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06 agosto, 2026

POLÍTICA IMPERIAL DE FOMENTO : Novas Directrises.
"Portugal Maior" - Cadernos Coloniais de Propaganda e Informação
. Luanda, Edição da "Casa da Metrópole", 1945. In-8.º (21,5x15 cm) de 21, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Curioso opúsculo de propaganda patriótica impresso em Luanda, Angola, publicado no último ano de guerra mundial. Trata-se do n.º 1 de uma colecção que atingiu 10 números, editada entre 1945-47.
Capa assinada "MCastelo".
A "Casa da Metrópole" em Luanda foi uma instituição colonial portuguesa de propaganda, informação e dinamização cultural ativa no século XX (com forte presença na década de 1940). A sua actuação baseava-se em frentes estratégicas bem definidas: Funcionava alinhada com as diretrizes do Estado Novo para projetar a presença e a herança portuguesa no território angolano. Foi responsável pela publicação de diversas obras e cadernos de propaganda colonial. O exemplo mais notório é a coleção "Portugal Maior: cadernos coloniais de propaganda e informação", que incluía ensaios e registos fotográficos históricos. Fazia a ponte de comunicação cultural e identitária entre a "Metrópole" (Portugal Continental) e os colonos radicados na então colónia de Angola. (IA)
Opúsculo ilustrado com retrato do Prof. Marcelo Caetano, Ministro das Colónias, colado na folha que sucede ao rosto.
"A idéia imperialista assenta sôbre princípios básicos, entre os quais é de maior vulto o que traduz uma forte unidade espiritual que se repercute na comunicação da língua, de sentimentos e de afectos, de esperanças e de aspirações.
Recebendo do passado as lições da expansão e da expressão de Portugal no Mundo, conhecendo do presente as inconfundíveis realizações materiais e espirituais que dignificam e enaltecem a política do Govêrno, a gente lusíada torna, acima de tudo em realidade, a unidade imperial portuguesa, agora servida por uma doutrina que se expande progressivamente por tôdas as terras do Império, animadas pelas precisas oportunas e justas resoluções do ilustre titular da Pasta das Colónias, cuja figura revela uma inteireza de carácter que se oferece ao desenvolvimento ordenado das nossas terras ultramarinas na mais rasgada visão imperial e humana."
(Excerto da Abertura) 
"«Quem conheceu a África tropical há 50 anos e a conhece hoje; quem há meio século viveu nas colónias portuguesas e por elas hoje transita - há-de verificar que consoante é voz corrente dos velhos coloniais «a África mudou muito» e até porventura aventurará (embora com excessivo optimismo) o paradoxo de que «a África já não é África».
Tais conceitos exprimem a admiração pela mudança operada nas condições de vida do branco, parece que nas próprias condições e ambiente, em virtude da ocupação europeia, que ousadamente rasgou estradas pelo coração dos sertões, assentou vias férreas, lançou cabos telefónicos e ergueu cidades e vilas no litoral e no interior, desbravou o mato, afastou as feras e cultivou fazendas em sítios outrora inóspitos. O que se fêz, alenta esperanças sôbre o muito que se pode fazer."
(Excerto de Discurso do Prof. Marcelo Caetano aqui reproduzido)
Índice:
[Abertura ] | [Reprodução de discurso do Prof. Marcelo Caetano] | Política de Fomento | Inspecção Superior de Fomento Colonial | A urbanização nas colónias africanas | O Gabinete de Urbanização Colonial - Sua orgânica e funções | A missão dos técnicos em África e a juventude escolar | O novo espírito a instaurar no fomento das colónias | A valorização do trabalho indígena | O auxílio do Estado às actividades privadas | A utilidade social da coordenação económica | «Tenha confiança no futuro do nosso império Colonial» | Apêndice: A «Casa da Metrópole» em Luanda e a sua actuação: - Finalidade; - Meios de acção.
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
20€

