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19 outubro, 2026

MELLO, Thomaz de - BOHEMIA ANTIGA
. Por.... Lisboa, Typographia de A. da Costa Braga, 1897. In-8.º (18,5x12,5 cm) de [8], 263, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Crónica de uma viagem a Sevilha, interessantíssima, seguida de um conjunto de histórias engraçadas e curiosas pela pena de D. Tomás de Melo, conhecido pândego da época.
"Por esse tempo ainda não havia casas de penhores, affinaçadas pelo Governo Civil; os prégos eram clandestinos.
Existiam alguns taberneiros e moços de botequim que, por intermedio de seus agentes, como eram entre outros o Theodoro, o Phoca, o Rei Wamba e o Pessoa, faziam esta especie de negocios.
Quando então se empenhava qualquer objecto, o seu agio era enorme. Não se limitava ao juro imposto pelo préguista, acrescia ainda o preço do recado, que se pagava ao gallego, que ia chamar o agente e a gratificação que este recebia! Quem levantasse uma moeda sobre qualquer penhor encontrava-se, a maior parte das vezes, com tres mil e seiscentos!
D'entre todos estes onzeneiros os mais afamados eram o Marreca, de quem fallamos n'estas memorias; o Prado Chapelleiro, do Rocio; o Carvoeiro, hervanario da Travessa de Santa Justa e o celebre José Confeiteiro, da Rua do Ouro, de quem respeitosamente nos vamos occupar.
Este, ao escurecer, soltava os seus agentes pelas immediações do Marrare do Arco do Bandeira, do Botequim do Freitas e do Café do Hespanhol, mais conhecido pelo Canto do Muro em virtude da sua grande analogia com o celebrado Canto do Muro, do Pinhal da Azambuja.
O José Confeiteiro, que em epochas anteriores se recusava a acceitar qualquer objecto que não fosse de ouro ou prata, já por esse tempo emprestava sobre tudo que tivesse algum valor, não se negando mesmo a transaccionar com egua ou cavallo, que lhe apresentassem, logo que os visse gordos e de pello luzidio."
(Excerto de O José Confeiteiro)
Índice:
Uma viagem a Sevilha - Da Travessa dos Burros (á boa-morte) á Calle de la Sierpe | Outros tempos... - O José Confeiteiro (1860); - Na Boa Morte. A espada do cardeal de Retz e um cavallo deitado á almargem (1865); - Um negocio de frangãos (1865); - O Armario do Chico Mendonça (1860); - As botas de Napoleão; - Memorias da mocidade e… azeite doce. A José Augusto Galache; - O corcunda do Chiado; - Um Duello.
Tomás de Melo (na grafia de então, Thomaz de Mello) (1836-1905). Foi um escritor português, casado com D. Maria de Jesus de Bragança, filha ilegítima de D. Miguel I. Sobre a sua conduta de bon vivant e bom garfo lemos na revista O António Maria:
"Quem o não conhece, ao D. Thomaz de Mello, como um dos mais patuscos, mais curiosos, mais attrahentes typos d'essa bohemia de melhores tempos que lhe valeu agora, em boas reminiscencias, um alegre livro?! Quem o não conhece, ao da grande pera e mais o grande bigode, grande chapeu desabado e grande pança cahida, dilatada por quantas ceias e idas ás hortas memoraveis de que nos falla a Historia, e em que elle tomou parte, denodadamente, em tremendissimas pandegas de estalo!"
Foi autor dos seguintes livros: Cenas de Lisboa (1874); Modesta: memórias de um degredado (1874); O Conde de S. Luís (1874; 2.ª ed. 1903); A espera de touros em Carriche (1879); Boémia antiga (1897); Contos e casos (1904); Recordando "O Negro de Alcântara": tragédia em 4 actos, paródia do "Otelo" (1904). Foi ainda proprietário da revista O reclamo: órgão da Agência Universal de Anúncios, publicada pela casa Júlio Rodrigues, em 1892."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação simples em tela, com ferros gravados a seco e a ouro na lombada, executada nas oficinas de mestre Paulino Ferreira. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação.
Raro.
25€

10 outubro, 2026

MONTEIRO, José de Sousa - SANTO ANTONIO DE LISBOA.
Estudo de Historia e Critica. Por... Socio effectivo da Academia Real das Sciencias. Lisboa, Imprensa Nacional, 1895. In-4.º (25x15 cm) de 125, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Obra biográfica comemorativa do sétimo centenário natalício de Santo António de Lisboa.
Ilustrada com o retrato do Santo com o Menino, reprodução do quadro de Murillo (parte central) existente no museu de Berlim. Gravura de M. Diogo Netto.
"Ha pouco dizia a Don Locatelli de Padua o Pontifice que gloriosamente preside na Igreja universal: «Importa amar muito a Santo Antonio e procurar que os outros o amem. Santo Antonio não é só de Padua, é do universo inteiro». Tem este livro, de mais ambições que paginas, o expressivo proposito de fixar com a exacção possivel algumas das feições do engenho e da alma do grande portuguez."
(Excerto da Introdução)
José de Sousa Monteiro (1846-1909). "Nasceu na Praia (Cabo Verde) a 20 de agosto de 1846 e faleceu em Lisboa a 12 de outubro de 1909. Em Lisboa obteve o Curso Superior de Letras e o de Diplomacia. Foi diplomata, jornalista, escritor, deputado (1879-1882) e diretor-geral do Ministério das Finanças.
Pertenceu ao Instituto de Coimbra, foi comendador de Carlos III de Espanha e comendador de Leopoldo da Bélgica e recebeu ainda a Grã-Cruz da Ordem de Santiago.
Na Academia das Ciências de Lisboa foi eleito sócio correspondente da Classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras a 5 de junho de 1884 e efetivo a 25 de junho de 1891. Desempenhou nesta Academia os cargos de Vice-Secretário (1896), Secretário-Geral (?-1909) e Presidente da Classe de Letras (1909)."
(Fonte: https://arquivo.acad-ciencias.pt/authorities/20134)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação.
Muito invulgar.
15€

