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25 julho, 2026

DUBRAZ, João - 
ACHMET. Conto de fadas : fundado em lendas patrias. Lisboa: Vende-se na Loja de A. M. Pereira. Rua Augusta, n.º 188. 1852. In-8.º (16,5x11,5 cm) de XII, [2], 250 p . ; E.
1.ª edição.
Romance histórico de João Dubraz publicado sob anonimato. Obra oferecida pelo editor a Francisco d'Assis Salles Caldeira, que sobre a autoria de Achmet, nos diz na dedicatória: "O author do livro que ousei dedicar a V. S.ª já não existe: viveu obscuro e morreu ignorado - vida e fim communs a todos os engenhos desvalidos n'esta epoca corruptamente alchymica, que parvos e velhacos intitularam civilisada. Sem ser um genio, o author do Achmet era comtudo mancebo de rasão clara, juizo recto, e leal coração, que algumas decepções haviam quiçá lançado no scepticismo".
"Trata-se de um romance em prosa, muito inspirado na obra, D. Branca considerada uma das primeiras expressões do romantismo em Almeida Garrett,escritor que João Dubraz muito admirava e com o qual muito se identificava devido às convicções políticas que ambos perfilhavam.
O herói deste romance é Achmet, jovem mouro, guerreiro valente, amante apaixonado, sofrendo amores incompreendidos e cuja breve existência decorreu nos campos cerca dos rios Xévora e Caia, ou seja, nas terras onde foi fundada a vila de Campo Maior."
O romance foi apresentado pelo editor como se o texto lhe tivesse chegado às mãos sem nele constar o nome do autor. Por isso, era publicado anonimamente."
(Fonte: https://alemcaia.blogs.sapo.pt/21457.html)
A última parte do livro, desde a página 211 até ao final, é preenchida com uma colecção de poesias do autor do Achmet, também de cariz histórico.
"O som da buzina venatoria fere as montanhas, e echôa nas profundezas do valle. O real veado, surprehendido em seu leito de verdura, ergue-se d'um pulo ao fatal clangor estirando os membros ageis; e depois d'haver interrogado a impregnada aragem, e escutado com ouvido attento, busca refugio nos matos onde alteia sobrelevada a sua ramosa corõa; entretanto o bravo javali corre por entre as moitas intrincadas, e evita o perigo que se aproxima, fugindo por instincto ao ruido da montaria.
Sôa ao longe o latido dos sabujos, que em matilha farejam os passos da rez fugitiva: conjuntamente rebôa o galope de guerreiros ginetes e o clangor das buzinas de caça, tangidas com frequencia por fervidos caçadores.
Redobra mais e mais este ruido longinquo: os cães seguem açodados a pista da venção, e os briosos corceis, contidos por seus cavalleiros, brincam agora impacientes, porque os não deixam ultrapassar as recovas dos alões.
Progride a montaria, e o arruido é cada vez maior. Olfactando a caça, os sabujos embrenham-se nas selvas, e vam descobrir o real fugitivo, que colhido em asylo da charneca, de mau grado o deixa para correr diante dos mastins que inutilmente o perseguem."
(Excerto do Cap. I, O Lago do Muro)
Índice:
Achmet: [Dedicatória] | [Prólogo do Editor] | [Prólogo do Autor] | Achmet - Invocação | 1.º O Lago do Muro. 2.º A dama do corcel fouveiro. 3.º A lucta das alimarias. 4.º A ilha encuberta. 5.º A Torre-do-Moiro. 6.º O Castello-do-Amor. 7.º O torneio na Cabela-aguda.
Poesias: A pastora perdida | O pagem cioso | Dom Florisel | Dom Rodrigo, o Trovador | Liberdade.
João Francisco Dubraz (1818-1895). Natural de Campo Maior. "Professor de latim e francês. Dedicou-se ao comércio, que depois trocou pelo professorado. Foi também advogado provisional. Escreveu: Achmet (Lisboa, 1852); Recordações dos últimos quarenta anos, esboços humorísticos, descrições, narrativas históricas, e memórias contemporâneas (Lisboa, 1868) (2.ª edição em 1869); A Republica e a Ibéria (Lisboa, 1869); Cinco finados ilustres (autopsias e comemorações) (Lisboa, 1869); O aventureiro francês (Lisboa, 1869). Colaborou também em vários jornais."
(Fonte: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. IX, p. 327.)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos e falhas de papel marginais. Lombada restaurada, cadernos colados.
Raro.
85€
Reservado

22 dezembro, 2025

A CEIA DOS CARDEAIS - Acto único
. [S.l.], [s.n.], [19--]. In-4.º (28,5x22,5 cm) de 15 f. ; B.
1.ª edição.
Paródia "erótica" à Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas. O diálogo dos religiosos e as descrições dos seus "feitos" carnais, inclui linguagem licenciosa. Trata-se do exemplar original desta peça, batido à máquina a duas cores. Título manuscrito na capa, sublinhado a traço ondulado. Desconhece-se o autor e data (primeira metade do século XX?), e se foi reproduzido em livro ou de outra forma.

"A acção passa-se em Roma

Personagens:

Cardeal Pipia......... Sugeito com voz de mulher
Cardeal Rufo..........Tipo com fumaças de valente
Cardeal Vigni......... Sugeito com modos aristocráticos

A cena representa uma sala bem mobilada com estilo e elegância. A um canto, uma estante de música e instrumentos. Ao abrir o pano, os Cardeais sentados à mesa, ceiam. Os fâmulos servem-nos de joelhos.