02 julho, 2026

CABRAL, Juvenal A. Lopes da C. -
O CRIME DO LARGO DO HOSPITAL DA CIDADE DA PRAIA. Por... (Professor Primário na Guiné). Literatura Africana - Cabo Verde. [S.l.], Edição do Autor [Composto e impresso na Tipografia Civilização, de Pereira & Souza - Pôrto], 1930. In-8.º (19x12 cm) de 32 p. ; [1] f. il. ; B.
1.ª edição.
Edição original da primeira obra do autor, pai de Amílcar Cabral (1924-1973), activista político pela libertação das colónias portuguesas da Guiné e Cabo Verde, fundador do PAIGC (1956).
Trata-se de um texto invulgar e muito curioso, espécie de novela-reportagem (a fazer lembrar os textos de Reinaldo Ferreira - o Repórter X!), sobre o assassinato ocorrido na cidade da Praia de uma moça - Alice, - "que embora filha natural, pertencia a uma raça de portugueses notáveis". No final, em Morte de Alice, o autor homenageia a infeliz rapariga com um conjunto de quadras.
Obra rara, por certo com tiragem restrita, dedicada "À mocidade caboverdeana - em particular - e em geral a todos os africanos das colónias, que saibam honrar a Pátria Portuguesa, estudando e propagando a suavíssima língua de Camões."
Ilustrada com o retrato de Juvenal Cabral em folha separada do texto.
"[...] Um crime pode inspirar um artista. Mas numa consciência sã e normal causa sempre a repulsa e a dor.
Lopes Cabral é bem o educador que se não compraz no estreito âmbito das quatro paredes da sua escola. Êste livrinho é a prova de que êle sabe actuar omnimodamente, cumprindo o dever  de corrigir a aconselhar a Sociedade para o Bem - condenando actos repugnantes e anti-sociais."
(Excerto do Prefácio de J, Mota)
"Extraordinàriamente sugerido pelo gesto criminoso de um homem que, matando a sua amante a tiros de revólver, não teve uma lágrima de arrependimento ou um simples queixume, sequer um gemido(!) que denunciasse o remorso pela prática de tão ignóbil acção, - o modesto trabalho que apresento perpectuando um acontecimento, muito vulgar nos grandes centros, porém raríssimo em terras africanas, principalmente naquela em que êste teve lugar, onde o sossêgo é permanente, em conseqüência, não tanto da fé religiosa como da índole natural do povo - é como um brado de cave ne cadas à mocidade da Praia, teatro do emocionante e deplorado drama."
(Excerto de Palavras necessárias)
"Amanhecer límpido e sereno o dia sete de fevereiro de 1930.
A atmosfera, que de ordinário se apresentava carregada e húmida - como que em contínua destilação de cristais - permitiu, por excepcional condescendência, que o Sol beijasse nêsse dia o coração da linda cidade da Praia que, inundada de luz vivificante, exulta de alegria pelos cumprimentos matutinos que o astro-rei, tão cortezmente lhe enviava, do alto da sua inacessível tribuna. [...]
Quem haveria de supôr que antes da tarde dêsse memorável dia, a cidade seria testemunha de um cruel assassínio?
Alice de **, natural da Praia, contava apenas vinte e dois anos de idade - feitos precisamente no dia em que a bala do carrasco lhe ceifou a existência!
Extremamente formosa, pertencia ao grémio dessas belezas peregrinas capazes de transtornar o mais indiferente celibatário.
Têz de moreno carregado, olhos de um brilho revelando inteligência sem cultura, bôca pequenina protegendo uma enfiada de alvinitente marfim, cabelos pretos luzidios, dispensando a sciência do artista para uma ondulação permanente - Alice de ** ocupava, pela sua deslumbrante formosura, lugar de destaque entre as moças mais lindas da cidade da Praia."
(Excerto de Do amor ao crime)
Índice:
Dedicatórias | Prefácio | Palavras necessárias | Do amor ao crime | O assassino | Morte de Alice.
Juvenal António Lopes da Costa Cabral (Santa Catarina, Santiago, Cabo Verde, 1889 - Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 1951). "Nasceu na ilha de Santiago em 1889, filho de António Lopes da Costa, um abastado proprietário rural, e de Rufina Lopes Cabral, filha de agricultores (pequenos proprietários). Com apenas oito anos, Juvenal foi enviado para Portugal, para estudar - um luxo só possível a uma reduzida elite das ilhas. Foi o primeiro aluno negro a entrar nos portões da escola primaria de Santiago de Cassurães, na Beira Alta. Seguiu-se o Seminário de Viseu, onde segundo ele mesmo, passou os melhores anos da sua vida. Mas face às dificuldades da família em manter os seus estudos, devido à estiagem, Juvenal retornou a Cabo Verde em 1906. De regresso a Cabo Verde, os pais destinaram-no ao sacerdócio católico. Não concluiu o curso no Seminário de São Nicolau, preferindo antes instalar-se na ilha de Santiago. Em abril de 1911, viajou para a Guiné-Bissau, à procura de emprego, de futuro, de melhor sorte. Ali viverá mais de trinta anos. Funcionário publico em Bolama, foi, depois, o primeiro professor de uma escola primária em Cacine, com uma escassa meia dúzia de alunos. Ele mesmo se definirá, um dia, como «um obscuro professor não diplomado».
Juvenal Cabral caracterizava-se a si próprio como “cabo-verdiano de nascimento e raça, português pela bandeira e educação, e, portanto, convictamente integrado nos alevantados ideais que deram a Portugal o prestigio universal que desfruta”. Era um homem com uma grande consciência e preocupação política e social sobre a situação de Cabo Verde, mas ao mesmo tempo era adepto da política colonial portuguesa e de Salazar (de quem fora colega, em Viseu). O espírito patriótico e a admiração que nutria pela colonização portuguesa, não impediram Juvenal Cabral, de várias vezes criticar a política colonial da metrópole em relação a Cabo Verde. Críticas essas que se deviam, sobretudo, à maneira como o governo português conduzia as políticas relativas às crises agrícolas e consequentes períodos de fome nas ilhas." 
(Fonte: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/5aa63601-7780-48d2-b02b-87662f03fda6/content)
Publicou:
1930: O Crime do Largo do Hospital da Cidade da Praia (Crónicas jornalísticas e sociais); 1947: Memórias e Reflexões (Sua obra magna, lançada originalmente como Edição do Autor na Cidade da Praia); 1949: Bêjo Caro! (Poema-panfleto satírico); 1949: Confissão de Zé Badiu (Texto literário em crioulo, anotado pelo seu filho Amílcar Cabral); 2002: Reedição póstuma de Memórias e Reflexões pelo Instituto da Biblioteca Nacional de Cabo Verde. Os seus restantes poemas (como O Voo da Avezinha) e diversos ensaios foram dispersos e publicados ao longo das décadas - de 1910 a 1950 - em jornais e revistas da imprensa cabo-verdiana. (IA)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Indisponível

14 abril, 2026

SOUSA,  Carlos de -
SCENAS AFRICANAS : 1897 a 1917
. Lisboa, Lamas, Motta & C.ª, [1917?]. In-8.º (19,5x13 cm) de 328 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de crónicas sobre histórias e episódios protagonizados pelo autor em África, por terras de Moçambique. Inclui viagens e capítulos devotados à caça grossa e a ao "encontro" com leões, um búfalo furioso e uma  carga de elefante, e ao seu relacionamento com a terra e as gentes indígenas e os seus costumes.
Obra com interesse histórico e etnográfico. Nada foi possível apurar sobre o autor, a não ser, pela leitura do livro, que foi oficial do exército português, tendo privado com Mousinho de Albuquerque e Gomes da Costa; era valente, apreciava sobremaneira África e tinha gosto pela aventura.
Livro ilustrado com inúmeras fotogravuras no texto.
"Todo aquelle que, levado á Africa pelos asares da vida e ao cabo de vinte annos quasi consecutivos de trabalho intenso, de sobreexcitação cerebral, devida á grande lucta para a existencia, n'aquelle meio e n'aquelle clima, embora resistindo á ferroada traiçoeira e vil dos inoculadores da malaria, tenha uma ou duas vezes passado pelas forcas caudinas da febre biliosa, e depois d'essa sobreexcitação, se encontre, embora com as maximas comodidades, o maximo carinho e conforto dos seus, no remanso do lar portuguez, é fatalmente invadido no fim de pouco tempo, que em geral não vae alem de um anno, pela terrivel doença nervosa, o desejo cruciante de voltar para lá, que tanto mais nos ataca, quanto mais tenhamos sofrido das febres, quantas mais contrariedades ali tenhamos tido, a terrivel nostalgia africana..."
(Excerto de Nostalgia Africana)
"Tinhamos sahido de Catuane n'uma chata de Monhé, tripulada por dois pretos, empurrada á vara; o rio ali junto á fogueira, é pouco fundo, e só pode ser navegado por aquelles barcos. Tinha a chata uns 4.m de comprido e 1m,20 de largo, e fizemos-lhe um toldo de capim com o duplo fim de nos abrigar do sol, e nos mascarar dos animaes do rio, para mais de perto os podermos caçar. Iamos sentados em comodas  cadeiras de lona, com as armas na mão, e a diante das mallas, cantina e um braseiro para fazer a comida. Para nós tinha um grande atractivo a viagem pois que sem nos massarmos, nem apanhar-mos muito sol, podiamos gosar a paisagem fluvial do rio Maputo que é realmente interessante.
Vinhamos da fronteira da Suazilandia e de Estatuene. O meu companheiro, um rapaz muito novo e muito rico, que viajava por diletantismo, fora-me recomendado em Lisboa; tinha um grande empenho em atirar a um cavallo marinho [hipopótamo], caça ali muito abundante; trazia uma Mauser com bala dum dum, eu uma Winchester de bala explosiva; vinhamos portanto bem armados para isso.
Elle chegára a Lourenço Marques havia poucos dias, e era completamente novato em caçadas de féras, e visitas a povoações de pretos. Com a ideia de atirar a um cavallo marinho, parecia uma creança.
«Espere, lhe disse eu, se tivesse vindo comigo ha uns seis meses, quando de volta da fronteira desci este rio, acompanhado do Corte Real, então era muito facil a caça a estes  monstros, mas agora, no tempo do cio, são umas verdadeiras feras; se se atira a uma femea, é certo que o macho vem sobre nós, se a um macho que vem atraz da femea, peor ainda, se a uma femea com filho, é ella que nos atáca; de resto são animaes muito pacificos, de olhar meigo, e nunca atacam que não os ataca primeiro.» [...]
Em breve vimos dois hipopotamos aos pulos na agua; era um casal brincando, o macho enorme, e apesar do rio ter ali uns 60m de largura de agua, parecia pequeno para elle. tão entretidos estavam os dois, aos pulos, que não deram por nós. N'um certo momento em que o macho estava mais socegado, e de cabeça de fóra disse ao meu amigo, que atirasse, apontando bem entre os olhos e, de espingarda engatilhada, fiquei esperando para acudir em caso de necessidade."
(Excerto de No rio Maputo, o regulo M'Pobobo)
Exemplar brochado em bom esta de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Raro.
85€

