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11 outubro, 2026

ALMEIDA, Eduardo d' -
ALMAS DO PURGATÓRIO
. Guimarães, Editores Cunha & Lemos (Tabacaria e Papelaria Lemos) - Compôsto e impresso na Tipografia Minerva Vimaranense de Antonio Luiz da Silva Dantas, 1920. In-8.º (21,5x14 cm) de [14], 256, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Junto com:
ALMEIDA, Eduardo d' - DISCURSOS. Guimarães, Editores Cunha & Lemos (Tabacaria e Papelaria Lemos) - Compôsto e impresso na Tipografia Minerva Vimaranense de Antonio Luiz da Silva Dantas, 1921. In-8.º (21,5x14 cm) de [10], 274, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Duas obras de Eduardo de Almeida, ilustre causídico, proprietário e homem da cultura de Guimarães, encadernadas num único tomo. O primeiro volume - Almas do Purgatório - é um conjunto de contos, dois de alguma dimensão; o segundo - Discursos - reproduz as suas intervenções de maior relevo até 1921.
O título Discursos encontra-se autografado pelo autor com dedicatória a António do Amaral.
"Acordo queimado de febre, a estranha sensação do côrpo rechinando num lençol de suor frio, ainda na convulsa epilepsia dum mau pesadêlo.
Falta-me o ar. A muito custo, fazendo estalar os ossos empedernidos, busco uma caixa de fósforos, com mão nervosa, pesada, e, se já me arripia o contacto metálico do relógio, ao tocar os dêdos formiguentos no mármore da cabeceira, a descarga duma faísca electrica atravessa-me, deslumbradôra como fôgo de santelmo.
Vejo, olhos abertos na escuridão abafada do quarto, destacando-se de brancura escultural, as ultimas imagens do sonho - a deusa da Morte, na cinica e vulgar figura de Parca, (como a dum conhecido moimento do cemitério da Atouguia) mitológica e ausente, cortando-me o fio da vida; e, logo, sôbre o meu próprio cadaver amortalhado no hábito de irmão franciscano, o coveiro atira, em burocráticos movimentos indiferentes, grossa pàsádas de lama...
Na sacudida tenacidade do desejo, com a ância de acordar, a alucinação esvai-se; só, por largo tempo, erguidas ao meio do quarto, com violência luminosa de fotosfera, as mãos da estatua funerária não desarmam o gesto - e é dento do meu peito que êle se reflecte como se, na verdade, as tesoiras de aço me desfibrassem as raízes do coração.
Assusta-me o silêncio. [...]
Penso em chamar um criado. - mas envergonha-me a alarmante cobardia -; em sair, errar ao acaso, a ver se topo o sinal duma outra vida, que me dê reconfortadôra impressão de ser um facto a minha própria vida."
(Excerto de Agonia de amor)
Eduardo Manuel de Almeida Júnior (1884-1958). "Nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1884, numa casa na rua de S. Dâmaso, em Guimarães. O seu pai, de quem tomou o nome, era um destacado homem de negócios. Estudou no Colégio de S. Dâmaso, que então funcionava no antigo Convento da Costa, onde completou o ensino secundário. Partiu para Coimbra em 1900, com o mesmo destino da maioria dos filhos da burguesia da terra que prosseguiam estudos superiores, inscrevendo-se na Faculdade de Direito da Universidade, cujo curso completaria em 1905, aos 21 anos.
Concluído o curso, regressa a Guimarães, onde se faz advogado, onde cedo consolidaria a sua fama de causídico competente e eloquente, com o um memorável tirocínio num caso particularmente difícil, em que assumiu a defesa de Antónia de Macedo, a Tiça, mulher do povo acusada da prática de triplo infanticídio e que, lida a sentença, acabaria absolvida.
Eduardo de Almeida foi, antes do mais, um homem de letras. Publicou o seu primeiro romance, A Lama, em 1905, ainda em Coimbra, um manifesto dirigido contra a sociedade decadente e desigual, onde proliferava a miséria, com uma clara influência da obra de Émile Zola. Desde muito jovem, colabora em inúmeras publicações periódicas, por onde irá dispersar incontáveis textos dedicados aos mais variados assuntos. O seu primeiro artigo na Revista de Guimarães foi publicado em 1906.
Eduardo de Almeida destacou-se como escritor, de grande mérito, sendo autor de uma obra que vai da ficção (publicou um romance e quatro volumes de novelas) aos estudos jurídicos e sociológicos. Quando assumiu a Direcção da Sociedade Martins Sarmento e da Revista de Guimarães, deu início às suas investigações históricas, publicando uma notável série de estudos dedicados à história de Guimarães."
(Fonte: https://pedraformosa.blogspot.com/2008/01/no-cinquentenrio-da-morte-de-eduardo-de.html)
Encadernação meia de percalina com ferros gravados a seco e a negro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado.
Raro.
30€

04 outubro, 2026

POTTER, Beatrix -
THE TALE OF MR. JEREMY FISHER.
By... Author of "The Tale of Peter Rabbit." Etc. London and New York, Frederick Warne & Co., Ltd. (All rights reserved), [192?]. In-8.º (14,5x10,5 cm) de 58, [2] p. ; mto il. ; E.
Bonita edição do clássico de Beatrix Potter - The Tale of Mr. Jeremy Fisher, originalmente publicada em 1906. Este conto infantil é uma homenagem de Beatrix aos Verões passados com o seu pai e os seus amigos a pescar, em quintas arrendadas na Escócia, e explora as desventuras de uma rã persistente e bem-intencionada, refletindo o amor de Potter pela natureza.
Obra impressa em papel encorpado acetinado, ilustrada com 27 belíssimos desenhos a cores em página inteira.
"Once upon a time there was a frog called Mr. Jeremy Fisher; he lived in a little damp house amongst the buttercups at the edge of a pound.
The water was all slippy-sloppy in the larder and in the back passage.
But Mr. Jeremy liked getting his feet wet; nobody ever scolded him, and h never caught a cold!"
(Excerto do Conto)
Helen Beatrix Potter (Londres, 1866 - Lakeland, 1943). "Nasceu em Londres a 28 de julho de 1866, no seio de uma família da alta burguesia inglesa. Educada de acordo com as rígidas convenções da sociedade vitoriana, não frequentou a escola, tendo sido instruída em casa por precetoras. No entanto, recebeu uma educação esmerada, aprendendo Pintura e História Natural, disciplinas que vieram a revelar-se determinantes no seu percurso.
Apaixonada pela natureza e por animais, Beatrix Potter inspirou-se num coelho de estimação para escrever e ilustrar o seu primeiro livro infantil. Publicada em 1902, O Conto do Pedrito Coelho tornou-se logo um fenómeno de popularidade, vindo a tornar-se um dos grandes clássicos da literatura infantil do século XX. Traduzida em 36 línguas, contabiliza mais de 45 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
Ao longo de quase três décadas, Potter publicou 23 pequenos livros ilustrados."
(Fonte: https://www.portoeditora.pt/autor/beatrix-potter/5959)
Encadernação editorial com desenho a cores e letras gravadas a seco e bordeaux na pasta anterior.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado. Contracapa apresenta riscos a lápis.
Invulgar.
15€

