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27 outubro, 2026

REVISTA DE CULTURA AÇORIANA.
Lisboa, Ano I, n.º 1, 1989. Director Eduíno de Jesus. Lisboa, Casa dos Açores, 1989. In-4.º (23x16 cm) de 191, [1] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Publicação periódica, efémera, editada pela Casa dos Açores de Lisboa e dirigida pelo ensaísta, crítico literário e poeta açoriano Eduíno de Jesus.
Trata-se do primeiro número desta revista de assuntos açorianos que conheceria apenas mais dois números, publicados, respectivamente, em 1990 - o n.º 2, e 1991 - o n.º 3.
Ilustrado no texto com desenhos e reprodução de gravuras e fotografias antigas.
"A 3 de Novembro de 1534, pontificando em Roma Paulo III, foi criada a diocese de Sancti Savatoris, na cidade de Angra, Ilha Terceira (Açores), pela bula Aequum reputamos.
Para a sua consecução largamente contribuiu o espírito cristão e os meios diplomáticos do governo do grande Rei que foi D. João III, cognominado o «Piedoso».
Documentos antigos fundamentam a ideia de que uma diocese nas Ilhas atlânticas proviria, pelo menos, já desde o ano de 1528, em que fôra feita mercê régia a D. António de Azevedo Coutinho do bispado das ilhas Terceiras.
Eram estas parcelas na primeira metade do século XVI já tão povoadas de muitos fidalgos, cavaleiros e escudeiros, com muitas e grandes fazendas, mercadores, e de grande riqueza - assim se expressava o Rei D. João III ao seu enviado diplomático junto da Santa Sé D. Martinho de Portugal. - invocando ainda o «muito grande acrescentamento que é feito nas ilhas Terceiras que são tantas e tantas legoas de meus regnos»."
(Excerto de A diocese de Sancti savatoris dos Açores : sua origem)
Sumário:
Da diocese de Sancti Savatoris dos Açores. Sua origem, por Valdemar Mota | Dois textos de Luís Ribeiro e Francisco de Lacerda, sobre o Cancioneiro Açoriano, por J. M. Bettencourt da Câmara | Polícias e Ladrões, por Luiz Fagundes Duarte | Um Poeta Açoriano do séc. XVII: D. Fradique da Câmara e Toledo. Breve Notícia da sua vida e obra | Um jantar no séc. XVIII em casa do Morgado Açoriano José Street de Arriaga, em Carnide, contado por William Beckford | Emigração Clandestina dos Açores para o Brasil no séc. XIX, por José Guilherme Reis Leite | Antero de Quental e Sousa Martins, por Ana Maria Almeida Martins | Um poema açoriano de Junqueiro?, por António Manuel Couto Viana | Os Açores Vistos por Lady Brassey, por Maria dos Remédios Castelo Branco | Alice Moderno e a condição feminina, por Maria da Conceição Vilhena | Miguel Alvim, Biografia e alguns inéditos, por Eduíno de Jesus | Aspectos poéticos e Ontológicos de um poema de Vitorino Nemesio, por Eduardo Ferraz da Costa | Algumas considerações sobre a sociedade açoriana contemporânea, por António Brandão Moniz | Poesia | Oh. Zé Petinga, conto, por Diniz da Luz.
Exemplar em brochura, bem conservado. Rubrica de posse na f. rosto.
Muito invulgar.
Com interesse histórico e insular.
20€

24 outubro, 2026

COSTA, Rodrigo Ferreira da -
A LYRA INGENUA, OU COLLECÇÃO De Canções e Glozas em quadras.
E che sentirai tu s'Amor non senti, Sola cagion di ciò che sente il mondo. Il Pastor Fido. Em Toulouse, Na Imprensa de Benichet Ainé. 1814. In-8.º (12,5x8,5 cm) de 50, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Raríssima edição original da primeira obra do setubalense Rodrigo Ferreira da Costa, publicada anónima. A 2.ª edição, também rara, foi igualmente impressa sem o nome do autor, mas em Lisboa, na Impressão Régia (1818). Só mais tarde Inocêncio Francisco da Silva desvendou e confirmou oficialmente a autoria da obra.
Curiosamente, a primeira edição tornou-se extremamente rara na história da bibliofilia portuguesa: após o lançamento, um estudante de Coimbra e futuro pároco, chamado Clemente José de Mello, publicou uma crítica literária feroz e satírica contra o livro. Magoado com as críticas agressivas ao seu "trabalho de juventude", Rodrigo Ferreira da Costa tentou comprar e recolher todos os exemplares que pôde no mercado para os destruir, tornando a edição original um verdadeiro "tesouro" para os colecionadores. Refeito das amarguras causadas por esta impressão, mais maduro e pragmático, permitiu que a Impressão Régia reimprimisse a obra. Mas desta feita, para prevenir eventuais ataques, o livro incluiu em subtítulo "Trabalhos Poeticos de um Moço Académico", justificando publicamente que aqueles versos pertenciam ao passado e ao contexto irreverente da vida de estudante. (IA)
"Os versinhos, que publico, não são meus; porem deve-os o pùblico à minha curiosidade. Nascêrão nas margens do Mondego naquelles dourados tempos, em que os Cysnes Academicos ião decantar os seus amores à sombra dos salgueiros, ou no Penedo da saudade ao desafio com os melros, e rouxinòes.
São quase todos de hum moço mui prezado em Coimbra, o qual falleceu na flor dos annos com grande magoa de seus amigos, e saudade das Musas, que com felicissimo engenho cultivava. Não o nomeio por poupar à sua honrada memoria a macula de paixões, e de fraquezas."
(Excerto do Prologo)

"Nesta serra amena, e fresca,
Onde huma tarde subi,
Recostado n'um Penedo
Suspirando adormeci.