19 fevereiro, 2026

LUCAS, António José de Carvalho -
CAMPANHA DE ÁFRICA : Angola - 1914/1918.
Cadernos de História Militar N.º 8. Lisboa, Direcção do Serviço Histórico-Militar, 1989. In-8.º (21x14,5 cm) de [1], 60 f. ; [5] mapas ; il. ; B.
1.ª edição.
Importante subsídio para a história das campanha africanas da Grande Guerra em Angola, a preparação da empresa, o corpo expedicionário e os combates.
Obra invulgar e muito interessante, com interesse para a bibliografia WW1.
Livro impresso na frente, ilustrado no texto com inúmeros quadros estatísticos, e em separado, com 5 mapas, croquis e esboços das contendas.
"As tropas Alemãs partem de Kalkfontein a 27 de Outubro tendo Naulila como objectivo e sob o Comando do Major Frank. Este dividira-as em duas Colunas: Uma que dirigia pessoalmente e uma segunda Comandada por Von Water que seria destacada para a frente. As primeiras forças atingem o Cunene a 12 de Dezembro, altura em que ocorrem os primeiros contactos com as tropas Portuguesas no flanco direito da posição compreendida entre Naulila e Calueque. Nos morros do Calueque estava em vigilância um pelotão do 1.º Esquadrão de Dragões que interceptou uma patrulha Alemã. De imediato a informação é enviada a Naulila, onde se encontrava o Quartel General: Os Alemães tinham o seu acampamento a oeste do  morro, na margem esquerda do Cunene, e aí permaneceram esperando a coluna de Frank. Roçadas manda seguir para Calueque o restante do Esquadrão de Dragões que estava em Naulila e o destacamento do Major Salgado estacionado na Dongoena. Nos dias seguintes continuariam os contactos entre o Esquadrão e patrulhas Alemãs.
A posição Portuguesa apresentava dois pontos fortes: No extremo esquerdo Naulila e no lado oposto o Calueque. Entre ambos, os diversos locais onde a travessia do Cunene era possível, estavam devidamente vigiados. Mas o ataque Alemão irá incidir sobre Naulila onde a defesa apresentava 3 Quilómetros de frente, e portanto extensa para o número de homens que a guarnecia."
(Excerto de Combate de Naulila - O confronto entre os Portugueses e Alemães
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
25€
Reservado

26 novembro, 2025

MARINHO, José L. Teixeira -
A PROVÍNCIA DA GUINÉ : Raças que a povoam.
[Por]... Capitão de Fragata. Separata do n.º 14 da Revista «A Terra». [S.l.], [s.n.], 1934. In-4.º (23,5x16 cm) de 4 p. ; B.
1.ª edição independente.
Curioso estudo acerca do multiculturalismo e das raças nativas, cerca de quinze, que habitam a antiga província ultramarina da Guiné.
"É  a nossa província da Guiné, embora pequena em superfície, pois que não vai àlém de 36000 quilómetros quadrados, uma das de mais esperançoso futuro, assegurado por circunstâncias felizes que nela concorrem, sendo as principais a densidade da sua população que orça por 1[/2] milhão de habitantes, a sua rêde de canaes que facilitam o transporte das múltiplas mercadorias em que abunda, a variedade das culturas que o solo e o clima permitem.
A nossa Guiné é povoada por uma grande variedade de gentes, com línguas, costumes e tipos bastantes diferenciados.
Diremos algumas palavras sôbre os principais grupos étnicos.
Os Felupes que habitam o canto noroeste da província, são de c<ôr +reta retinta, traços regulares, robustos. Usam um vestuário rudimentar; cultivam o arroz e o milho e são grandes bebedores de vinho de palma que extraem das palmeiras que abundam na região. São muito supersticiosos e bastante insubmissos."
(Excerto do Estudo)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Com interesse histórico.
10€

