonadamente em estrophes d'oiro, ao som mavioso da sua lyra vibrante  de inspiração e sentimento, que mais conserva essa deploravel tradição e mais desconhece o cantor da emocionante e sentida historia da morte de Leandro e Hero!"
(Excerto do Preambulo)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos marginais. Assinatura de posse na 1.ª página de texto.
Raro.
Indisponível

20 maio, 2020

BRAGA, Theophilo - HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ. Por... Garrett e os Dramas Romanticos : seculo XIX. Porto, Imprensa Portugueza - Editora, 1871. In-8.º (18 cm) de VIII, 296 p. ; E.
1.ª edição.
Importante subsídio para a história do Teatro em Portugal. Edição original publicada na apreciada colecção Historia da Litteratura Portugueza, parte de um plano antigo do autor para a história do teatro português em quatro volumes, contemplando vários períodos - do século XVI ao século XIX -, sendo este o último, dedicado ao século XIX. Esse plano seria revisto, com a publicação de outras obras sobre o teatro pátrio no final da centúria.
"Eis o escriptor a quem o theatro portuguez mais deve, que o erigiu com a sua preponderancia politica, que o formou com os bellos dramas sobre as ricas tradições nacionaes, que educou uma mocidade inerte, e que teve o magico poder de apaixonar o publico cansado das sanguinolentas luctas civis, a ponto de considerar a fundação do theatro portuguez como um symbolo da sua independencia e da nova vida social. Garrett era dotado em alto grau da intuição das causas bellas, de tal fórma que o gosto artistico suppria n'elle a falta de sciencia. Teve defeitos de caracter, mas era uma boa alma; fiquem na sombra esses traços menos correctos do homem, e para não vêl-o sómente através do ideal da sua obra, esboçaremos a sua vida tal como foi influenciada pelo tempiveu. Garrett era exageradamente sentimentalista; não separava a concepção da sua personalidade, deliciava-se com as palavras de louvor, chegando a escrever anonymamente a sua biographia [no Universo Pittoresco]."
(Excerto Os Dramas romanticos: II - Vida de Almeida Garrett)
Index:
Advertencia. | Influencia da Nova Arcadia: I - Enthusiasmo politico nos Theatros (1801-1829). II - João Baptista Gomes. III - As tragedias politico-philosophicas. IV - Antonio Xavier Ferreira de Azevedo. Os Dramas romanticos: I - A Eschola do Romantismo no Theatro. II - Vida de Almeida Garrett. III - Garrett na emigração. IV - Nova feição dramatica de Garrett. V - Garrett e o Frei Luiz de Sousa. Fundação do Theatro moderno: I - O Theatro nacional (1836-1854). II - Inspecção geral dos Theatros. III - O Conservatorio da Arte dramatica. IV - Edificação do Theatro. V - O Ultra-Romantismo. | Conclusão. Repertorio geral do Theatro portuguez no seculo XIX.
Belíssima encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
45€

18 dezembro, 2019

QUITA, Domingos dos Reis - OBRAS DE DOMINGOS DOS REIS QUITA, CHAMADO ENTRE OS DA ARCADIA LUSITANA ALCINO MICENIO. Terceira edição. Tomo I [e Tomo II]. Lisboa, Na Typographia Rollandiana, 1831. Com Licença da Meza do Desembargo do Paço. 2 vols in-18.º (10,5 cm) de 220 p. (I) ; 200 p. ; E. (num único tomo)
Terceira edição do obra do poeta árcade Reis Quita, a primeira publicada no século XIX. A edição original fora publicada em 1766, ainda em vida do vate, e uma outra " correcta e augmentada", em 1781.

"Contra Lisboa Antonio glorioso
A Omnipotente Mão vio levantada,
E correo a livrar a Patria amada
Do terrivel estrago pavoroso.

Levanta os rogos, antes que furioso
O Senhor descarregue a justa espada:
Tanto em fim lhe supplica, tanto brada,
Que logo hum Deos irado vio piedoso.

Por seu ardente zelo suspendido
Vemos ser o castigo mais horrendo,
Que tantos Homens tinhaõ merecido.

Oh qaunto a tal Patrono estaõ devendo!
De hum Deos taõ justamente enfurecido
Está o fatal raio suspendendo."