Rufo

Vem amanhã o embaixador francês?!...
É preciso acabar com isto de uma vez.
(Outro tom). A França é um país que em tudo se intromete.
E um sujeito qualquer lá da terra do [...],
Vem abusar de nós com lérias e com tretas.
Ora que se deixe disso e vá fazer [...]!

Vigni

E Roma o que é então?... É uma santa gente,
E onde uns figurões se [...] mùtuamente!
Têm os vícios fatais de Sadoma e Gamorra
E quer dar leis ao mundo! Olha que porra! 
Sabe dos Cardeais que postos em fileira,
Gosavam todos três levando na [...]?
Oh!... Houve um escândalo tal no Vaticano
Que ao ouvido chegou, do Papa soberano!
E o Papa respondeu: Êle é de censurar.
Mas o que está no meio... Ai!... Muito há-de gosar!
(Outro tom). Veja lá se em França existe êste deboche?
(Orgulhoso). A França é grande em tudo!...

Rufo - (Atalhando)

Até em fazer [...].

Pipia - (Conciliando)

Não se zanguem, Iminências, então?! A zanga tem os seus perigos
E eu não quero ver ralhos entre amigos.

Vigni - (A um fâmulo)

Porto Velho

Rufo

Madeira.
Em tudo a primeira.

Vigni

É Roma. Não negue a própria luz do dia.

Rufo

É filho de francês, por isso se agonia.

Pipia (Intervindo conciliador)

Então, deixem-se disso e vamos cear.
Não viemos aqui para para estarmos a altercar.
Na pândega, passar alegre, a vida tôda,
É a nossa divisa. O mundo que se [...]."

(Excerto da Peça)

Exemplar em brochura, preso por atilho, em bom estado geral de conservação. Capas ligeiramente oxidadas, apresentam pequenos cortes marginais.
Raro.
Peça de colecção.
Indisponível

01 setembro, 2025

POESIAS TERNAS E AMOROSAS OFFERECIDAS A HUMA SENHORA.
Nova edição augmentada com o A. B. C. d'Amor. Lisboa, Typ. de A. J. da Costa [Capa - Vende-se na Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão], 1844. In-8.º (12,5x9 cm) de 80 p. ; B.
Curiosa obra poética, exemplo da literatura "lamecha" da primeira metade do século XIX. Trata-se da nova edição desta obra (completa). A primeira edição foi publicada pela Typographia Rollandiana, em folhetos, a partir de 1824.

"Acordei antes da Aurora,
Dando suspiros por ti;
Suspirei o dia inteiro,
Suspirando adormeci."

(Quadra)

"Huma Menina
Quer, que eu lhe dê 
Liçoes de Amores
Por A. B. C.
 
A..... He Amante,
         Não ardilosa:
B..... He benigna,
         Não boliçosa:
C..... He constante,
         Não curiosa:
         Tome, Menina,
         Lição gostosa.

Huma, &c.

(Excerto de A. B. C. de Amor

Exemplar brochado, por abrir, em bom estado geral de conservação.Capas frágeis com defeitos, com especial incidência na contracapa que apresenta falha de papel à cabeça.
Raro.
25€

07 setembro, 2024

OS LOGROS N'UMA HOSPEDARIA.
Farça original em um acto. Pelo author d'Um noivado em Friellas. Lisboa, [s.n.], 1841. In-8.º (18x12 cm) de [4], 50 p. (79-128 pp.) ; B.
1.ª edição.
Peça curiosa, cuja cena é passada em Lisboa, sendo seu autor Paulo Midosi Júnior. Representada pela primeira vez no Theatro Nacional da Rua dos Condes, em 20 e Julho de 1841.
Primeiras 4 páginas, incluindo f. rosto, inumeradas, sendo as restantes 50 numeradas de 79 a 128.
"Maldita viuvez, que mofina que és!... Ai!... (suspirando.) E haverá quem inveja a triste sorte de um viuva, que deseja escapar ás linguas mundanas, e procura viver honeste e recatada? No nosso estado, um suspiro, um meigo olhar, a mais innocente predilecção, roubam-nos em meio minuto o fructo de annos de sacrificios. Ah raparigas, rapariguinhas, vós sois felizes! Com o salvo conducto de solteiras escapais á critica mundana, em quanto a infeliz viuva, sem arrimo, inda mal arreda pé, já a malevolencia desapiedada lhe censura até as mais honestas acções!... (Levantando-se) Nada... isto não é vida... Convém que partilhe com alguem o peso desta casa, que, desde a morte do meu Braz Lameiro, parece lhe deu o pêco. Convém buscar marido."
(Excerto da Scena I)
Paulo Midosi Júnior (Lisboa, 1821-1888). "Foi um advogado e escritor português. Ligado ao mundo do jornalismo, colaborou na Ilustração e ajudou a lançar o Diário de Notícias. Em 1846, além de compor a letra para o "Hino da Maria da Fonte", lançou também o jornal Revolução do Minho. Midosi é, talvez, mais conhecido por ter escrito os versos do "Hino da Maria da Fonte", em 1846, altura em que ainda estudava Direito na Universidade de Coimbra. A canção patriótica, musicada por Angelo Frondoni teve larga divulgação e que chegou a ser aceite, pela generalidade da população portuguesa, nos últimos tempos da Monarquia, quase como hino nacional."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Envelhecido. Capas frágeis, lisas, com defeitos.
Raro.
Sem registo na BNP.
10€