11 outubro, 2025

AMARAL, Ilídio do -
MEDIDAS PORTUGUESAS PARA A ORGANIZAÇÃO DOS NOVOS TERRITÓRIOS NAS MARGENS CONTINENTAIS DO ATLÂNTICO SUL NO SÉCULO XVI (apontamentos de geografia histórica)
. Coimbra, [Universidade de Coimbra], 1991. In-4.º (20518,5 cm) de [2], 40, [2] p. (277-316 pp.) ; B.
1.ª edição independente.
Separata da Revista da Universidade de Coimbra, Vol. XXXVI.
Interessante subsídio para a história da colonização portuguesa em territórios localizados no Atlântico Sul, na costa de África e Brasil.
"Depois da euforia produzida pelas riquezas do Oriente, e no intuito de se assegurar a posse dos litorais africano e sul-americano, o Império tornar-se-ia mais Atlântico, com base no sistema porque se tinham povoado as ilhas, sem ónus para a Coroa. Para isso as capitanias e as suas cartas de doação e forais foram bases territoriais e instrumentos legais da sua organização, de valor inestimável. De uma maneira geral, dito muito resumidamente, as cartas e forais significaram a cedência, mais ou menos extensa, de direitos régios, sem prejuízo dos direitos que coubessem a nacionais já estabelecidos nas terras sob doação e que por isso recebiam, de sesmaria, terras foreiras directas da Coroa. Os colonos levados pelos donatários ficariam a gozar das mesmas regalias. Mais uma vez estamos perante um sistema de longas tradições, europeias e portuguesas, revigorado e renovado nos tempos da expansão ultramarina, para a colonização das terras novas. Mantendo-se os fundamentos gerais, contudo as donatarias tiveram adaptações particularmente consoante a sua aplicação às ilhas e a sectores dos litorais continentais do Atlântico Sul, e também o momento político e os interesses económicos."
(Excerto do Preâmbulo)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Invulgar.
Com interesse histórico.
10€

19 março, 2025

MONTEIRO, Carlos -
DE SETÚBAL ÀS TERRAS DE ANGOLA.
Patrocínio do Movimento Nacional Feminino. Reportagem de... Publicado no jornal "O Distrito de Setúbal". [S.l.], [s.n. - Composto e impresso na Tipografia Rápida de Setúbal, Lda. - Setúbal], 1973. In-8.º (21x14,5 cm) de 61, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Capa de: Gertrudes Páscoa Geraldes Monteiro.
Crónicas de viagem por Angola de um setubalense por adopção.
Ilustrado com fotografia a p.b. ao longo do livro, sendo algumas em página inteira.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor ao Dr. J. Carlos Botelho.
"Sou um Homem das «terras do Demo», designação que Mestre Aquilino Ribeiro dá às terras beiroas que me serviram de berço.
Em Coimbra, na verdura dos meus anos, desfolhei as mais perfumadas pétalas da minha vida.
Durante duas décadas, a seguir identifiquei-me com a «Planície Heróica», o Alentejo, tão decantado por Manuel Ribeiro.
Mais tarde vim para a terra de Bocage, onde me vinculei.
Sonhei sempre. Encarei a Vida. Lutei com verticalidade. Tive sonhos desfeitos. Cânticos de vitória, não faltaram. De entre tudo, tentei o Ultramar. A frustração dessa hora, que se esfuma pela mocidade, marcou-me doridamente.
Aqui, em Setúbal, a par da minha actividade de fundo que é a Escola, o jornalismo seduziu-me. Alistei-me nele. No seu quadro. Para ficar. Para servir.
Um convite atencioso do Movimento Nacional Feminino para visitar o Estado Português de Angola, veio salvar das cinzas um sonho. Vibrei. Pois. Rejuvenesci."
(Excerto de Nota de abertura)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Indisponível

29 dezembro, 2024

WARING, Ronald -
THE WAR IN ANGOLA. Lisbon : Agência Geral do Ultramar, [1962]. In-8.º (20x14,5 cm) de  69, [3] p. : il. ; B.
1.ª edição.
Relato dos acontecimentos em Angola reportando ao primeiro ano de Guerra Colonial, da surpresa e espanto geral pelos ataques no norte até à preparação, envio de tropas e sua disposição e controle no terreno. Waring não se limita à descrição das atrocidades cometidas pelos elementos da UPA e da resposta portuguesa; traça o panorama económico e social da Colónia na época, incluindo a escola, saúde, etc.
Obra com interesse histórico, não teve tradução para português. Ilustrada com inúmeras fotografias no texto, muitas delas impublicáveis porque chocantes.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor.
"On 14th March, Angola was at peace with itself.
Europeans and Africans went about their business as usual and scoffed at those who said that trouble in the Congo would spread South. There was certainly no sign of unrest among the African population. In fact things were so quiet that there were only 2,000 white soldiers and 700 policemen (half of whom were Africans) in the whole Country, a country incidentally as large as Spain, Portugal, France and Germany put together.
Portugal's policy of slow integration seemed to be working well, and everyone was condident that they were building a Luso-African society similar to that achieved in Brasil.
They went to bed with easy minds March 14.
The long knives struck at dawn!
Along a 250 mile stretch in Northern Angola, hordes of terrorists swooped on Europeans and on all the Africans who refused to join with them. In a fantastic orgy of blood they butchered, burned and tortured to death more than 1,300 Europeans and ten times that number of Africans.
The terrorists had the adavantage of surprise and a well laid plain. Their targets were isolated farms where European settlers and their native workers, armed only with a few sporting rifles and shot guns, were no match for the bands of screaming terrorists brandishing two foot long machetes and muzzle-loading guns.
The wave of slaughter lasted for three weeks, during which time many thousands of African joined the terrorists, either in the hope of a rich harvest of plunder, of for fear of the consequences if they refuse. The remaining Europeans and those Africans who remained loyal, found themselves barricaded inside the small towns and villages in Northern Angola.
They had to face constant dawn attacks by terrorits bands whose war cries were «U. P. A.» (Union des Peuples d'Angola), «Lumumba», and «Mazza».
«Mazza» simply means «water», and the terrorists believed that their witch doctor's magic would turn the withe man's bullets to water.
In Portugal the first shock of the news was followed by a hasty mobilisation of troops. The Portuguese army, as a N. A. T. O. ally, was equipped for war in Europe, but not for a war in Africa 5,000 miles away."
(Excerto do Cap. I)
Ronald Waring. "Oficial do exército britânico, serviu no King's Royal Rifle Corps e durante a Segunda Guerra Mundial no Royal Hampshire Regiment; entre 1956 e 1974 leccionou no Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM-Pedrouços), após o que regressou a Londres com o posto de coronel, agraciado com o título nobiliárquico de Duque de Valderano."
(Fonte: https://ultramar.terraweb.biz/06livros_RonaldWaring.htm)
Exemplar em brochura, bem conservado. Com alguns (poucos) subinhados.
Raro.
35€

