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17 maio, 2026

RIBEIRO
(Humbérï), Humberto - UM VADIO... : romance. Porto, Editor Carlos José Ribeiro, 1926. In-8.º (21,5X14,5 cm) de 140, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Romance de costumes baseado numa história real, de miséria humana, do conhecimento do autor.
"Ó vergastados da vida! é por vós que êste livro fala aos homens sem piedade, sem critério, aos malabaristas da lei e aos senhores do ouro." O Autor
Romance pungente, sobre os meandros da marginalidade e prostituição na Cidade Invicta há um século atrás.
A BNP não menciona o presente título. Também nada foi possível apurar acerca do autor ou da sua obra por ausência de fontes biobibliográficas.
"Não teve o meu amigo a pretensão de fazer uma obra de literatura petulante nem astuciosa para o coração de moças garridas - mas, sim, uma obra de emotiva realidade, descrição de um caso patológico moral, que serve para os estudiosos e para os homens que se alapardam nas altas Direcções Gerais da Sanidade, resolverem a melhor forma de fazer-se a ablação dêsses carcinomas morais."
(Excerto da carta de Vidal Oudinot)
"Preguntáste-me, há tempos, se eu sabia algo acêrca da vida daquele infeliz rapaz a quem conhecemos sob a alcunha de o Trovador, indivíduo que, certa noite, nos deliciou, juntamente com a sua companheira de infortúnio - aquela Luisita muito magra, de olhos negros e tristes - com a audição de alguns fados, cantados num tom de voz doce e maguada, repassada de sentimento.
Nada te disse na ocasião, porque nada podia dizer-te, porém, o teu interêsse, sem saber explicar-te o motivo, fez nascer em mim o irresistível desejo de os tornar a vêr.
Assim resolvido, calcurriei grande número de ruas do Pôrto, de preferência as mais sórdidas e entrei em muitas espeluncas, sem que me fosse possível descobri-los. [...]
Todo eu fui ouvidos. Vim a saber que o infeliz [Trovador] estava na cadeia."
(Excerto de Carta a Diniz, amigo do autor)
"Em meados de 1922, vinda de uma aleola do Douro, desembarcava na estação de Campanhã, uma interessante rapariguita, de catorze anos de idade, orfã de pai e mãe, que para o Pôrto vinha destinada a exercer o mistér de serviçal, para o que trazia uma recomendação a deter minado negociante de ferragens da rua do Almada, indivíduo que logo a alugou. Depois de haver prestado o máximo dos seus serviços durante três anos, foi despedida, em virtude do falecimento do chefe da casa.
Muito inexperiente, foi esbarrar-se numa das inúmeras Agências de Serviçais que enxameiam o Pôrto, estabelecimentos que a experiência grandemente nos tem demonstrado nada mais serem do que engenhosas ratoeiras armadas ás incautas que o azar da vida para ali arremessa, obrigando-as, muitas vezes, senão sempre, a darem o primeiro passo no limiar da porta que dá ingresso no templo da prostituição.
Foi, pois, numa destas execrandas casas que Luisita - assim lhe chamavam - caiu."
(Excerto de Um vadio...)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas apresentam pequenas falhas de papel nos cantos.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
35€

15 março, 2026

PORTO DA CRUZ, Visconde do -
A VIAGEM AVENTUROSA DE SUVENINE BOLIFACE A ZELSTRUFS.
[Pelo]... Socio Efectivo da Associação dos Arqueologos Portuguezes, Socio Correspondente do Instituto Portuguez de Historia, Arqueologia e Etnologia, etc. [S.l.], [s.n. - Comp. e imp. na Imprensa Lucas & C.ª - Lisboa], Janeiro - 1934. In-8.º (18x11,5 cm) de 133, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima, enquadrável no domínio da narrativa fantástica e de ficção científica. A viagem de Suvenine Boniface na sua nave - o Passaro Novo - pelo espaço sideral, mais não é que um ensaio satírico de crítica de costumes políticos e sociais do país, e da Madeira em particular, substituindo o nome de Portugal, Lisboa e Funchal por nomes de ficcionados de um planeta distante, com hábitos idênticos aos nossos.
Trata-se antes de tudo, de um exercício irónico sobre o carácter das elites lisboetas e do povo madeirense, do mais "ilustrado" ao mais "simplório", contando histórias e episódios, verídicos, por certo, sob a capa de nomes de família e empresas "alternativos", que farão as delícias de quem estiver na disposição de tentar desvendar os destinatários das farpas, numa e noutra região. 
No início da história, ainda nos EUA, ponto de partida da viagem, o autor alude com fina ironia ao modo de vida americano. No final refere-se a Salazar como o grande «Apostolo» de Benciana, "sacerdote muito subtil, muito serafico que sabia mais de diplomacia que os mais afamados diplomatas... [que] com untuosidade tinha sabido dominar na vida publica dos velhos tempos idos e com o novo estado de cousas lá ia fazendo chegar a braza á sua sardinha...".
Romance "fora da caixa" estas 'memórias' de Suvenine Boliface, raro e muito interessante, certamente com tiragem reduzida.
"Estava a dar a hora da partida quando o Jornalista entrou precipitadamente naquele compartimento de 1.ª classe...
A noticia de que Suvenine Boliface chegára a Lisboa e seguia, em rigoroso incognito, no rápido do Norte caíra inesperadamente na redacção.
Tornava-se indispensavel descobrir aquele sabio audacioso que, em parte, realisára um sonho de Julio Verne atravessando o espaço e chegando a um planeta desconhecido...
O feito apaixonára os estudiosos, os homens de ciências e até os prosaicos burguezes! Na verdade é merecedor de assombro e da curiosidade o homem que abandona a Terra, atravessa o espaço como um meteóro, chega a um outro planeta e, depois de tudo isto, ainda encontra coragem e energia para regressar heroicamente ao nosso triste «vale de lágrimas».
Quando Suvenine Boliface, depois da sua viagem maravilhosa, aterrou proximo de New-York sentiu-se tão infeliz com a imprevista celebridade que deliberou esquivar-se ás mais simples revelações. Os Reporters, com a audaciosa impertinencia profissional, afligiam-no de tal forma que resolveu fugir... Andou pelos vastos Estados Americanos mas, quando menos esperava, surgiu-lhe um Reporter implacavel, com o «Kodak», o lapis e o bloco, na ancia de colher elementos com que saciar a bisbilhotice internacional da Imprensa. [...]
O planeta a que me tinha levado o audacioso empreendimento era designado, pelos homens que o habitavam, por Zelstrufs.
Não tardou a que me certificasse de que ali, tal como na Terra, os homens eram identicos e nutriam os mesmos instintos, a mesma alma, as mesmas ambições... Aconteceria assim em todos os outros planetas que povoam o espaço?
Havia em Zelstrufs varios paizes e homens de raças diversas.
O Passaro Novo levou-me por felicidade para um dos paizes que mais contingentes déra ao progresso e á civilisação.
Uma especie de monarca governava o estado mas a sua acção nunca podia actuar beneficamente porque os organismos publicos e ainda mais os politicos dominados pela cegueira das democracias prejudicavam todos os planos e a boa vontade do Principe que só queria bem servir a Patria e assegurar ao seu Povo paz e prosperidade."
(Excerto do Romance) 
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934). Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais, culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar em brochura, revestido de cartolina negra (substituindo as capas originais), em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico e regional.
Indisponível