24 setembro, 2026

IVO, Pedro -
CONTOS. Por... Porto, Typographia da Revista, 1874. In-8.º (17,5x12 cm) de 266, [4] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante colecção de contos, rústicos, de inspiração romântica.
"Corre a manhã de um domingo de novembro, frio, triste e chuvoso.
Na unica rua da aldeia, formada por meia duzia de casas térreas, separadas umas das outras pelos muros de vedação de algumas hortas, onde raros pés de couve, queimados pelas geadas, se erguem d'entre as hervas parasitas, não transita viva alma.
As unicas creaturas, que vagueiam fóra de telhas, são um porco e um frango: o primeiro, na sua marcha tortuosa e indecisa, vai roçando com o focinho quanto encontra no chão, soltando o monótono grunhido que, em lingua suína, deve exprimir: «Serve-me,» «Não me serve,» e o segundo, caminhando em passo presumido, vai vasculhando no lixo o pão de cada dia.
Não se ouve outro ruído, que não seja o das gotas da chuva, que cáhem das beiras dos telhados.
Aberta, apenas se vê uma porta.
Entremos.
Eis-nos na tenda do Snr. José... da Tenda.
Não sei se os leitores se teem, como eu, recolhido algumas vezes n'uma tenda de aldeia, á espera que a chuva passe.
Se teem, conhecem de certo o desconsolo, que causa a vista d'aquelle sólo composto da lama acarretada pelos tamancos de quatro gerações, o aspecto do balcão negro e ensebado, suando immundicie por todos os poros da madeira, com o bordo polido pelo roçar dos freguezes, fartos de escutar pela vigesima vez a historia de dois cruzados novos e tres moedas de doze falsos, e pregados ao mesmo balcão, como prova da pureza d'alma do tendeiro e da perversidade dos homens, que não são tendeiros."
(Excerto de O milagre)
Indice:
O milagre | A sentença da tia Angelica | A boneca | A doida de Tagilde | Meigo | A quina d'espadas | A figa d'azeviche | O embarcadiço | O cruzeiro da via-sacra | O berço.
Pedro Ivo (1842-1906). "Pedro Ivo é o pseudónimo literário de Carlos Lopes. Nasceu e faleceu no Porto. Viveu na Alemanha, onde estudou, esteve no Brasil e na África portuguesa, tendo sido Presidente da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro de África. Nas suas obras de ficção notam-se influências de Camilo e de Júlio Dinis, em especial nas descrições da vida do campo e no sentimento trágico da vida.
Obras: Contos (1874); O Sello da Roda (romance, 1876); Serões d'Inverno (contos, 1880)."
(Fonte: https://vercial.utad.pt/ivo.htm)
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cantos com sinais de uso.
Raro.
35€

21 setembro, 2026

ROSA, Marques - TRES MULHERES (novelas historicas). Prefácio de Julio Dantas. Lisboa, Depositaria a Empreza Portugal-Brazil [Composto e impresso na Tip. do Instituto - Sernache do Bonjardim], [1921]. In-8.º (17x11,5 cm) de [4], 203, [5] p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de três novelas históricas tendo como protagonistas, cada uma delas, uma mulher "lendária" em diferentes épocas da história nacional, reportando a primeira à lenda de Gonçalo Hermigues, o Traga-Mouros, cavaleiro templário, companheiro de armas de D. Afonso Henriques, e a sua amada Oureana (Fátima). Livro interessante, de leitura agradável.
Ilustrado com três bonitas capitulares, uma por novela.
Inclui no final um glossário dos termos antigos utilizados pelo autor.
"Do alto do minarete da masejad (mesquita) de Al-Kassr-bun-abu-Danés (Salatia, Urbs Imperatoria - Alcacer do Sal) o muezzin debruçado nos balustres, rodeando a bôca escancarada com as mãos em campânula, lançou o apêlo, gritado na sua lingua, vagaroso e cantante:
«Só Deus é Deus e Mahomét o seu profeta: - Orai.»
Como se apenas esperasse que os ultimos écos do brado se apagassem, ondulando pelas quebradas do rio e pelos recôncavos da várzia, o sol espreitou por cima das cumiadas da Serra das Chagas e da Serrinha os corucheus da mesquita e dirigiu para as glaucas e arrepiadas aguas do Chetawir (Sado) as primeiras flechas de luz.
N'este comenos desaportilhou-se lentamente, com estrépito de trancas e guinchos de roldanas, a porta de ferro aberta ao Leste da muralha; e uma alegre cavalgada irrompeu e serpeiou, descendo a congosta que vinha dar á veiga extendida a montante do rio, ao Norte e ao Oriente da povoação.
Mancébos e donzelas, a jovial mocidade da opulenta capital de Al Kassbr vozeavam, parolavam, trocavam salamaleks e cortesias, vibrando o ar ambiente de ruidos d'estribilhos e saturando-o de perfumes de laranjeira e nardo. [...]
Acoudelava a turba das mulheres, a filha do kaid d'Al Kassr.
Quinze anos. Estatura esbelta. Busto onduloso. Contornos amplos. Na côr mate da pele a bôca fendia-se curta, abrindo os lábios rubros sobre os dentes pequeninos, brancos de nacar. [...]
Em tôrno d'ela agruparam-se os moços almuades enamorados e volteiros.
E a joven castelã ria d'êles, com um riso sonoro e soluçado, desnorteando-os com a sua irónica desenvolvura."
(Excerto de Fátima)
"Na sexta feira 17 de janeiro de 1578, o senhor bispo conde D. Manuel de Menezes voltou-se a meio na grande cadeira de jacarandá com o assento e o alto espaldar de coiro lavrado de Córdova, tauxiado de prata. Acomodôu sôbre as rebeldes farripas de cabêlo já grisalho, o solideu roxo. Sofraldou um pouco a samarra e puxou de leve os cordões da murça.
Antes de falar, fixou sucessivamente a queixosa e o arguido. Depois tornou a medir com o olhar a queixosa.
Era ela uma destas criaturas de idade imprecisa, tanto aparentando 25 como 40 anos, que nunca tiveram ao menos aquêle período de frescura que caracteriza os primeiros tempos seguintes á puberdade.
Não tinha contornos.
Toda a figura era angulosa, dura de linhas, espalmada. [...]
Era esta criatura filha do grande matemático Pedro Nunes, lente de Prima nos Estudos Gerais de Coimbra."
(Excerto de Guiomar)
"Acabára tempestuosamente a refeição da manhã.
Tinham as madres do convento de Santa Clara de Vila Real começado apenas a dispersar do refeitório para o lavabo erguido com a sua dupla concha no claustro, quando a garria de bronze entrou de tanger a capítulo.
Em volta do tanque, as freiras dividiram-se imediatamente em dois bandos. As mais velhas, com as mãos metidas nas mangas dos habitos cinzento, sorriam irónicamente. As mais novas e as noviças, torcendo as mãos brancas, quasi diáfanas, cheias de aneis, e gesticulando com violencia, batiam de quando em quando o lagêdo polido com os sapatinhos de tacão de perdiz, altos tacõis pintados de vermelho, fivelados de oiro ou prata com pedras preciosas, e arremessavam para a nuca os veus negros da Regra."
(Excerto de Soror Clara)
Índice:
Fátima. (Século XIII) | Guiomar. (Século XVI - 4.º Quartel) | Soror Clara. (Século XVIII - 1.º Quartel).
Policarpo Marques Rosa (1864-1927?). "Natural de Pederneira, Nazaré. Ilustre filho adoptivo de Alvaiázere. Apesar de não ter nascido no concelho de Alvaiázere, adoptou Alvaiázere como sendo a sua terra natal, pois foi aqui que viveu a maior parte da sua vida. Desempenhou vários cargos, entre eles, presidente do Senado Municipal, Administrador do Concelho de Alvaiázere, Director do Hospital e do Grémio Alvaiazerense, durante a Primeira República.
Como activista republicano fundou, na vila de Alvaiázere, os semanários “O Combate” e o “Pátria Livre”, dos quais foi seu director e seu principal redactor, sendo colaborador nos semanários “A Voz da Justiça” e “Gazeta da Figueira”, ambos da Figueira da Foz.
Marques Rosa foi um escritor erudito, escreveu vários romances históricos sobre diversas personagens de épocas diferentes, o que o obrigou a fazer muita investigação no Arquivo Nacional/Torre do Tombo, Lisboa. No entanto, o seu estilo literário na época estaria muito longe do modernismo emergente, pois estava muito próximo dos escritores Júlio Brandão e em particular de Júlio Dantas.
Este nosso conterrâneo foi um nome sonante no seu tempo, viveu uma vida intensa e multifacetada, foi um republicano convicto, advogado, notário, solicitador, arquitecto, politico, investigador, escritor, prosador, ensaísta, jornalista e poeta."
(Fonte: https://terrasdaribeirinha.wordpress.com/category/policarpo-marques-rosa/)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Com interesse histórico.
Indisponível