24 dezembro, 2024

SANTOS, Corte-Real -
AGONIA E MORTE A 13,43 GRAUS DE LATITUDE SUL.
2.ª edição : 3.º, 4.º e 5.º milhares. Sá da Bandeira - Angola, [Edição do Autor]. Distribuidores: Publicações Imbondeiro, [1964?]. In-8.º (21,5x14,5 cm) de 86, [2] p. ; mto il. ; B.
Capa de Alfredo de Freitas.
Reportagem da tragédia que vitimou dois pilotos em Angola no início dos anos 60 do século passado. O misterioso desaparecimento da aeronave emocionou e prendeu a atenção da população de ex-colónia portuguesa durante longos e penosos meses.
Obra com larga divulgação em Angola na época, ainda assim não se encontra representada no acervo da BNP.
Ilustrada com fotografias a p.b. no texto de mapas, da aeronave acidentada e dos malogrados pilotos, algumas impublicáveis pela crueza das mesmas.
"Aparece este livro para corresponder ao desejo manifestado de muitas das pessoas que se apaixonaram, condoídas, pela aventura extraordinàriamente emocionante dos aviadores civis Carlos da Costa Fernandes e Acácio Lopes da Costa, os quais em 18 de Março de 1963, a bordo da avioneta «Piper Colt», do Aero Clube do Lobito, empreenderam uma viagem de que infelizmente não haveriam de voltar vivos.
O triste caso, sem par na história da aviação de Angola, consternou vivamente a população da Província e a partir de então se manteve em intrigante mistério, apesar de intensivas buscas por ar, mar e terra efectuadas por dezenas de pessoas durante largas e arreliantes semanas.
Quando parecia que a tragédia havia terminado com a convicção de que a avioneta «Piper Colt» se afundara no mar com os seus dois ocupantes, surgiu inesperadamente, em 29 de Junho, - 103 dias passados! - a notícia de que o aparelho fora encontrado a mais de 50 quilómetros ao sul de Benguela, num local deserto denominado Dulombuluco, Piqui, não muito longe da praia da Binga. A informação, chegada a Benguela na tarde desse dia, acrescentava que os dois aviadores estavam mortos e os seus corpos já em meia decomposição.
Este epílogo trágico do caso consternou profundamente a população angolana, que leu sofregamente os relatos dos jornais - logo esgotados - e ouviu, magnetizada, o noticiário das emissoras. Todos esses relatos se dispersaram naturalmente e muita gente ficou insuficientemente informada.
Este facto tornou patente a necessidade dum livro em que se registasse o acontecimento por ordem cronológica, se desvendassem antecedentes que pareceram esclarecedores e, sobretudo, se dessem a conhecer os famosos «diários» deixados pelos desventurados aviadores."
(Excerto da Introdução)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Invulgar.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€

30 novembro, 2024

FERRAZ, Guilherme Ivens -
DO CHINDE A CHILOMO.
Por... Vice-Almirante R. Separata do Arquivo de Anatomia e Antropologia : Vol. XXVI, 1949. Lisboa, Arquivo de Anatomia e Antropologia, 1949. In-4.º (25,5x17,5 cm)  de 20 p. (529-548 p.) ; il. ; B.
1.ª edição independente.
Narrativa da viagem empreendida pelo autor e seus companheiros em missão geográfica por Moçambique. Mas o assunto principal do livro é o "Crocodilo": depois de um trágico incidente com um destes animais, Ivens Ferraz dedica-lhe a quase totalidade dos seus apontamentos; no final dá conta de alguns episódios insólitos de caça passados na selva africana.
Memórias antes publicadas no Boletim da Pesca, Lisboa, n.º 21, Dez., 1948. A BNP não menciona o presente.
Livro ilustrado com fotogravuras, e desenhos da anatomia do réptil e do "incidente", sendo este em página inteira.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do Almirante, na capa, datada de 22/III/1949, a José de Campos e Sousa.
"No ano de 1899 foi o autor deste artigo nomeado delegado do Governo Português, para proceder à definição e estabelecimento de uma linha provisória de fronteira luso-britânica, nos territórios de Ruo, Milange, Chirua, Niassa e Angónia. Foram nossos companheiros de trabalho nesta missão, o tenente do Exército Colonial João de Freitas Branco e o 2.º tenente da Armada Conde da Ponte, ambos já falecidos.
Partimos do Chinde no dia 19 de Junho a bordo da lancha-canhoneira Cherim e subimos o rio do mesmo nome, o qual serpenteia entre alagadiças margens de mangal, ou vestidas de capim e raquítico arvoredo, até à sua confluência com o Zambeze, a cujo delta pertence.
Ia a lancha singrando cautelosamente, conforme a regra infalível em todos os rios, de fugir das pontas e encostar às curvas, e à noitinha fundeámos no Sombo, a meio do rio, para meter lenha na manhã imediata e largar depois com destino a Chilomo, onde tencionávamos contratar carregadores para a nossa expedição.
Jantámos no espardeque, tendo ocasião de admirar o desembaraço do pequeno moleque Vicente, que servia à mesa com todas as regras e etiquetas do mais requintado serviço europeu.
À alvorada encostámos à margem para facilitar a faina da lenha e, ao içar a bandeira às oito horas, recebemos a visita do Sr. Paiva de Andrade, arrendatário do prazo Luabo.
Não demorámos em ir a terra retribuir essa visita, na companhia do comandante da lancha, que era o 1.º tenente Magalhães Ramalho, também já falecido. Poucos passos tínhamos caminhado, quando Ramalho, dando pelo esquecimento do relógio, chamou para bordo: «Ó Vicente, Vicente! Traz o meu relógio!»
O criadito, vivo como azougue, vai à câmara, daí corre ao portaló e entra na prancha para saltar em terra e entregar o relógio ao patrão. Por fatalidade, desiquilibra-se e cai ao rio!
Uma gritaria alucinante levantada pela tripulação, ecoa nas margens, perdendo-se logo num lúgubre silêncio!
Virámo-nos surpreendidos e ainda tivemos tempo de ver, como num pesadelo, a cabeça de um enorme crocodilo, com o franzino corpo do Vicente atravessado na boca medonha!"
(Excerto de I - Prólogo)
Índice:
I - Prólogo. II . O Crocodilo Africano. III - Chilomo.
Guilherme Ivens Ferraz (1865-1956). "Vice Almirante da Real Marinha de Guerra Portuguesa.Entre os muitos e importantes cargos que ocupou, destacam-se o de  governador da Companhia de Pesca das Pérolas do Bazaruto em Moçambique em 1892; participou nas campanhas de África de 1891 a 1895; comandante da Esquadrilha de Lourenço Marques em Moçambique e ainda dos seguintes navios "Sabre", "Auxiliar", "Bérrio", "Tejo", "Bengo" ; secretário do Conselheiro Régio António Enes em Moçambique entre 1894 e 1895; capitão do Porto de Lourenço Marques de 1895 a 1899; presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques; nomeado oficial às ordens do Rei D. Carlos I; nomeado comissário do Governo Português na delimitação de fronteiras anglo-portuguesas na África Central."
(Fonte: in Memorias do Reino de Portugal, FB, 18 de janeiro de 2021)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Vinco ao centro, na vertical. Cadernos soltos.
Raro.
Com interesse histórico.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
35€