(Tomo II, Soneto III, A Santo Antonio, pelo Terremoto do primeiro de Novembro de 1755)

Domingos dos Reis Quita (1728-1770). "Poeta português, nascido em Lisboa. De família humilde e numerosa, começou a trabalhar ainda muito novo como cabeleireiro, para ajudar financeiramente a família. Autodidacta, conseguiu aprender francês, italiano e castelhano. Leitor entusiasta de Camões, António Ferreira e Rodrigues Lobo, começou por frequentar os meios literários, conseguindo a nomeação para bibliotecário do conde de S. Lourenço. A amizade que travou com os poetas Correia Garção e Cruz e Silva permitiu-lhe a entrada na Arcádia Lusitana ou Ulissiponense, tendo então adoptado o nome literário de Alcino Micénio. Poeta arcádico, prosseguiu a tradição do bucolismo português, tendo introduzido entre nós o drama pastoril, de que é exemplo a sua peça Licore, drama bucólico cuja acção decorre na Antiguidade. Na sua obra poética, encontram-se alguns elementos pré-românticos, por influência do alemão Gessner, de que Reis Quita foi tradutor e um dos introdutores em Portugal. Tentou imitar a tragédia clássica, chegando a ter algum êxito com a sua versão de A Castro, versão em três actos que respeitava a regra das três unidades - tempo, acção e lugar - da tragédia clássica francesa. No entanto, esta sua versão não conseguiu ser mais do que uma pálida imitação do original de António Ferreira. Morreu vitimado pela tuberculose e na miséria, depois de ter perdido a protecção do seu mecenas, condenado pelo marquês de Pombal, e de ter visto os seus escassos bens destruídos pelo terramoto de 1755. Passou os seus últimos dias recebendo cuidados daquela que havia amado e cantado, em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim. A sua obra encontra-se reunida em dois volumes, sob o título Obras Poéticas (1766 - 2.ª ed., 1781)."
(Fonte: https://www.escritas.org/pt/bio/domingos-dos-reis-quita)
Encadernação  coeva em meia de pele com rótulos e  ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar cansado, em bom estado geral de conservação.
Invulgar.
25€

26 março, 2018

OLAVO, Carlos - A VIDA TURBULENTA DO PADRE JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO. Lisboa, Livraria Editora Guimarães & C.ª, [1938]. In-8.º (19cm) de 284, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Biografia de José Agostinho de Macedo (1761-1831), padre malandro e patusco, panfletário, poeta e temível polemista, autor de algumas das mais belas peças da nossa literatura de 'escárnio e maldizer'.
"Será talvez curioso saber, para determinar a origem dêste meu trabalho, a razão porque pensei, escolhi e estudei a personalidade de José Agostinho de Macedo, velha figura literária com mais dum século de túmulo, quási esquecida, quási apagada nas sombras que a luz dos tempos vai deixando nos recantos da história.
Essa razão é simples. Um dia, há uns anos atrás, numa hora vertiginosa em que o jornalismo me tentou, tive a idéia de escrever um livro sôbre os jornalistas e panfletários portugueses... [...]
José Agostinho estava destinado a ser o primeiro da série, não só por motivos de ordem cronológica, mas ainda pela riqueza dos factores de reconstituição. E realmente, êle é uma das personagens mais interessantes da nossa história literária porque, além de polemista, foi poeta, prègador, epistológrafo, dramaturgo, crítico e dominou a sua época pela fôrça quási incrível da sua personalidade.
Acresce que é uma figura pitorescamente anedótica, envolvida de episódios, cortada de detalhes sugestivos, facetada de aventuras variadas, que se bem que pertencendo a um passado morto é susceptível de interesse e atenção dos vivos."
(excerto do preâmbulo)
Índice:
Preâmbulo. - A primeira aventura. - José Agostinho em Lisboa. - De convento em convento. - Expulso da religião. - Intermezzo. - Retrato. - Os amôres de José Agostinho. - Vida e idéias literárias. - Vida e idéias políticas. - Doença e morte de José Agostinho. - A posteridade. - Obras consultadas. 
Encadernação em skivertex com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura frontal.
Exemplar em bom de conservação.
Invulgar.
15€

11 janeiro, 2018

COSTA, José Daniel Rodrigues da - A AFFLICÇÃO DOS PORTUGUEZES DESAFOGADA EM LAGRIMAS PELA SENTIDA FALTA DA SUA SOBERANA A SEMPRE MEMORAVEL SENHORA DONA MARIA PRIMEIRA, RAINHA DE PORTUGAL. Por... Lisboa. Na Impressão Regia. Anno de 1816. Com Licença. In-8.º (21,5cm) de 12 p.
1.ª edição.
Obra poética de homenagem à Rainha D. Maria I, por ocasião do seu falecimento, composta por um poema - Canto funebre - e dois sonetos.

"Oh fatal Morte! Oh Morte desabrida!
Que mais queres de nós? Dize inhumana!
Pretendes vêr extincta a Raça humana?
Não tens deitado a foice a tanta vida?

As duas inimigas dos viventes,
O terror do Universo a Fome, e a Guerra,
Avassallando tudo em mar, e terra,
A teus pés não prostrárão tantos Entes?