14 setembro, 2026

CASTELLO-BRANCO, Camillo - DELICTOS DA MOCIDADE.
Primeiros attentados litterarios. De... Porto, Livraria Civilisação : De Eduardo da Costa Santos & Sobrinho - Editores, MDCCCLXXXIX. [1889]. In-8.º (18x12 cm) de XII, [4], 269, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Importante colectânea dos primeiros trabalhos de Camilo, inclui prefácio de João António de Freitas Fortuna, seu grande amigo. Publicada originalmente em 1889, no ano anterior à sua morte, reúne poemas, contos, ensaios e estudos literários que marcam os primeiros passos da sua vasta carreira.
O livro funciona como uma compilação de paratextos, memórias e produções juvenis, incluindo o célebre conto Uma Noite no Cemitério, que reflete sobre a perda trágica do seu grande amigo de juventude em Vila Real, José António T. C. de Melo e Nisa. Na própria advertência da obra, Camilo sublinha o caráter íntimo e por vezes doloroso de revisitar estas páginas, que representam em grande parte a história da sua juventude.
"É meia noite. Ao som as doze badaladas, tangidas no velho campanario de S. Diniz, minha alma calou-me nas veias em effluvios de terror e santidade, e depositou-me nos labios tyremu,los uma oração para o Senhor.
E a minha oração era como a vida purificada na particula, que o homem tem de Deus, e na lagrima do céo, estremada de muitas lagrimas da terra.
O meu viver era todo espiritual, e comparei-me ao espirito do justo que, soprado da terra - ás portas de céo - escuta ainda o borborinho cá de baixo e já ouve o cantar dos anjos aos pés do Altissimo. O meu viver material parecia-me a sumir-se lento e suave pelas fisgas dos sepulchros, entre os quaes eu ajoelhava, como o delirante, que pede ao Creador  alma e luz para o finado, que não sente os joelhos do filho, dobrados sobre a lagea silenciosa...............................................
E o extasis desvaneceu-se, porque era de homem, ligado com as paixões dos homens, e eu era o unico cadaver, animado, entre tantos cadaveres.
Voz de vivo, que falla com os mortos - a minha voz era sombria e soturna."
(Excerto de Uma Noite no Cemitério)
Camilo Castelo Branco (1825-1890). "Nasceu em 1825, em Lisboa, e faleceu em 1890, em S. Miguel de Seide (Famalicão). Com uma breve passagem pelo curso de Medicina, estreia-se nas letras em 1845 e em 1851 publica o seu primeiro romance, Anátema. Em 1860, na sequência de um processo de adultério desencadeado pelo marido de Ana Plácido, com quem mantinha um relacionamento amoroso desde 1856, Camilo e Ana Plácido são presos, acabando absolvidos no ano seguinte por D. Pedro V. Entre 1862 e 1863, Camilo publica onze novelas e romances, atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Tornou-se o primeiro escritor profissional em Portugal, dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular a partir da observação da sociedade, com inclinação para a intriga e análise passionais. Considerado o expoente do romantismo em Portugal, autor de obras centrais na história da literatura nacional, como Amor de Perdição, A Queda dum Anjo e Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, cego e impossibilitado de escrever, suicidou-se com um tiro de revólver a 1 de Junho de 1890."
(Fonte: https://www.portoeditora.pt/autor/camilo-castelo-branco/39147)
Encadernação em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Com picos de acidez no interior.
Muito invulgar.
50€

