10 setembro, 2026

GOMES, Padre António -
VIAGEM QUE FEZ O PADRE ANT.º GOMES, DA COMP.ª DE JESUS, AO IMPERIO DE DE (SIC) MANOMOTAPA; E ASSISTENCIA QUE FEZ NAS DITAS TERRAS D.e ALG'UNS ANNOS.
Notes by E. A. Axelson. Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos : Portugal, 1959. In-4.º (23,5x16 cm) de [2] 88 p. (155-242 pp.) ; B.
1.ª edição independente.
Importante documento. Trata-se da transcrição fiel do manuscrito da viagem de evangelização empreendida e relatada pelo padre jesuíta António Gomes por terras de Moçambique no segundo quartel do século XVII.
O relato do Padre António Gomes é considerado uma joia da historiografia africana pela sua riqueza etnográfica e pelo seu tom surpreendentemente pragmático. O documento permaneceu praticamente esquecido na Biblioteca Nacional de Portugal até ser transcrito e publicado pela primeira vez em 1959 na revista académica Studia.
Ao contrário de muitos religiosos da época que viam as tradições africanas apenas sob a lente do "pecado" ou da "feitiçaria", Gomes descreve a sociedade local com um olhar quase antropológico. Explica como funcionavam as audiências perante o imperador ou os chefes locais (fumos), detalhando as leis consuetudinárias e o papel dos conselheiros. Descreve a poligamia, os dotes e os rituais de matrimónio, tentando traduzir o significado social destas alianças para a mentalidade europeia. Relata o uso de ervas medicinais e o papel dos curandeiros. O que mais impressiona os historiadores modernos são os registos das suas conversas diretas com os africanos, nas quais ele questionava as razões por trás das suas práticas. (IA)
"Nosso Gloriozo Patriarcha S. Ignacio, alumiado e illustrado p Ds N. S., vendo quanta necessid.e tinhão varias Regiõis de obreiros, p.ª cultiuaré a vinha da S. M.e Igr.ª, tratou a infancia, desta minima Comp.ª de Ihs, de mandar, Religiozos de vertude e Santid.e p.ª cultiuação, de tantas almas, rimikdas cõ preço, de vossa Redempção Christo Ihs Senhor nosso.
Este Diuino preço, fez abalar, aquelle Gloriozo Aplõ da India, p.ª este Oriente, Sam Fran.co Xauier, e depois de tantas marauilhas, quantas obrou, descorrendo per todos os mares delle, veio a acabar, cõ Gloriozos trofeus na ilha de Samchão, e dahy, trazido, e depozitado este Santissimo thezouro, na Igreía do Bom Ihs e caza Professa de Goa, onde he venerado de todo o Oriente, e obra de Deos nosso sõr pela sua intercesão muitas marauilhas."
(Excerto da Narrativa)
António Gomes (1595-16--). Foi enviado para a missão jesuíta no sudeste africano (vale do Zambeze, atual território de Moçambique e Zimbabué) no final da década de 1620 ou inícios da década de 1630. Ali realizou a sua "assistência" (residência e trabalho missionário) durante cerca de uma década. Foi um período de violenta instabilidade política, onde testemunhou as complexas alianças e guerras de sucessão no Império de Mutapa. A sua história confunde-se com os perigos das navegações da época. Ao regressar de África em direção à Índia (por volta de 1640), António Gomes sobreviveu a um naufrágio. Nesse desastre, perdeu todos os seus cadernos, diários de campo e anotações originais recolhidas ao longo dos dez anos em que viveu no Império de Mutapa. Após o naufrágio, fixou-se em Goa (o centro administrativo e religioso do Padroado Português no Oriente). Tornou-se Coadjutor da Sociedade em Goa e exerceu funções como pároco na Igreja de Varca, em Salsete. Em 1648, o seu superior jesuíta, Giovanni Maracci, ordenou-lhe que passasse para o papel as suas memórias da missão africana. Sem as notas que tinham afundado no mar, António Gomes redigiu todo o manuscrito com base nas suas recordações. É por este motivo que o texto não segue uma ordem cronológica rígida, assemelhando-se mais a um grande compêndio temático de memórias vivas, conversas gravadas na mente e descrições dos povos que conheceu. (IA)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico, etnográfico e religioso.
20€

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