30 setembro, 2026

LENCASTRE, D. José Coutinho de -
DIGRESSÃO RECREATIVA : PASSATEMPO ALEGRE OU  REVISTA DO VIVER DAS PRAIAS, NA EPOCHA DOS BANHOS DO MAR.
No corrente anno de 1870. Lisboa, Typographia Portugueza, 1871. In-8.º (20,5x13 cm) de 34, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Curioso roteiro das praias de Lisboa e da Linha, até Cascais. Não assinado. Sabe-se no entanto que o seu autor foi D. José Coutinho de Lencastre.
A Digressão Recreativa é uma espécie de crónica socialite sobre os frequentadores das praias da região litoral de Lisboa e arredores durante a época estival, talvez a primeira "revista" do género publicada entre nós. Em cada "praia" o autor dá conta das moradias e nomeia as famílias que os habitam.
"Todos sabem, e muito bem conhecem, n'esta côrte, nobre a antiga cidade de Lisboa, segundo antigas lendas, patria do antigo pai Ulysses, que se denominam Praias, toda essa orça de areias, ou fita, que se estende, em sinuosidades caprichosas, e banhada por aguas cristalinas, e salsas ondas, do formoso Tejo, desde, a Torre de Belem, até á de S. Julião, ou S. Gião, se alguem quizer ou mais lhe agradar."
(Excerto do Preâmbulo)
"A designação é consagrada por eras bem antigas. Local aonde, o nauta fatigado, de asperas vigilias, riscos, e trabalhos, em bem longa viagem, cercado continuadamente de perigos sobre baixios, mares tormentosos, e encapellados, vem finalmente lançar ferro, dar fundo, e seguro em suas amarrações, recupera animo e forças, á vista da terra appetecida, ou lar domestico, abafando n'alma, alegre e contente, o prazer, que lhe prende a vida, ou pula no coração, de em breve, abraçar amante, parentes e amigos.
Tem o Dáfundo seu nobre Castellão, o Ex.mo Marquez de Cstello-Melhor, que vem todos os annos pelos mezes de Setembro, e Outubro, habitar alli, o seu Doujon acatelado, acompanhado de suas amabilissimas Irmãs."
(Excerto de Dafundo)
"Estendida em tiras, aos pés do vistoso monte monte de Santa Catharina. Á entrada, o mesmo perigo que na Ponta de Algés, senão peior.
A mesma censura, e mais fulminante, á Illm.ª Camara da Villa, e Concelho de Oeiras, pelos seus indesculpaveis descuidos. [...]
Este anno, apesar de tudo, reuniu-se alli, bem elegante sociedade, de supremo bom tom; a côrte celeste dos Anjos, rancho fatidico, e esbelto, ostentando galas e primores do mais refinado bom gosto em casquilhos toilletes, trajados por tão graciosas deidades, que esparziam sorrisos feiticeiros, e sabiam acompanhal-os de um chic, todo especial, em animadas conversas, ou mais distracções campestres."
(Excerto de Cruz-Quebrada)
"Está dito. Vou. Uma visita tem todo logar, e é bem cabida, n'esta occasião, em que reside alli, tanta gente, e nobre gente, illustre, e mui fidalga gente. Nobres cavalleiros e formosas Damas, flôres mimosas e estrellas resplandescentes. Eu bem reconheço, o quanto é arriscado, o meu proposito, tendo de observar, ver, e contar depois, quanto vi, e quanto ouvi. Mas apezar de tudo, seguirei por diante, o meu fadario errante, dê por onde der, e tanto mais tendo ouvido rosnar, tanta cousita, exquisita, extravagante, e bonita; desejo, e se me aguça, a vontade, de ir observar, por mim mesmo, se é verdade, o romntico, o poetico, e o fadista, de quanto se relata, da sociedade, aliás elegantissima, d'aquelle sitio."
(Excerto de Cascaes)
Índice:
[Preâmbulo] Torre de Belem | Pedrouços | Ponte d'Algés | Dafundo | Cruz-Quebrada | Boa-Viagem | Caxias | Paço d'Arcos | Oeiras | Cascaes.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos.
Muito raro.
100€