16 outubro, 2025

ZOLA, Emile -
UMA LIÇÃO. (Trad. de Bernardo d'Alcobaça). Colecção «Amorosa» - II. Lisboa, Editor e proprietario - F. A. Miranda e Sousa. Comp. e imp. na Typ. Luzitana Editora, pertencente ao editor, 1909. In-8.º esguio (18x9 cm) de 65, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Curiosa novela de costumes pelo mestre do naturalismo francês - Émile Zola. Trata-se da história de um herdeiro da aristocracia provinciana que chega a Paris, e que rapidamente toma consciência dos flirts e da sensualidade latente nos relacionamentos dos "salões".
Tradução do "inevitável" Bernardo d'Alcobaça, pseudónimo literário de Pedro Herculano de Morais Leal, "tradutor de culto" do 1.º quartel do século XX, cujo trabalho incidiu, na sua maioria, em verter para português obras do género erótico e 'médico-erótico'.
"Ha oito dias que meu pae, o senhor de Vaugelade, consentiu que me ausentasse de Boquet, o bisonho castello onde nasci, na Baixa Normandia. O meu progenitor tem idéas realmente singulares sobre o tempo actual; está atrazado bom meio seculo. Resido finalmente em Paris., que mal conhecia, pois tão sómente estivéra duas vezes de passagem na capital. Felizmente, não sou quanto ao physico nenhuma peste, e assim é que Felix Budin, meu antigo condiscipulo no lyceu de Caen, entendeu dever dizer-me , quando voltámos a dar aqui de cara um com o outro, que eu era um bello rapagão e fazia andar á roda a cabeça de muita Parisiense."
(Excerto do Cap. I)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos.
Raro.
25€

20 setembro, 2025

GALLIS, Alfredo - A BAIXA.
Lisboa no Seculo XX. (A grande aldeia). Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1910. In-8.º (
19x12 cm) de [6], 394, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Curioso romance de costumes de cariz erótico. O autor, conhecido pela sua escrita sensual, descreve a baixa de Lisboa em tudo quanto esta pode oferecer de mau e repreensível, atentatória da moral e bons costumes da época, através dos "tipos" que a frequentam e habitam.
Obra invulgar e muito curiosa.
"Ha que explicar ao publico a synthese philosophica e sociologica d'esta obra, antes de entrarmos na sua contextura litteraria propriamente dita.
Ao raiar o dia 11 de Março do anno de 1910, dia em que começámos este trabalho, Lisboa, capital do reino de Portugal, tomada aos m ouros pelo primeiro rei portuguez D. Affonso Henriques, no anno de 1147, contando portanto sete seculos e sessenta e tres annos de existencia, é ainda, se a compararmos com as demais capitaes, do mundo civilisado, uma grande aldeia que d'essa civilisação mundial,  só tem um vago conhecimento pelo que lhe contam os donos das lojas de modas e chapeus para senhora, que annualmente vão a Paris e Londres fazer as suas encommendas e escolher os seus fornecimentos para a proxima estação de inverno.
Seria um erro grosseiro, chamar-se absolutamente civilisada, a uma capital europea, simplesmente porque ella possue tracção electrica, um theatro lyrico, meia duzia de avenidas desgraciosas e mal illuminadas, um tribunal da Boa Hora, que nem para servir de sentina publica está nos casos exigidos pela hygiene e decencia precisas, e alguns hoteis antiquados em locaes improprios a maioria d'elles aproveitando-se da velha disposição architectonica de quando a cidade foi reedificada depois do terramoto de 1755, ha seculo e meio!
Chamar-se franca e positivamente civilisada a esta capital, onde os garotos jogam a pedra pelas ruas, e os mendigos andrajosos e cobertos de vermes dia e noite assaltam os transeuntes, estendendo a mão á caridade publica como se usa nas estradas da Beira; onde no seu centro mais concorrido gira toda a noite uma legião de prostitutas, bandalhas da mais alta esphera, trocando entre si phrases obscenas, que chegam aos ouvidos de toda a gente, e servindo de materia de engorda para os cofres das multas policiaes; onde a gaitada semi-núa e devassa, risca a carvão as paredes dos predios, desenhando imagens eroticas e palavras indecentes... [...]
A vida da cidade é na baixa que circula com mais intensidade, n'esse acanhado peymetro que vae da rua das Pretas ao Terreiro do Paço, da rua dos Fanqueiros á praça de Camões. É n'elle que existem os theatros, os clubs, as lojas de modas, os hoteis, os restaurantes, os cafés, as tabacarias de luxo, as secretarias de estado, os tribunaes, o correio, os telegraphos, os templos elegantes, os ateliers de modista, os consultorios medicos de maior fama, as ourivesarias mais opulentas, as pastellarias da moda, os grandes magasins, Gran della e Armazens do Chiado; os dentistas de fama, os cabelleireiros e perfumistas, tudo emfim quanto chama a concorrencia e intensificação da vida de uma capital, á excepção dos banhos publicos,  que eram as casas de reunião dos romanos distinctos dos tempos de Nero e Tiberios."
(Excerto do Proemio)
Joaquim Alfredo Gallis (1859-1910). "Mais conhecido por Alfredo Gallis, foi um jornalista e romancista muito afamado nos anos finais do século XIX, que exerceu o cargo de escrivão da Corporação dos Pilotos da Barra e o de administrador do concelho do Barreiro (1901-1905). Usou múltiplos pseudónimos, entre os quais 'Anthony', 'Rabelais', 'Condessa do Til' e 'Katisako Aragwisa'. Desde muito jovem redigiu artigos e folhetins em jornais e revistas, entre os quais a Universal, a Illustração Portugueza, o Jornal do Comércio, a Ecos da Avenida e o Diário Popular (onde usou o pseudónimo Anthony). Como romancista conquistou grande popularidade, especializando-se em textos impregnados de sensualismo exaltado que viviam das «fraquezas e aberrações de que eram possuídas, eram desenvolvidas entre costumes libertinos e explorando o escândalo». Escreveu cerca de três dezenas de romances, por vezes publicados com o pseudónimo 'Rabelais'. Alguns dos seus romances têm títulos sugestivos da sensualidade que exploram, nomeadamente Mulheres perdidas, Sáficas, Mulheres honestas, A amante de Jesus, O marido virgem, As mártires da virgindade, Devassidão de Pompeia e O abortador. É autor dos dois volumes da História de Portugal, apensos à História, de Pinheiro Chagas, referentes ao reinado do rei D. Carlos I de Portugal."
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Aparado. Capa frontal apresenta pequenas falhas de papel no pé.
Muito invulgar.
45€

