CASTELLO BRANCO, Camillo - UM LIVRO. Porto, Typographia de J. A. de Freitas Junior, 1854. In-8.º (21x13,5 cm) de 204, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Um Livro é uma obra interessante e muito curiosa, espécie de romance em verso, e uma das publicações mais raras e menos conhecida de Camilo Castelo Branco, publicada originalmente em 1854 sem o nome do autor. Oferecida a José Barbosa e Silva, "como pequeno obulo de reconhecida amisade", foi dada à estampa numa fase muito inicial da sua carreira literária (com cerca de 28 anos), antes de este atingir o auge da sua fama com as novelas da década seguinte.
Enredo determinado por um crime passional, verídico, explicado por Camilo em "Notas", reflete a juventude do autor e o seu estilo irónico, abordando temas como a vaidade e a dor humana, o ciúme, a paixão e a morte.
Inclui no final (pp. 162-204) uma pequena novela: Vinte dias de agonia, de que falaremos a seguir.
"Traja de lucto o viuvo,
Vestem-se as armas de negro;
Vem a nobresa em redor
Consolar o primo illustre,
Que verga ao peso da dôr.
O sino dobra a finados,
Dizem-se missas geraes.
Soam, no templo, responsos
Em pomposos funeraes.
E, entre os muitos, que elevam
As suas preces ao ceu
O consternado consorte,
Que, dizem, fôra um atheu,
Em maus tempos, que lá vão,
Ergue as mãos, vai n'um transporte
De fervente dovoção,
Seguindo o rolo do incenso,
Que perfuma os pés do immenso,
A quem pede a eternidade
Para a esposa estremecida!...
...................................................
Pungente affronta, cuspida
Na virtude, e na piedade!..."
(Excerto de VII)
"Este caracter, ligeiramente esboçado, não é fantastico, nos traços essenciaes. O homem, que ahi se pinta, foi, viveu, e conheci-o tal, na primeira luz do quadro, em que os acessorios, o ornato, é o que menos val. Chamava-se José Pacheco de Andrade. Oriundo de uma das mais distinctas familias de Cabeceiras de Basto, seu pai era o capitão-mor, Serafim Pacheco dos Anjos. [...]
José Pacheco de Andrade, quando eu o conheci, trazia sobre os hombros uma manta, apontoada de farrapos, uma tigella vermelha debaixo do braço, e dormia no palheiro d'um lavrador, onde creio que morreu. Representava 44 annos, quanto muito. A fome não podéra ainda descompôr-lhe o rosto fino, e feminil. A expressão torva, panica, e repulsiva tinha-a nos olhos ardentissimos, e incovados. No trato era rude affavel. Tinha asperas vaidades de fidalgo, que se esquece de que é mendigo, e mansas humilhações de mendigo, que se esquece de que é fidalgo."
(Excerto de Notas)
Relativamente à novela Vinte dias de agonia com que termina o volume, diz-nos Camilo:
"Escrevi, ha tempo, sob a mesma impressão, uma prosa, que me parece
mais poesia que o verso, e que muito serve de commentario ao poema. Elle,
o poeta, que o foi na vida, na resignação, e na morte, que abraçou,
sorrindo-lhe, como desgraçado e como christão, não direi quem foi Cubra-se-lhe a face com uma dobra da mortalha de Alda. São dous nomes, que não profanarei... duas imagens magnificas na dôr e na poesia, excepções a tudo isto que por ahi vai...
É esta a prosa: diz mais que o canto, penso eu:
Vinte dias de agonia
Quiz abrir um abismo na minha alma. Quiz envolver-me nas trevas de uma angustia mortal. Quiz imaginar as agonias d'um homem, que, aos vinte e seis annos, cae na sepultura, depois de erguer-se ao ponto culminante da vida, e da esperança. Vi-o morrer. Morreu como se a morte, seu unico anjo d'amor, lhe désse um beijo de paz eterna na hora final. Mas aquelles vinte dias derradeiros foram a purificação daquelle holocausto sublime, consummado pelas bagas d'um suor frio, pelo cahir d'uma lagrima glacial, pelo estorcimento convulso dos labios, semelhante a um sorriso."
(Excerto de Vinte dias de agonia)
Camilo Castelo Branco (Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1890). "Foi um dos maiores e mais prolíficos escritores portugueses do século XIX. É amplamente considerado o principal expoente do Romantismo em Portugal. Ele destacou-se também por ser o primeiro escritor profissional do país a conseguir viver exclusivamente dos rendimentos da sua vasta produção literária. Em reconhecimento ao seu impacto cultural, o rei D. Luís I concedeu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho em 1885." (IA)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Desencadernado, sem capas. F. rosto apresenta manchas, pequeno rasgão e três orifícios à cabeça.
Raro.
75€

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