16 agosto, 2026

GOODOLPHIM, Costa -
COMPANHIA LISBONENSE DE ILLUMINAÇÃO A GAZ.
(Traços geraes para a sua historia). Por... Lisboa, Typographia Universal (Imprensa da Casa Real). 1892. In-4.º (24x15,5 cm) de 55, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante monografia sobre a Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás, empresa responsável pela introdução e expansão da rede de gás e iluminação pública a gás em Lisboa, substituindo o azeite. O livro documenta a evolução técnica, os marcos da empresa e a história da produção de gás na capital.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória manuscrita do autor "Ao Ex.mo Sr. Antonio Centeno"...
"[...] Em 1846 um francez, José Detry, veio recommendado ao conde de Farrobo, apresentando um processo para a illuminação a gaz.
O conde, que era o homem verdadeiramente amante do progresso, espirito lucido, que deizou um rasto brilhante da sua passagem, que soube conquistar uma celebridade pela magnifiencia dos seus saraus, acolheu o recem-vindo e apresentou-o a Claudio Adriano da Costa, que era tambem um trabalhador intteligente. Este, com José Detry combinaram umas bases, que em 17 de março do  mesmo anno foram, em requerimento, apresentadas ao governo.
Essas bases, eram:
1.ª Accender até 3:000 bicos de luz, segundo as ordens da camara municipal ou de Sua Magestade;
2.ª Fornecer o gaz por cinco horas por dia para cada um d'estes bicos, ou 1:825 horas no anno;
3.ª Construir laboratorio, gazometros, apparelhos, etc., collocar pilares, tubos e lampiões para o publico, tudo á custa da empreza;
4.ª Extrahir o gaz de carvão de pedra, ou outro qualquer mineral, comtanto que tambem fôsse portuguez;
5.ª Construcção de todas as obras dentro de cinco annos;
6.ª O pagamento da nova illuminação pelo custo, termo médio, dos ultimos cinco annos da mesma illuminação a azeite;
7.ª Receber gratuitamente todos os utensilios, candieiros, apparelhos, etc., da velha illuminação;
8.ª Local gratuito para o seu estabelecimento, e isenção de todos os tributos collectivos, tanto munipaes como geraes, sobre a empreza;
9.ª Introducção, sem paga de direitos, de todas as machinas e materias primas para fundarem o seu estabelecimento;
10.ª O exclusivo por 30 annos para a illuminação publica e tambem particular, quando esta houvesse de principiar.
E ainda, havendo qualquer outro concorrente, serem os requerentes ouvidos sobre as condições offerecidas."
(Excerto de Fundação da Companhia lisbonense de iluminação a gaz)
José Cipriano da Costa Goodolphim (1842–1910), foi um destacado sociólogo, jornalista, poeta, conferencista e a figura fundadora do mutualismo em Portugal. Teve um papel crucial no desenvolvimento e estudo da economia social no país durante a segunda metade do século XIX.  Investigou de forma pioneira o associativismo e as dinâmicas de entreajuda e previdência social em território português. (IA)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Por aparar. Envelhecido. Capas escurecidas, com defeitos.
Raro.
Com interesse histórico e olisiponense.
25€

24 julho, 2026

CASTEL-BRANCO, José Emilio de Sant'Anna da Cunha -
RELATORIO ÁCERCA DOS SYSTEMAS MODERNOS DE CANALISAÇÃO EMPREGADOS NA EUROPA PARA ESGOTO DAS CIDADES APRESENTADO AO MINISTERIO DAS OBRAS PUBLICAS, COMMERCIO E INUDSTRIA EM 29 DE JANEIRO DE 1879.
Por... Capitão de engenheria ao serviço do mesmo ministerio. Publicação Officil. Texto. Lisboa, Imprensa Nacional, 1880. In-fólio (30x21,5 cm) de 397, [1] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Importante trabalho acerca dos diversos sistemas de esgotos existentes nas principais cidades europeias, e outras, resultado do périplo de estudo empreendido pela autor, numa época em que as autoridades de Lisboa procuravam uma solução satisfatória para a cidade.
"O escoamento dos resíduos industriais foi frequentemente articulado com a implantação do sistema de esgotos. Grande parte das propostas de criação de redes urbanas de esgotos que surgiram na segunda metade do século XIX, previam que os resíduos líquidos dos estabelecimentos fabris fossem escoados por estas redes, que em muitos casos desembocavam nos rios. Em 1874 as propostas apresentadas para Lisboa pelos engenheiros João Fagundo da Silva, João Evangelista de Abreu e José Emílio de Santana da Cunha Castel Branco defendiam que os esgotos da cidade desembocassem no rio Tejo. O engenheiro Castel-Branco tinha inclusive realizado uma viagem de estudo ao estrangeiro que lhe tinha permitido estudar o sistema de esgotos de várias cidades."
(Matos, Ana Cardoso de - A Utopia do Conhecimento Químico e da Engenharia Urbana para a solução dos problemas das Cidades do século XIX: o caso de Lisboa, Universidade de Évora - Cidehus, 2016)
Obra ilustrada com quadros e tabelas, sendo um deles desdobrável de grandes dimensões (30x65 cm): "Cidades que praticam a irrigação com as aguas de esgoto".
"O presente trabalho foi elaborado para satisfazer á portaria de 16 de junho de 1877, que me incumbiu de visitar e estudas as canalisações nas principaes cidades da Europa onde modernamente se têem estabelecido para esgoto e saneamento das mesmas cidades, fazendo relatorio detalhado sobre o modo por que funccionam.
Para dar cumprimento a estas ordens saí de Lisboa no dia 10 de setembro de 1877, regressando em 20 de junho seguinte, depois de ter visitado, por conselho das pessoas competentes no assumpto, as cidades a que se refere este relatorio, entre as quaes figuram, julgo, as mais importantes que na Europa, nos ultimos tempos, têem realisado desenvolvidamente trabalhos de canalisação de esgoto.
Tambem n'este trabalho se trata de obras feitas em algumas cidades que não têem direito a serem classificadas entre as principaes da Europa, por acontecer actualmente que nem sempre os mais interessantes, completos ou cvaracteristicos trabalhos de esgoto se encontram exemplificados nas cidades mais populosas ou importantes; e tambem porque, tendo sido a questão do saneamento de Lisboa a causa da portaria ha pouco mencionada, julguei da maxima conveniencia obeter o conhecimento e fazer o estudo das obras de canalisação de algumas cidades que apresentam condições de situação, orographicas ou outras, comparaveis á da nossa capital. [...]
Consta o relatorio da serie de monographias dos differentes trabalhos de esgoto por mim estudados, monographias mais ou menos desenvolvidas segundo a importancia, o caracter d'essas obtrs e a somma das informações obtidas. Quasi sempre ao systema de esgoto empregado em cada cidade é reservado um capitulo especial, que se subdivide em secções, em cada uma das quaes se analysa algum orgão, ou grupo de orgãos importante do systema, ou se considera este ultimo sob um determinado ponto de vista."
(Excerto de Observações preliminares)
José Emílio de Santana da Cunha Castelo Branco (1849-1920). "Estudou na Escola do Exército em Lisboa. Em 1875, trabalhou para o Ministério das Obras Públicas nos estudos do Caminho-de-Ferro da Beira Alta. Depois de uma missão pelo estrangeiro foi encarregue de estudar o problema do saneamento e limpeza da cidade de Lisboa. Foi também docente da Escola do Exército. Trabalhou em Angola na Missão chefiada por Rafael Gorjão. Foi enviado para a Índia por ser especialista em Hidráulica Agrícola, chegou a Goa em Janeiro de 1904. Em 1905, fez uma viagem de inspecção ás Obras Públicas e Militares de Macau, onde trabalhou nos projectos do Porto de Macau; saiu da Índia a 31 de Março de 1906, rumo à Birmânia, e em Outubro de 1906 foi oficialmente transferido para Timor. Foi Governador Interino de Macau. Termina as suas comissões nas colónias em 1908."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas cansadas, com falha de papel relevante na capa anterior. Interior correcto.
Raro.
25€