24 agosto, 2025

OLIVEIRA, Venceslau de -
MARIA CONDESSA (Alma de Fadista) : romance original
. Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, [192-]. In-8.º (21x14 cm) de 376 p. ; il. ; E.
OLIVEIRA, Venceslau de - FADO E AMOR (Alma de Fadista) : romance original. Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, [192-]. In-8.º (21x14 cm) de 309, [5] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de dois romances - encadernados num único tomo - cujo tema é o "Fado" e os meandros da "canção nacional", pretexto para o autor abordar os problemas políticos e sociais do país, tendo ambos impresso na capa em sub título "Romance da vida boémia".
Ilustrados com bonitos desenhos no texto e em página inteira.
Obras raras e muito curiosas, com interesse para a bibliografia fadista. De registar a quase inexistência de referências bibliográficas, sendo que a própria BNP não menciona.
"Madrugara-se naquela manhã entrudesca no palácio dos Marqueses do Rosal.
Não era hábito a senhora Marquesa levantar-se tão cedo, mas naquele dia, não se sabia porque razões, tivera uma enorme vontade em o fazer.
Pedia-lhe a sua compleição física, abalada por tanto infortúnio, um passeio matutino pelos áridos campos no intuito de poder mais livremente respirar fundo.
Inocência e Julião, só com a lembrança de se terem visto livros de José, por uns tempos, nem dormiram de contentamento.
Pareciam ter rejuvenescido.
Felismina, solteirona, pouco conhecedora da vida lisboeta, pensava na obtenção de licença para num pedaço da tarde ir à Avenida com Maria Rosa gozar os folguedos carnavalescos que diziam serem divertidos, e só essa idéia a fizera erguer mais cedo.
O certo é, que, as quatro almas que ali viviam como Deus com os anjos, se encontravam à mesma hora no ângulo do jardim a receberam os bons dias do astro-rei que, a brincar, vinha inundar-lhes de luz os enrugados semblantes."
(Excerto de Maria Condessa - I. Um golpe mortal)
"Decaìa a olhos vistos o regime monárquico, dois anos após o audacioso atentado contra a família real em que baquearam, não só o rei D. Carlos de Bragança e seu filho, o príncipe D. Luiz Filipe, como os arrojados regicidas, Buiça e Costa, quando o fado começou a trilhar o caminho da sua mais brilhante auréola.
Em todos os tempos e em tôdas as épocas, nos momentos mais periclitantes da vida portuguesa as canções foram sempre os clamores da revolta mal contida, contra a esmagadora opressão que tiranizava o povo trabalhador, digno de melhor sorte.
Assim, emquanto ilustres caudilhos republicanos apresentavam nos comícios o desmantelar de um trono carcomido, os fadistas, por seu turno, na maioria analfabetos, de guitarra em punho, andavam pelas ruas e tavernas, desinteressadamente, fazendo intensa propaganda de um regime novo, mostrando, em violentas estrofes, as pústulas chaguentas da depauperada monarquia mal governada que tinha por chefe em pusilánime, filho mais novo do rei-morto, a morrer-se ao sabor dos políticos palacianos.
E o povo escutava-os desvanecidamente."
(Excerto de Fado e Amor - I. Fadistas de raça)
Venceslau de Oliveira: Foi diretor do jornal Canção do Sul. Dramaturgo, editor, jornalista e poeta. Foi o fundador e o diretor do jornal O Estrondo, foi vogal do Grémio dos Artistas Teatrais. Sublinha-se o seu temperamento revolucionário e crítico, quer no que respeita ao teatro quer no que respeita ao fado. Poeta e prosador, em 1931 escreve uma obra sobre o fado, Alma de Fadista. O seu romance pretende dar a conhecer os prosélitos do fado desde 1900, e pede ajuda aos fadistas para lhe enviarem dados biográficos e fotografias. Profissionalmente, é impressor numa tipografia. Venceslau de Oliveira tem muitos filhos, entre eles um Raul Álvaro de Oliveira."
(Fonte: Tuna, Cátia Sofia Ferreira, «Não sei se canto se rezo»: ambivalências culturais e religiosas do fado (1926-1945) Volume II : Anexos, 2020)
Encadernação em tela revestida de pano com rótulo carmim e dourados na lombada. Conserva as capas de brochura anteriores.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro conjunto.
80€