Tua ditosa morada
Buscava ver; mas não vi;
Cançado de procura-la
Suspirando adormeci.

No tronco de altivo freixo
A tua cifra insculpi:
Sentei-me, e co'os olhos nella
Suspirando adormeci.

Lembrado dos doces mimos,
Que hum dia te mereci,
Cheio de ternas saudades
Suspirando adormeci.

Em sonhos entre teus braços
Estreitado me senti:
Accordo; mas não te vendo
Suspirando adormeci.

Co'os olhos fitos na Lua
Com o pensamento em ti,
Desejando-te a meu lado
Suspirando adormeci.

N. B. O auctor dèrão-lhe nesta tarde as ternuras para dormir. Parece, que tinha tomado opio."

(Suspirando adormeci)

Rodrigo Ferreira da Costa (Setúbal, 1776 - Lisboa, 1825). "Poeta, musicólogo, filólogo e matemático. Licenciado em Leis (1800) e em Matemáticas (1804) pela Universidade de Coimbra. Estudioso de outras matérias, pode considerar-se como o primeiro musicólogo português, sendo também profundos os seus conhecimentos filológicos e linguísticos (dominava várias línguas, incluindo o grego e o latim). Posto isto, e talvez por destoar em seu saber e em suas ideias filosóficas, só em 1810 obteve colocação: oficial na secretaria do Comando Geral do Exército, qualidade em que acompanhou o Ajudante-General até ao final da Guerra Peninsular, em 1814. Em 1821 fizeram-no deputado às Cortes Constituintes e, em 1823, foi provido no lugar de Lente da Academia Real de Marinha. Era talvez para si o lugar mais adequado, mas durou pouco, pois morreria dois anos depois. Também foi membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, que em 1820 e 1824 publicou os dois volumes dos seus Princípios de Música.
Estreou-se literariamente em 1814 com a Lira Ingénua..., um livro de versos que publicou anónimo em Toulouse. A segunda edição, muito aumentada e já assinada, foi impressa em Lisboa, com o mesmo título, em 1818. Em 1835, José Inácio de Andrade, seu grande amigo, mandou imprimir a tradução que Ferreira da Costa havia feito do poema A Ventura de Helvecio (Claude Adrien Helvetius, 1715-1771, um dos ideólogos precursores da Revolução Francesa), a que juntou uma nota biobibliográfica do tradutor na qual afirma que também se lhe deve a tradução para português do Templo de Gnido de Montesquieu, publicada em Paris em 1828 e assinada «Uma Portuguesa».
Rodrigo Ferreira da Costa traduziu igualmente a segunda parte da Arte de Pensar de Condillac; a tradução da primeira parte deve-se a José Liberato Freire de Carvalho."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=12106)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Sem a capilha anterior; a capilha posterior apresenta rasgão ao centro (sem perda de suporte).
Muito raro.
Peça de colecção.
100€

14 outubro, 2026

BOCAGE, Manoel Maria de Barbosa du -
RIMAS, DEDICADAS Á AMIZADE.
De... Tomo II. Terceira Edição, correcta pelo Author. LISBOA. M. DCCC. XIII. Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. Com licença da Meza do Desembargo do Paço. Vende-se na mesma Officina na Calçada Salitre Nº 84. In-8.º (14x9,5 cm) de [10, 368, [2] p. ; E.
Segundo volume das Rimas dedicado à amizade, no qual o Bocage agradece a todos aqueles que contribuíram para aliviar as suas angústias, especialmente nos momentos de maior adversidade, quando doente ou em reclusão. Nestes versos, Bocage afasta-se da matiz estritamente satírica ou erótica e dirige-se aos amigos que o apoiaram nos momentos de maior dificuldade..
"A Maior parte das Poesias que publico, foi recobrada com a memoria em casa do meu officioso Amigo José Salinas de Benavides, huma das pessoas mais benemeritas, e qualificadas de Santarem, onde me avisárão de que, affectada a minha letra por algum de muitos malévolos, que, á maneira de lobos, matão ás vezes o que não hão de comer, ou, deixando figuras, por algum dos que prejudicão sem utilizar-se, fôra em meu nome extrahida aos depositario dos meus bens poeticos a caixa, em que jazião, com os trastes proporcionados á minha profissão, e hum tanto peores, que os versos. Temendo a perda do que, para mim ao menos, era prcioso, examinei o livro interior, que me não pódem roubar, e com effeito copiei delle tudo o que dou á luz não relativo a hum desastre tão impensado, como penoso, que me sobreveio depois, e occasionou as producções, em que o chóro.
Leitor intelligente, verdadeiro Crítico (e não a chusma de Zoilos, que usa infestar a República literaria, e crê que a mordacidade suppre o talento) o Sábio imparcial (em que só me louvo) talvez não desdenhe estas novas Rimas... [...]
Poderáõ os Zoilos abocanhar a m inha Musa, mas serão obrigados a reconhecer a minha gratidão na Epistola dedicatoria, que dirijo ao extremoso Amigo, cuja beneficiencia me adoçou o infortunio, e deo a saber que o seculo do Egoismo ainda soffre excepções proveitosas aos infelices."
(Excerto de Ao Leitor)