14 junho, 2026

KANT, Immanuel -
ENSAIOS DE KANT A PROPÓSITO DO TERRAMOTO DE 1755.
Traduzidos por Luís Silveira. Lisboa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1955.In-8.º (21,5x16,5 cm) de [4], III, [1], 64, [2] p ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima do eminente filósofo alemão, elaborada pouco tempo após o Terramoto de Lisboa em 1755, pela primeira vez vertida para português no ano em que se assinala o bicentenário da tragédia.
Acerca dos ensaios de Kante relacionados com o Terramoto de Lisboa, com a devida vénia, reproduzimos parte do artigo de Leonel Ribeiro dos Santos da UL:
"Os 3 ensaios que, sobre o terremoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755, Kant escreveu nas semanas e meses que seguiram à catástrofe e que foram publicados nos primeiros meses do ano 1756 (o primeiro, em 24 e 31 de janeiro, num semanário de Königsberg, o segundo e mais longo, publicado autonomamente no início de março, e o terceiro, publicado no mesmo semanário do primeiro, a 10 e 17 de abril), têm sido objeto de muito escassa atenção, até mesmo por parte dos kantianos, passando despercebidos ou sendo mesmo desvalorizados, ora porque se tomam por meros escritos de juventude e de circunstância, não sendo o assunto de que se ocupam nenhum tópico relevante da agenda propriamente filosófica da época, ora porque se pensa tratarem eles de matérias que eram objeto de saberes ainda “selvagens” ou em processo de constituição como a Geologia e a História da Terra, baseados na descrição e na interpretação de fenómenos empíricos para cuja explicação se invocava teorias antigas e, por isso, também sem uma real relevância para os estudos da sismologia “científica”, que só se afirmaria como tal muito mais tarde. Desvalorizados, por conseguinte, tanto pela sua irrelevância filosófica quanto pela científica. [...]
A primeira coisa que impressiona ainda hoje o leitor destes ensaios é a rapidez da resposta reflexiva de Kant aos acontecimentos e a amplitude e densidade científica e especulativa dessa resposta. [...] Atendendo à quantidade de autores, testemunhos e fontes (mais de uma vintena) que cita, refere e comenta nesses ensaios, sobretudo no segundo, não é verossímil que Kant os tivesse encontrado e reunido todos à pressa para apoiar as suas reflexões. Na verdade, esses escritos, embora sejam motivados pelo acontecimento sísmico, que abalou e destruiu Lisboa na manhã do 1 de novembro de 1755, inscrevem-se numa fase importante de constituição e afirmação do pensamento do jovem Kant, nos anos 1754-1756, caracterizada por preocupações naturalistas, na qual ele se revela já como um pensador autónomo e extremamente ousado, ocupado sobretudo com questões de Cosmologia e Cosmogonia, de História da Terra e Geografia Física. [...]
Mas não só isso. O jovem Kant revela-se particularmente impressionado pelo caráter singular do acontecimento. Disto dão prova várias declarações esparsas pelos ensaios que apontam todas para a singularidade, a magnitude e extensão de efeitos, o alcance e o significado do terremoto de Lisboa, e não apenas como fenómeno físico digno de ser pensado por investigadores da natureza, mas também pelo que ele representa como desafio, interpelação e ocasião para uma reflexão sobre o destino coletivo dos homens e sobre a condição humana."
(Fonte: Santos, Leonel Ribeiro dos, Pensar a catástrofe, pensar a atualidade: Os ensaios de Kant sobre o terremoto de Lisboa, Universidade de Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Lisboa, Portugal), 2016)
"Os ensaios escritos por Kant acerca do terremoto de 1755 merecem ser considerados, ainda hoje, entre as mais importantes páginas da literatura mundial que dizem respeito ao acontecimento.
Ao fazer-se a presente tradução para língua portuguesa destes escritos pretendeu-se chamar, de novo, a atenção para uma das melhores descrições coevas do fenómeno e para as considerações éticas do filósofo em volta dele. [...]
Quando Kant, porém, corajosamente, sustentou que o abalo de terra e de mar que atingiu Lisboa com destruições e morte não teria sido o castigo divino caído sobre a cidade cheia de pecados, e pretendeu demonstrar a utilidade dos terremotos e a vanidade do juízo dos homens sobre as desgraças que os oprimem, escreveu páginas profundas que transpuseram os limites do tempo e conservam, hoje ainda, o vigor e a beleza com que há duzentos anos foram escritas."
(Excerto do Preâmbulo)
"Grandes acontecimentos, que interfiram no destino da humanidade, despertam, com razão, a curiosidade inerente a tudo quanto é fora do vulgar e levam a inquirir das causas que os provocaram. [...]
A primeira observação que qualquer faz imediatamente é que o solo sobre o qual vivemos deverá ser oco e que as abóbadas que o formam se continuam, umas ligadas às outras, até sob o mar.
Não quero ir buscar exemplos históricos, pois não pretendo escrever uma história dos tremores de terra. [...] Lisboa e a Islândia, por exemplo, que distam uma da outra mais de quatro centenas e meia de milhas alemãs, sofreram, no mesmo dia, um terremoto. [...]
Se em casos tão terríveis valesse aos homens tomar precauções, e não se julgasse inútil e irrisório opor fracas resistências a desgraças gerais, deviam as ruínas de Lisboa Lembrar que não se deveria tornar a construir ao longo do Tejo, dado que o rio indica a direcção que, naturalmente, os tremores de terra seguirão nesse país. [...]
A catástrofe de Lisboa parece que foi também maior por a cidade estar construída ao longo do Tejo; por esta razão, as cidades em regiões onde são frequentes os tremores de terra e onde é possível determinar o sentido deles não deveriam ser construídas em direcção paralela à dos sismos. Mas a maior parte dos homens, em circunstâncias semelhantes a esta, pensa de modo diferente. Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que se não podem minorar por qualquer preocupação e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina."
(Excerto da Introdução de Kant)
[Preâmbulo] | [Introdução de Kant] | História e descrição dos acontecimentos mais notáveis do terremoto que no fim do ano de 1755 agitou grande parte da Terra | Explicação preliminar do estado em que se encontra o interior da Terra | Acerca dos antecedentes do último terremoto | O terremoto e maremoto do dia 1 de Novembro de 1755 | Considerações acerca das causas deste movimento das águas | O terremoto de 18 de Novembro | O terremoto de 9 de Dezembro | O terremoto de 26 de Dezembro | Dos lapsos de tempo que medeiam entre tremores de terra sucessivos | Do local da combustão subterrânea e dos lugares onde os tremores de terra são mais frequentes e perigosos | Da direcção em que o solo é agitado pelos tremores de terra | Da relação dos tremores de terra com as estações do ano | Da influência dos tremores de terra na atmosfera | Da utilidade dos terremotos | Observação | Considerações finais | Novas considerações acerca dos últimos abalos da Terra.
Immanuel Kant (1724-1804). "Nasceu em 1724, em Könisberg, onde faleceu em 1804. Teve uma vida calma, sóbria, dedicada ao estudo e ao ensino. Profundamente imbuído dos ideais do Iluminismo, Kant professou uma profunda simpatia pelos ideais da Independência Americana e da Revolução francesa. Foi pacifista convicto, antimilitarista e estranho a toda a forma de patriotismo exclusivista. As obras de Kant costumam distribuir-se por três períodos, que habitualmente se denominam pré-crítico, crítico e pós-crítico. As suas obras mais conhecidas e influentes foram escritas no segundo período, incluindo-se entre elas a Metafísica dos Costumes."
(Fonte: Wook)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
30€