01 julho, 2025

MACEDO, Lino de -
A BANDEIRA.
(Estudo psychologico d'uma desequilibrada). Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1897. In-8.º (19,5 cm) de 500 p. ; B.
1.ª edição.
Romance baseado numa história verídica, cuja acção decorre entre Lisboa e a Figueira da Foz. Escrito a partir de um manuscrito entregue ao autor por uma freira francesa, que num hospital do Rio de Janeiro cuidara de um português moribundo, proprietário do documento e participante directo na história, "fallecido havia poucos dias de febre amarella, no mesmo hospital" em que Lino de Macedo se encontrava internado.
Obra rara e muitíssimo interessante. Trata-se de um romance de análise psicológica com cariz realista. O subtítulo impresso na capa - Romance d'uma desequilibrada - difere da f. rosto - Estudo psychologico d'uma desequilibrada.
"Sahi do hospital e, no doce remanso do hotel de Paineiras, á beira estrada do Corcovado, onde fui convalescer, principiei a leitura, receiando ir deparar com banalidades sem proveito. Não succedeu assim: - o manuscripto revelava uma d'estas tragedias que se desenrolam em silencio, ao abrigo de todas as leis sociaes, sem merecer attenção á reportagem dos papeis diarios, nem á justiça dos nossos tempos de humanidade.
Dando-me a conversar o manuscripto, tal interesse me despertou a sua leitura que, regressando a Portugal curei de alcançar noticias e promenores que elle não atingia, mas que deixava antever. Em Lisboa e em outra viagem que fiz ao Rio de Janeiro colhi os materiaes necessarios não para architectar um romance cimentado de phantasia, mas para fazer uma narrativa, repugnante por descrever o vicio, mas interessante por ser verdadeira e repassada por lagrimas. [...]
Quem procurar paginas amenas, onde deseje vêr prepassar prados em flôr e amôres castos e serênos, quede-se por aqui porque não encontra o que deseja.
Se os viciosos farejam n'estas paginas sensações que lhes alimentem os seus instinctos degenerados, pódem tambem fechar o livro e escolher outra leitura. Aqui só se descreve o vicio para se pôr em relêvo a repugnancia que elle meréce a todos os cerebros equilibrados."
(Excerto  do Preambulo 
"Sete da noite; fim do mez d'agosto; praia da Figueira: - são os traços mais fortes do desenho.
Esbocemos:
- Não era assim - dizia Luiz de Mello, cofinado demoradamente o bigode. O Magalhães jogava regularmente as carambolas; tinha jogo variado, grande certeza em bolas de tabella; mas estava muito longe, muito, do Mayer, um francez que elle vira o inverno passado no Montanha, em Lisboa.
João Capella defendia o Magalhães, brazileiro adoptivo como elle, mas mais velho. Magalhães era um dos melhores tacos que elle conhecera aqui e no Rio, onde frequentara os principaes cafés e vira tudo quanto de bom a grande cidade tinha. [...]
Mello continuava combatendo contra os meritos do Magalhães. Tinha um jogo feroz, dizia, sempre a defender-se, atirando só pela certa, receiando ter de pagar a partida...
E questionando iam os dois descendo a rampa que deriva da rua da Concordia para a do conselheiro Silva.
Ao longo da praia, por entre a copa do arvoredo que se estendia a perder de vista, como uma fita negra posta sobre o escuro transparente do ceu sem lua, reinava silencio. [...]
Os dois pararam, discutindo opiniões sobre carambolas, fallando de jogadores e de bilhares, questionando, de rosto chegado e bengala em punho.
Na sobra, caminhando para elles, principiou a destacar-se um pequeno ponto negro, que pouco a pouco foi tomando corpo, avolumando-se e se revelou uma mulher. Era uma rapariga que apresentava os seus vinte e seis annos, baixa, rosto largo, olhos pretos e fulgurantes, cabello alourado e tez clara, - um d'estes typos de mulher em que o norte de Portugal é fertil. Por sobre um vestido de chita, esbranquiçado, levava um chaile castanho, de barra azul e branca, dobrado em bico. Na cabeça um lenço de seda azul com flores brancas. Caminhava apressada, occultando parte do rosto no chaile, que segurava com as duas mãos.
Luiz de Mello e João Capella estavam parados, discutindo na borda do passeio, quando a rapariga passou por elles.
- Adeus, como está? - interrogou Capella, pondo na voz ternuras de namorado.
- Adeus, sr. Capella, contestou a rapariga, a Mariquinhas da Bandeira, como vulgarmente lhe chamavam na Figueira."
(Excerto do Cap. I)
Lino de Macedo (1858-1919?). "Nasceu em Coimbra, em 1858, mas residiu quase toda a sua vida em Vila Franca de Xira, onde exerceu o seu trabalho de escritor, jornalista e político. Fundador e redactor principal do jornal “O Campino”, serviu-se dos jornais, livros, folhetins e outras publicações para expandir o ideal republicano em Vila Franca de Xira e Alhandra. “Em 1887 Lino de Macedo apresenta o Programa Republicano – Carta ao Sr. Dr. Teófilo Braga, acto que foi uma ousadia para a época. Era um programa pautado por ideais republicanos de esquerda, defendendo a justiça gratuita e a cultura para todos, o anti-militarismo, a abolição da carga fiscal, a autonomia municipal e a defesa dos direitos dos trabalhadores”."
(Fonte: https://omirante.pt/semanario/2010-11-04/cultura-e-lazer/2010-11-03-o-primeiro-centro-republicano-fundado-em-alhandra-nao-conseguiu-mais-que-16-socios)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, manchadas, com defeitos e pequenas falhas de papel. Assinatura possessória na f. rosto.
Raro.
75€

16 maio, 2025

CAMARA, A. Freitas da -
COSTA DO SOL : Romance Rialista
. Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, [1932]. In-8.º (18,5x13 cm) de 346, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Capa belíssima assinada por Alfredo Cândido (1879-1960), conhecido ilustrador limiano.
Curioso romance, levemente erótico para os padrões da época, o suficiente para, sujeito à censura do Estado Novo, ser proibido de circular. Posteriormente, em 1933, Freitas da Câmara viria a publicar o romance Vampiro lúbrico : estudos literário-sexuais, que, tal como este, foi banido pelo regime.
Obra invulgar e muitíssimo interessante.
"Ás oito e meia, como de costume, a Leonor bateu levemente á porta do quarto de Maria Luisa. Não obtendo resposta, voltou a bater as tres pancadinhas habituaes com os nós dos dedos, a inquirir:
«Posso entrar, menina?»
De dentro, a voz musical de Maria Luisa preguntou, com aquela intonação propria de quem acaba de ser despertada de improviso;
«Quem é?»
«Sou eu, menina. São horas do pequeno almoço,» voltou a dizer a Leonor.
«Ah. Entra.»
A criada deu a volta ao fecho da porta e penetrou no aposento imerso em quasi completa escuridão. Distinguiam-se vagamente os objectos que adornavam aquele lindo aposento de mulher: o mobiliario de estilo, o lavatorio a um canto onde abundavam os sabonetes de boa marca, o psyché repleto de frasquinhos de capitosos perfumes, a escrivaninha, tudo disposto com muita arte e indiscutivel bom gosto.
ALeonor deu os bons dias e, pousando numa mesinha de centro a salva com a chicara de café com leite que fumegava e as torradas macias e tépidas, dirigiu-se á janela e abriu as portas de madeira.
Um jorro de luz barnca, coada pelos cortinados de tule penetrou no quarto onde flutuva um indifenivel perfume, grato á narina, de essencias de preço e de cheiro a carne feminina bem cuidada."
(Excerto de I - Virgindade inquieta)
"Deitada na chaise, a fumar com volupia uma cigarrilha turca, Maria Luisa lia atentamente a secção «Praias e Termas» do jornal.
Um dos pés descançava sobre o tapete emquanto o outro, apoiado no rebordo do movel, brincava indolentemente com a sapatilha suspensa pelas pontas dos dedos.
A tarde estava quente o que a forçava a afastar as bandas do pijama para refrescar a pele, afogueada a despeito da caricia fresca do sedoso tecido.
Crusou as pernas, ageitou-se melhor na posição horisontal em que estava e pousou o jornal sobre o joelho saliente; em seguida poz-se a observar com curiosidade o movimento ascensional do fumo do seu cigarro até deter a vista num ponto fixo do tecto. Meditava em que praia ou estancia termal lhe conviria veranear nesse ano, parecendo-lhe sentir uma inexplicavel inclinação pelo Estoril.
No ano anterior estivera na Figueira da Foz. Não voltaria lá tão cedo.
Das restantes localidades que a gente chic habita na época calmosa eram-lhe familiares a Curia, o Bussaco, Vila do Conde, a Nazare e outras estancias de verão mais ou menos atraentes desde os tempos em que o papá ia a Vizela todos os anos para as suas massagens mercuriaes. De forma que hesitava na escolha."
(Excerto de II - Meditações)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação.
Raro.
Indisponível