Não tens juncado toda a Redondeza
De montões de esqueletos victimados
Á furia, á sem-razão desses malvados,
Que até fazem horror á Natureza?

Não ouves a infeliz humanidade
Dar brados contra ti fortes, e justos?
Não vês a confusão, p'rigos, e sustos,
Que cercão a velhice, e a tenra idade?

Faltava-te na Lista, ó Deshumana,
A vida preciosa, que insultaste
Da sublime RAINHA, em que roubaste
A nossa affavel Mãi, digna Sob'rana?"

(Excerto de Canto funebre)

José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Foi um poeta português, natural de Leiria. Pertenceu à Arcádia Lusitana. Como poeta árcade, utilizou o pseudónimo Josino Leiriense. Teve uma vida de notoriedade social e intelectual activa, testemunhada pelas várias obras literárias que publicou, quase sempre sob a forma de opúsculos que se vendiam como "livros de cordel". Foi popular a sua rivalidade com Bocage.
Exemplar desencadernado, por aparar, em bom estado geral de conservação. Mancha de humidade antiga à cabeça, sem no entanto prejudicar a mancha tipográfica.
Raro.
Indisponível

05 março, 2017

SILVA, Luiz Augusto Rebello da – ARCADIA PORTUGUEZA. Volume I [e Volume II e Volume III]. Lisboa, Empreza da Historia de Portugal, Sociedade editora, 1909. 3 vols in-8.º (18cm) de 158, [7] p., 128 p. e 197, [3] p. ; E. Obras Completas de Luiz Augusto Rebello da Silva, XXVIII [XIX e XXX]. Estudos Criticos - III.
1.ª edição.
Importante estudo crítico, histórico e biográfico sobre a «Arcádia Portuguesa», reputada academia literária setecentista.

Obra em 3 volumes (completa). Inclui no final do 3.º tomo "o soberbo artigo" do autor sobre Emilio de Laveleye.
"Rebello da Silva, na sua actividade febril de escriptor, encheu columnas e columnas de Revistas, e outras publicações congéneres do seu tempo, da sua scintillante e malleavel prosa, tocando todos os pontos do saber humano, mas muito especialmente os assumptos literários, que lhe mereciam muito particular predilecção.
D’entre estes destacam-se os estudos literários sobre a Arcadia, ácerca dos quaes escreveu primeiramente artigos seguidos no Panorama de 1853 a 1855, sob o titulo geral de Poetas da Arcadia, e em que tratou successivamente d'estes tres poetas: Pedro Antonio Correia Garção, Domingos dos Reis Quita e Antonio Diniz da Cruz e Silva; e mais tarde um estudo geral, a Arcadia Portugueza, nos Annaes das Sciencias e Lettras, em 1862.

São estes notáveis trabalhos, nunca publicados em volume, que nós vamos reeditar…"
(excerto da Nota dos Editores)
Belíssima encadernação inteira de carneira, com rótulos em carmim e ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Assinatura de posse na f. anterrosto.

Muito invulgar.
Com interesse histórico e literário.
Indisponível

25 novembro, 2016

MONDEGO, Josino do - VIA JOSINAIDA: // POEMA HEROICO, // Em que se descreve a Derrota do presente Com- // boi do Rio de Janeiro até a Bahia, // Commandado // POR // FRANCISCO DE PAULA LEITE. // Composto // POR JOSINO DO MONDEGO. // Offerecido á benévola indulgencia de seus // fiéis Amigos. // [Nau gravada em madeira] // LISBOA: // NA OFFICINA NUNESIANA. // ANNO M. DCC. XCVIII. // Com licença da Meza do Desembargo do Paço. In-8.º peq. (14cm) de 40 p.
1.ª (e única) edição.
Narrativa poética dedicada pelo autor a sua amada, Francina. Descrição da tormentosa viagem marítima do Rio de Janeiro para a Baía de Todos-os-Santos numa nau portuguesa capitaneada pelo valoroso Chefe de esquadra da Real Armada, Francisco de Paula Leite de Sousa, Visconde de Veiros. Possivelmente, tal “aventura” refere-se à viagem comboiada pelo almirante português que finalizaria em Lisboa, em Setembro de 1798, e que causou brado na época.
Sobre essa viagem, empresa por si só justificativa da produção da presente obra, reproduzimos excerto da wikipédia:
[Francisco de Paula Leite] Deu segurança a vasos de comércio e comboios, constando um deles de 122 navios mercantes, além dos de guerra, que conduziu a salvamento debaixo de sua guarda dos portos da América, através de inumeráveis embarcações inimigas, que infestavam os mares, entrando no porto de Lisboa a 10 de Setembro de 1798 com esta mais importante frota, que encheu de ouro os cofres do Real Erário e a praça comercial de Lisboa.”
(wikipédia, in Resenha das famílias titulares do Reino de Portugal acompanhada das noticias biográficas de alguns indivíduos das mesmas famílias, Imprensa Nacional, [S.l.], 1838, p. pp. 287-291)
Relativamente ao autor, não foi possível apurar quaisquer dados biográficos, nem a partir do seu pseudónimo árcade. Fica, porém, a ideia que te feito parte da expedição e que possui vastos conhecimentos náuticos.