08 maio, 2026

SILVA, Maria Luísa Mercês de Mello Alarcão e & SILVA, Alberto Eduardo Alarcão e -
A REAL TAPADA D'ALCÂNTARA / AJUDA. Lisboa, Junta de Freguesia de Alcântara, 2013. In-8.º (21x15 cm) de 39, [1] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Bonita monografia sobre a Tapada da Ajuda e a sua história.
Ilustrada no texto com reprodução de gravuras, fotografias e uma planta a cores: "Planta da Real Quinta do Calvário. Levantada e desenhada por Jozé Antonio de Abreu, capitão engenheiro, vogal secretário da Comissão do Tombo dos Bens da Coroa em 1844."
"A Tapada da Ajuda é um Parque Botânico de reconhecido interesse, com c. 100 hectares, localizado no interior da cidade de Lisboa, entre o Parque Florestal de Monsanto e o vale de Alcântara. Nela encontra-se um extenso património natural, histórico, arqueológico e arquitetónico, este último dos séculos XVII ao XX. [...] No que concerne ao património natural, destaca-se uma Reserva Botânica, arboretos diversos, viveiros florestais, terrenos de cultura (pomares, vinhas, prados, culturas arvenses e hortícolas), diversas espécies domésticas e silvestres características, e jardins. De entre estes últimos, realcem-se o Jardim da Parada, o Jardim da Rainha e o Jardim do Auditório. No primeiro, em frente ao Pavilhão de Exposições, ocorriam paradas militares e, na altura da Exposição, desfiles de animais e alfaias agrícolas. No segundo, existem três bancos forrados a azulejos, da década de 1940, que retratam episódios históricos e religiosos. No último, situado no extremo sul da Tapada, encontra-se um Anfiteatro de Pedra, da autoria do Arquiteto Francisco Caldeira Cabral. No ponto mais alto da Tapada, junto ao marco geodésico (134 m de altitude), existe um miradouro que oferece um vasto panorama sobre a cidade e o rio Tejo. O conjunto intramuros da Tapada da Ajuda encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público."
(Fonte: https://www.ulisboa.pt/patrimonio/tapada-da-ajuda)
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa dos autores ao Professor António Martins Alves.
"A "Tapada d'Alcântara", ou tão simplesmente "A Tapada", como os habitantes do local a conheceram e designaram, de jeito quase familiar, mudada que foi - devido ao terramoto do dia 1 de Novembro de 1755 - a residência régia habitual do Terreiro do Paço para construções provisórias de madeira (A "Real Barraca") na zona da Ajuda, "é natural que passasse a Tapada, quanto ao nome, a sofrer a influência da nova valorização dos sítios confinantes: Alcântara decairia em favor da Ajuda, sobranceira e firme; a dois passos, confinada entre os seus altos muros, vista agora do cimo do monte melhor figurava a vasta propriedade a soberania de seus donos, como que formando traço de união um tanto agreste entre o paço e a cidade."
(Excerto da Apresentação)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Invulgar.
Com interesse histórico.
Indisponível
 