06 maio, 2025

DOMINGUES, Mário –
O PRETO DO «CHARLESTON» (novela)
. Lisboa, Livraria Editora Guimarães & C.ª, [1930]. In-8.º (19x12,5 cm) de 276 p. ; B.
1.ª edição.
Capa (belíssima) de Roberto Nobre.
Publicado em 1930 O Preto do «Charleston» é um romance de ficção que retrata a Lisboa boémia dos 'loucos anos 20', o bas-fond da capital e o ambiente licencioso dos clubes e cabarets, que reflecte a experiência do autor como porteiro do Clube Ritz.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor.
"Tem que esperar um bocadinho, mademoiselle Odette - disse Clara, a gentil empregada do «Cabeleireiro da Moda», muito elegante na sua bata e sorridente na face agarotada, a que uns cabelos curtos, impossivelmente louros, oxigenados, davam um vago aspecto de costureira parisiense.
Odette,a despeito do seu nome e habitos bastante franceses, era, no entanto, suficientemente portuguesa para resignar-se a esperar.
- Se tivesse combinado a sua hora pelo telefone - dizia-lhe Clara - não teria agora a maçada de aguardar a sua vez.
- Não me lembrei a tempo de lhe telefonar . respondeu-lhe Odette - mas não importa, aguardarei um momento.
A empregada retomou o trabalho que interrompera: o meticuloso corte das unhas róseas de uma rapariga magra, esguia, que lembrava um desenho estilizado de magazine."
(Excerto do Cap. I - No «Cabeleireiro da Moda», em pleno Chiado, trava-se conhecimento com duas elegantes)
Mário José Domingues (Ilha do Príncipe, 1899 – Lisboa, 1977). "Foi jornalista, cronista, tradutor e escritor. A sua mãe era negra, natural de Angola, tendo sido levada para a ilha do Príncipe com 15 anos para trabalhar na roça Infante D. Henrique. O pai, António Alexandre José Domingues, era português branco, funcionário dessa roça, e trouxe-o para Lisboa com 18 meses, onde foi criado pelos avós paternos num ambiente de classe média. Realizou o curso de Comércio no antigo Colégio Francês da Rua Álvaro Coutinho. Iniciou a vida profissional nos finais da década de 1910 como ajudante de guarda-livros e correspondente de francês e inglês, e aos 19 anos começou a publicar contos no diário anarquista A Batalha. Em Novembro de 1919, aceitou ser jornalista profissional daquele diário, marcando o início de uma actividade muito intensa na imprensa, até ao estabelecimento da ditadura do Estado Novo, com passagem também por publicações como Repórter X e Detective. Ao longo da sua vida, escreveu novelas, romances, peças de teatro, policiais, ficções de cowboys, aventuras e evocações históricas, com destaque para os títulos Hugo, o Pintor (1923), A Audácia de Um Tímido (1923), Entre Vinhedos e Pomares (1926), Anastácio José (1928), O Preto do Charleston (1930), O Crime de Sintra (1937) e Uma Luz na Escuridão (1938). Para viver das obras que publicava, chegou a assiná-las com nomes ingleses e franceses, ou com nomes de tradutores fictícios."
(Fonte: Wook)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. .
Muito invulgar.
Indisponível

11 março, 2025

LOBATO, Gervasio - A PRIMEIRA CONFESSADA. Chronica da actualidade. Lisboa, David Corazzi - Editor : Empreza Horas Romanticas, 1881. In-8.º (20,5x13 cm) de 447, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance de cunho realista, baseado numa história verdadeira(?), sendo a maioria dos personagens "secundários" da "trama" ilustres e conhecidos homens do meio literário e social da época. Nas palavras do autor a David Corazzi, o editor, trata-se de "uma chronica da vida moderna, scenas e caracteres copiados do natural, presos entre si por uma acção ligeira, facil, natural e verdadeira, buscando um desenlace simples n'uma anecdota conhecida". Bernardo, um homem-tipo do seu tempo, bem parecido, com acesso às cadeiras do S. Carlos e salões melhor frequentados da capital, "desencaminha" a bela viscondessa da Ribeira dos Carinhos. No final, o desinteresse do cavalheiro pela pela dama vai provocar uma reacção desta, de tudo ou nada, que culmina num equívoco dramático, sendo desvendado o título do livro num final algo insólito.
Obra bem redigida, rara e muito curiosa.
"Era em 1876, em pleno inverno a valer, rijo, sério, muito olhado, como todos os invernos que se presam, um inverno muito decente para uso d'uma capital de segunda ordem.
Os rios sahiam dos seus leitos para cumprimentar o tufão que passava, as velhas arvores gigantes davam cambalhotas em sua honra, e Lisboa Dançava gravemente os lanceiros tendo por «vis-à-vis» a caridade vestida pela Marie, penteda pela sr.ª Camilla, e estendendo uma das mãos á esmola e a outra á «grande chaine».
Foi um bello tempo para a gente elegante da terra esse inverno: o pé andava ligeiro e a consciencia leve; accumulava-se o serviço de Deus com o de Satanaz; descobrira-se a maneira de fazer uma boa acção e uma marca de cotillon ao mesmo tempo, de ganhar o ceo com acompanhamento do Macario, e de ir valsando por ahi acima até as portas que S. Pedro guarda."
(Excerto de I - Preziozi)
"Quando chegou á porta do theatro do Principe Real, toda vermelha e quente de ter descido a escada n'um salto, a viscondessa da Ribeira dos Carinhos não encontrou a esperal-a o seu coupé.
- Vá-me buscar uma carruagem, ordenou ella, irritada, a seu marido, que a seguia, escondido sob uma montanha de rendas e agasalhos. Depressa! Em chegando a casa é logo o cocheiro para a rua.
- Oh! filha, mas o cocheiro não advinhava que nós sahiamos antes...
- Pois não se fosse embora... ficasse aqui á espera que era a sua obrigação.
- Oh! menina, mas os cavallos...
- Os cavallos... os cavallos! repetiu ella, n'uma grande irritação nervosa importa-se mais com os cavallos do que comigo. Quero já aqui um trem...
- Mas põe a capa... observou amavelmente o visconde pondo-lh'a nos hombros.
- Põe-n'a tu! gritou ella, com um arremesso, atirando a capa para cima do marido que ficou envolto n'ella.
E sahiu só, estouvanada, furiosa, pela rua  Nova da Palma fóra.
- Ó menina! Ó menina! Onde vaes tu!... Olha!... põe ao menos a manta no pescoço, anda por ahi muita doença... Onde vaes!... onde vaes tu Suzanna!... balbuciava o pobre do marido correndo atraz d'ella, com os agasalhos levantados na mão direita, muito erguida, para os não roçar pelo chão.
E os sefarrapados da porta do theatro riam-se muito d'elle trocando uns com os outros ditos trocistas e ordinarios.
- Onde vaes! tornou elle a repetir, alcançando por fim sua mulher que parára um momento, voltando-se para traz á sua espera.
- Vou buscar um trem, visto que tu és um banasola que nem para isso serves, respondeu-lhe ella com uns modos muito seccos, com uns ares muito enjôados e despresa-dores.
- Mas se não havia ali nenhum... Que mania sahir do thetaro no meio... Põe a capa, faze-me esse favor... interrompia elle com uma insistencia muito carinhosa, acompanhando-a quasi a correr... Que mal te faz a capa... E a peça perecia-me bem bonita. Tem muito apparato...
- Pois se queres volta para lá, eu vou bem para casa sósinha...
- Eu ia lá ao theatro sem ti... O diabo leve o theatro e o diabo leve os francezes...
- Cale-se!... Está a passar gente e hão-de pensar que é algum arrieiro  que vae aqui ao meu lado... interrompeu a viscondessa n'um tom colerico que o fez logo calar."
(Excerto de II - Um capitulo de Belot)
Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (1850-1895). Figura muito popular do meio teatral e literário lisboeta da segunda metade do século XIX, nasceu a 23 de maio de 1850, em Lisboa, e morreu a 26 de maio de 1895, na mesma cidade. Autor, num curto espaço de tempo, de uma obra extensa e variada, foi jornalista, tradutor, comediógrafo e romancista, tendo sido comparado a Rafael Bordalo Pinheiro quanto ao humor e ao talento de caricaturista. Colaborou em vários periódicos da época, como o Diário de Notícias, o Diário da Manhã, o Jornal da Noite e O Ocidente, onde sucedeu a Guilherme de Azevedo na rubrica "Crónica dum ocidental". Os contornos realistas da sua crítica de costumes, exercitada nos romances e nas peças de teatro, são amenizados pelo tom displicente e pelo humor revisteiro.
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado, com cantos desgastados. Apresenta pequeníssimo orifício de traça que se prolonga da f. ante-rosto até à página 24.
Raro.
45€