09 janeiro, 2024

FOGAÇA, Braz - OS MARIALVAS. Reflexões de... Petintal d’Alfama. Lisboa, Lallemant Frères, Typ., 1876. In-8.º (19 cm) de 78, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Curiosíssimo ensaio satírico e crítico dos costumes da época, tendo como pano de fundo a Lisboa boémia e viciosa, pródiga em "más práticas". O marialvismo e os marialvas: a borga, as touradas, o fado, as mulheres, o vinho… - o autor não poupa nada nem ninguém -, a burguesia endinheirada à cata de "brazão", a justiça, as autoridades, etc., todos concorrem para uma sociedade corrupta e corruptora.
"Marialva é o antilibertino português, privilegiado em nome da razão de Casa e Sangue, cuja configuração social e intelectual se define, nas suas tonalidades mais vincadas, no decorrer do século XVIII.
No convencionalismo popular (ou antes pequeno-burguês) marialva é o fidalgo (forma primitiva de «privilegiado») boémio e estoura-vergas. Socialmente será outra coisa: um individuo interessado em certo tipo de economia e em certa fisionomia política assente no irracionalismo. […] 
Em 1876, um folheto lisboeta (ed. Lallemant Frères, Typ.) utiliza a expressão pela primeira vez, conferindo-lhe um conteúdo sociológico: Os Marialvas, de Braz Fogaça, cronista citadino.
O libelo aponta a «essa meia dúzia de titulares que nós ainda para aí conservamos como relíquias da nossa velha fidalguia» e é uma descrição incendiária das aventuras miguelistas e dos menestréis de guitarrada que animavam a paisagem local sob o proteccionismo das castas."
(Pires, José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva ou das negações libertinas, Lisboa, Ulisseia, 1960)
Publicado sob a capa de pseudónimo, sabe-se que o autor deste livrinho foi José Joaquim Gomes de Brito.
"Ha tres cousas em que eu creio sobre todas as outras.
Creio sobretudo nos Marialvas, no fôro e na policia. Sim. Creio na omnipotencia d’aquelles, apesar do que por ahi corre em sua deshonra; creio na equidade dos que administram justiça, apesar dos gritos de dôr e de desespero, dos choros e dos brados de indignação, que se levantam a todo o momento contra eles; creio na seriedade, zelo e inteireza da autoridade civil, apezar…
[…]
Na celebre Esparta eram os escravos que, por obrigação, representavam um vicio; - entre nós muda a cousa de figura: representam os nobres e dinheirosos os sete vicios capitaes, e são o verdadeiro symbolo da depravação.
Ah! Quem os fizesse passeiar em torno das multidões a esses nobres e dinheirosos dissolutos com as suas nojentas amantes! Cantariam, sem ser preciso ordenar-se-lhes, scholios mais obscenos que os dos ilotas embriagados; mostrariam sobre a própria pelle as eflorescencias do vicio; dansariam, não só o fandango e o lundú lascivo, mas ainda o fado imundo; entregar-se-hiam a todas as provocações da luxuria e da orgia!
Triste espectaculo, na verdade! Mas que serviço!
Além de se vingar a moral ultrajada, o pudor insultado, desmascarar-se-hiam os actores d’essas repugnantes saturnaes; e demonstrar-se-hia ao povo, que o imposto sobre o trabalho dos proletários engorda a ociosidade e retribue a libertinagem dos senhores, dos cavalheiros do high-life."
(Excerto do texto)
José Joaquim Gomes de Brito (1843-1923). "Escritor e arqueólogo, diplomado com o curso superior de Letras, e oficial da Câmara Municipal de Lisboa, nasceu em Lisboa em 1843 e morreu em 1923. Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa e sócio honorário da extinta Associação Industrial Portuguesa. É vasta a sua bibliografia, composta sobretudo de artigos publicados em vários jornais da capital, a partir de 1876.”
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado. Capas e lombada com defeitos e pequenas falhas.
Muito invulgar.
20€