19 agosto, 2026

CADET, Maria Rita Chiappe -
OS CONTOS DA MAMÃ : dedicados á infancia portugueza.
Publicados sob a protecção de Suas Magestades El-Rei D. Luiz I e a Rainha D. Maria Pia. Approvados em conformidade com o parecer da junta consultiva de instrucção publica, para uso das escolas primarias de ensino elementar, por decreto de 14 de Dezembro de 1882. Lisboa, Á Venda na Livraria Editora Madame Marie François Lallemant, [1883]. In-8.º (21,5x14 cm) de 195, [3] p. ; [8] f. il. ; E.
1.ª edição.
Interessante volume de contos composto por doze histórias - não ficcionadas - dedicadas aos mais novos.
É considerado um livro pioneiro na literatura infantil em Portugal. Composto por 12 contos, apresenta a particularidade histórica de integrar membros da própria família real portuguesa como personagens nas duas primeiras histórias. (IA)
Obra ilustrada com 8 bonitas gravuras separadas do texto assinadas por Manuel de Macedo (1839-1915), incluindo o retrato da autora.
"Quasi ao pôr do sol, á hora em que já poucos passeantes cruzavam as ruas ensombradas do passeio da Estrella, tinha-se Julio D... deixado creio que adormecer, assentado no banco circular que está no alto da pequena montanha formada por verdejantes arbustos e onde sobre varias vezes para gozar d'aquelle formoso panorama e aspirar, longe do bulicio, a brisa embalsamada dos pinheiros e das flôres.
Ao ultimo toque da sineta ergueu-se, contou-me elle, e descendo a passos largos o estreito declive, vinha quasi ao pé da grande alameda que dá para o largo, quando ouvio a voz aspera e grosseira de um dos guardas  do passeio bradar:
- Que está fazendo ahi atraz d'esse canteiro? Aposto que ia esconder a criança e safar-se depois?
Voltou-se para o lado d'onde partia aquella voz e vio sair d'entre as ramas dos arbustos, que se agitavam, uma mulher ainda moça, com um pequenino ao collo."
(Excerto de O albergue nocturno ou a esmola de Luizinha)
Maria Rita Colaço Chiappe Cadet (?- Lisboa, 1885). "Foi uma poeta, contista, romancista, e dramaturga portuguesa. Foi também professora e responsável pela livraria Lallemant (Lisboa). Do seu nascimento apenas se sabe que ocorreu no Alentejo, circa 1836. Foi exposta na Roda da Santa Casa de Lisboa, e aí foi batizada. A sua infância foi passada a cargo de Barnabé Martins de Pancorvo e Maria Madalena Chiappe Colaço, que se crê a terem adotado. Foi discípula de António Feliciano de Castilho. A partir dos 15 anos começou a publicar poesia regularmente. Mais tarde, foi professora primária e lecionou francês. A partir de 1855, dirige um colégio feminino, em Lisboa. Deixa de exercer ao casar-se com José Baptista dos Santos Cadet, a 31 de outubro de 1857, em Lisboa. Em 1870, reúne os seus poemas dispersos e publica Versos. Dedica-os a D. Joana Gil Bórgia de Macedo e Menezes, Viscondessa da Ribeira Brava. Esteve na Madeira entre 1870 e 1875, onde conviveu com a Viscondessa das Nogueiras e com os Viscondes da Ribeira Brava, aos quais dedicou inúmeras obras. Em 1875, publica a antologia Sorrisos e Lágrimas: poesias. De regresso a Lisboa, assume a posição de gerente da editora e livraria Marie Françoise Lallemant et Frères. Em 1880, publica o livro Flores da Infância, Contos e Poesias Morais dedicados a Mocidade Portuguesa - que será usada nas escolas brasileiras e portuguesas." Segue-se Contos de mamã (1883), e depois cerca de mais uma dezena de livros também dedicados à pequenada.
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação editorial em vermelho com letras e desenho gravadas a seco e a ouro e negro nas pastas e na lombada.
Exemplar em razoável estado de conservação. Marcado pela humidade que atinge a pasta anterior e as primeiras 10 páginas do livro. Lombada apresenta falha na extremidade superior.
Muito invulgar.
25€

18 agosto, 2026

GARCIA, Alice -
O CASTELO MISTERIOSO OU A ASPIRAÇÃO DE DUAS ALMAS
e AMORES DUM CIGANO. Novelas. Lisboa, Edição de Alice Garcia, 1933. In-8.º (19,5x12,5 cm) de 165, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de duas novelas, versão livre de duas histórias vetustas, adaptadas para o século XIX(?), empresa de Alice Garcia, a responsável pela edição do livro. Trata-se de um curioso exemplo de literatura de cordel, barata, destinada ao operariado e às classes menos instruídas, algo vulgares na década de 30 do século passado. A total ausência de informações sobre as tais histórias leva-nos a pensar, salvo melhor opinião, estarmos em presença de dois contos originais da "editora": o primeiro acaba mal; o segundo, bem; ou seja, dois contos moralizadores de raiz histórica com finais opostos, que preenchem os intuitos da autora.
Obra ilustrada com 8 bonitas estampas em página inteira, 4 por cada história.
"Êste pequeno mas interessante livrinho, consta de duas novelas emocionantes, como sugerem os seus títulos.
Estas novelas foram extraídas de dois antiquíssimos romances, que os meus antepassados muito estimavam e que às minhas mão vieram parar por heranças sucessivas.
Resolvi publicá-las, arrancando-as à poeira das antiguidades, depois de por mim concertadas e adaptadas da linguagem antiga à dos nossos dias, quási como homenagem a tão grande aprêço dos meus avoengos, senão com o prazer de tornar conhecidas tão interessantes novelas, pois estou esperançada no seu bom acolhimento."
(Aos leitores)
"O marquez enviuvara havia já alguns anos; fica dêsse matrimónio uma filha, Margarida, assim se chamava ela, uma encantadora rapariga de olhos azuis sonhadores e tristes, e longas tranças côr de ouro. Na época em que tem comêço a nossa narração, Margarida contava apenas quinze primaveras, era alta, elegante, de formas franzinas e delicadas como as ninfas de João Goujou; o seu rosto pálido e doentio, davam-lhe um tom que mais formosa a tornava ainda. Margarida era dotada duma extrema bondade, mas um tanto orgulhosa talvez devido à sua jerarquia. Seu pai, o velho marquez vivia só para ela que era todo o seu enlêvo... [...] Viviam num imenso castelo rodeado de grandes jardins e duma mata que se estendia a léguas de distância, o marquez, sua filha, duas velhas criadas, Joana e Mafalda, uma criada de quarto de Margarida, um velho criado que s echamava José, e Maurício, descendente de raça fidalga que era quem acompanhava o marques em tôdas as suas viagens e passeios."
(Excerto do Preâmbulo de O castelo misterioso...)
O marquez contava os seus 60 anos, era alto, magro, de tez morena, queimada pelo sol d'Árica, quando mais novo lá passara parte da sua vida, e no seu regresso assistia pouco depois à morte de seus pais, dos quais herdara o título de marquez, e a imensa fortuna de que eram possuidores.
Antes de partir para África vivia enamorado de uma jovem formosíssima que contava a essa data 14 primaveras. Vivia Helena com seus pais numa casa modesta em frente ao castelo dos velhos marquezes. [...]
Ora um dia, a horas já avançadas da noite,, estava Helena sentada junto de seu pai quando entrou pela porta dentro uma tribu de ciganos chefiada por Ruby, cigano valente e destemido."
((Excerto do Preâmbulo de Amores dum cigano)
Exemplar brochado em bom estado geral de consevação. Cansado. Capas amarelecidas.
Muito invulgar.
25€