06 janeiro, 2025

HOGAN, Alfredo - A PEDINTE DE LISBOA OU MEMORIAS D'UMA MULHER. Romance original de... Publicado por L. C. da Cunha. Tomo I [Tomo II]. Lisboa, Na Typografia do Editor, Luiz Correa da Cunha, 1859. 2 vols in-8.º ( de 191, [3] p. ; [2] f. il. e 144, [2] p. ; [2] f. il. ; E. num único tomo
1.ª edição.
Curiosíssimo romance de costumes, cuja acção decorre em Lisboa. Uma história de intriga e chantagem que termina num crime horrendo sem castigo. O extenso epílogo "compõe o ramalhete".
Ilustrado com 4 gravuras extra-texto (2 por volume) compostas na "Lith. de Roza e Lima" - Rua dos Fanqueiros, n.º 114.
"No dia 21 de Outubo de 1850, uma sege de aluguel que com extrema velocidade corria pelo Chiado abaixo, chamando pela sua velocidade, a attenção de todas as pessoas que tranzitavam.
Dentro da sege, e recostado languidamente para um dos angulos da caixa, via-se um homem ainda moço, decentemente vestido, e apresentando uma placidez d'espirito que contrastava singularmente com a agitação do vehiculo que o conduzia.
Ora uma viatura qualquer correndo de batida pelo Chiado, é uma coisa que sempre attrahe a curiosidade de todos os passeantes d'aquelle sitio, e mui principalmente dos frequentadores do marrare; por isso grande numero de pessoas assomaram ás portas desse botequim, e das lojas de modistas, para interrogarem com a vista aquella sege de batida, aquelle bolieiro de maneiras insolentes, aquelles cavallos estafados, e sobre tudo, o placido senhor que vinha dentro da sege; mas um riso de desdem e até de despreso, errando nos labios d'esse homem, um estalo do chicote do bolieiro, e uma nuvem de poeira levantada pelas patas dos cavallos, era a unica resposta que obtinham todos esses curiosos que se aguppavam para verem o que podia aquillo ser.
E a sege continuava de batida; n'uma bem calculada curva, voltou para o lado da Boa hora metteu se pela rua dos Algibebes, passou á rua Augusta, e sem que affrouxasse a corrida foi desemboccar na grande praça do Rocio.
A um grito sonoro que sahio de dentro da sege, o bolieiro tomou os cavallos; logo depois abriu-se o alçapão, e o homem saltou n'um pulo para a rua.
Eram seis horas da tarde, mareadas no relogio que está na frente do Theatro de D. Maria II, cujo mostrador é transparente e illuminado, para que de noite se conheçam as horas. [...]
O homem que se apeara da sege, caminhou vagaroso para o centro da praça, e cruzando os braços sobre o peito, parou um instante, olhando ao redor de si.
Era de meia estatura: os cabellos negros, com o o ébano, caíam-lhe, debaixo do chapéo, sobre a golla da sobre cazaca depois de formarem um lustroso caixilho á physionomia morena, e expressiva, onde scintillavam os olhos, tambem negros, e rodeados d'espessa pestanas. Os labios grossos e roliços tinha-os elle agora serrados, com um gesto de nobre altivez. Os sobreolhos unidos e um pouco encrespados por um pensamento d'orgulho."
(Excerto de I - Cordão - o negociante de casamento)
Indice do 1.º Volume:
I - Cordão - o negociante de cazamentos. II - Quem era o senhor Miguel d'Andrade. - Clara. - Amizade travada em caza d'um Eleitor. III - Um chá offerecido a alguns Eleitores. - Recepção de Leonildo. IV - O mancebo lord. V - Mãe e amiga. VI - A mulher philosopha. VII - A semi-deusa. VIII - A queda da semi-deusa. IX - A cruz de ouro do Bispo de S. Torcato. X - Feliciano. XI - O jardim Botanico.
Indice do 2.º Volume:
I - Soffrimento. II - Resolução. III - Marido e Mulher. IV - Tres homens dignos uns dos outros. V - A entrevista. VI - Conclue a narração da pedinte. VII - Declaração do bom Sacerdote. VIII - Fim da Quiteria. IX - Pae e filho. X - Outra victima. XI - Contra.tempo. XII - Na Estrada do crime caminha-se insensivelmente. | Epylogo - Riqueza maldita.
Alfredo Possolo Hogan (1830-1865). "Nasceu e faleceu em Lisboa. Funcionário dos correios, cultivou a literatura negra, tornando-se um romancista e um dramaturgo bastante popular em Lisboa. Nas suas obras notam-se influências de Eugène Sue e Alexandre Dumas. Escreveu vários romances históricos, como Marco Túlio ou o Agente dos Jesuítas (1853), Mistérios de Lisboa (romance em 4 volumes, 1851), Dois Angelos ou Um Casamento Forçado (romance em 2 volumes, 1851-1852), etc. Das peças de teatro, destacam-se: Os Dissipadores (1858), A Máscara Social (1861), Nem Tudo que Luz É Oiro (1861), A Vida em Lisboa (em parceria com Júlio César Machado, 1861), O Dia 1º de Dezembro de 1640 (1862), As Brasileiras; Segredos do Coração e O Colono. Foi-lhe atribuída a autoria do romance A Mão do Finado (1854), publicado anonimamente em Lisboa, pretendendo ser a continuação de O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas."
(Fonte: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/hogan.htm)
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Os 2 vols ostentam assinatura de posse; Restauro à cabeça na última folha de texto do vol I.
Muito raro.
A BNP dá notícia da obra com a indicação "Sem informação exemplar".
85€