"Vós, que de meus extremos sois a historia,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co’ promto auxilio de fiel memoria:

Da Inveja conseguindo alta victoria,
Ide, meus Versos, em Amor fiados,
Que delle só dependem vossos Fados,
Que nelle só demando a minha gloria:

Não vos importe o público juizo;
Da Voz que pelo Mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflamma;
Tereis de Anarda approvador sorriso;
Hum sorriso de Anarda he mais que a Fama.
"

(Soneto I.)

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805). " Foi o maior poeta português do século XVIII, que se irmana com Camões no destino do estro e nas desventuras de uma existência repartida entre Portugal e a Índia. Manuel Maria l' Hedois de Barbosa du Bocage – de seu nome completo – era filho de um advogado e de uma senhora francesa de ascendência normanda. Orfão de mãe desde os dez anos, assentou praça em Setúbal em 1781, tendo-se alistado dois anos depois na recém-fundada Academia dos Guardas-Marinhas, em Lisboa. Conheceu então a boémia lisboeta, os botequins, o Nicola, onde o seu génio poético se afirmou no improviso e lhe ganhou aplausos. Subitamente, ao fim de dez meses de frequência do curso, Bocage abandonou os estudos, sendo dado como desertor em 6 de Junho de 1784. Nomeado guarda-marinha, partiu para a Índia a 4 de Abril de 1786, fazendo escala no Rio de Janeiro, tendo chegado a Goa a 20 de Outubro. A sua estada na Índia foi por ele comparada ao exílio de Ovídio entre os Getas – os «bárbaros» indianos que o rodeavam. Promovido ao posto de tenente, foi destacado em Damão, mas só aí permaneceu dois dias, 7 a 8 de Abril de 1789, refugiando-se em Macau de onde viajou para Lisboa, em 1790. No seu regresso, Bocage aderiu à Nova Arcádia, onde assumiu o pseudónimo literário de Elmano Sadino. Em 10 de Agosto de 1797 foi preso por ordem do intendente Pina Manique, acusado de ser «autor de papéis ímpios e sediciosos». A peça principal do auto de acusação era o poema Pavorosa Ilusão da Eternidade. A 7 de Novembro do mesmo ano foi transferido para os cárceres da Inquisição, daí seguindo, a 22 de Março de 1798, para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, dirigida pelos padres do Oratório.
Toda a poesia de Bocage se nutre das suas vicissitudes biográficas. O amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas, vibram nos seus versos com a intensidade do excesso, que a forma apurada e o rigor verbal dominam, tornando mais impressionante o seu efeito estético. O poeta cultiva com igual desenvoltura todos os géneros, desde o soneto de fina conceituação petrarquista ao verso fescenino, servindo-se ainda dos códigos de um discurso classicizante, onde prorrompe já um vigoroso individualismo em revolta com as normas e os tabus da sociedade vigente. A atitude do poeta contra a tirania e o despotismo não implica, no entanto, a aceitação do radicalismo da Revolução Francesa, a que se opõe, nem a via do libertino, que o seduziu, esmoreceu nele as suas crenças e convicções de católico. Bocage foi um ser contraditório, que soube viver intensamente na sua poesia as suas contradições existenciais. O seu fascínio pela morte e a expressão da sua extrema emotividade fazem dele um precursor do Romantismo, cujos desbordamentos evitou no apego à contenção clássica, impondo-se como um artífice do verso, o chamado elmanismo, que tanto atrairá os parnasianos portugueses e brasileiros."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?autorid=7375)
Encadernação coeva em pele.
Exemplar em razoável estado de conservação. Cansado. Pastas e lombada apresentam falhas no revestimento. F. rosto com pequeno orifício ao centro. Aparado à cabeça.
Raro.
15€