01 outubro, 2024

CÉRTIMA, António de - EPOPEIA MALDITA.
O drama da Guerra d'África: que foi visto, sofrido e meditado pelo combatente... Lisboa, Portugal-Brasil - Depositária, M. CM. XXIV. [1924]. In-4.º (26,5x18,5 cm) de 276, [8] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Capa do Pintor Martins Barata. Alegoria do Desenhador-Decorador Cunha Barros. Clichés do texto do Tenente Alexandre Castelo Branco.
Narrativa do autor, espécie de diário de campanha escrito no teatro de operações, em África, durante a Primeira Guerra Mundial. Mais do que o relato dos acontecimentos, trata-se de uma severa crítica às chefias políticas e militares, por enviar para o terreno soldados impreparados para dar combate às tropas alemãs, sem instrução nem equipamento adequado ao clima.
Livro ilustrado no texto com fotogravuras e um mapa em página inteira - Mapa da zona de operações do Niassa -, e em separado, com fotografia do Major Leopoldo da Silva a cavalo, chefe da «Coluna de Massassi», e do Capitão Pedro Curado, "... o maior homem desta Epopeia decadente", que o substituiu este último no comando em combate.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor, datada de 1924, ao jornalista aveirense Manuel Lavrador.
" - «ADEUS, PORTUGAL!
JÁ NÃO HA PORTUGUESES!...»
Exclamação proferida no combate da coluna de socorros a Newala com as tropas alemãs (travado na estrada de Mahuta em 28-11-1916), pelo tenente do 24, Almeida Oliveira - perfil de cavaleiro medieval em cuja bôca profética a alma da pátria parece ter posto o seu epitáfio simbólico do momento."
(Inscrição deste livro maldito)
Índice: Ofertório | In-Memoriam | Inscrição deste livro maldito | Primeira jornada; Segunda jornada; Terceira jornada; Quarta jornada; Quinta jornada; Sexta jornada; Sétima jornada; Oitava jornada; Nona jornada; Décima jornada | Post Scriptum: Carta ao Exército.
António de Cértima (Oiã, Oliveira do Bairro, 1894 - Caramulo, 1983). "Fez parte do corpo militar português que, em Moçambique, combateu as forças militares alemãs, durante a Primeira Guerra Mundial. Escreveu o livro Epopeia Maldita sobre esse tempo de confronto militar, onde revelou uma notável escrita literária. Nesta narrativa de guerra articulou as suas memórias de combatente com a análise crítica das opções político-militares tomadas pelos governos portugueses e com a visão sobre a identidade portuguesa. Segundo ele, nos anos 20, a resposta a dar à crise do regime político da Primeira República Portuguesa devia institucionalizar uma Ditadura apoiada pelas Forças Armadas."
(Fonte: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6130688)
Encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura frontal.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Pastas algo manchadas.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
45€

05 setembro, 2024

AGUILAR, António de -
AVENTURAS DE CAÇA
. [Prefácio de José Osório de Oliveira]. Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1935. In-8.º (20,5x14,5 cm) de 220, V, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante conjunto de narrativas sobre caça grossa, episódios vivenciados pelo autor nos meses de mato no interior de Benguela, Angola.
Obra premiada no Concurso de Literatura Colonial (1.ª categoria).
Inclui no final lista de termos/expressões de origem local: "Vocabulário em uso na região de Benguela e empregado neste livro".
"António de Aguilar não é um escritor de carreira. Emprego esta expressão para não dizer escritor profissional, espécie que quási não existe entre nós. [...]
É certo que a técnica não é, na literatura, a condição primordial, e a sua falta pode ser, mesmo, desculpável. Nas narrações de experiências vividas o interêsse do assunto faz esquecer, muitas vezes, a inexperiência literária. É o que costuma suceder com os livros dos homens de acção que contam a sua vida ou as suas aventuras. [...]
Por tudo isso, António de Agular tomas as proporções dum caso. Eis um homem de acção que escreve pela primeira vez um livro, que não tem a intenção de se dedicar à literatura, que conta apenas o que viveu e que, no entanto, compõe uma obra digna dum literato sabedor de tôdas as regras da arte. Trata-se, evidentemente, dum homem culto que se dedicou à acção e não dum homem formado por esta. Mas ainda assim admira como António de Aguilar soube compor um livro em que se narram tôdas as espécies de caçadas sem nunca repetir uma cena,  um episódio ou uma aventura. Ou foi duma felicidade única ou teve a inteligência rara de escolher.
Sob êsse aspecto, o livro de António de Aguilar chega a parecer o produto dum escritor de imaginação que quizesse mostrar tôdas as aventuras possíveis na África. A figura admirável do «Cátucinho», a figura curiosíssima de Bruaia, o caso extraordinário do Padre Luís dir-se-iam criações dum romancista. Nós sabemos, porém, que tudo nêste livro é verdade."
(Excerto do Prefácio)
"No sertão ràpidamente nos prende o viver indígena.
Breve se observa não ser o isolamento tamanho como seria dado prever ao escutar histórias que correm mundo e fazem fé.
O «telégrafo» negro põe-nos a par dos sucessos do mato e até das povoações europeias.
A floresta angolana parece morta mas, de facto, vive intensamente. A actividade quer de brancos quer de prêtos não foge ao exame do nativo mais rude, assim como não lhe passa a menor alteração na paz sertaneja.
Tudo serve ao gentio para matar o tempo.
O boi fugido do sambo; o sècúlo a tratos com os cipaios, o macaco roubador das lavras, o leão atravessando a selva, o muènéputo destrambelhado ou justiceiro, o funante desvacador de quimbos são motivos preciosos para infindas palestras.
Nas intermináveis noites de acampamento, aquecendo-me à fogueira, quantas vezes escutei tôda a narrativa, nos seus ínfimos pormenores, do viver dos europeus meus companheiros de sertão!
A miúde êste apurado espírito de observação crítica provoca e anima a perniciosa intrigalhada «cafuza», característica dominante da mentalidade europeia do interior.
Mas, acima de tudo, o que faz vibrar a alma do indígena é a narração das proezas de caça.
O caçador é homem lidando de perto com poderosos feitiços.
Por fôrça deles, consegue dominar o cazumbi maléfico protector ou mandante dos animais ferozes ao serviço de Gangas e Quimbandas.
Não pode, pois, deixar de ser um ente extraordinário.
E a admiração torna-se inexprimível se, por ventura, o caçador o é de elefantes.
O Jamba!
O monstruoso paquiderme, aos olhos do nativo representa tudo quanto há de mais poderoso debaixo do sol.
Homem matador de elefantes, seja êle por acaso, tem a reputação criada.
É célebre; não mais desaparecerá do folclore bàntú.
Por isso, não seria possível passar-me despercebido o nome de «Cátucinho», herói máximo das grandes aventuras de caça da região, abatedor de dezenas e dezenas de elefantes e búfalos, o branco feiticeiro ao qual a águia não escapava no vôo, nem o «grande boi de um chifre só» conseguia escuso recanto de muchito onde se abrigar da sua ira.
«Olho de Deus»... «Ah!... Pai... Pai... não há ninguém no mundo com semelhante pontaria...»
Numa tarde de 1918, conheci-o ao famoso caçador, futuro meu amigo e companheiro de cansadoras misérias, uma vez aproximados pelo destino para a conquista do pão. [...]
Alto, esgrouviado, um bigode pendente, vestia uma fatiota grosseira de roupa de fardo.
Os ombros estoiravam as costuras e, por isso, as mangas pouco mais desciam abaixo do cotovelo.
As calças afuniladas, paravam acima dos tornozelos, por sua vez fugidios de uns canos de bota de cabedal grosseiro, rugoso, e encebado até à dupla sola ferrada.
Mais que a vestimenta exótica e em contraste com o ar canhestro, prendeu-me a atenção o seu olhar vivo."
(Excerto do Cap.I)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos, manchas, e pequenas falhas de papel.
Raro.
85€