"Canta Josino proprias aventuras,
Quando da Capital Americana,
Do Téjo demandando as agoas puras,
Por escala portou praia Bahiana:
Do Boreas supportando as travessuras,
Da saudade cruel, mágoa tyranna,
A Francina descreve, e pinta a imagem
Dos males, e dos bens desta Viagem."

(Argumento)

"Soprava, quando a Frota a Deosa investe,
A branda viração do Nonorueste,
Té que Delio s'esconde ao ledo Rio,
A's faldas nos levou de Cabo-frio:
Mas da Esposa de Erébo o sopro escasso,
Nos fez retrogadar hum longo espasso,
E o fluxo de Nereo, que refervia,
A Rasa nos mostrou no outro dia,
Por mais do quinto sol nós demandámos
O novo Adamastor, que não montámos.
E não podendo ver aos ventos freio,
Demos velas ao Sul deis gráos, e meio,,
Movendo contra nós braveza agreste
A sanha do tyrannico Nordeste,
Forão tudo fataes disposições
De mais, e mais tribulações."

(excerto do poema)

Exemplar desencadernado, aparado, em bom estado geral de conservação.
Muito raro.
Peça de colecção.
A BNP dá notícia de um exemplar pertencente à Biblioteca Central da Marinha.
Indisponível