14 setembro, 2026

CASTELLO-BRANCO, Camillo - DELICTOS DA MOCIDADE.
Primeiros attentados litterarios. De... Porto, Livraria Civilisação : De Eduardo da Costa Santos & Sobrinho - Editores, MDCCCLXXXIX. [1889]. In-8.º (18x12 cm) de XII, [4], 269, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Importante colectânea dos primeiros trabalhos de Camilo, inclui prefácio de João António de Freitas Fortuna, seu grande amigo. Publicada originalmente em 1889, no ano anterior à sua morte, reúne poemas, contos, ensaios e estudos literários que marcam os primeiros passos da sua vasta carreira.
O livro funciona como uma compilação de paratextos, memórias e produções juvenis, incluindo o célebre conto Uma Noite no Cemitério, que reflete sobre a perda trágica do seu grande amigo de juventude em Vila Real, José António T. C. de Melo e Nisa. Na própria advertência da obra, Camilo sublinha o caráter íntimo e por vezes doloroso de revisitar estas páginas, que representam em grande parte a história da sua juventude.
"É meia noite. Ao som as doze badaladas, tangidas no velho campanario de S. Diniz, minha alma calou-me nas veias em effluvios de terror e santidade, e depositou-me nos labios tyremu,los uma oração para o Senhor.
E a minha oração era como a vida purificada na particula, que o homem tem de Deus, e na lagrima do céo, estremada de muitas lagrimas da terra.
O meu viver era todo espiritual, e comparei-me ao espirito do justo que, soprado da terra - ás portas de céo - escuta ainda o borborinho cá de baixo e já ouve o cantar dos anjos aos pés do Altissimo. O meu viver material parecia-me a sumir-se lento e suave pelas fisgas dos sepulchros, entre os quaes eu ajoelhava, como o delirante, que pede ao Creador  alma e luz para o finado, que não sente os joelhos do filho, dobrados sobre a lagea silenciosa...............................................
E o extasis desvaneceu-se, porque era de homem, ligado com as paixões dos homens, e eu era o unico cadaver, animado, entre tantos cadaveres.
Voz de vivo, que falla com os mortos - a minha voz era sombria e soturna."
(Excerto de Uma Noite no Cemitério)
Camilo Castelo Branco (1825-1890). "Nasceu em 1825, em Lisboa, e faleceu em 1890, em S. Miguel de Seide (Famalicão). Com uma breve passagem pelo curso de Medicina, estreia-se nas letras em 1845 e em 1851 publica o seu primeiro romance, Anátema. Em 1860, na sequência de um processo de adultério desencadeado pelo marido de Ana Plácido, com quem mantinha um relacionamento amoroso desde 1856, Camilo e Ana Plácido são presos, acabando absolvidos no ano seguinte por D. Pedro V. Entre 1862 e 1863, Camilo publica onze novelas e romances, atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Tornou-se o primeiro escritor profissional em Portugal, dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular a partir da observação da sociedade, com inclinação para a intriga e análise passionais. Considerado o expoente do romantismo em Portugal, autor de obras centrais na história da literatura nacional, como Amor de Perdição, A Queda dum Anjo e Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, cego e impossibilitado de escrever, suicidou-se com um tiro de revólver a 1 de Junho de 1890."
(Fonte: https://www.portoeditora.pt/autor/camilo-castelo-branco/39147)
Encadernação em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Com picos de acidez no interior.
Muito invulgar.
50€

25 julho, 2026

DUBRAZ, João - 
ACHMET. Conto de fadas : fundado em lendas patrias. Lisboa: Vende-se na Loja de A. M. Pereira. Rua Augusta, n.º 188. 1852. In-8.º (16,5x11,5 cm) de XII, [2], 250 p . ; E.
1.ª edição.
Romance histórico de João Dubraz publicado sob anonimato. Obra oferecida pelo editor a Francisco d'Assis Salles Caldeira, que sobre a autoria de Achmet, nos diz na dedicatória: "O author do livro que ousei dedicar a V. S.ª já não existe: viveu obscuro e morreu ignorado - vida e fim communs a todos os engenhos desvalidos n'esta epoca corruptamente alchymica, que parvos e velhacos intitularam civilisada. Sem ser um genio, o author do Achmet era comtudo mancebo de rasão clara, juizo recto, e leal coração, que algumas decepções haviam quiçá lançado no scepticismo".
"Trata-se de um romance em prosa, muito inspirado na obra, D. Branca considerada uma das primeiras expressões do romantismo em Almeida Garrett,escritor que João Dubraz muito admirava e com o qual muito se identificava devido às convicções políticas que ambos perfilhavam.
O herói deste romance é Achmet, jovem mouro, guerreiro valente, amante apaixonado, sofrendo amores incompreendidos e cuja breve existência decorreu nos campos cerca dos rios Xévora e Caia, ou seja, nas terras onde foi fundada a vila de Campo Maior."
O romance foi apresentado pelo editor como se o texto lhe tivesse chegado às mãos sem nele constar o nome do autor. Por isso, era publicado anonimamente."
(Fonte: https://alemcaia.blogs.sapo.pt/21457.html)
A última parte do livro, desde a página 211 até ao final, é preenchida com uma colecção de poesias do autor do Achmet, também de cariz histórico.
"O som da buzina venatoria fere as montanhas, e echôa nas profundezas do valle. O real veado, surprehendido em seu leito de verdura, ergue-se d'um pulo ao fatal clangor estirando os membros ageis; e depois d'haver interrogado a impregnada aragem, e escutado com ouvido attento, busca refugio nos matos onde alteia sobrelevada a sua ramosa corõa; entretanto o bravo javali corre por entre as moitas intrincadas, e evita o perigo que se aproxima, fugindo por instincto ao ruido da montaria.
Sôa ao longe o latido dos sabujos, que em matilha farejam os passos da rez fugitiva: conjuntamente rebôa o galope de guerreiros ginetes e o clangor das buzinas de caça, tangidas com frequencia por fervidos caçadores.
Redobra mais e mais este ruido longinquo: os cães seguem açodados a pista da venção, e os briosos corceis, contidos por seus cavalleiros, brincam agora impacientes, porque os não deixam ultrapassar as recovas dos alões.
Progride a montaria, e o arruido é cada vez maior. Olfactando a caça, os sabujos embrenham-se nas selvas, e vam descobrir o real fugitivo, que colhido em asylo da charneca, de mau grado o deixa para correr diante dos mastins que inutilmente o perseguem."
(Excerto do Cap. I, O Lago do Muro)
Índice:
Achmet: [Dedicatória] | [Prólogo do Editor] | [Prólogo do Autor] | Achmet - Invocação | 1.º O Lago do Muro. 2.º A dama do corcel fouveiro. 3.º A lucta das alimarias. 4.º A ilha encuberta. 5.º A Torre-do-Moiro. 6.º O Castello-do-Amor. 7.º O torneio na Cabela-aguda.
Poesias: A pastora perdida | O pagem cioso | Dom Florisel | Dom Rodrigo, o Trovador | Liberdade.
João Francisco Dubraz (1818-1895). Natural de Campo Maior. "Professor de latim e francês. Dedicou-se ao comércio, que depois trocou pelo professorado. Foi também advogado provisional. Escreveu: Achmet (Lisboa, 1852); Recordações dos últimos quarenta anos, esboços humorísticos, descrições, narrativas históricas, e memórias contemporâneas (Lisboa, 1868) (2.ª edição em 1869); A Republica e a Ibéria (Lisboa, 1869); Cinco finados ilustres (autopsias e comemorações) (Lisboa, 1869); O aventureiro francês (Lisboa, 1869). Colaborou também em vários jornais."
(Fonte: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. IX, p. 327.)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos e falhas de papel marginais. Lombada restaurada, cadernos colados.
Raro.
85€
Reservado