22 dezembro, 2024

LOBATO, Gervasio & VICTOR, Jayme -
OS INVISIVEIS DE LISBOA : grande romance em 6 volumes.
Desenhos de Manuel de Macedo. Executados pelos processos Ignio Eberle e Gillot. Volume I. [II; III; IV; V; VI]. Lisboa, David Corazzi, Editor : Empreza Horas Romanticas, 1886-1887. 6 vols in-8.º (19,5x13 cm) de 388, [4] p. ; [5] f. il. (I) ; 388, [4] p. ; [3] f. il. (II) ; 387, [5] p. ; [5] f. il. (III) ; 389, [3] p. ; [4] f. il. (IV) ; 388, [4] p. ; [2] f. il. (V) ; 402, [6] p. ; [5] f. il. (VI) ; E.
1.ª edição.
Obra de fôlego. Romance de costumes em 6 volumes (completo).
Ilustrado com as 24 estampas fora do texto assinadas por Manuel de Macedo.
"Era uma manhã tempestuosa de inverno. Do céu escuro caía permanentemente, com insisterncia teimosa, uma chuva muito miuda, muito fria, que, de vez emquando, impellida por fortes rajadas de vento, açoutava com violencia as vidraças, hermeticamente fechadas, contra o frio glacial, que fazia bater o queixo, e invejar as grandes lareiras provincianas.
O Tejo apresentava o sombrio espectaculo de um rio em temporal.
As ondas, muito picadas, agitavam-se furiosamente, quebravam-se, espumando a grande altura, nos cascos dos navios de grande lotação.
Os barcos pequenos, estavam todos a coberto, ou mettidos nas docas, ou estirados regaladamente ao longo dos caes, como grandes amphibios, que viessem dormir a sua sésta fóra da agua.
Alguns catraios, raros, que não tinham remedio senão aventurar-se por aquelle tempo diabolico, faziam cabriolas phantasticas sobre o dorso lamacento das ondas, e pareciam não sair nunca do mesmo logar, apesar dos esforços herculeos dos remadores, que, para ganhar a vida, se arriscavam assim a perdel-a, de um momento para o outro.
Os navios grandes, que de ordinario assistem impassiveis a estes vendavaes dos rios, tambem n'esse dia andavam mettidos na dança macabra que agitava todo o Tejo. Apesar da sua enorme corpulencia, das suas fórmas gigantescas, talhadas de molde a arrostar com os grandes temporaes do alto mar, as ondas, habitualmente pacatas do Tejo, investiam atrevidas com elles, e faziam-os oscillar com as suas convulsões, tremer com as suas furias.
No meio do rio, em frente do Caes do Sodré, o Gironde, o bello paquete das Messageries, preparava-se para levantar ferro, apesar do temporal."
(Excerto do Cap. I - A bordo do «Gironde»)
Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (1850-1895). "Figura muito popular do meio teatral e literário lisboeta da segunda metade do século XIX, nasceu a 23 de maio de 1850, em Lisboa, e morreu a 26 de maio de 1895, na mesma cidade. Autor, num curto espaço de tempo, de uma obra extensa e variada, foi jornalista, tradutor, comediógrafo e romancista, tendo sido comparado a Rafael Bordalo Pinheiro quanto ao humor e ao talento de caricaturista. Colaborou em vários periódicos da época, como o Diário de Notícias, o Diário da Manhã, o Jornal da Noite e O Ocidente, onde sucedeu a Guilherme de Azevedo na rubrica "Crónica dum ocidental". Os contornos realistas da sua crítica de costumes, exercitada nos romances e nas peças de teatro, são amenizados pelo tom displicente e pelo humor revisteiro."
Manuel de Macedo Pereira Coutinho (1839-1915). "Aguarelista e ilustrador, discípulo de Anunciação e de Howell. Foi pintor, cenógrafo, gravador, caricaturista, distinguiu-se como ilustrador de excepcionais qualidades. Ilustrou das mais importantes obras, revistas do seu tempo. As suas obras encontram-se nos vários museus contemporâneos portugueses e em colecções particulares."
Encadernações editoriais com ferros gravados a seco e negro e ouro nas pastas e na lombada.
Exemplares em bom estado de conservação.
Raro.
100€