14 agosto, 2026

CASTRO, D. João de -
O JOGO DA MORTE : novela.
Por... Biblioteca Civilização - Colecção de pequenos romances portuguêses e estrangeiros : XII. Porto, Livraria Civilização - Editora, 1925. In-8.º (19x12 cm) de 77, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante novela publicada na apreciada colecção Biblioteca Civilização.
"O Joaquim Boaventura, apesar de ter vindo aos quinze anos, dos confins do Minho, com uma mão atrás e outra adiante, como êle próprio dizia, conseguira encaminhar com tamanho tino  e acerto os seus negócios em Lisbôa, que antes dos quarenta já era proprietário de uma drogaria bem afrèguesada, A Flôr do Loreto, onde, além dos artigos ordinários do seu comércio, vendia também clandestinamente, a fazer fé o que assoalhavam os seus competidores menos felizes, certos produtos químicos inimigos da moral sanitária."
(Excerto do Cap. I)
D. João de Castro, pseudónimo literário de D. João de Vasconcelos Sousa Castro e Melo (Azurara, Vila do Conde, 1871 - Prado, 1955). "Foi um escritor português que se tornou conhecido como poeta e romancista, destacando-se no género do romance psicológico de carácter e na investigação histórica.
Fez parte do grupo de escritores "Nefelibatas", juntamente com Júlio Brandão, Raul Brandão, Justino de Montalvão, Alberto d'Oliveira, Eduardo d'Artayett e, ainda, o pintor Inácio de Pinho e o caricaturista Celso Hermínio, entre outros. Para além de ter publicado inúmeras obras, ainda colaborou em diversas publicações periódicas como O Primeiro de Janeiro, Branco e Negro  (1896-1898), Serões (1901-1911), Acção realista (1924-1926) e Feira da Ladra  (1929-1943)."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado.
Invulgar.
10€

04 agosto, 2026

MACHADO, Julio Cesar -
MIL E UMA HISTORIAS. Por... Empreza Litteraria de Lisboa - Officina Typographica da Empreza Litteraria de Lisboa, 1888. In-4.º (22,5x14 cm) de 335, [1] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Interessante conjunto de pequenos contos e crónicas bem humoradas, não ficcionadas, pela pena de Júlio César Machado, conhecido jornalista e romancista lisboeta.
Obra ilustrada com o retrato do autor em página inteira precedendo a f. rosto.
"Publicada originalmente em 1888, esta coleção de contos oferece um retrato vívido e multifacetado da sociedade portuguesa do século XIX. Com uma escrita elegante e perspicaz, Machado tece narrativas curtas que exploram o quotidiano, os costumes e as idiossincrasias da época.
Cada história é uma janela para um mundo de personagens memoráveis e situações inusitadas, repletas de humor e reflexões sobre a condição humana."
(Fonte: Amazon)
"Que outros mettam hombros a grandes historias, romances em largos volumes, contos da proporção de romances; vamos, nós, a entreter-nos, se isto se puder conseguir, com os casos, os ditos, os feitos e gestos, de Pedro, de Paulo, de Sancho, de Martinho... Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anedocta!"
(Preâmbulo)
"De uma occasião, cavaqueando o Innocencio e o Meréllo, na loja do livreiro Rodrigues, da rua do Crucifixo, farejaram um livro de valia; cuidando qualquer dos dois, que, o outro, não houvesse dado por elle.
Principiaram então, como que ao desafio, em espertezas, procurando mutuamente afastar o competidor do logar da maravilha.
Já um chamava o outro para a porta, e lhe narrava não sei que historia em grandes ares de confidencia; - já o outro consultava o relogio e lhe dizia a hora, adiantando-a, ao passo que lhe perguntava qual fosse a sua hora de jantar... Nem o Meréllo nem o Innocencio arredavam um passo da baiuca do livreiro, recinto encantado da ambicionada joia.
N'isto, não se atrevendo nem um nem o outro a desampararem a caça, nem, tão pouco, a separarem-se, sairam juntos.
Innocencio, morava n'esse tempo, ao Rato, na rua de S. Filippe Nery; o Meréllo, como que deleitando-se com a sua conversação, foi indo até lá.
Uma vez chegado, disse-lhe o auctor do Diccionario Bibliographico:
- Você onde vae?
O Meréllo, titubiando, denunciou, porventura, na sua hesitação, o designio que guardava em seu animo? Chi lo sá?!
Respondeu conforme poude:
- Eu agora... estou capaz de ir... tenho por força de ir agora...
- Para cima?
- Não; ali, para aquelle lado...
Innocencio fixava-o no branco dos olhos."
(Excerto de Crónica)
"Porque em pequenita, o maior gosto d'ella fosse acompanhar com a voz as pancadas de um relogio de parede, que havia em casa, um d'aquelle antigos e grande relogios chamados de caixa, puzera-lhe a familia, por brincadeira, a alcunha de Ti-ki-ni.
O nome d'ella é... Deixemos. É melhor ficar-mos chamando chamando-lhe como em pequena a tratavam... Ti-ki-ni.
Nunca o sól illuminou mais alegre creaturinha, nem houve ainda pintor que conseguisse toques mais finos que as duas pregas pequeninas, que se lhe desenhavam nas faces quando ella ria.
Apparentou-lhe sempre o seu genio travesso um quê de diabrete; quebrar por gosto, rasgar para se entreter: demonio bom, - e mais vale isso do que anjo mau. Cresceu-me deante dos olhos...
De domingo para domingo, fazia differença na altura. Com que ufania nos contou, de uma occasião, haver feito a bainha da sáia mais estreita, para o vestido ficar mais comprido!
N'uma bella manhã, encontrando-a no Chiado, disse-me sorrindo.
- Caso-me amanhã."
(Excerto de Conto)
Júlio César da Costa Machado (Lisboa, 1835-1890). "Nasceu numa família de posses e conviveu desde cedo, pela mão do pai, no meio literário e teatral lisboeta. Foi jornalista, tradutor, autor de romances, contos e peças de teatro, destacando-se como um dos mais célebres folhetinistas e cronistas do seu tempo. Publicou o seu primeiro romance, Estrela d’Alva, com apenas 14 anos, na revista A Semana, de Camilo Castelo Branco, de quem se tornaria amigo íntimo. O seu pai morreu em 1852, deixando-lhe dívidas que o obrigaram a obter, desde jovem, rendimento da escrita. Tornou-se tradutor, folhetinista, cronista, colaborando em dezenas de periódicos: A Revolução de Setembro, Revista Universal Lisbonense, Diário de Notícias, Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, Revista Ocidental, Ilustração Portuguesa, Eco Literário, este último cofundado por si em 1886. Os seus textos eram simultaneamente populares e apreciados pelos pares, que lhe admiravam o humor, o estilo coloquial e ligeiro, a atenção aos temas do quotidiano. Publicou vários livros, nomeadamente Cláudio (1852), A Vida em Lisboa (1858), Contos ao Luar (1861), Cenas da minha Terra (1862) e Contos a Vapor (1863). Muitos dos seus folhetins e crónicas de viagem, entre os quais Do Chiado a Veneza, foram reunidos em volume. Em 1890, na sequência do suicídio do seu filho único, Júlio César Machado pôs termo à vida."
(Fonte: Wook)
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação.
Muito invulgar.
35€