07 maio, 2026

AUGUSTO, Ignacio -
A INFELIZ.
Conto moral. Por... [Porto], Editor Ignacio Augusto [Imprensa Nacional], 1905. In-8.º (19x12 cm) de 16 p. ; B.
1.ª edição.
Conto verídico com intuitos moralizadores. Narra a "perdição" de uma moça do campo, desde os tempos da fábrica onde se empregara (e fora seduzida) às ruas de Lisboa onde, de prostíbulo em prostíbulo, terminou os seus dias. No final, o autor apela à consciência colectica pela "extranha tolerancia em favor das vergonhosas casas de prostituição".
Opúsculo curioso e muito invulgar. A BNP não menciona. Nada foi possível apurar acerca do autor d'A infeliz, uma vez que não foi possível chegar a qualquer fonte bio-bibliográfica, mas pelo sentido da narrativa seria do Porto, como aliás a "biografada", mas esta dos arrabaldes da Cidade Invicta.
"Em 1886, epocha em que se passa esta narrativa, vivia n'uma das freguezias do visinho concelho do Porto, uma familia composta de pae, mãe e uma filha, uma innocente e loira creancinha que era o enlevo de seus paes.
Thereza, assim se chamava a joven que fórma o assumpto d'esta narração, passou os primeiros annos da sua vida na aldeia. Na plenitude das suas forças e da sua saude, Therezinha tomava parte alegremente em todos os innocentes jogos das creanças da sua idade.
Á medida que ia crescendo, notava-se que chegaria a ser uma rapariga formosissima; possuia umas bellas feições e uma esbelta figura, presentes do céu que desgraçadamente se trocam para muitas infelizes em rêdes de Satanaz. A sua educação domestica deixou alguma coisa a desejar, não obstante, a sua familia desfructava de uma certa consideração na aldeia.
Therezinha foi crescendo, crescendo, e, pelo espaço de muitos annos, cumpriu com exactidão todos os seus deveres.
Como seus paes não fossem ricos, com pesar seu, se viram obrigados pela idade avançada e pela falta de saude, a pedirem a uns antigos conhecimentos, para que a sua filha fosse admittida como operaria-aprendiza em uma fabrica de tecidos, onde pudesse ganhar o sufficiente para a ajuda do seu alimento e do seu vestuario. [...]
Na fabrica acima dita, quem exercia o logar de pagador era o filho d'um dos proprietarios da mesma, um valdevinos, em toda a extensão da palavra, e a quem o pae obrigou a trabalhar, para lhe tornar com a prisão d'um trabalho assiduo, a orgia menos extensa.
Mas, mesmo assim o seu germem vicioso e envenenador, ia-se alastrando lentamente em todas as victimas que por fatalidade de dirigiam um olhar, ou por algumas d'aquellas a quem a necessidade obrigava a dirigirem-se-lhe.
Carlos, pois assim se chamava o pagador, nas suas horas vagas passeava pela fabrica jogando ás escondidas de seu pae, chalaças ás operarias. As mais escrupulosas respondiam-lhe inconvenientemente, em quanto que as menos escrupulosas se riam das suas chalaças respondendo com ditos e gracejos de toda a ordem. No numero d'estas, contava-se Thereza."
(Excerto de A Infeliz)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Envelhecido e manuseado. Capas frágeis, manchadas, com defeitos.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€

06 março, 2026

MOITA, Irisalva -
PROJECTOS POMBALINOS PROVENIENTES DO ESPÓLIO DO 1.º DUQUE DE LAFÕES, D. PEDRO HENRIQUE DE BRAGANÇA
. Lisboa, [s.n. - Composto e impresso nas Oficinas Gráficas de Ramos, Afonso &
 Moita, Lda. - Lisboa], 2000. In-4.º (26x18 cm) de 16 p. ; [16] p. il. ; B.
1.ª edição independente.
Importante subsídio com interesse para a história do Terramoto de 1755, e para a política de reconstrução da cidade de Lisboa arquitectada pelo Marquês de Pombal. Trabalho publicado em separata do «Boletim Cultural» da Assembleia Distrital de Lisboa, Série IV - N.º 94 - 1.º tomo - 2000/02.
Estudo muitíssimo interessante, não mencionado na BNP.
Totalmente impresso sobre papel couché, ilustrado com 16 fotografias distribuídas por 13 páginas extra-texto, reproduzindo plantas, projectos e estudos relacionados com a reconstrução de Lisboa.
"A ideia de não se ficar pela reconstrução da cidade antiga atingida pelo Terramoto, mas vir a controlar-se o crescimento da nova cidade que, entretanto, se expandia para norte e ocidente, por meio de verdadeiros planos directores, parece ter preocupado Pombal, ao ver-se confrontado com as primeiras medidas a tomar para conter os efeitos anarquizantes que um fenómenos destas proporções podia provocar. [...]
A intenção de dotar Lisboa com um plano que condicionasse o seu crescimento já encontramos subjacente ao Edital de 30 de Dezembro de 1755, publicado pelo duque regedor das Justiças, cumprindo, naturalmente, ordens do rei, que o mesmo é dizer ordens de Pombal."
(Excerto de III - Planos pombalinos para a «urbanização dos bairros» periféricos de Lisboa)
Índice:
I - [Introdução] | I - Planos-propostas para a reconstrução da Baixa. II - Projectos destinados às construções a edificar na Baixa lisboeta referenciados na «Dissertação - Parte Terceira». III - Planos pombalinos para a «urbanização dos bairros» periféricos de Lisboa. | [Estampas].
Irisalva Moita (1924-2009). "Ilustre museóloga e olisipógrafa, foi durante mais de 20 anos directora dos Museus Municipais de Lisboa. Foi, por mérito próprio, umas das figuras mais relevantes da Olisipografia. Historiadora, arqueóloga e museóloga desenvolveu durante a segunda metade do séc. XX um vasto corpo de trabalho. Destacam-se as exposições, ainda hoje de referência, “O Culto de Sto. António, na região de Lisboa”, “Lisboa e o Marquês de Pombal” e “Lisboa Quinhentista. A imagem e a vida na cidade” e “Faianças de Rafael Bordalo Pinheiro”."
(Fonte: https://www.avidaportuguesa.com/pt/loja/irisalva-moita-um-percurso-fotobiografico-egeac)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
15€

20 fevereiro, 2026

PIMENTEL, Alberto -
O POETA CHIADO. (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos). Lisboa, Empreza da Historia de Portugal, 1901. In-4.º (23,5x15,5 cm) de 59, [5] p. ; il. ; B.

