KANT, Immanuel - ENSAIOS DE KANT A PROPÓSITO DO TERRAMOTO DE 1755. Traduzidos por Luís Silveira. Lisboa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1955.In-8.º (21,5x16,5 cm) de [4], III, [1], 64, [2] p ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima do eminente filósofo alemão, elaborada pouco tempo após o Terramoto de Lisboa em 1755, pela primeira vez vertida para português no ano em que se assinala o bicentenário da tragédia.
Acerca dos ensaios de Kante relacionados com o Terramoto de Lisboa, com a devida vénia, reproduzimos parte do artigo de Leonel Ribeiro dos Santos da UL:
"Os 3 ensaios que, sobre o terremoto de Lisboa de 1 de novembro
de 1755, Kant escreveu nas semanas e meses que seguiram à catástrofe e
que foram publicados nos primeiros meses do ano 1756 (o primeiro, em
24 e 31 de janeiro, num semanário de Königsberg, o segundo e mais
longo, publicado autonomamente no início de março, e o terceiro,
publicado no mesmo semanário do primeiro, a 10 e 17 de abril), têm
sido objeto de muito escassa atenção, até mesmo por parte dos
kantianos, passando despercebidos ou sendo mesmo desvalorizados, ora porque se tomam por meros escritos de juventude e de circunstância, não
sendo o assunto de que se ocupam nenhum tópico relevante da agenda
propriamente filosófica da época, ora porque se pensa tratarem eles de
matérias que eram objeto de saberes ainda “selvagens” ou em processo
de constituição como a Geologia e a História da Terra, baseados na
descrição e na interpretação de fenómenos empíricos para cuja
explicação se invocava teorias antigas e, por isso, também sem uma real
relevância para os estudos da sismologia “científica”, que só se afirmaria
como tal muito mais tarde. Desvalorizados, por conseguinte, tanto pela
sua irrelevância filosófica quanto pela científica. [...]
A primeira coisa que impressiona ainda hoje o leitor destes
ensaios é a rapidez da resposta reflexiva de Kant aos acontecimentos e a
amplitude e densidade científica e especulativa dessa resposta. [...] Atendendo à
quantidade de autores, testemunhos e fontes (mais de uma vintena) que
cita, refere e comenta nesses ensaios, sobretudo no segundo, não é verossímil que Kant os tivesse encontrado e reunido todos à pressa para
apoiar as suas reflexões. Na verdade, esses escritos, embora sejam
motivados pelo acontecimento sísmico, que abalou e destruiu Lisboa na
manhã do 1 de novembro de 1755, inscrevem-se numa fase importante
de constituição e afirmação do pensamento do jovem Kant, nos anos
1754-1756, caracterizada por preocupações naturalistas, na qual ele se
revela já como um pensador autónomo e extremamente ousado, ocupado
sobretudo com questões de Cosmologia e Cosmogonia, de História da
Terra e Geografia Física. [...]
Mas não só isso. O jovem Kant revela-se particularmente
impressionado pelo caráter singular do acontecimento. Disto dão prova
várias declarações esparsas pelos ensaios que apontam todas para a
singularidade, a magnitude e extensão de efeitos, o alcance e o
significado do terremoto de Lisboa, e não apenas como fenómeno físico
digno de ser pensado por investigadores da natureza, mas também pelo
que ele representa como desafio, interpelação e ocasião para uma
reflexão sobre o destino coletivo dos homens e sobre a condição
humana."
(Fonte: Santos, Leonel Ribeiro dos, Pensar a catástrofe, pensar a atualidade: Os
ensaios de Kant sobre o terremoto de Lisboa, Universidade de Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Lisboa,
Portugal), 2016)
"Os ensaios escritos por Kant acerca do terremoto de 1755 merecem ser considerados, ainda hoje, entre as mais importantes páginas da literatura mundial que dizem respeito ao acontecimento.