28 agosto, 2015

SILVA, Antonio Diniz da Cruz e - O HYSSOPE, POEMA HEROI-COMICO DE... Lisboa, Na Typographia Rollandiana. 1808. Com Licença. In-8º (16cm) de 128 p. ; E.
1.ª edição publicada em Portugal (2.ª absoluta). A 1.ª edição foi impressa em Londres [aliás Paris], em 1802).
A respeito d’O Hyssope, e com a devida vénia pelo magnífico texto publicado no blog asinvasoesfrancesas.blogspot.pt , sob o título O Hissope, poema heróico-cómico publicado em Portugal durante o Governo de Junotreproduzimos as palavras dedicadas a esta obra incontornável da literatura portuguesa.
“Em 1768, o bispo de Elvas, D. Lourenço de Lencastre, e o deão do cabido, José Carlos de Lara, tiveram um arrufo que pôs fim ao costume que o último tinha em obsequiar o hissope (ou aspersório, instrumento utilizado para aspergir água benta) ao bispo, sempre que este se dirigia à sé. Ofendido, D. Lourenço de Castro conseguiu que o cabido emitisse um acórdão para obrigar o deão a continuar a executar o antigo costume. O deão protestou ao cabido, ao bispo e até ao metropolita de Évora, vendo sempre baldados os seus esforços e acabando mesmo por morrer, poucos meses depois, sem ver alterada a sentença. Sucedeu-lhe no cargo um seu sobrinho, ao qual também se exigiu o mesmo, sob pena de repreensão e multa. Sem se deixar intimidar, o novo deão apelou desta vez à Coroa. Prevendo um desfecho malogrado, o bispo e o cabido acabaram por riscar os acórdãos do respectivo livro e negar tudo o que se tinha passado. Este caso, que durou à volta de dois anos, foi acompanhado de perto pelos habitantes de Elvas, entre os quais se encontrava António Diniz da Cruz e Silva, exercendo funções de magistratura junto do exército da cidade. Tendo sido um dos fundadores da Nova Arcádia, Diniz aproveitou os seus dotes poéticos para caricaturizar esta "bagatela", compondo assim uma obra intitulada O Hissope, que começava com os seguintes versos:
Eu canto o Bispo e a espantosa guerra
Que o hissope excitou na Igreja d'Elvas.
O Hissope tem a particularidade de ter sido o primeiro poema heróico-cómico criado em Portugal, género hoje desaparecido que se caracterizava por celebrar (e de igual forma satirizar) em tom épico um acontecimento sem qualquer importância, como era o presente caso. A crítica incisiva que Diniz fazia às vaidades eclesiásticas (retratando um clero ignorante, mundano e soberbo) não agradou à censura da Intendência Geral da Polícia – note-se que a Inquisição, apesar de continuar a existir, tinha perdido muita da sua força desde o tempo do Marquês de Pombal –, que proibiu a obra de ser publicada em Portugal. Contudo, não se conseguiu impedir que proliferassem e circulassem diversas cópias manuscritas. Francisco Augusto Martins de Carvalho, na obra abaixo mencionada, catalogou 54 exemplares manuscritos, com algumas variantes entre si, que se encontravam recolhidos em bibliotecas nacionais (embora possivelmente existam ou tenham existido muitos mais). As variantes aludidas entre estes exemplares derivam provavelmente do facto de António Diniz da Cruz e Silva ter ido aumentando, corrigindo e retocando O Hissope quase até 1799, ano em que morreu. Somente três anos depois é que finalmente era publicada a primeira versão impressa. Talvez para desviar a atenção da censura da Intendência da Polícia, que controlava de forma cerrada tudo o que vinha da França desde os tempos da Revolução, esta primeira edição saiu à estampa com a menção de ter sido publicada em Londres, como se pode ver à esquerda, apesar de na verdade ter sido impressa em Paris. Contudo, de pouco serviu esta dissimulação, pois logo em 1803, o Intendente Geral da Polícia, Pina Manique, mandava afixar em edital um aviso proibindo a venda ou divulgação em Portugal de O Hissope.
Foi assim preciso esperar até ao ano de 1808 para esta obra sair da ignomínia da censura portuguesa, quando o Governo de Junot deu permissão para se publicá-la em Portugal. É possível que uma das razões para essa autorização fosse a semelhança entre esta obra e Le Lutrin de Nicolas Boileau, obra de idêntico teor que já circulava na França há mais de cem anos, e que o próprio autor português tomara confessadamente como modelo de inspiração (embora alguns autores, entre os quais Almeida Garrett, garantam que Diniz ultrapassou a obra de Boileau). Também se deve notar que a iniciativa da publicação de um livro que desmascarava o absurdo e a hipocrisia de certas convenções religiosas era conforme àquela afirmação de Junot, na sua proclamação de 1 de Fevereiro, quando dizia aos portugueses que "a religião de vossos pais [...] será protegida e socorrida [...], mas livre das superstições que a desonram". Num país onde o clero tinha um poder enorme, esta obra caía como uma bomba, e os franceses deviam ter plena consciência disso. Por outro lado, O Hissope continha passagens que se encaixavam perfeitamente naqueles tempos, como a seguinte:
Ao pé de cada esquina, hoje, sem pejo,
Se tratam de Monsieur os portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir; e sobretudo,
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
Na verdade, esta segunda edição é hoje raríssima, pois logo que os franceses saíram do país (em Setembro de 1808), mandaram-se recolher os seus exemplares, e novamente foi proibida a venda e divulgação desta obra. Só depois da implantação do regime liberal é que se permitiu que O Hissope fosse novamente publicado em Portugal, embora entretanto se tivessem publicado diversas edições em Paris.
Apesar desta censura de quase meio século, O Hissope, a "verdadeira coroa poética" de António Diniz da Cruz e Silva, no entender de Almeida Garrett, não perdeu a sua força e vivacidade, pois só contando até ao ano de 1921, foi editado pelo menos vinte e quatro vezes, três das quais traduzido para o francês. Uma média invejável, tendo em conta o perfil da obra. Note-se que, ainda até aquele ano, o poema também já tinha sido alvo de outras traduções (embora parciais) em inglês e alemão. De 1921 para cá foi publicado pelo menos mais cinco vezes em Portugal, a última das quais através de uma nova edição crítica de Ana María García Martín e Pedro”.
                                ..........................................
"Jozé Carlos de Lara, Deaõ da Igreja de Elvas, querendo obsequiar o seu Bispo e Ex.mo e Rev.mo D. Lourenço de Lencastre, vinha offerecer-lhe o Hyssope á porta da Casa do Cabido, todas as vezes que este Prelado ia exercitar as suas funções na Sé. Depois, esfriando esta amizade por motivos que nos saõ occultos, mudou o dito Deaõ de systema; o que o Bispo sentio em extremo, como uma grande affronta feita á sua Ill.ma pessoa: e para o obrigar a continuar no mesmo obsequio, maquinou com alguns seus parciaes do Cabido, que este lavrasse um Accordaõ, pelo qual o Deaõ fosse obrigado, debaixo de certas multas, a naõ o esbulhar de pertendida posse, em que se achava. Deste terrivel Accordaõ appelou o Deaõ para a Metrópole, onde teve sentença contra si. Esta é a acçaõ do Poema."
(excerto do Argumento) 
António Dinis da Cruz e Cruz (1731-1799). “Escritor português, natural de Lisboa. Formou-se em Leis na Universidade de Coimbra. Terminado o curso, seguiu a magistratura, sendo nomeado juiz em Castelo de Vide (1759) e em Elvas (1764). Mais tarde, foi promovido a desembargador da Relação do Rio de Janeiro. Nessa qualidade, fez parte da comitiva enviada ao Brasil para julgar os réus da revolta que ficou conhecida por Inconfidência Mineira [1789], entre os quais se encontravam alguns poetas seus amigos [Cláudio Manuel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomás António Gonzaga]. Pouco mais se sabe da sua estadia no Brasil, embora aí tenha escrito a maior parte da sua obra. Poucos meses depois do terramoto de 1755 fundou, em Lisboa, juntamente com dois outros jovens bacharéis em Direito, Esteves Negrão e Gomes de Carvalho, a Arcádia Lusitana, adoptando o pseudónimo arcádico de formação greco-latina Elpino Nonacriense. Conforme parecia ser apanágio dos poetas arcádicos, também Cruz e Silva publicou pouco em vida - apenas quatro hinos, três idílios, duas odes e um ditirambo. Muita da sua obra, bem mais vasta, só foi publicada postumamente. Pouco tempo depois de morrer foram publicadas as Odes Pindáricas (1801), o poema O Hissope (1802), e os seis volumes das Poesias (1807-1817). Mesmo assim, uma fatia considerável da sua obra permanece ainda hoje inédita. Fiel seguidor dos princípios estéticos preconizados pelo neoclassicismo, raramente intentou libertar a sua poesia dos convencionalismos arcádicos, enchendo-a de alusões mitológicas e respeitando sempre os rígidos cânones clássicos, o que lhe retirou muito do seu carácter emotivo. Mas a sua maior obra, talvez a maior de todo o período arcádico, o poema herói-cómico O Hissope, desfrutou de grande popularidade e foi traduzida para francês, inglês e alemão. Na obra, escrita no estilo épico d'Os Lusíadas, com um tom escolhido propositadamente para melhor realçar o ridículo do tema, e servindo-se do pretexto de uma intriga entre o bispo e o deão da cidade de Elvas, ridiculariza os valores feudais, a mentalidade escolástica, a poesia gongórica, o fausto da aristocracia e os abusos praticados pelas altas esferas da Igreja. Alguns autores consideram este poema a única obra dos árcades que merece, ainda hoje, ser lida."
(Transcrito com a devida vénia de: http://osgrandeselvenses.blogspot.pt/2007/03/antnio-dinis-da-cruz-e-silva.html)

Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação.
O nosso exemplar possui, após o final da obra, o "Catálogo de alguns livros que se achão á venda na loja de Antonio Marques da Silva, na Rua Augusta nº. 2, em Lisboa" (24 pags), impressa em 1835, na Typ. de M. J. Coelho & Comp.ª.
Raro.
Indisponível

19 agosto, 2015

ALORNA, Marquesa de - PARAPHRASE DOS PSALMOS. Em Vulgar, por ALCIPPE, ou L. C. d' O. Hoje M. d'A. Tomo I. Lisboa: 1833. Na Imprensa da Rua dos Fanqueiros N.º 129 B. Com licença da Meza do Desembargo do Paço. In-8º (21,5cm) de [2], 194, [2] p. ; B.
Raríssima edição oitocentista da Paráfrase dos Salmos, publicada ainda em vida da autora. O Tomo I foi tudo o que se publicou desta edição de 1833.
“A paráfrase dos salmos levada a cabo por D. Leonor de Almeida Portugal constitui uma das facetas menos estudadas da sua obra: não só não tem despertado o interesse daqueles que se debruçaram sobre a sua poesia, como raramente surge mencionada na escassa bibliografia relativa às adaptações e traduções do texto bíblico para a língua portuguesa. É possível que este esquecimento se deva, em parte, à complexidade do tema: pelo facto de se tratar de um dos livros mais antigos da Bíblia e sendo constituído exclusivamente por poemas destinados ao canto, o Saltério suscita questões do ponto de vista ecdótico, estilístico e exegético cuja complexidade constitui um desafio para os estudiosos.
Existem três edições conhecidas da sua paráfrase – publicadas respectivamente em 1817, em 1833 e em 1844 [Obras Completas em edição póstuma] – revela que se tratou de um projecto desenvolvido em várias fases.
Na exposição que se segue, centrar-nos-emos na relação da Marquesa de Alorna com o texto dos salmos bíblicos. As informações que pudemos reunir sobre o assunto até ao presente levam-nos a ter em conta dois aspectos fundamentais: por um lado, a documentação existente permite situar o convívio de D. Leonor de Almeida com o Livro dos Salmos, na sua juventude e, por outro, o estudo comparativo das três edições conhecidas da sua paráfrase – publicadas respectivamente em 1817, em 1833 e em 1844 – revela que se tratou de um projecto desenvolvido em várias fases, no qual a autora trabalhou ao longo de, pelo menos, duas décadas. No tratamento destes dados, procuraremos reflectir acerca do significado que poderá ter a paráfrase dos salmos levada a cabo por Alcipe no contexto da sua biografia, no conjunto da sua obra, e no âmbito mais vasto da sua estratégia de actuação enquanto mulher de letras.
A primeira publicação de poemas de Alcipe inspirados no saltério intitula-se Parafrase a vários psalmos e verá a luz em 1817, na mesma casa editora (a Impressão Régia. A obra inclui apenas 11 textos: os sete salmos ditos penitenciais (VI, XXXI, XXXVII, L, CI, CXXIX e CXLII), os salmos CXXX, LXXI e XLIV e o «Cântico de Moisés» (Cantemus Domino, gloriose enim magnificatus est.) que era considerado pelos preceptistas, como vimos, como um exemplo sublime.
Entre esta primeira abordagem do saltério feita pela Marquesa de Alorna e a Paraphrase dos Salmos que a mesma publicará em 1833, decorre um amplo lapso de tempo durante o qual se verificaram profundas mudanças na organização política e na mentalidade dominante na sociedade portuguesa. A religião constituirá, durante as décadas de 20 e de 30 um grande tema de discussão, que envolverá todas as forças políticas e se reflectirá, necessariamente, num renovado interesse pela divulgação do texto bíblico.
Em 1833, ano da vitória das forças liberais, foi dada à estampa a Paraphrase dos psalmos em vulgar por Alcippe ou L. C. d’O. hoje M. d’A. Trata-se de uma obra que inclui as paráfrases em verso de cinquenta textos do Livro dos Salmos do qual supomos ter sido impresso apenas o I volume. D. Leonor de Almeida cumpria então 83 anos… […]
Recorde-se que apesar da sua avançada idade, a Marquesa de Alorna não se encontrava ainda, na época, completamente retirada da vida social. Sabemos por testemunhos contemporâneos que Alcipe frequentou e organizou em sua casa (e em casa do Marquês da Fronteira, D. José Trazimundo de Mascarenhas, seu neto) reuniões de poetas e de intelectuais pelo menos até 1836. Sabemos, assim, que na década de 30 a Marquesa era uma figura central da sociedade lisboeta, reconhecida por várias gerações de homens e mulheres de letras de diferentes percursos ideológicos, que viam a frequência do seu círculo de relações como um sinal de prestígio e de legitimação do talento. É, pois, numa época em que goza de renome e de aceitação nos meios intelectuais, e numa situação muito diferente daquela em que dera à estampa a sua primeira abordagem poética dos salmos, que D. Leonor publica a paráfrase completa do Saltério.”
(ANASTÁCIO, Vanda, «Alcipe e os Salmos», Via Spiritus, n.º 12 (2005) 109-153)
"Longos annos ha, que os Sabios, tanto Nacionaes como Estrangeiros, anciosamente pedião a publicação das Obras d’ALCIPPE; sem que até agora podessem alcançar da sua modestia Poeticos ensejos inspirados só para mitigar as magoas, e trabalhos da sua vida. Finalmente as instancias e rogos das suas Filhas, conseguirão tão precioso Thesouro, com o qual se propõe enriquecer a Literatura Portugueza. Talvez os pouco entendidos as accusem de cegueira e parcialidade; porém a opinião bem conhecida de Filinto Elysio, de Bocage, e mil outros Literatos, assim como a do insigne Prégador Regio Frei José Leonardo da Silva, da Ordem dos Prégadores, que lendo, e relendo com satisfação a bella Paraphrase dos Psalmos, que hoje se publica, exclamou
Quae David Hebreo, Luso tu carmine cantas:
Coelum Musa David, Alcippe ipse David!