1.ª edição.
Apontamento biográfico romanceado de António Ribeiro, figura popular mais conhecida pelo epíteto Chiado - o Poeta Chiado.
Ilustrado com bonitas vinhetas tipográficas a assinalar o início de cada capítulo.
"A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das sua repetidas tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as presenceava em plena rua.
Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, por que lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o
Nasceste de regateira
e teu pai lançava solas;
era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das sua façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das sua «partidas» e «piadas», como hoje dizemos."
(Excerto do Cap. IV)
António Ribeiro 'Chiado' (1520?-1591). "Poeta jocoso que viveu no século XVI. Era conhecido pelo Chiado, por ter morado muitos anos em Lisboa, na rua assim chamada já naquele século, nome que se conservou até meados do século 19, em que foi mudado para o de rua Garrett. Nasceu num humilde arrabalde de Évora, e faleceu no ano de 1591. Quis professar na Ordem de S. Francisco, mas não se lhe dando por válida a profissão, passou o resto da vida como celibatário, vestido sempre com hábito clerical. Apesar de não ser muito douto, tinha verdadeiro talento e bastante conhecimento das boas letras. Improvisava versos com a maior facilidade, mais pelo impulso da natureza, que de arte, sendo os seus versos muito jocosos e joviais, provocando festivos aplausos a quem os escutava. Também imitava com muita propriedade e galanteria as vozes e os gestos de diversas pessoas conhecidas. Todos estes predicados lhe alcançaram a estima geral e a maior popularidade."
(Fonte: www.arqnet.pt)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos marginais.
Muito invulgar.
25€

11 fevereiro, 2026

PIMENTEL, Alberto - O LOBO DA MADRAGÔA.
Romance original. Illustrado com 40 gravuras. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1904. In-4.º (23x15 cm) de 341, [3] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Romance biográfico sobre o estoura-vergas e poeta vimaranense António Lobo de Carvalho (1730?-1787), cujo enredo está dividido em duas partes: Peccados da mocidade e Delictos da velhice, que coincide, respectivamente com a juventude do poeta, no berço minhoto, e os anos de maturidade, na capital.
Ilustrado no texto com 40 desenhos de belo efeito.
"Esboçava-se na tenue claridade do ceo o primeiro sorriso da aurora, e já a Therezinha de Villalva, madrugadora como a toutinegra, atravessava por Argemil para a beira do rio Ave.
Ella não tinha outro relogio que a despertasse, além do seu coração. Quem anda de amores não dorme, diz o povo. Aquella linda cachopa de Villalva dormia, cançada de mourejar um dia inteiro na faina dos campos, e talvez não sonhasse. Mas accordava mais cedo que toda a sua aldea; primeiro aínda que os passaros no arvoredo, exceptuando a toutinegra e o tentilhão. Era o coração que a despertava, muito de mansinho, para que ninguem mais ouvisse. [...]
A Therezinha de Villalva sahia de casa pé-ante-pé, lavava-se na corrente do Sanguinhêdo, riacho da sua aldea, como faziam mais tarde todas as outras raparigas. Via-se no espelho ainda baço da agua, que o sol illuminava frouxamente, e compunha o cabello, anediando-o com as mãos, que tambem tratava com excepcional cuidado entre camponezas. Depois partia alegre, cantando, mais feliz do que uma princeza, sem pensamentos maus que perturbassem a castidade da sua vida."
(Excerto de I - A explosão da pesqueira)
Alberto Pimentel (Porto, 1849 - Queluz, 1925). "Nasceu no Porto em 1849.
Frequentou a instrução pública no Porto; por motivos económicos não prosseguiu os estudos no ensino superior, mas veio a desenvolver um percurso profissional assinalável. No jornalismo, começou como tradutor e revisor num jornal portuense, assinando posteriormente algumas crónicas e folhetins. Na política, integrou o Partido Regenerador, através do qual foi eleito deputado e nomeado membro de várias comissões. Na área da história, redigiu biografias, ensaios e memórias, onde se salientam os primeiros estudos sobre Camilo Castelo Branco. Foi membro de diversas academias e sociedades de letras e ciências, com destaque para a Sociedade de Geografia de Lisboa. Faleceu em Queluz no ano de 1925.
Como escritor, deixou uma vasta e diversificada obra, que publicou ainda em vida: romances, poesias, traduções, contos e novelas, crónicas de viagem, peças de teatro, etc."
(Fonte: https://turismo.obidos.pt/2023/05/02/texto-de-alberto-pimentel/)
Encadernação editorial em percalina com desenho e letras a branco nas pastas e na lombada.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Pasta anterior manchada. Discreta rubrica de posse na f. rosto. Alguns (poucos) sublinhados a esferográfica.
Muito invulgar.
25€