21 fevereiro, 2023

VIDA D'EL-REI D. AFFONSO VI.
Com um prefacio por Camillo Castello Branco
. Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron : Braga, Livraria Internacional de Eugenio Chardron, [1873]. In-8.º (16x12 cm) de XII, 138, [10] p. ; E.
1.ª edição.
Narrativa biográfica anónima de D. Pedro VI (1643-1683), rei de Portugal por morte de seu irmão D. Teodósio, o primeiro filho de D. João IV na linha dinástica. Mais tarde dado seria dado como "física e mentalmente fraco", sendo declarado "incapaz", e deposto por seu irmão mais novo, Pedro, o duque de Beja, que assumiu a regência do reino.
Obra muitíssimo valorizada pelo extenso - e irónico - prefácio de Camilo Castelo Branco.
"Pois que ainda não temos historiadores bem assentuada do, impropriamente dito, reinado de Affonso VI, não se descure nem deixe perder alguma pagina das escriptas por pulso contemporaneo. Escriptores coevos, izemptos de paixão, quem os conheceu? E então, dos d'aquelle periodo, recheado de miserabilissimas villanias, facciosos de Affonso ou de Pedro, não veio algum até nos que mereça inteiro credito. O bispo do Porto, Fernão Correia de Lacerda pagou com a catastrophe a mytra. Falseou o nome como falsweara a honra: anagrammou-se, como se um anagramma descontasse nos gráos da infamia. A anti-catastrophe, de historiador incognito, tem relanços que inspiram crença; mas lá vem outros que a desluzem. O processo de divorcio de Affonso, requerido por sua mulher, esse sim, esclarece abysmos; é facho que nos conduz aos latibulos da corte d'aquella rainha incestuosa; por feitio que o processo diz mais para a historia das torpezas da esposa que das enfermidades do marido. É ella, a amante adultera do trigueiro cunhado, que entra nos tribunaes, empunhando attestados medicos e depoimentos de meretrizes, pelos quaes se demonstra que Affonso era menos viril que o necessario a uma dama que sahira da corte de Luis XIV."
(Excerto do Prefacio)
"Meu amigo, chegaram á minha mão uns cadernos achados em Coimbra em casa de um clerigo, pela occasião de sua morte, e entre elles vinha um muito maltratado, roto e sujo, que tinha por titulo: - Vida de El-Rei D. Affonso 6.º -, e podendo ler poucas paginas d'elle, accrescendo a ociosidade em que vivo, e a veneração que professei ao infante D. Pedro, me vi obrigado a mostrar a justificação que tomou a respeito do rei seu irmão; porém sinto que isto é impraticavel sem fazer menção da incapacidade do mesmo rei. Por tanto vos digo que a violencia do seu governo, e a sua inercia, desculpará o que eu, seguindo a verdade, disser sem attenção á magestade: e assim vereis este rei nascido, baptisado, enfermo, jurado principe e acclamado rei, tomando o sceptro, escolhendo homens indignos para o seu lado; vel-o-heis recluso, deposto em côrtes, casado e descasado, mandado para o castello da ilha Terceira; a conjuração que motivou aquella retirada; recolhido em Cintra; morto de repente n'aquelle palacio, e ultimamente o vereis na sepultura em Belem. Escrevendo novamente a sua vida, justificarei a seu respeito as acções louvaveis do infante D. Pedro, seu irmão."
(Prologo do auctor ao leitor)
"Estando a magestade d'el-rei D. João 4.º nosso senhor, em Evora, cidade, dando de mais perto calor ao seu exercito, que começava a marchar valorosamente contra as armas e terras castelhanas, foi Deus servido das ao nosso Portugal em sexta feira 21 de agosto d'esse anno de 1643, ás sete horas e um quarto da manhã, um novo defensor, como nascimento do serenissimo infante D. Affonso, o primeiro filho que el-rei nosso senhor teve depois de sua feliz acclamação n'este seu hereditario reino."
(Excerto do Cap. I - Nascimento de D. Affonso VI)
Indice:
Prefacio. | Prologo ao leitor. | I - Nascimento de D. Affonso VI. II - Indole de D. Affonso, e como succede na corôa. III - Separa-se D. Affonso para o seu quarto. IV - Como D. Affonso VI entrou no governo. V - Absoluto governo de D. Affonso VI. VI - Casamento de D. Affonso. VII - Exclusão do valido d'el-rei. VIII - Queixas da rainha. IX - Exclusão do secretario de estado. X - Recolhe-se a rainha á Esperança. XI - Prisão d'el-rei. XII - Desiste el-rei de seus reinos. XIII - Annulla-se a el-rei o matrimonio. XIV - é lançado el-rei em prisão á Ilha Terceira. XV - É mudado el-rei para o paço de Cintra. XVI - Morre D. Affonso VI. XVII - Funeral d'el-rei D. Affonso VI, rei de Portugal. XVIII - Conselheiros de estado que havia quando de depôz el-rei D. Affonso VI. | Nota. | A el-rei D. Affonso VI - sextilha anonima.
Bonita encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
50€

24 outubro, 2021

ATAVISMO DO TALENTO. Breves memorias de uma senhora lisbonense
. Evora, Minerva Commercial, de José Ferreira Baptista, 1909. In-8.º (21 cm) de [2], 47, [1] p. ; [1] f. il. ; B.
1.ª edição.
Obra algo insólita, composta pelas memórias da autora, senhora bem nascida, - protegida pela capa do anonimato, - reunidas a estâncias de uma pessoa, que sabendo da desilusão desta com o Montepio Geral e dos seus estatutos restritivos da condição feminina, lhe pediu que escrevesse sobre o assunto.
Livro ilustrado com uma folha extratexto contendo o retrato de quatro personalidades, que, julgamos familiares da autora, com descrição na folha seguinte dos nomes, datas, ocupações, predicados pessoais e datas relevantes.
Valorizado pela dedicatória manuscrita na capa da autora a uma sua prima.
"De ha muito pensamos nós que uma disposição dos Estatutos do Monte Pio Geral mais serve para dar a morte do que a vida, a morte de alma, aos beneficiados.
A pensionada, descendente de socio fallecido, perde a pensão, logo que mude de estado, logo que se casar.
É clara a illação que brota do preceito. Se a mulher não tiver outros meios de subsistencia do que os que perde com o casamento, e o marido que procura, ou a procurar a ella os não tiver, o prejuizo será grande, a miseria quasi certa, com o seu cortejo de angustias e de lancinantes dores... Foge a felicidade á pensionada.
É, pois, consequencia de tal disposição, que a mulher tem de viver sósinha, sem familia eleita de seu coração, solteira por toda a vida.
No campo da moral pode essa mulher solteira ser o prototypo da decencia e da honestidade, ou ser mesmo um modêlo de licenciosidada mascarada, vivendo como lhe aprouver, sempre solteira e privada dos encantos da familia, dos prazeres conjugaes das delicias da prole nos filhos, que podéra gerar, educar, idolatradamente amar. [...]
Conhecemos a uma dama solteira, honesta e respeitada, já não môça, victima do Monte Pio Geral. Por vezes lhe ouviramos alludir delicada a não poder ser na vida mais mais do que escrava e nunca senhora. [...]
Atrevemo-nos a lhe pedir que escrevesse suas memorias. Veio recusa: acudimos com reparos, salientando o quanto é pobre entre nós a bibliographia feminina, para ser mais do que extensa a masculina. [...]
Por fim de breve contenda, de divergencias fommos atendidos.
É-nos agradavel o tornar publicas as singelas memorias dessa senhora, a quem occultamos o nome, por não offender sua modestia..."
(Excerto de O Monte Pio mata)
Matérias:
O Monte Pio mata [preâmbulo]. | Do anno de 1860 a 1879. | De 1872 a 1877. | De 1877 a 1882. | De 1882 a 1890. | De 1890 a 1894. | De 1894 a 1909. | Em abril de 1909. | O piano - Ainda memorias. | Prazeres no estudo. | Illusões e verdade. | Referências topographicas: Estremoz; Evora e seus campos; Serpa e seus arredores; Braga e seus arredores; Bussaco e suas bellezas.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas cansadas, frágeis, com defeitos.
Raro.
20€