28 julho, 2026

PEREIRA, Vaz -
PARA NÃO LER : quinze contos
. Porto,  Typ. a vap. da Emprêsa Litteraria e Typographica, 1908. In-8.º (17,5x11 cm) de [12], 188, [6] p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de pequenos contos de matriz sensual. Ao baptizar um livro de ficção "Para não ler", o autor faz uso da psicologia inversa para instigar a curiosidade do leitor. Ou talvez não...
Obra curiosa e muito interessante. Sem menção na BNP, ou qualquer outra fonte bibliográfica.
Exemplar muito valorizado pela extensa dedicatória manuscrita a Albino Forjaz de Sampaio... terminando com "offerece o Autor".
"Não leiam, minha senhoras, este livro. É apenas o producto fantasioso d'uma mocidade estouvada.
Não o leiam, mas comprem-o. Emfim, a impressão está feita e de nada vale o peccavi do meu arrependimento. O formato não é de todo feio, e com uma bôa lombada não ficará talvez mal na vossa estante. Com as folhas fechadas, póde apparentar d'um bom livro."
(Excerto de Ás mulheres)
"Era extraordinaria a condessa.
Tudo experimentava sem conseguir saciar a enorme sede de prazer que a devorava no intimo.
Já em creança partia com fastio as bonecas que tanto a seduziam nas vitrines dos bazares...
Cresceu. Como era rica, possuindo o grande realisador de todas as chimeras, nunca deixada de satisfazer o mais pequeno capricho, vindo logo o aborrecimento com o capricho satisfeito.
Não havia um só homem que a não incensasse de galanteios e homenagens nas festas em que aparecia e de que ella era a rainha sempre, pela belleza que irradiava, pela graça do seu sorrir, pela maneira do seu andar, pela finura do seu espirito e até pelos encantos estouvados da sua irrequietação. Achava os homens banaes na pautada ondulação das suas casacas e massava-se com o unctuoso dos seus requebros pensados. [...]
Tendo casado para experimentar a legalidade do amôr e os encantos d'um noivado com um homem que lhe indicaram, em breve detestou aquelle prazer a horas como a regra d'um convento. [...]
Queria sensações violentas, um amôr com sobresaltos e com perigos, porque lhe parecia que não podia ter apetite, tendo sempre na sua frente uma meza posta.
Teve um amante - o mais conceituado homem de espirito que frequentava o seu boudoir. Afinal na alcôva era banal como seu marido, e mesmo... cheiravam a tabaco os beijos que lhe dava.
(Excerto de Voluvel - I)
"Uma noite sahia da Traviata, e, ao canto da carruagem, pensava nos amores de Gautier. Interessou-se pelas copulas d'accaso e pelas cohabitações de momento. Talvez houvesse algum encanto nesta variedade d'amôr!
Chegou a casa. Havia uma hora que o conde tinha entrado e dormia nos seus aposentos. A noite estava linda. Um ar tepido e embalsamado entrava pelas janellas abertas. Os theatros tinham acabado e os clubs estavam desertos. Já se não ouvia o rodar das carruagens na calçada das ruas. Dentro em pouco a cidade dormia...
Só a condessa velou a noite toda, sentindo um desejo indefenido e vago.
Se pensava num homem louro, logo os morenos a captivavam, e queria ser apertada por uns braços musculosos e rijos que se tornassem depressa muito franzinos e debeis.
Apetecia as delicadezas d'um gentleman, mas ainda mais as brutalidades d'um rustico.
Queria experimentar tambem a variedade no amôr. Mas para saciar a irrequietação do seu espirito, era preciso que essa variedade igualasse a das paisagens que a vidraça d'um wagon encaixilha quando a locomotiva segue uma carreira veloz.
Sahiu de casa quando uma baça claridade já vagueva nas ruas, e, envolta num manton de Sevilha como uma andaluza que o ultimo tren tivesse trazido á gare, entrou na primeira casa onde na vespera vira, por entre as taboas verdes d'uma persiana, umas mulheres de labios pintados e com robes de percale."
(Excerto de Voluvel - II)
Indice:
[Ás mulheres] | Voluvel | Somnambula | A pastorinha | O mais amante | Lise Margot | Nos annos da Mimi | A encommenda | Condessa de Brives | Uma carta d'amor | O modelo | O perfume da duqueza | O morango | A virgem | Cartas mutiladas | A liga.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Extremidades da lombada apresentam pequena falha de papel.
Muito raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
Indisponível

15 julho, 2026

PATRICIO, F. J. -
TELAS ROMANTICAS.
Collecção de contos. Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira, 1903. In-8.º (17x10,5 cm) de 120, [4] p. ; [1] f. il. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de pequenos contos - históricos uns, outros de época, - enquadráveis na corrente literária do romantismo tardio.
Obra rara e muito curiosa, organizada com intuitos patrióticos e moralizadores.
Ilustrada em separado com o retrato do autor.
"Pelas onze horas da noite ninguem via já signal de vigilia no castello de Benil; havia muito que as luzes dos diversos aposentos e dependencias se tinham ido apagando pouco a pouco. O silencio reinava alli apenas cortado a espaços pelo grasnar de algumas rãs nos lagos da extensa quinta. O clarão de lua que subia len tamente no horisonte, desenhava nos vestustos adarves as sombras do arvoredo, mostrava a fórma ogival das frestas e distinguia as caprichosas aberturas das setteiras.
De todos os habitantes de Benil, fidalgos da mais nobre estirpe, cavalleiros de maior nomeada, opulentos senhores que se orgulhavam de ter em seus salões os retratos de familia em que havia venerandos prelados, esforçados paladinos, austeras abbadessas, graves geraes de mosteiros, ousados navegadores e reputados lettrados; de todos os habitadores do velho castello, incluindo os mordomos e capellães, os pagens e escudeiroed, os homens d'armas e os numerosos creados, só estava disperta, acordada e vigilante uma formosa donzella como todo o prestigio da m ais extraordinaria belleza e todas as graças e encantos proprios de quem apenas contava dezanove primaveras; era Violante, a meiga e sympathica filha dos senhores de Benil."
(Excerto de Como se amava no seculo XV)
"[...] Alvaro de... (não denunciarei mais, pois um nome basta para o conto), Alvaro era um esforçado cavalleiro em todo o vigor da edade e com todo o realce da fidalguia.
Ora, como todos sabem, a edade media é um periodo que tem sombras como uma noite de tempestade e ao mesmo tempo idillios como uma alvorada primaveral,; a humanidade peregrinava em toda essa epocha como o viajeiro atravez d'uma floresta, defrontando apenas, de espaço a espaço, com a luz escassa de alguma clareira.
N'esses tempos de cavallaria o amor tinha impetos selvagens quando era deslealmente correspondido.
Os amores de Alavaro por uma dama tão gentil como voluvel, tiveram um desenlace funesto. O coração magoado pela traição afundou-se n'um pelago de odios, o espirito, obscurecido pelo ciume, precipitou o brioso cavalleiro nos abysmos da vingança.
- Á mulher que me trahiu, dizia elle, o meu odio interminavel, ao meu rival a lamina da minha espada!"
(Excerto de O filho do crime)
Indice:
Como se amava no seculo XV | A captiva | Beatriz | O remorso | Milzura | Catita | O segredo de ermitão | O filho do crime | O mysterio da herdade | O prologo d'um noivado | O raminho de violetas | O milagre do annel | O monge d'Alpendurada | O perfumado mysterio de mademoiselle X | Um crime no seculo XVI.
Francisco José Patrício CvSE (Vitória, Porto, 1850 - Porto, 1911). "Foi um sacerdote católico, ilustre orador sacro, e investigador histórico português. Notabilizou-se pela sua grande capacidade oratória, tendo sido responsável por fazer a prédica em diversos momentos notáveis. Os seus sermões foram mais tarde reunidos em diversos volumes, sob o título Trabalhos Oratórios. Enquanto escritor, deixou impresso um livro, Telas Românticas, que reuniu diversos escritos da sua juventude, bem como diversos artigos de investigação histórica sobre a origem de romarias e usos populares, a maior parte publicados no Comércio do Porto mas também no Comércio Português, Jornal do Porto, Província, e Jornal da Manhã. Foi eleito deputado pelo círculo eleitoral do Porto nas eleições de 1881, por Viana do Castelo em 1896, e novamente pelo Porto em 1901 e 1904; não se envolveu, contudo, em debates importantes."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação recente em skivertex com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura anterior.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