19 junho, 2026

CASTELLO BRANCO, Camillo -
UM LIVRO
. Porto, Typographia de J. A. de Freitas Junior, 1854. In-8.º (21x13,5 cm) de 204, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Um Livro é uma obra interessante e muito curiosa, espécie de romance em verso, e uma das publicações mais raras e menos conhecida de Camilo Castelo Branco, publicada originalmente em 1854 sem o nome do autor. Oferecida a José Barbosa e Silva, "como pequeno obulo de reconhecida amisade", foi dada à estampa numa fase muito inicial da sua carreira literária (com cerca de 28 anos), antes de este atingir o auge da sua fama com as novelas da década seguinte.
Enredo determinado por um crime passional, verídico, explicado por Camilo em "Notas", reflete a juventude do autor e o seu estilo irónico, abordando temas como a vaidade e a dor humana, o ciúme, a paixão e a morte.
Inclui no final (pp. 162-204) uma pequena novela: Vinte dias de agonia, de que falaremos a seguir.

"Traja de lucto o viuvo,
Vestem-se as armas de negro;
Vem a nobresa em redor
Consolar o primo illustre,
Que verga ao peso da dôr.
O sino dobra a finados,
Dizem-se missas geraes.
Soam, no templo, responsos
Em pomposos funeraes.
E, entre os muitos, que elevam
As suas preces ao ceu
O consternado consorte,
Que, dizem, fôra um atheu,
Em maus tempos, que lá vão,
Ergue as mãos, vai n'um transporte
De fervente dovoção,
Seguindo o rolo do incenso,
Que perfuma os pés do immenso,
A quem pede a eternidade
Para a esposa estremecida!...
...................................................
Pungente affronta, cuspida
Na virtude, e na piedade!..."

(Excerto de VII)

"Este caracter, ligeiramente esboçado, não é fantastico, nos traços essenciaes. O homem, que ahi se pinta, foi, viveu, e conheci-o tal, na primeira luz do quadro, em que os acessorios, o ornato, é o que menos val. Chamava-se José Pacheco de Andrade. Oriundo de uma das mais distinctas familias de Cabeceiras de Basto, seu pai era o capitão-mor, Serafim Pacheco dos Anjos. [...]
José Pacheco de Andrade, quando eu o conheci, trazia sobre os hombros uma manta, apontoada de farrapos, uma tigella vermelha debaixo do braço, e dormia no palheiro d'um lavrador, onde creio que morreu. Representava 44 annos, quanto muito. A fome não podéra ainda descompôr-lhe o rosto fino, e feminil. A expressão torva, panica, e repulsiva tinha-a nos olhos ardentissimos, e incovados. No trato era rude affavel. Tinha asperas vaidades de fidalgo, que se esquece de que é mendigo, e mansas humilhações de mendigo, que se esquece de que é fidalgo."
(Excerto de Notas)