08 outubro, 2021

F. d. C. M. P. - RELAÇAÕ // DE // HUM RELIGIOSO // SOBRE OS EFFEITOS DA VINGANÇA // Escripta por elle mesmo a hum seu inti- // mo Amigo. // CONTO MORAL // Ultio ultionem vocat, caedes caedem. Eurip. // POR // F. d. C. M. P. //
LISBOA // Na Offic. de Filippe da Silva e Azevedo. // ANNO MDCCLXXXIV [1784]. // Com licença da Real Meza Censoria.
In-8.º (18 cm) de 47, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Raro exemplo da literatura confessional portuguesa de setecentos.
Trata-se da narrativa verídica(?) de um religioso - muito bem redigida, saliente-se, - que antes de professar, impelido pelo ciúme e pela honra, perpetrou o assassinato de duas almas - sua mulher e um major do exército -, e foi causa indirecta da morte de outras tantas pessoas às mãos do seu filho mais velho, cujo fim seria igualmente trágico. Raro e muito interessante.
"Para que me pedis meu verdadeiro amigo, que vos envie a historia circunstanciada da minha infausta vida? Considerai que uma tal narraçaõ naõ póde deixar de renovar-me a mais acerba magoa: Mas finalmente mandando-a por vos obedecer; naõ vos prometto ter a força de a concluir; porém conseguindo-o será para descrever sómente os seus successos, sem sobre elles fazer as reflexões de que saõ susceptiveis, e a quem os communicardes, que supra estas reflexões; e praza aos Ceos que dellas tire o saudavel fruto de se naõ entregar cega, e arrebatadamente aos seus imprudentes juizos, e vaõs pensamentos.
Naõ ignorais a Nobreza da minha origem, e sabeis que o appellido da minha Casa que aqui só conhesse o Padre D. Abbade, he respeitado na minha Provincia: Eu naõ exaltaria uma vantagem taõ frivola aos olhos de hum verdadeiro Religioso, se esta distincçaõ naõ fosse a causa das minhas desgraças, e das da minha familia.
Tendo passado a minha mocidade no serviço Militar, e pedindo depois a minha reforma, casei, retirando-me para huma Quinta aonde com prazer, e tranquillidade  passei alguns annos; e sendo de hum caracter, e genio naturalmente docil, me succedeo reprehender hum meu Rendeiro, que com demaziada familiaridade visitava a Aia de minha Mulher, o que as minhas advertencias, mais de huma vez repetidas, naõ tinhaõ evitado; prohibilhe finalmente a entrada em minha Casa; porque perguntando a esta Criada quaes eraõ as suas intenções a este respeito, das duas respostas vim a inferir que naõ cuidava em casar-se, antes pelo contrario tinha grande dezejo de se conservar em minha Casa.
Isto naõ obstante vim a saber que o mesmo homem continuava a vizitalla; esta desobediente rezistencia me irritou grandemente; e indo a sua Casa, achando-o só lhe dei sevéras reprehenções, a que me respondeu atrevida, e insolentemente; e transportado de movimento de cólera o maltratei com excesso.
Parecia soffrer-me sem rezistencia, mas no instante em que voltava para me retirar veio com furor sobre mim, e arrojando-me em terra me tratou muito mal, e receando talvez o que disto resultaria para o futuro me ameaçou de tirar-me a vida: como a defeza me era impossivel por estar sem armas debaixo do
 pezo de hum vigoroso rustico, que parecia querer buscar com que me matasse, pedi-lhe que de mim se compadecesse. Deixou-me finalmente; mas fazendo-me primeiro jurar por tudo o que ha de Sagrado nos Ceos, e na Terra, que me naõ ressenteria deste facto, e que jámais procuraria vingar-me."
(Excerto da 1.ª parte do texto)
Exemplar brochado, sem capas de protecção, preso por atilho, em bom estado geral de conservação. Manuseado, com defeitos, e pequenas falhas marginais. F. rosto apresenta rasgão à cabeça (sem perda de papel).
Muito raro.
65€