02 julho, 2026

CABRAL, Juvenal A. Lopes da C. -
O CRIME DO LARGO DO HOSPITAL DA CIDADE DA PRAIA. Por... (Professor Primário na Guiné). Literatura Africana - Cabo Verde. [S.l.], Edição do Autor [Composto e impresso na Tipografia Civilização, de Pereira & Souza - Pôrto], 1930. In-8.º (19x12 cm) de 32 p. ; [1] f. il. ; B.
1.ª edição.
Edição original da primeira obra do autor, pai de Amílcar Cabral (1924-1973), activista político pela libertação das colónias portuguesas da Guiné e Cabo Verde, fundador do PAIGC (1956).
Trata-se de um texto invulgar e muito curioso, espécie de novela-reportagem (a fazer lembrar os textos de Reinaldo Ferreira - o Repórter X!), sobre o assassinato ocorrido na cidade da Praia de uma moça - Alice, - "que embora filha natural, pertencia a uma raça de portugueses notáveis". No final, em Morte de Alice, o autor homenageia a infeliz rapariga com um conjunto de quadras.
Obra rara, por certo com tiragem restrita, dedicada "À mocidade caboverdeana - em particular - e em geral a todos os africanos das colónias, que saibam honrar a Pátria Portuguesa, estudando e propagando a suavíssima língua de Camões."
Ilustrada com o retrato de Juvenal Cabral em folha separada do texto.
"[...] Um crime pode inspirar um artista. Mas numa consciência sã e normal causa sempre a repulsa e a dor.
Lopes Cabral é bem o educador que se não compraz no estreito âmbito das quatro paredes da sua escola. Êste livrinho é a prova de que êle sabe actuar omnimodamente, cumprindo o dever  de corrigir a aconselhar a Sociedade para o Bem - condenando actos repugnantes e anti-sociais."
(Excerto do Prefácio de J, Mota)
"Extraordinàriamente sugerido pelo gesto criminoso de um homem que, matando a sua amante a tiros de revólver, não teve uma lágrima de arrependimento ou um simples queixume, sequer um gemido(!) que denunciasse o remorso pela prática de tão ignóbil acção, - o modesto trabalho que apresento perpectuando um acontecimento, muito vulgar nos grandes centros, porém raríssimo em terras africanas, principalmente naquela em que êste teve lugar, onde o sossêgo é permanente, em conseqüência, não tanto da fé religiosa como da índole natural do povo - é como um brado de cave ne cadas à mocidade da Praia, teatro do emocionante e deplorado drama."
(Excerto de Palavras necessárias)
"Amanhecer límpido e sereno o dia sete de fevereiro de 1930.
A atmosfera, que de ordinário se apresentava carregada e húmida - como que em contínua destilação de cristais - permitiu, por excepcional condescendência, que o Sol beijasse nêsse dia o coração da linda cidade da Praia que, inundada de luz vivificante, exulta de alegria pelos cumprimentos matutinos que o astro-rei, tão cortezmente lhe enviava, do alto da sua inacessível tribuna. [...]
Quem haveria de supôr que antes da tarde dêsse memorável dia, a cidade seria testemunha de um cruel assassínio?
Alice de **, natural da Praia, contava apenas vinte e dois anos de idade - feitos precisamente no dia em que a bala do carrasco lhe ceifou a existência!
Extremamente formosa, pertencia ao grémio dessas belezas peregrinas capazes de transtornar o mais indiferente celibatário.
Têz de moreno carregado, olhos de um brilho revelando inteligência sem cultura, bôca pequenina protegendo uma enfiada de alvinitente marfim, cabelos pretos luzidios, dispensando a sciência do artista para uma ondulação permanente - Alice de ** ocupava, pela sua deslumbrante formosura, lugar de destaque entre as moças mais lindas da cidade da Praia."
(Excerto de Do amor ao crime)
Índice:
Dedicatórias | Prefácio | Palavras necessárias | Do amor ao crime | O assassino | Morte de Alice.
Juvenal António Lopes da Costa Cabral (Santa Catarina, Santiago, Cabo Verde, 1889 - Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 1951). "Nasceu na ilha de Santiago em 1889, filho de António Lopes da Costa, um abastado proprietário rural, e de Rufina Lopes Cabral, filha de agricultores (pequenos proprietários). Com apenas oito anos, Juvenal foi enviado para Portugal, para estudar - um luxo só possível a uma reduzida elite das ilhas. Foi o primeiro aluno negro a entrar nos portões da escola primaria de Santiago de Cassurães, na Beira Alta. Seguiu-se o Seminário de Viseu, onde segundo ele mesmo, passou os melhores anos da sua vida. Mas face às dificuldades da família em manter os seus estudos, devido à estiagem, Juvenal retornou a Cabo Verde em 1906. De regresso a Cabo Verde, os pais destinaram-no ao sacerdócio católico. Não concluiu o curso no Seminário de São Nicolau, preferindo antes instalar-se na ilha de Santiago. Em abril de 1911, viajou para a Guiné-Bissau, à procura de emprego, de futuro, de melhor sorte. Ali viverá mais de trinta anos. Funcionário publico em Bolama, foi, depois, o primeiro professor de uma escola primária em Cacine, com uma escassa meia dúzia de alunos. Ele mesmo se definirá, um dia, como «um obscuro professor não diplomado».
Juvenal Cabral caracterizava-se a si próprio como “cabo-verdiano de nascimento e raça, português pela bandeira e educação, e, portanto, convictamente integrado nos alevantados ideais que deram a Portugal o prestigio universal que desfruta”. Era um homem com uma grande consciência e preocupação política e social sobre a situação de Cabo Verde, mas ao mesmo tempo era adepto da política colonial portuguesa e de Salazar (de quem fora colega, em Viseu). O espírito patriótico e a admiração que nutria pela colonização portuguesa, não impediram Juvenal Cabral, de várias vezes criticar a política colonial da metrópole em relação a Cabo Verde. Críticas essas que se deviam, sobretudo, à maneira como o governo português conduzia as políticas relativas às crises agrícolas e consequentes períodos de fome nas ilhas." 
(Fonte: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/5aa63601-7780-48d2-b02b-87662f03fda6/content)
Publicou:
1930: O Crime do Largo do Hospital da Cidade da Praia (Crónicas jornalísticas e sociais); 1947: Memórias e Reflexões (Sua obra magna, lançada originalmente como Edição do Autor na Cidade da Praia); 1949: Bêjo Caro! (Poema-panfleto satírico); 1949: Confissão de Zé Badiu (Texto literário em crioulo, anotado pelo seu filho Amílcar Cabral); 2002: Reedição póstuma de Memórias e Reflexões pelo Instituto da Biblioteca Nacional de Cabo Verde. Os seus restantes poemas (como O Voo da Avezinha) e diversos ensaios foram dispersos e publicados ao longo das décadas - de 1910 a 1950 - em jornais e revistas da imprensa cabo-verdiana. (IA)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Indisponível