23 julho, 2024

MOREIRAS, Francislei T. -
O CANDOMBLÉ.
A Herança Africana no Brasil, um Breve Estudo Sobre a Religião e a Dança dos Orixas. Almada, ISEIT : Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdiciplinares - Unidade de Investigação em Antropologia, 2002. In-fólio (30x21 cm) de [3], 27 f. ; il. ; B.
1.ª edição.
Curioso ensaio antropológico "sobre alguns aspectos da religião Afro-Brasileira conhecida como Candomblé, da autoria de Francislei T. Moreira, licenciado Cum Laude em Antropologia da Dança pela San Francisco State University, Califórnia, e Mestre em Antropologia da Dança pela New York University e pela Universidade Nova de Lisboa".
Trabalho académico raro e muito interessante. A BNP refere a obra com a indicação "sem informação exemplar".
Ilustrado no texto com desenho esquemático da "Estrutura do Terreiro", local onde se realizam as cerimónias de Candomblé.
"Quando fui morar nos Estados Unidos da América, o distanciamento cultural, e os cursos em Licenciatura e Mestrado em Antropologia Social e Cultural, o segundo, com a ênfase em dança, fizeram-me reflectir sobre vários aspectos da cultura brasileira, mas desta vez com a perspectiva de um investigador. Durante este tempo tive o privilégio de participar activamente nas cerimónias religiosas de origem africana na área metropolitana de Nova York, mais precisamente no condado de Brooklyn. Reforço o termo privilégio porque as religiões conhecidas como "Orixa Worship" (Culto ao Orixá) e "Santeria" ainda sofrem um certo preconceito devido aos factores de incorporação pelos espíritos e também por causa do ritual de sacrifício de animais. Este último aspecto, particularmente, é um facto de altas críticas e perseguição nos Estados Unidos devido aos movimentos de grupos de defesa dos animais. Mas, como Clifford Geertz diz, ao nosso ponto de vista, o que as pessoas fazem podem ser bastante estranhas. Fiquei exposto a situações de facto muito estranhas e curiosas, e por isso mesmo fascinante a nível de antropologia.
Como anotar tudo o que via, vivia e depois tentar descodificar para ser fiel à religião, em respeito à cena cultural? Havia também o factor de não poder revelar tudo o que era testemunha, já que há aspectos que devem ser mantidos em segredo por aqueles que passaram pela iniciação. Não foi o meu caso, o de passar por todo o processo de iniciação, mas houve uma confiança tácita por parte de Sacerdotes e Sacerdotisas tanto no Brasil como em Nova York, e, por uma questão ética, certas coisas não puderam ser incluídas neste texto.
A investigação sobre as danças dos orixás, os deuses e deusas do panteão Afro-brasileiro em Candomblé prossegue. Ainda há muito para conhecer sobre o que faz da dança um elemento de importância fundamental entre o mundo terreno e o sagrado."
(Excerto da Introdução)
"O tráfego de escravos para o Brasil começou no século dezasseis, e terminou com a abolição da escravatura em 1888. As culturas africanas principais, as quais forneceram escravos para o Brasil entre os séculos dezasseis e dezanove foram Bantu, Sudanesa, e a Islamica-Sudanesa. Pela perspectiva de Roger Bastide (1978), o tráfego escravo foi responsável pela quebra daquelas culturas e de suas religiões. Estas, asquais "estavam ligadas a certos tipos de organização familiar ou de clãs, assim como a ambientes biogeográficos específicos (florestas e savanas tropicais), também à estrutura de vila e comunidade", foram capazes de juntarem-se no Brasil. A maneira principal desta unidade religiosa foi o Candomblé.
As cerimónias de Candomblé são chamadas "giras" e acontecem em sítios chamados "terreiros". [...]
As cerimónias do Candomblé têm por objectivo estabelecer uma comunicação directa com os espíritos que governam as forças naturais como o vento, as tempestades ou fenómenos naturais como, por exemplo, o arco-íris. Estas forças naturais são chamadas "Orixás" e elas podem ser espíritos divinos que foram uma vez reis históricos e rainhas na África assim como figuras mitológicas."
(Excerto de O Candomblé: a herança africana ao Brasil)
Índice:
Apresentação | Introdução | O Candomblé: a herança africana ao Brasil | As Danças Rituais | Exu | Obatalá ou Oxalá (Oxalufã e Oxaguiã) | Iansã (Oyá) | Ogum | Oxum | Oxumaré | Yemanjá (Iemanjá) | Omolu (Obaluaiê) | Xangô | Oxossi | Obá | O Processo de Iniciação| O Calendário Cerimonial do Candomblé | Conclusão | Bibliografia.
Exemplar em brochura, presos por agrafes, em bom estado de conservação.
Raro.
45€