29 novembro, 2020

O MAGNETISMO PESSOAL. Curso para a applicação pratica das sciencias physicas
. Paris : Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand - Rio de Janeiro : Belo Horizonte, Livraria Francisco Alves. [Composto e impresso na Typographia Jose Bastos - Lisboa], [191-]. In-8.º (18,5 cm) de 67, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Curiosíssimo manual, não datado (ca. 1910), composto por 14 lições, para aprendizagem e aplicação pratica do magnetismo - ou "corrente interior" - no dia a dia, no relacionamento inter pessoal.
"O desenvolvimento do Magnetismo Pessoal é a introducção á applicação de todas as outras forças psychicas. Quem quer que estude a sério o presente Manual, e n'elle se exercite com algum resultado, será capaz de pôr em pratica, depois d'um pouco de exercicio, o hypnotismo, a transmissão do pensamento, e curar enfermidades por meio do Magnetismo."
(Retirado do verso da f. anterrosto)
"Supponho eu que o desejo mais geral dos homens e das mulheres, é este; - ser attranete para os outros; - o que para o homem significa «poder, influencia, riqueza, exito»; e para a mulher, «consideração social, popularidade, satisfação pessoal, amor». - E é um bom desejo este, ficae certos d'isso! Esta aspiração de exercer influencia, não rebaixa ninguem. A propria ambição das riquezas, não envillece: a riqueza não é mais que um meio para cada qual augmentar a sua faculdade de ser util.
Recuae por um momento uma dezena de annos, recuae mesmo uma data mais afastada, e lembrar-vos-heis de vos terem sido indicados como modêlos a seguir, homens poderosos e influentes.
Eram então taes creaturas aos olhos de individuos mais edosos que vós, luzeiros bruxuleantes. Vossos paes e vossos patrões fallavam d'elles com respeito, e ambicionavam que vós lhe seguisseis as pisadas e chegasseis ás culminancias a que elles se tinham erguido. Enganavam-se exaltando assim o caracter humano? Creio que não. Os grandes espiritos d'este mundo devem servir-nos de guia nos caminhos da vida;a a analyse dos caracteres d'esses genios, ainda vivos ou já mortos, revela-nos o segredo da philosophia do viver que lhes tornou sublime e poderosa a existencia. Permitti-me que eu vos revele o segredo do seu poder; nas primeiras lições, fiz por vos explicar alguns traços geraes e distinctivos do estudo do Magnetismo Pessoal, levando-vos e preparando-vos gradualmente para comprehenderdes a exposição dos pormenores que seguirão nos demais capitulos."
(Prefacio do auctor)
"Magnetismo pessoal, é a propriedade que attrahe o interesse, a confiança, a amisade e o amor do proximo. O fim do auctor d'este curso, é explicar ao leitor sob a fórma a mais simples e comprehensivel, o segredo da força pessoal. O seu empenho é demonstrar ao leitor como é que elle póde, logo que o queira, no mesmo instante, colher os fructos do seu estudo, e não quando todas as suas esperanças se lhe tenham dissipado como fumo; não quando as forças necessarias para aspirar á felicidade se lhe tenham esgotado, e que a sciencia se acha paralysada nos seus effeitos uteis, mas immediatamente que tal sciencia póde ser aproveitada a seu beneficio pessoal."
(Excerto da Introducção)
Encadernação simples em meia de percalina com ferros gravados a oouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito raro.
Sem informação na BNP, ou qualquer outra fonte bibliográfica.
75€

14 julho, 2020

REFLEXÕES SOBRE O PARTIDO APOSTOLICO EM PORTUGAL. Escriptas em Lisboa no anno de 1828, por * * * [S.l.], [s.n.], [1828?]. In-8.º (21,5 cm) de 44 p. ; B.
1.ª edição.
Obra anónima, espécie de cartilha liberal, publicada num período conturbado e de grande efervescência nacional.
O autor acusa o partido miguelista e algumas das suas figuras mais conhecidas de invectivarem e ameaçarem D. Pedro, desconsiderando-o por ser "estrangeiro". Trata-se de um conjunto de reflexões sobre a problemática da sucessão ao trono português, por morte de D. João VI, sendo o autor claramente contra a causa de D. Miguel e a favor da legitimação de seu irmão ao trono, enumerando as razões pelas quais assim deverá ser.
"A natural ignorancia do genero humano e a adquirida perversidade de grande parte delle, envenena de tal sorte os bens do estado social, que o homem justo, o homem illustrado vacilla, e muitas vezes preferiria o estado natural; ali, sem ideas de virtude ou crime, serião os homens, moralmente falando, ou todos bons ou todos máos, e só a força fizica graduaria o seu melhor ou peor modo de passar a vida: não acontece assim no estado social, aonde o homem se acha ligado pela complicadissima cadea do moral; criarão-se ideas de virtude e crime, estabelecerão-se direitos e obrigações; e posto que a applicação destas ideas tenha diversificado em tempo ou em lugares, todavia do espirito de todas as instituições sociaes se formou um sistema de moral universal, pelo qual temos, que a virtude é aquella acção da qual resulta bem á especie humana, e que o homem, não fazendo ao seu semelhante o mal que não quer para si, é homem virtuoso; e necessariamente criminoso, o que obbra em sentido contrario: Destes principios nasce a Justiça, cuja manutenção é a primeira obrigação de um governo; só o governo que tiver por baze a justiça será virtuoso, e dará com a protecção dos direitos do homem, o nome de patria á terra onde nascemos; só este governo terá direito para fazer observar os deveres convencionados dos cidadãos, e estes serão tanto mais virtuosos, quanto mais prestarem á republica, com o exemplo de seus costumes, com a pena, a charrua, o leme, o tear ou a espada. [...]
Os patriotas e os cidadãos pacificos exultaram á vista da Carta Constitucional da Monarquia Portugueza, poisque, decretada e dada legitimamente, e concebida de modo que favorecia todos os partidos, parecia deverião fraternalmente unir-se em roda do throno, e mutuamente concorrer para salvar a Patria, aproveitando esta rara dadiva real; porem que politica, que prudencia, que leis, que mocarcha póde conter as demagogicas pertenções do partido apostolico?
O Sñr. D. Pedro IV., jurado e obedecido unanimemente, como natural e legitimo Rei de Portugal, apenas decreta uma Carta Constitucional para regimen dos Portuguezes, logo é tratado pelo partido apostolico como estrangeiro e intruso!
Os mesmos patricidas, que levantaram a guerra civil em 1823, os que attentaram contra a vida do Sr. D. João VI. em 1824, são os mesmos que de novo conspirão contra a paz publica; é o Marques de Chaves que solta o brado terrivel - "Viva D. Miguel I., morra D. Pedro IV!""
(Excerto de Os Apostolicos em Portugal)
Matérias:
Os Apostolicos em Portugal [Preâmbulo]. | I - S. M. El Rei o Senhor D. Pedro IV, não é estrangeiro, e no acto da sua elevação ao Throno Portuguez não só satisfez, mas ampliou todos os juramentos ou protestos, que em tal caso se pretendam. II - Não existiram Cortes de Lamego, nem as chamadas Leis Fundamantaes, pelo menos é duvidosa a sua existencia. III - Quando se admitta a real existencia das ditas Leis Fundamentaes, feitas nas Cortes de Lamego, e que o Sr. D. Pedro é estrangeiro, prova-se pela natureza das Cortes em Portugal, o poder soberano dos Monarcas Portuguezes, que o Sr. D. Pedro entrou legitimamente na posse da Coroa de Portugal e Algarves, pelo falecimento do Sr. D. João VI. IV - Ao Smo. Sr. Infante D. Miguel não pertence a Coroa de Portugal e Algarves; a sua conducta é a melhor prova. V - Não é uma voz unanime que pede para Rei de Portugal o Smo. Sr. Infante D. Miguel.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Lombada reforçada. Capas frágeis com defeitos e falhas de papel.
Raro.
Com interesse histórico.
30€