19 junho, 2026

CASTELLO BRANCO, Camillo -
UM LIVRO
. Porto, Typographia de J. A. de Freitas Junior, 1854. In-8.º (21x13,5 cm) de 204, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Um Livro é uma obra interessante e muito curiosa, espécie de romance em verso, e uma das publicações mais raras e menos conhecida de Camilo Castelo Branco, publicada originalmente em 1854 sem o nome do autor. Oferecida a José Barbosa e Silva, "como pequeno obulo de reconhecida amisade", foi dada à estampa numa fase muito inicial da sua carreira literária (com cerca de 28 anos), antes de este atingir o auge da sua fama com as novelas da década seguinte.
Enredo determinado por um crime passional, verídico, explicado por Camilo em "Notas", reflete a juventude do autor e o seu estilo irónico, abordando temas como a vaidade e a dor humana, o ciúme, a paixão e a morte.
Inclui no final (pp. 162-204) uma pequena novela: Vinte dias de agonia, de que falaremos a seguir.

"Traja de lucto o viuvo,
Vestem-se as armas de negro;
Vem a nobresa em redor
Consolar o primo illustre,
Que verga ao peso da dôr.
O sino dobra a finados,
Dizem-se missas geraes.
Soam, no templo, responsos
Em pomposos funeraes.
E, entre os muitos, que elevam
As suas preces ao ceu
O consternado consorte,
Que, dizem, fôra um atheu,
Em maus tempos, que lá vão,
Ergue as mãos, vai n'um transporte
De fervente dovoção,
Seguindo o rolo do incenso,
Que perfuma os pés do immenso,
A quem pede a eternidade
Para a esposa estremecida!...
...................................................
Pungente affronta, cuspida
Na virtude, e na piedade!..."

(Excerto de VII)

"Este caracter, ligeiramente esboçado, não é fantastico, nos traços essenciaes. O homem, que ahi se pinta, foi, viveu, e conheci-o tal, na primeira luz do quadro, em que os acessorios, o ornato, é o que menos val. Chamava-se José Pacheco de Andrade. Oriundo de uma das mais distinctas familias de Cabeceiras de Basto, seu pai era o capitão-mor, Serafim Pacheco dos Anjos. [...]
José Pacheco de Andrade, quando eu o conheci, trazia sobre os hombros uma manta, apontoada de farrapos, uma tigella vermelha debaixo do braço, e dormia no palheiro d'um lavrador, onde creio que morreu. Representava 44 annos, quanto muito. A fome não podéra ainda descompôr-lhe o rosto fino, e feminil. A expressão torva, panica, e repulsiva tinha-a nos olhos ardentissimos, e incovados. No trato era rude affavel. Tinha asperas vaidades de fidalgo, que se esquece de que é mendigo, e mansas humilhações de mendigo, que se esquece de que é fidalgo."
(Excerto de Notas)

Relativamente à novela Vinte dias de agonia com que termina o volume, diz-nos Camilo:
"Escrevi, ha tempo, sob a mesma impressão, uma prosa, que me parece mais poesia que o verso, e que muito serve de commentario ao poema. Elle, o poeta, que o foi na vida, na resignação, e na morte, que abraçou, sorrindo-lhe, como desgraçado e como christão, não direi quem foi Cubra-se-lhe a face com uma dobra da mortalha de Alda. São dous nomes, que não profanarei... duas imagens magnificas na dôr e na poesia, excepções a tudo isto que por ahi vai...
É esta a prosa: diz mais que o canto, penso eu:
Vinte dias de agonia
Quiz abrir um abismo na minha alma. Quiz envolver-me nas trevas de uma angustia mortal. Quiz imaginar as agonias d'um homem, que, aos vinte e seis annos, cae na sepultura, depois de erguer-se ao ponto culminante da vida, e da esperança. Vi-o morrer. Morreu como se a morte, seu unico anjo d'amor, lhe désse um beijo de paz eterna na hora final. Mas aquelles vinte dias derradeiros foram a purificação daquelle holocausto sublime, consummado pelas bagas d'um suor frio, pelo cahir d'uma lagrima glacial, pelo estorcimento convulso dos labios, semelhante a um sorriso."
(Excerto de Vinte dias de agonia)
Camilo Castelo Branco (Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1890). "Foi um dos maiores e mais prolíficos escritores portugueses do século XIX. É amplamente considerado o principal expoente do Romantismo em Portugal. Ele destacou-se também por ser o primeiro escritor profissional do país a conseguir viver exclusivamente dos rendimentos da sua vasta produção literária. Em reconhecimento ao seu impacto cultural, o rei D. Luís I concedeu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho em 1885." (IA)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Desencadernado, sem capas. F. rosto apresenta manchas, pequeno rasgão e três orifícios à cabeça.
Raro.
75€