03 maio, 2024

KI-ZERBO, Joseph -
HISTÓRIA DA ÁFRICA NEGRA - I. Edição revista e actualizada pelo autor. 3.ª edição. [II. Edição revista e actualizada pelo autor. 2.ª edição]. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1999-81. 2 vols in-8.º (21x14 cm) de 452, [12] p. ; [XXII], [1] p. il. ; il. (I) e 464, [8] p. ; [X], [2] p. il. ; B. Col. Biblioteca Universitária
Importante estudo histórico sobre a África Subsariana.
Obra em 2 volumes (completa), ilustrada no texto com mapas geográficos e tabelas, e em separado, com inúmeras fotografias a p.b. distribuídas por 32 páginas.
"Durante largo tempo, a Africa foi considerada um continente sem história. Em 1830, Hegel decretava que "A Africa não é uma parte histórica do mundo", e depois dele muitos foram os historiadores que, sacrificando mais ao preconceito do que à ciência, repetiram em vários tons a mesma ideia.
A obra de Ki-Zerbo, cujo vol. I apresentamos, é o melhor desmentido à lenda da África continente sem história. Num trabalho de reconhecido rigor cientifico, que a crítica francesa saudou com o maior entusiasmo, o autor levou a cabo o trabalho ciclópico de trazer à luz as raízes históricas de todo um continente, na sua insuspeitada riqueza.

Partindo da pré-história, o presente volume acompanha a caminhada do homem africano até ao século XIX, desvendando aos olhos maravilhados do leitor sucessivos períodos de esplendor e decadência, com o surgir e o afundar de reinos e impérios, até aos primeiros contactos com os Europeus e as consequências que daí advieram para a evolução histórica da Africa Negra.
O segundo e último da História da Africa Negra, de Joseph Ki Zerbo - cobre a parte mais recente da longa caminhada do homem africano, tratando os eventos ocorridos desde o século XIX até aos nossos dias.
Foram os anos negros em que a África é arrancada aos africanos pelas garras das potencias colonizadoras, que, em muitos casos, fizeram do grande continente autêntico campo de pilhagem. Mas foram também anos em que a África gerou chefes de grande envergadura, cujo perfil o autor traça com particular relevo.
Vem depois o despertar do continente, com o surto do nacionalismo e os movimentos conducentes à independência. O autor historia de forma completa o processo de libertação dos países africanos e escreveu mesmo, especialmente para esta edição, a história da descolonização nos territórios sob administração portuguesa.
Um capítulo sobre os problemas africanos de hoje, em que se equacionam as questões que actualmente se põem ao continente e se apontam perspectivas de evolução futura, encerra esta obra, indispensável a quantos desejam possuir da África um conhecimento mais profundo."
(Fonte: Wook)

Joseph Ki-Zerbo (1922-2006). "Nascido em Toma (Burkina Faso), é historiador. Publicou Histoire de l’Afrique noire (Hatier), dirigiu dois volumes da monumental Histoire générale de l’Afrique (UNESCO) e La Natte des autres: pour un développement endogène en Afrique (Karthala)."
(Fonte: Wook)
Exemplares em brochura, bem conservados. Ambos os volumes apresentam assinatura possessória na f. rosto.
Invulgar.
Com interesse histórico.
25€

27 março, 2024

CAMACHO, Gabriel de Medina e ROCHA, Antonio C. -
A BAILARINA DOS OLHOS BRANCOS : novela
. Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, [1934?]. In-8.º (19x12 cm) de 332 p. ; E.
1.ª edição.
Romance de costumes, levemente erótico, retrata o bas-fond de Lourenço Marques (hoje Maputo), capital de Moçambique, onde, juntamente com a Beira, a acção da trama decorre. Trata da história de vida, dos amores e desamores de Judith Orloff - a «Bailarina de Olhos Brancos» - e de sua filha Raquel, dona de beleza sensual comparável à de sua mãe.
"Nos países incluídos na zona de influência do trópico de Capricórnio, o mês de Janeiro é, dentro da roda do ano, um dos mais duros e exaustivos por ser calmoso e abafadiço. [...]
Nos países tropicais, quando o fôgo do sol aperta, o gêlo é uma panaceia. Tudo suavisa, excepto o esbrazeamento das paixões de qualquer natureza. Verifica-se, mesmo, um acréscimo de exaltação espiritual perfeitamente proporcionado ao abaixamento da temperatura dos organismos.
Assim sucedeu em certa  noite januarina, quando os freqüentadores do «Rialto» se refrescavam, resfastelados lânguidamente nas cadeiras de vêrga que ocupam uma boa parte da alegre Praça.
Á medida que as epidermes arrefeciam, maior ardor encandescia os comentário àcêrca da estreia da «Bailarina dos Olhos Brancos», a efectuar-se dentro de alguns dias no «Varietá»."
(Excerto do Cap. I)
As mulheres escasseavam. Raras de aventuravam a acompanhar os seus maridos ou parentes para uma terra como aquela, onde, apenas, surgiam dissabores, febres e aborrecimentos. [...]
E as brancas escasseavam tanto!
Nestas circunstancias bem podemos imaginar qual a sensação produzida pela primeira aventureira europêa que naquele meio surgisse fazendo valer a côr da sua pele. A penuria de mulheres de «carne branca» provocou, necessáriamente, a exploração de um negócio altamente productivo e, sob este ponto de vista, preferivel à prostituição deliberada e declarada.
Naquela época o Bar assumiu as proporções de instituição imprescindível. Continha os dois mais vigorosos atractivo da vida: - o alcool e a mulher. Era o maravilhoso templo do prazer! [...]
A rua Araujo, estendida paralelamente ao caes do porto, era, por este facto, a mais indicada para os estabelecimentos dedicados áquele comércio. Quasi tôdas as lojas desta movimentada rua estavam ocupadas por bonitos Bars. [...]
Havia «bar-maids» de varias raças e tipos; desde a voluntariosa transwaliana até à especuladora grega; desde a arteira francesa até à merencoria russa.
Entre todas, uma se notabilisou pela sua formosura: Judith Orloff. Nascida em Odessa, surgira, ainda adolescente, em Lourenço Marques. Os motivos e determinantes do seu aparecimento naquela capital nunca se apresentaram inteiramente esclarecidos. Sabe-se apenas ter vindo para Africa em companhia duma família judaica, como ela.
Teria atingido a idade de dezoito anos quando misteriosamente a família abalou para parte incerta. Mas a rapariga ficára, sitiada por mil cubiças.
Certo dia correu na cidade uma notícia sensacional; Judith alistára-se na luzida legião das «bar-maids», fazendo do balcão do Bar de Peggy a sua gloriosa trincheira. A linda russa contituia um atractivo irresistivel."
(Excerto do Cap. II)
Encadernação em meia de tela revestida a tecido com cantos e rótulo na lombada, com título e autores gravados a ouro. Aparado. Conserva a belíssima capa de brochura frontal.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
45€