21 junho, 2020

O PATUSCO DO SECULO XIX, ou perguntas e problemas de interesse, novidade, e recreio. Lisboa. Typ. de Salles, Calçada de St.ª Anna n.º 158. 1854. In-8.º (16,5 cm) de 32 p. ; B.
1.ª edição.
Singular opúsculo, obra algo surreal. Sob a capa do anonimato, o autor - maldizente de tomo - critica a maledicência, tudo questiona, e á cerca de tudo se interroga, zurzindo a torto e a direito na sociedade do século XIX - o "patusco".
"A não serem as Bacchanaes dos Gregos, ou as Saturnaes dos Romanos, que querem dizer mascaras, laranjadas, rabolevas, pulhas, trambolhos, enchebuchos, fandangos, e encontrões em certo tempo do anno?
Que vam fazer aos theatros a delembida, quando não seja buscar ataques de nervos, o jornalista artigos, o autor assobios, e os ociosos materia para juizos, e alimento para a maledicencia?
Se o estomago, alem de ser o maior inimigo do pobre, é o maior gastador dos bens da agricultura, e se ha muito que, á maneira de esponja, embebem diariamente quatro quartos de canada do liquido de Lavradio, em 60 annos de exercicio, quantas pipas porão em secco 500 destas esponjas?
Se n'um paiz de 3 milhões de habitantes os casamentos regulam pela terça parte da sua população, o diabo e a luxuria, que andam sempre de braço dado, frequentando as suas escholas, tanto publicas como particulares, com o carta-pacio debaixo do braço, a que numero não terão feito subir os engeitados?"
(Excertos do texto)
Exemplar encadernado em brochura lisa, com título, local e data manuscritos na capa.
Livro por aparar em bom estado de conservação.
Ex-libris de José Coêlho no verso da f. rosto.
Raro.
Sem registo na BNP.
Peça de colecção.
50€

24 maio, 2020

FUNÇAÕ DE S. JOAÕ DA MADRUGADA, // Para rizo da gente socegada. // E a Mulher, que de noite naõ dormio, // Para sonhar de dia o que naõ vio. // Obra alegre, gostoza, e doctrinal, // Que aos Senhores Leitores naõ faz mal. // Dada á luz por Ambrozia Brites Pobre, // Por ter necessidade d'algum cobre.
LISBOA // Na Officina de Antonio Rodrigues // Galhardo, Impressor da Real // Meza Censoria. // Com licença da mesma Real Meza. [17--]. In-8.º (22 cm) de 15, [1] p.
1.ª edição.
Folheto de cordel. Curioso opúsculo setecentista (sem data de impressão), de autor fictício.

"Era o tempo em que o Mundo abrazava,
E que o Sol da frescura se vingava,
E das ruas as gentes dezertando,
Os sobrados das cazas vaõ auguando:
Hum se arregaça já, posto em camiza,
Outro o molhado chaõ, descalço piza;
As mulheres tambem mui bandalheiras,
Com saias rotas, curtas, e ligeiras,
De nojentos suores alagadas,
Os lenços do pescoço despregando;
Com seus leques os rostros refrescando;
Receita que rebate o mal violento,
A que chama a preguiça afrontamento.
Escuta-se na rua com desvélo
O pregáõ de espumante caramello,
E prompta a quarta d'agua já frenada,
Se despoem a goloza patuscada;
Frescura com que o Sol quebra os rigores,
Para amparar os pobres vendedores,
Que andando pela rua com calma tal,
O santo caramello ivita o mal.
Achava-me eu sentada na janella,
Por ter esta huma grade mui miuda,
Capaz d'uma Mulher como eu cizuda,
Na qual a minha ideia só se cança,
Em dar fé do que vai na vezinhança..."

(Excerto do texto)

Exemplar desencadernado, ligeiramente escurecido, em bom estado de conservação.
Raro.
35€

18 setembro, 2019

DISCURSO SOBRE OS ACONTECIMENTOS DO DIA 30 DE MAIO DE 1823. Lisboa, Na Typographia de J. F. M. de Campos, 1823. In-8.º (21 cm) de 8 p.
1.ª edição.