Relativamente à novela Vinte dias de agonia com que termina o volume, diz-nos Camilo:
"Escrevi, ha tempo, sob a mesma impressão, uma prosa, que me parece mais poesia que o verso, e que muito serve de commentario ao poema. Elle, o poeta, que o foi na vida, na resignação, e na morte, que abraçou, sorrindo-lhe, como desgraçado e como christão, não direi quem foi Cubra-se-lhe a face com uma dobra da mortalha de Alda. São dous nomes, que não profanarei... duas imagens magnificas na dôr e na poesia, excepções a tudo isto que por ahi vai...
É esta a prosa: diz mais que o canto, penso eu:
Vinte dias de agonia
Quiz abrir um abismo na minha alma. Quiz envolver-me nas trevas de uma angustia mortal. Quiz imaginar as agonias d'um homem, que, aos vinte e seis annos, cae na sepultura, depois de erguer-se ao ponto culminante da vida, e da esperança. Vi-o morrer. Morreu como se a morte, seu unico anjo d'amor, lhe désse um beijo de paz eterna na hora final. Mas aquelles vinte dias derradeiros foram a purificação daquelle holocausto sublime, consummado pelas bagas d'um suor frio, pelo cahir d'uma lagrima glacial, pelo estorcimento convulso dos labios, semelhante a um sorriso."
(Excerto de Vinte dias de agonia)
Camilo Castelo Branco (Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1890). "Foi um dos maiores e mais prolíficos escritores portugueses do século XIX. É amplamente considerado o principal expoente do Romantismo em Portugal. Ele destacou-se também por ser o primeiro escritor profissional do país a conseguir viver exclusivamente dos rendimentos da sua vasta produção literária. Em reconhecimento ao seu impacto cultural, o rei D. Luís I concedeu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho em 1885." (IA)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Desencadernado, sem capas. F. rosto apresenta manchas, pequeno rasgão e três orifícios à cabeça.
Raro.
75€

16 junho, 2026

PEREIRA, A. Gomes -
TRADIÇÕES POPULARES, LINGUAGEM E TOPONYMIA DE BARCELLOS.
Por... Professor do Liceu Central do Porto. Collecção Silva Vieira. Espozende, Livraria Espozendense : Editora, 1915. In-8.º (16x11 cm) de 408 p. ; E.
1.ª edição.
Junto com:
PEREIRA, A. Gomes - TOPONIMIA DOS CONCELHOS DE TERRAS DE BOURO, POVOA DE VARZIM E VILLA DO CONDE. Por... Collecção Silva Vieira. Espozende, Livraria Espozendense : Editora, 1914. In-8.º (16x11 cm) de 40 p. ; E.
1.ª edição.
Duas obras interessantes e muito curiosas do Reverendo António Gomes Pereira - ambas póstumas, encadernadas num único tomo. A primeira, sobre a sua terra natal - Barcelos - inclui as tradições em forma poética, superstições e lendas locais. A segunda é totalmente dedicada à toponímia das castiças Terras de Bouro, e das vizinhas marítimas Póvoa de Varzim e Vila do Conde.
"Nos primeiros tempos da fundação do convento de Villar, houve alli muitos frades santos, bem ao contrario do que succedeu nos ultimos.
Um delles andava um dia tão encantado em pensamentos do ceo, que se deixou guiar pelo canto delicioso de uma ave que o foi chamando para a cerca do convento onde a esteve ouvindo durante um bom pedaço.
Mas, oh espanto! oh maravilha! O bom do nosso frade, ao voltar ao convento, nada reconheceu do que estava á roda de si, nem a casa, nem os seus irmãos.
Pelas tradições correntes no convento, veio a verificar-se que este era um frade que dalli tinha tinha saido havia trezentos annos."
(Tradições Populares... de Barcellos - Lenda do passarinho)
"Amassar pão em quinta e sexta-feira santa e mesmo no sabbado antes de tocar á alleluia é amassar o sangue de Christo e podem apparecer laivos de sangue na massa. (Tradições Populares... de Barcellos - Superstições - 1)
Não se deve fiar na semana santa, porque foi então que os judeus fiaram as cordas para prender a J. Christo. (Tradições Populares... de Barcellos - Superstições - 2)
António Gomes Pereira (1859-1913). "Nasceu na Casa de Chapre, em Midões, Barcelos, em 30 de setembro de 1859 e faleceu na referida Casa, em 6 de abril de 1913, vítima de tuberculose.
Publicou vários trabalhos sobre etnografia, folclore e toponímia das regiões de Barcelos, Esposende, Guarda, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Terras de Bouro, a maior parte dos quais na revista “Lusitana”. Muitos deste trabalhos foram, depois, publicados em livro, entre os quais, “Tradições Populares, Linguagem e Toponímia de Barcelos” (1915). Publicou ainda uma Selecta de Literatura (1ª edição-1908 – 2ª edição-1912), que foi muito difundida na sua época.
Fez a instrução primária na Escola do Sobreiro da freguesia de Adães. Depois de ter feito os preparatórios liceais em Braga, matriculou-se, em 1 de Outubro de 1878, no Curso Teológico, no Seminário de S. Pedro. Concluídos os estudos teológicos em 1881 e, admitido às ordens sacras, é ordenado presbítero, em 23 de Setembro de 1882, pelo arcebispo D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa. Celebrou a primeira Missa Nova, na Igreja Paroquial de Midões, em 22 de Outubro de 1882.
Em 1889, matriculou-se no Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa, depois de ter sido professor no Colégio da Formiga, em Ermesinde e coadjutor do pároco de Valongo. Aqui teve oportunidade de contactar com vários intelectuais, entre os quais o Dr. José Leite de Vasconcelos, adquirindo a paixão pela etnografia e folclore. Concluídos os estudos universitários, permaneceu ainda mais quatro anos na capital, tendo sido subdirector, perfeito e professor nas Oficinas de S. José.
Abalado na sua saúde pelo excesso de trabalho, deixou Lisboa, em Junho de 1896, e regressou à sua terra natal-Midões, onde durante dois anos foi pároco.
Depois de habilitado para o efeito, ingressa, em 1898, no ensino oficial, como professor de Latim e de Português, no Liceu de Vila Real e, a partir de 1902, no Liceu D. Manuel II (actual Rodrigues de Freitas), no Porto, onde se manteve até a meio do ano lectivo de 1909/1910. É nesta cidade que elabora a maior parte das suas obras e alcança notoriedade."
(Fonte: https://www.cm-barcelos.pt/2013/12/municipio-homenageou-o-etnografo-antonio-gomes-pereira/)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a seco e a negro e ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Pequena mancha de humidade marginal acompanha folhas iniciais do 1.º volume.
Muito invulgar.
Indisponível