arrojão longe de nós toda a suspeita de uma tal accusação. Acceitai pois benigna, ó Patria, o dom que o filial amor vos consagra! Haver-vos servido, como nos competia, seja o nosso prémio; assim como será sempre a nossa gloria o termos nascido Portuguezas, e
Filhas d’Alcippe."
1.º de Janeiro de 1833.
(Dedicatoria á Patria)
D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (1750-1839). "Nasceu em Lisboa, em 31 de Outubro de 1750 e faleceu na mesma cidade a 11 de Outubro de 1839. Era a primeira filha de D. João de Almeida Portugal, 4º Conde de Assumar e 2º Marquês de Alorna, e de D. Leonor de Lorena e Távora. Neta dos Marqueses de Távora, supliciados publicamente em 1759 por suspeitas de envolvimento no atentado ao rei D. José I ocorrido em 3 de Setembro de 1758, D. Leonor foi encerrada aos oito anos de idade, juntamente com a mãe e a irmã, D. Maria Rita, então com seis anos, no mosteiro de São Félix, em Chelas, nos arredores de Lisboa, no dia 14 do mesmo mês. Seu pai havia sido preso em 13 de Dezembro na torre de Belém tendo sido posteriormente transferido para o forte da Junqueira. A família permaneceria encerrada e separada durante dezoito anos, tendo sido libertada apenas em 1777, depois da morte de D. José I e do afastamento do Marquês de Pombal. […] A circunstância de ter crescido no convento marcou profundamente a personalidade e a obra de D. Leonor de Almeida, que viveu de forma dramática a separação do pai e do irmão, D. Pedro, colocado sob tutela directa do Marquês de Pombal, e se representará a si própria na sua obra poética, como um ser triste, marcado pelo infortúnio, vítima do despotismo e da tirania. […]
Tal como aconteceu com a grande maioria dos poetas seus contemporâneos, D. Leonor de Almeida não publicou em vida a sua poesia, que foi dada à estampa, em 6 volumes, por suas filhas Henriqueta e Frederica, em 1844, cinco anos depois da sua morte. Com o título Obras Poéticas de D. Leonor d’Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marqueza d’Alorna, Condessa d’Assumar e d’Oeynhausen, conhecida entre os poetas portuguezes pello nome de Alcipe, esta publicação inclui, para além das obras poéticas originais da poetisa, as suas traduções de Claudiano, Gray, Goethe, Bürger, Cronek, Metastasio, Milton, Thompson, Goldsmith, Lamartine, Klopstock, Wieland e pseudo-Ossian. A obra de Alcipe é extensa e multifacetada e constitui uma preciosa fonte de informações sobre os parâmetros estéticos que orientaram a poesia portuguesa na segunda metade do século XVIII e inícios do século XIX. Nela confluem, a nível estilístico, práticas herdadas da visão reformadora dos poetas da Arcádia Lusitana (1756), com outras opções formais mais antigas, que seriam retomadas pelos poetas da Academia de Belas Letras (1789), como a glosa, o improviso em estrofes de redondilha e as quadras de rima abcb, idênticas ás utilizadas nas modinhas e lunduns popularizados por Domingos Caldas Barbosa. Filha do Iluminismo, a Marquesa de Alorna entenderá a prática poética como uma actividade de utilidade moral e pedagógica, tal como acontecerá, aliás, com os escritores portugueses das gerações seguintes, que repetirão os mesmos pontos de vista até meados do século XIX (referimo-nos a Almeida Garrett, a Herculano e a António Feliciano de Castilho, por exemplo). É nesta linha que poderemos enquadrar as múltiplas referências aos progressos das ciências disseminadas na sua obra, as exposições em que procura demonstrar a compatibilidade entre a fé católica e as leis da Natureza (de que é exemplo cabal a Epístola a Godofredo), bem como a composição do poema Recreações Botânicas, as traduções da Arte Poética de Horácio, do Essay on Criticism de Pope, a paráfrases em verso de todo o Saltério e, até, as traduções de alcance político e teológico, como De Bonaparte e dos Bourbons de 8 Chateaubriand e o Ensaio sobre a Indiferença em Matéria de Religião de Lamenais dados à estampa em 1814 e em 1820, respectivamente. Com estes temas de reflexão convive, como aliás sucede com a generalidade dos poetas portugueses que escreveram na viragem do século XVIII para o XIX, a expressão da sensibilidade característica do século XVIII europeu, ou seja, o gosto particular pela descrição e encenação dos afectos que escapam ou resistem ao controle regulador da razão. É nesta linha de pensamento que devem ser situados, segundo cremos, os autoretratos pungentes em que o sujeito de escrita se representa como um ser perseguido pela desgraça, as descrições da natureza em termos melancólicos ou tenebrosos, o comprazimento na celebração ou encenação da morte, da noite, da doença, da dor e das lágrimas, tão frequentes na obra poética de Alcipe que lhe valeram o ser classificada como poetisa pré-romântica nos anos 60 do século XX. Contudo, uma visão global da sua produção literária que tenha em conta, simultaneamente, a prática dos poetas seus contemporâneos e daqueles que se lhe seguiram, parece indicar que tanto o gosto pelas regras, temas e motivos clássicos, como as manifestações da sensibilidade estão subordinados, nos seus textos, a uma visão do mundo orientada pelos parâmetros civilizacionais do Iluminismo, que encaram a razão e a virtude como entidades reguladoras dos afectos e a poesia como uma actividade ao serviço do ideal pedagógico de educação para a cidadania.”
(ANASTÁCIO, Vanda in www.fronteira-alorna.pt/pdf/biografia_alcipe.pdf)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa original aposta sobre a capa da protecção em brochura que reveste o livro. Mancha de humidade transversal a toda a obra (desvanecida na maior parte do miolo), com particular incidência nas primeiras e derradeiras páginas do livro.
Muito raro.
90€