Ao fazer-se a presente tradução para língua portuguesa destes escritos pretendeu-se chamar, de novo, a atenção para uma das melhores descrições coevas do fenómeno e para as considerações éticas do filósofo em volta dele. [...]
Quando Kant, porém, corajosamente, sustentou que o abalo de terra e de mar que atingiu Lisboa com destruições e morte não teria sido o castigo divino caído sobre a cidade cheia de pecados, e pretendeu demonstrar a utilidade dos terremotos e a vanidade do juízo dos homens sobre as desgraças que os oprimem, escreveu páginas profundas que transpuseram os limites do tempo e conservam, hoje ainda, o vigor e a beleza com que há duzentos anos foram escritas."
(Excerto do Preâmbulo)
"Grandes acontecimentos, que interfiram no destino da humanidade, despertam, com razão, a curiosidade inerente a tudo quanto é fora do vulgar e levam a inquirir das causas que os provocaram. [...]
A primeira observação que qualquer faz imediatamente é que o solo sobre o qual vivemos deverá ser oco e que as abóbadas que o formam se continuam, umas ligadas às outras, até sob o mar.
Não quero ir buscar exemplos históricos, pois não pretendo escrever uma história dos tremores de terra. [...] Lisboa e a Islândia, por exemplo, que distam uma da outra mais de quatro centenas e meia de milhas alemãs, sofreram, no mesmo dia, um terremoto. [...]
Se em casos tão terríveis valesse aos homens tomar precauções, e não se julgasse inútil e irrisório opor fracas resistências a desgraças gerais, deviam as ruínas de Lisboa Lembrar que não se deveria tornar a construir ao longo do Tejo, dado que o rio indica a direcção que, naturalmente, os tremores de terra seguirão nesse país. [...]
A catástrofe de Lisboa parece que foi também maior por a cidade estar construída ao longo do Tejo; por esta razão, as cidades em regiões onde são frequentes os tremores de terra e onde é possível determinar o sentido deles não deveriam ser construídas em direcção paralela à dos sismos. Mas a maior parte dos homens, em circunstâncias semelhantes a esta, pensa de modo diferente. Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que se não podem minorar por qualquer preocupação e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina."
(Excerto da Introdução de Kant)
[Preâmbulo] | [Introdução de Kant] | História e descrição dos acontecimentos mais notáveis do terremoto que no fim do ano de 1755 agitou grande parte da Terra | Explicação preliminar do estado em que se encontra o interior da Terra | Acerca dos antecedentes do último terremoto | O terremoto e maremoto do dia 1 de Novembro de 1755 | Considerações acerca das causas deste movimento das águas | O terremoto de 18 de Novembro | O terremoto de 9 de Dezembro | O terremoto de 26 de Dezembro | Dos lapsos de tempo que medeiam entre tremores de terra sucessivos | Do local da combustão subterrânea e dos lugares onde os tremores de terra são mais frequentes e perigosos | Da direcção em que o solo é agitado pelos tremores de terra | Da relação dos tremores de terra com as estações do ano | Da influência dos tremores de terra na atmosfera | Da utilidade dos terremotos | Observação | Considerações finais | Novas considerações acerca dos últimos abalos da Terra.
Immanuel Kant (1724-1804). "Nasceu em 1724, em Könisberg, onde faleceu em 1804. Teve uma vida calma, sóbria, dedicada ao estudo e ao ensino. Profundamente imbuído dos ideais do Iluminismo, Kant professou uma profunda simpatia pelos ideais da Independência Americana e da Revolução francesa. Foi pacifista convicto, antimilitarista e estranho a toda a forma de patriotismo exclusivista. As obras de Kant costumam distribuir-se por três períodos, que habitualmente se denominam pré-crítico, crítico e pós-crítico. As suas obras mais conhecidas e influentes foram escritas no segundo período, incluindo-se entre elas a Metafísica dos Costumes."
(Fonte: Wook)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
30€

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