07 junho, 2026

BOCAGE -
OLINDA E ALZIRA
. Lisboa, Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1915. In-8.º (18,5x12 cm) de 40 p. ; B.
Edição centenária das célebres Cartas de Olinda a Alzira.
'Romance-ensaio', invulgar e muito curioso, composto por sete epístolas.
Obra não relacionada na Biblioteca Nacional (BNP), revestida de capa belíssima, não assinada.
"O erotismo tem sido cultivado com alguma frequência na literatura portuguesa. [...]
As Cartas de Olinda a Alzira - que constituem um caso inédito na literatura portuguesa, pois são um relato das primícias sexuais de uma jovem, na primeira pessoa, como assinala Alfredo Margarido – por sua vez, são dadas à estampa nos finais do século passado com as precauções proverbiais: sem a menção da data, editor, local ou organizador.
Com o advento da República, a liberdade de expressão, grosso modo, foi uma realidade. Estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para a Guimarães Editores assumir a publicação de Olinda e Alzira, em 1915."
(Fonte: https://purl.pt/1276/1/erotismo.html)
"Diz-se que Cartas de Olinda e Alzira, romance epistolar em verso de Manuel Maria Barbosa du Bocage que circulou clandestinamente pelo país, é um dos primeiros manifestos feministas. Não seria de estranhar, já que este escritor pré-romântico, desaparecido há 200 anos, foi tido, no seu tempo, como personalidade escandalosa e pervertida e vítima de interdições, censura e abusos vários.
Cartas de Olinda e Alzira é a composição de que se parte para este espectáculo homónimo: proposta ética - e não de ocasião - mas, muito provavelmente, bizarra são cenas "pintadas” e, nelas, tudo o que parece, é. É mesmo! A tonalidade do espectáculo, como a do texto, é confessional e reproduz os movimentos do coração que sobem direitos "à nossa condição maravilhosamente corporal” (Montaigne). E, a título de justificação antecipada, citamos Bocage que dizia: "(...) instintos naturais se não são crime, como crime será narrar seus gozos?(...)"
(Fonte: https://www.tndm.pt/pt/eventos/detalhe.php?id=119)

"Que estranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr'ora hei sido!
Minhas vistas ao céu lânguidas se erguem,
E a mim propria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assoberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora
Sem que eu possa atinar a causa, a origem,
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.
Das mesmas sup'rioras a presença,
Que d'antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte; ignoro o que procuro;
Ah! minha cara! Os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.
"

(Epistola I - Olinda a Alzira)

"Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Precede ao fructo a flor já matizada,
Que fôra antes de flôr botão mimoso."

(Excerto de Epistola II - Alzira a Olinda)

"Quanto gratas me são as tuas lettras,
Querida Alzira! Ao coração me falas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtede tal, que apenas lidas
D'ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, prezada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos, mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a origem. [...]
Revela á tua amiga este mysterio
D'onde sinto prender o meu repouso.
Eu não exp'rimentava, o que exp'rimento:
Os meus sentidos todos alterados,
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas;
O coração no peito turbulento
Pula, bate com ancia estranhamente:
O sangue, pelas veias abrazado,
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do pezo da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d'antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D'outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lizos té'qui, mácula um brando pello,
Como o buço ao mancebo, é ave a pennugem.
Sobresalta-me d'homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vel-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos, que expressar me custa;
Amor... E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?"

(Excerto de Epistola III - Olinda a Alzira)

Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
50€

28 maio, 2026

CASTELA, Vítor -
ALGARVE EM FESTA : poema
. Faro, [s.n. - Feito na Tipografia de «O Algarve» - Faro], 1946. In-8.º (20,5x15 cm) de 80 p. ; E.
1.ª edição.
Junto com:
CASTELA, Vítor - MAR DO SUL. Poemas. Faro, Tipografia União, 1953. In-8.º (20,5x15 cm) de [76] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de duas obras poéticas de Vítor Castela tendo como pano de fundo literário o Algarve, sua província natal, partilhando a mesma encadernação. A primeira - Algarve em Festa - corresponde à sua estreia literária, e não se encontra registada na BNP.
Edições esmeradas, impressas em papel encorpado. O desenho da capa de Algarve em Festa é da autoria de José Amado da Cunha.
"Meu caro amigo:
Algarve em Festa - são trinta sonetos do poeta Vítor Castelo.
Constituem eles uma exposição de pequenos quadros juxtapostos e, em todos, são os temas regionais o que o seu pincel mais se compraz em pintar. [...]
Ainda não tive tempo para fazer uma leitura cuidada da sua obra, mas creio ser um livro que vale sôbre tudo pela pintura da paisagem e pelo folclore - que é sempre a fonte inesgotável onde vêm dessedentar-se os artistas.
Li os seus sonetos, mas já antes de os ler, bastou-me ver o título e o índice para concluir que há mais um poeta algarvio que entra em festa."
(Excerto da carta-prefácio de Emiliano da Costa)

"Asperges brancos, montes de luar
Formados, gota a gota, ao sol ardente...
Argila e sódio, hélio incandescente,
Avassalando, transformando o mar...