11 janeiro, 2026

NERY, Antonio Joaquim -
O GAIATO DO TERREIRO DO PAÇO, OU O GIL BRAZ PORTUGUEZ.
Pelo author dos Oculos da Velha. Tomo I [II; III; IV]. Lisboa, Typographia Nryana, 1845. 4 vols in-8.º (15,5x10 cm) de 413, [1] p. (I) - 412, [4] p. (II) - 413, [3] p. (III) - 445, [3] p. (IV) ; E.
1.ª edição.
Curioso romance histórico em 4 volumes (completo), cuja acção decorre na Lisboa de setecentos. Apesar de publicado anónimo, conhece-se o seu autor - António Joaquim Nery.
Obra rara, não mencionada na BNP, publicada pouco depois do Eurico de Herculano, obra icónica, das mais antigas neste género de literatura.
"O tanger do sino grande (não hera o dos Capuchos, mas do convento R.***) marcando as doze horas da noite, annunciava áquelles dos oradores de Lisboa nos bairros proximos á habitação dos bons padres, estar acabado o segundo dia de desvairada folia; que ia seguir-se-lhe o terceiro, o qual hera como a corôa do delírio nesse bom tempo... Vinte e quatro horas mais e começava a quaresma de 1700... e tantos.
Dava por a meia noite: finalisára o dia 2 de Fevereiro, e hera ja aquelle, em que a Igreja celebra a festividade do milagroso S. Braz, advogado contra os perigosos apertos do esophago, laringe, e faringe, o que tudo quer dizer garganta; e a tal hora ignorâmos se o sino, continuando a tanger, chamava os frades ao côro, ou se hera por simples formalidade, guardando a etiqueta dos toques, e que os bons padres tivessem bul de dispensa; isto na verdade não ha cousa, que mereça ser esmiuçada; rezassem, ou estivessem dormindo, nada faz ao caso; fora do local he provavel que não estivessem; mas emfim bom he não affirmar cousas, de que não ha verdadeiro conhecimento: muito mais que por serem padres, isso não... emfim os frades tambem são homens... e huma entrudada...
O certo de tudo isto he que á bulha de grandes pancadas soando na porta de ferro, que fechava os altos muros do adro, acorda o porteiro, e, não muito contente por lhe perturbarem o sancto repouso, ainda se arramancha sobre... sobre o que? sobre cortiças?.. revolve a cabeça sobre a pedra?..., Não, he de suppor que o reverendo masmarro descançasse o corpo em bom colxão de lã e travesseiro analogo, e abaffado com bons cobertores... [...]
A repettição das pancadas na porta de ferro fez julgar ao porteiro que não podia escapar ao incommodo d'erguer-se, e o fez, não apressado; mas finalmente sahio fóra, amantilhado no borel, e a cabeça resguardada no bicado capuz, e, tambem não apressando muito o passo, chegou ao cimo do muro, e d'alli sem enchergar, pois a noite estava bastante escura, perguntou: - "Quem está ahi?
- Sou eu, senhor padre Jeronymo" responde huma vóz de mulher, mas dolorida, como quem vinha afflicta... fraca mesmo. - "Sou a Leocadia, creada da senhora D. Valeriana."
(Excerto de Entrada)
"Nhôa devota! huma esmolinha á céguita? hum pocadinho de pão a mim, ao pequeno! dá? F...i...o! f...i...o!"
Esta parlenda commotora não teve resposta de prompto, porem os dois assovios, com que a findou, quasi tão alentados, como os de hum guardador de gado, determinando o movimento ao seu rebanho, de tal modo aturdirão a palmilhadeira, que, levando aos mãos aos ouvidos, grita, zangada: - Jesus! Sancto Nome de Jesus! o rapaz he um demonio! vejão os guinchos, que dá!?... fez-me perder duas malhas n'este acrescente!"
(Excerto do Capitulo I - Oito annos depois.)
António Joaquim Nery (1798-1866). "Natural de Lisboa, e nascido pelos annos de 1798 - E.
O Campeão Lisbonense. Lisboa, Typ. Patriotica 1822 a 1823 foi. - D'este jornal politico, de que foi redactor, offereceu elle uma collecção ás Cortes em 24 de Dezembro de 1822, como se vê no Diario do Governo n.° 304 de 26 do dito mez.
No mesmo anno escreveu e publicou alguns pequenos opusculos ou pamphletos políticos, taes como A Visão, O Anão demonstrador etc, que sahiram anonymos e foram impressos na mesma officina, em 4.º.
Traduziu, e fez imprimir na typographia de que era proprietario, rua da Prata n.° 17, durante os annos de 1841 a 1850, no formato de 8.°, a maior parte dos Romances de Paulo de Kock, a saber:
A Casa Rranca - O Coitadinho - O Homem dos três calções - 0 meu visinho Raymundo - Este Senhor!- A Donsella de Beüeville - Irmã Anna - O Barbeiro de Paris - Georgetta - Bigode - A Mulher, o Marido e o Amante - O Homem da Naturesa - A Leiteira de Montfermeil - Magdalena - O Senhor Dupont - Andre o saboyano - A Familia Gogó - Sem gravata - João - Um Joven Encantador - Irmão Tiago - O Amante da Lua etc.
Traduziu egualmente de Frederico Soulié:
Memorias do Diabo. Lisboa, na mesma Typ. 1842-1843. 8.° 8 tom.
Alem d'estas, compoz no mesmo estylo e gosto dos auctores traduzidos:
Robineau e Fifina, para servir de sequencia á Casa Branca de Paulo de Kock. Ibi, 1845. 8.° 4 tomos.
Os Oculos da Velha, ou a lente maravilhosa. Romance critico e original por... Auctor Novato. Ibi, 1844. 8.° 4 tomos.
O Gaiato do Terreiro do Paço, ou o Gil Braz portuguez, pelo auctor dos Oculos da Velha. Ibi, 1845. 8.° 4 tomos."
(Inocêncio, Vol. I, pp. 164)
Encadernações coevas meias de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplares em razoável estado geral de conservação. Cansados, envelhecidos. Pastas e lombadas apresentam falhas no revestimento. Assinatura de posse na f. rosto dos 4 vols, sendo que o 1.º está pejado de "gatafunhos". Com pequeno trabalho de traça, junto ao festo, visíveis nas primeiras 16 folhas do vol. I, e 30 folhas à cabeça, no vol. III, em ambos os casos sem prejuízo da mancha tipográfica.
Raro.
Indisponível