18 dezembro, 2024

FILHO, Teutonio -
M.ᴹᴱ BIFTECK-PAFF : romance
. Lisboa, Guimarães & C.ª - Editores, 1914. In-8.º (18,5x11,5 cm) de 211, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Edição original deste pouco conhecido trabalho de Teotónio Filho, autor "maldito" brasileiro, conhecido pelas suas obras controversas e reacionárias, indispôs a elite brasileira da época.
Raro. Obra inicialmente publicada em Portugal, a BNP não menciona.
"- Mariazeta!
No cáes, em pleno dia, sob um sol que faiscava contra as vidraças das carruagens, Flavio empolgou num abraço a delgada cretaura que noutras épocas fôra a sua irmã mui bem querida, o pequeno anjo dos seus dias d'infancia morta. E agora, nesse amplexo doce, nesse retorno de vida passada, ele punha toda a volta d'uma esplendida, antiquissima ternura.
- Mariazeta! Mariazeta!
- Flavio!
Ela parecia comovida. Ele julgou descobrir-lhe uma lagrima figidia e rompeu o silencio, perguntando:
- Esperaste muito?
- Dez minutos. Bôa viagem?
- Os nove dias de Lisbôa aqui, foram agradaveis... De Cherburgo a Lisboa, não... O mar, por taes bandas é violento - oh! nem imaginas...
Desviaram a vista para o oceano - ele, com expressão de fadiga terminada - ela, com expressão de desejo e de amor pelo horizonte misterioso. O porto interno estava pouco movimentado. Junto aos recifes vapores de carga sopezavam mercadorias d'alvarengas enormes. Lá fóra, na Lamarão, o transatlantico balançava-se ás vagas da maré alta."
(Excerto do Cap. I)
Theotônio de Lacerda Freire Filho, ou Theo Filho, (1895-1973). "Foi um dos escritores mais lidos no Brasil nos anos 20 do século passado. Descreveu a boémia parisiense e carioca, e os vícios da elite brasileira. Cônsul brasileiro em França, correspondente internacional, jornalista, poeta, dramaturgo e comediógrafo. Romancista "pré-modernista" e "maldito"."
(Fonte: https://www.skoob.com.br/autor/1272-theo-filho)
"Theotonio Filho publicou três títulos em casas editoriais portuguesas. A Tragédia dos Contrastes apareceu em 1911, por Guimarães & C., de Lisboa. Seu primeiro romance, todavia, parece que foi mal recebido por uma parte do público brasileiro. Em 1912 [1914] Mme. Bifteck-Paff foi lançado pelo mesmo editor. Esse romance, escrito em Aix, no ano anterior, mas ambientado no Recife e na praia de Olinda, desenvolvia o tema da traição, observado ora pela lógica da mulher adúltera, ora pela lógica do canalha que a passou para trás. Finalmente, Bruno Ragaz, anarquista surgiu, em 1913, em edição de Magalhães & Moniz Editores, do Porto."
(Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp056898.pdf)
Encadernação em percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Miolo correcto. Apresenta mancha na f. rosto.
Raro.
35€

16 setembro, 2024

BELLEM, A. M. da Cunha - ONDE ESTÁ A INFELICIDADE! Romance original por... Lisboa, Bibliotheca dos Dois Mundos, [1865]. In-4.º (23,5 cm) de 91, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Novela  baseada em factos do conhecimento do autor, antecedida de uma carta sua a Manuel Pinheiro Chagas recordando uma viagem que ambos fizeram pelo Minho dois anos antes, escrito "poucos dias depois do regresso, e debaixo da impressão ainda das bellezas campestres e dos monumentos historicos, que por lá vira a barrisco espalhados."
Ilustrações assinadas H. Meyer.
Homenagem do autor no final do livro a Camilo Castelo Branco - "o primeiro romancista portuguez" - tendo como ponto de partida o título do seu livro, idêntico ao de Camilo - Onde esta a infelicidade?
"Vae aqui este capitulo, que deveria ter logar de honra no principio do livro, se o seu desenvolvimento, explanando a urdidura do romance, lhe não entibiasse o já limitado interesse. [...]
É verdadeira a historia que narro, e que adrede deixei ir desataviada nos recamos de peripecias, para que mais realce tivesse o fundo de veracidade que encerra. Uma familia que a riqueza deslumbrou, e que só veio de novo a encontrar a antiga traquilidade no seio de honesta mediania, foi quem me inspirou o enredo da presente narrativa. D'elle nasceu naturalmente a idéa do titulo, que parece em antagonismo com o do precioso romance de Camillo Castello Branco. [...]
Escusada é sem duvida esta explicação, porquanto sempre o romance de Camillo Castello Branco passará por uma das suas melhores obras, e a minha historia terá o modesto logar, que lhe é destinado na escala das producções litterarias; mas não o é de certo o aproveitar com avidez este ensejo de prestar homenagem do meu respeito ao fecundo escriptor a quem as letras patrias tanto devem, já pelos preciosos thesouros com que as tem enriquecido, já pela heroica perseverança com que tem verberado e perseguido as bastardas traducções de romances de mau gosto, que, como joio damninho, inçavam as cearas da nossa litteratura. [...]
Emfim, appareceu Camillo Castello Branco, e logo as suas primeiras obras foram saudadas com enthusiasmo. Não o esmoreceram ruis invejas, que bastas apparecem no nossa terra, nem difficuldades com que luta quem em Portugal cultivas as lettras, terreno o mais arido e ingrato de quantos arroteia o genio do homem. Perseverou e venceu!... Redobrou de incançavel actividade. Fez succeder uns aos outros os romances temperados do chiste natural da sua elegante dicção; deu ao povo os typos seus conhecidos e os estudos do coração, que elle sabia tambem apreciar..., e, como por um encantamento magico, as novellas mal traduzidas foram fugindo espavoridas diante da fecundidade inexgotavel do redemtor do romance nacional."
(Excerto de Homenagem de respeito)
"O romance, bem como a historia, é a photographia da sociedade. Se esta reproduz os valorosos feitos dos varões notaveis e as violentas commoções que abalam as nacionalidades, se alevanta monumentos aos rasgos de heroismo ou de abnegação ou verbera com censura immorredora as cobardias e as traições dos homens publicos; o romance, na sua modesta condição, põe em relevo acções illustres de homens desconhecidos e ignorados e reproduz os abalos que por vezes commovem a paz intima das familias, já engrinaldando um festão ao que merece louvor, já castigando com os epigrammas da satyra os feitos ridiculos que frequentemente emergem á superficie da onda social. São estas as suas differenças e os seus pontos de contacto."
(Excerto de Capitulo avulso que precede o primeiro...)
António Cunha Belém (1834-1905). "Político e jornalista português, António Manuel da Cunha Belém nasceu a 12 de dezembro de 1834, em Lisboa. Em 1858, formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra e, em seguida, seguiu a carreira militar, na qual atingiu o posto de general. Desempenhou um papel importante no setor da saúde, fazendo parte de diversas comissões oficiais e participando em várias conferências. Para além disso, foi deputado no Parlamento, diretor da Escola Maria Pia e diretor do jornal A Revolução de Setembro. O jornalista realizou ainda críticas teatrais, com o pseudónimo de Cristóvão de Sá, redigiu comédias, operetas, zarzuelas e dramas, como O Pedreiro Livre (1876), de conteúdo maçónico e anticlerical. Faleceu a 12 de março de 1905, em Lisboa."
(Fonte: Infopédia)

Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos. Rasgão na capa (2 cm) sem perda de suporte.
Raro.
Indisponível