E moças e cantigas a bailar
Em alcalinas terras, num fremente
Esvoaçar, inquieto e permanente...
- Insectos na leveza e no voar!"

(Excerto de Salinas)

Vítor Castela. "Foi um poeta e figura carismática do Algarve, conhecido pela sua dedicação às tradições populares. Militar de carreira, com a patente de major, destacou-se verdadeiramente na região de Faro como letrista de marchas populares e autor de poesia regional.O seu trabalho mais conhecido é a obra Cântico ao Poeta Algarve (1983) que homenageia a região. Os seus poemas e textos de intervenção celebram o mar, a identidade cultural e as vivências locais do Algarve." (IA)
Encadernação em tela com ferros gravados a ouro na lombada. O primeiro livro conserva a capa anterior. Alguns sonetos encontram-se parcialmente sublinhados.
Muito invulgar.
Indisponível

02 maio, 2026

ALMANACH DAS SENHORAS Para 1926 PORTUGAL E BRASIL.
Fundado em 1871 por Guiomar Torrezão. Illustrado com os retratos de Escriptores e escriptoras de diversas nacionalidades. [...] Directora: Julieta de Luna. Anno LVI. Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1925. In-8.º (17x13 cm) de 3.82, [2] p. ; [1] f. il. ; mto il. ; B.
1.ª edição.
Almanaque das Senhoras, estimada publicação de referência no género. Vem revestido de capa belíssima, muito ilustrado no texto, nalguns casos em página inteira, e em separado com o retrato do actor recém-falecido Eduardo Brasão. Inclui farta colaboração de conhecidos autores portugueses, e algumas singelas homenagens a: Camilo Castelo Branco (com duas cartas e alguns textos da sua autoria), Luís de Camões, Sacadura Cabral (desaparecido no Mar do Norte em Nov. 1924), e aos combatentes portugueses da Grande Guerra, em França, reproduzindo imagem do icónico Cristo de Neuve Chapelle, acompanhado de pequeno texto.
Contém ainda, ao longo do livro, publicidade dirigida às senhoras e aos cavalheiros, e fotogravuras de paisagens, locais históricos, monumentos relevantes e "tipos" do nosso país.
"Embora as cartas de Camillo não possuam aquela admiravel e doce filosofia que se evola das de Anthero - o primorosissimo e transcendente sonetista e admiravel prosador - ou o estilo sono e austerissimo de Herculano, as epistolas de Camillo Castello Branco são, contudo, para mim, das mais expressivas e belas da literatura portuguesa.
Por elas perpassa, ora num tomo ironico, ora em frase polida e grandiosa, todo o cortejo de desditas que, sem fim, lhe roubaram carinhos, socego e vida, levando o Torturado de Seide aos tresloucado gesto do suicidio."
(Excerto de Duas cartas de Camillo)
"Troava o canhão, chovia a metralha, nos já devastados campos da Flandres; as ultimas casas ruiam com fragor, não deixando uma parede sequer com um metro de altura!
Depois, o silencio, a paz, o socego, a devastação!
E o Christo, unica elevação na desolada região arrasada, absolutamente indemne, sorria ainda tristemente, como a perdoar a ferocidade humana."
(O Chisto de Neuve-Chapelle)
Exemplar em brochura, por abrir, bem conservado.
Muito invulgar.
25€

08 abril, 2026

LEMOS, Antonio de -
CANTAROLAS
. Porto, Livraria e Imprensa Civilisação, 1924. In-8.º (16,5x12 cm) de [50] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de cantigas em verso de cunho popular.
Livrinho ilustrado com bonita gravurinha nas capas e na última folha, em página inteira.

"Se te vejo no jardim
Mourejar com alegria,
Tenho-te inveja, confesso,
Maria, minha Maria.

E penso, cá para mim,
Que quem contigo casar
Ha-de ser feliz á certa,
Maria, meu bem amar.

Mas os teus olhos, cachopa,
São para o socego um p'rigo,
Por isso... por causa d'elles,
Não hei-de casar contigo.

E, como tambem não quero,
Que alguem mais te possa amar,
Fica certa, e muito certa,
Nem te hei-de deixar casar."

(Cantarola I)

António Baptista Alves de Lemos (1864-1931). Nado e criado no Porto. Pouco de sabe a seu respeito. Apesar de ter publicado cerca de duas dezenas de obras, especialmente pequenas peças de teatro, a sua principal ocupação seria o exercício de farmácia, sendo proprietário de um dos estabelecimentos mais antigos do Porto - a Farmácia Lemos & Filhos, localizada na Praça de Carlos Alberto.
Exemplar brochado em razoável estado de conservação. Capas frágeis, manchadas. Capa anterior apresenta falha de papel nos cantos.
Invulgar.
10€