Inflamado opúsculo anónimo de forte pendor absolutista, anti-liberal e maçónico, publicado na sequência da “Vila-Francada”, golpe de Estado ocorrido entre 27 de Maio e 3 de Junho de 1823, e que pôs fim à primeira experiência liberal em Portugal.
“Graças, Portuguezes, à benéfica providencia, com que o Altissimo nos singulariza e protege! […] A infame vergonhosa e desgraçada escravidão, a que hum bando de egoístas miseráveis, tão ignorantes como malvados e atrevidos tinha reduzido esta ínclita nação, fingindo querer regenera-la […] essa infame escravidão ou Rebellião Maçonica, de que resultou a separação do Brasil […] quando ella se preparava para reproduzir no meio de nós os últimos horrores da Revolução de França e nos tinha conduzido á borda do precipício, expirou e desappareceo, como e quando menos se esperava. […] Cessou, expirou esse tyrannico Imperio da impostura liberal, que por 3 annos tem flagellado a nossa desgraçada Nação com huma impudência e iniquidade apenas própria de Cannibais! Está patente que essa liberdade, e igualdade que nos promettião, he mil vezes mais insuportável do que esse monstruoso despotismo, que eles fingião e se gloriavão de vir destruir. […] Consolai-vos, Portugueses honrados, estaes livres do jugo desse bando de impostores Liberaes. Voltareis cedo á fruição de vossos Empregos e Bens, e não sereis mais excluidos d’elles, ou inhibidos de fazer fortuna, só pelo motivo de não terdes o vosso nome escripto na matricula de alguma Loja de Pedreiros Livres…”
(Excerto do texto)
Exemplar desencadernado em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

26 janeiro, 2019

NINGUEM, João - O 9 DE ABRIL. Por... Folhetim do «Jornal de Benguela» (separata). Benguela, Tip. do «Jornal de Benguela», 1921. In-8.º (19cm) de 60, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante trabalho publicado em Benguela, Angola, devotado por inteiro aos aspectos tácticos da Batalha de La Lys e os seus antecedentes, justificados com a opinião escrita de Ludendorff e Gomes da Costa. O autor critica ainda com severidade os "patriotas" - a classe política e alguns militares - que qualificaram desastroso o «9 de Abril», "o momento mais traumático da acidentada participação portuguesa na Grande Guerra".
Sobre o pseudónimo que encobre o seu verdadeiro nome, no final do livro o autor esclarece: Não é por modestia ou por receio de contestações que resolvi entrincheirar me por detraz de um pseudonimo tão vago, como é o de João Ninguem. [...] Com responsabilidades profissionaes na guerra em França eu seria necessariamente levado ao campo das referências a pessoas, lugares, factos e datas a que o meu nome anda ligado nessa campanha; porém eu resolvi nêste trabalho de compilação, satisfazer apenas a curiosidade dos leigos em materia militar e não tratar de mais nada e muito menos de mim.
                               ......................................
"Um dos mais ilustres de entre os soldados portuguêses que á Flandres foram manter, mais uma vês, perante o mundo e perante a sua Patria, o bom nome das tradições da raça lusitana; - honrou o Jornal de Benguela, cedendo-lhe para publicação as páginas que se seguem.
Nelas palpita, tumultuoso de expressão e de sinceridade, o arranco indomavel de uma mal contida indignação perante o qualificativo, tão miseravel quão injusto, com que os nossos politicos alcunharam a Batalha do Lys, onde os Soldados de Portugal souberam pelejar com brio e morrer com honra.
Esse qualificativo foi o de - Desastre de 9 de Abril - e, de facto, êle em desastre redundou finalmente para todos nós, que sofremos o choque reflexo de tão desastrada denominação.
Não precisamos encarecer o valor dessas páginas  que não pretenderam enfeitar-se das galas e ouropeis do estilo, nem dos efeitos literarios.
Elas são sobrias e claras como a linguagem rude e precisa do soldado; elas são breves e incisivas como uma voz potente de comando.
É que foi a mão nervosa e seca de quem soube comandar em França, com assiduidade e valentia, os nossos soldados, quem as escreveu, para explicar, pela primeira vês,  em terra portuguêsa e a portuguêses, por modo que todos o compreendessem, o que foi na verdade o 9 de Abril, o que ele teve de batalha normal e honrosa e o que não teve de desastre afrontoso."
(Excerto da Nota da Redacção)
                               ........................................
"Como é do conhecimento de todos, ninguem em Portugal chegou até hoje a ter uma noção aproximada do que foi O 9 de Abril.
Ao fazer esta afirmativa, refiro-me aos leigos em assuntos militares, como é a massa da população e até áqueles que tendo estado em França e nas linhas, não tiveram ocasião de apreciar com documentos idoneos, o papel do nosso exército, nesse dia de 9 d'Abril de 1918.
Toda a política do meu país, dos últimos seis anos, caíu sôbre os soldados de Portugal, que na Flandres receberam um dos muitos e varios ataques, com que os alemães procuraram vencer os aliados.
O período da guerra que, para a Alemanha, constituiu a sua última ofensiva no «front ocidental», começou em 21 de Março de 1918 e prolongou-se, sem interrupção sensivel, por toda a primavera dêsse ano, numa série de batalhas e avanços correspondentes, até 18 de Julho, dia em que começou a contra-ofensiva dos aliados.
De facto, começando as tropas alemãs, em 15 de Julho de 1918, pela manhã, a passar o Marne, num avanço que Luderdorff classifica de brilhante; na madrugada de 18, as tropas alemãs, não só detêem o seu avanço, mas começam, a perder terreno. Daí em deante o resto da campanha foi uma derrota sucessiva para o exercito alemão, assistindo, desde essa data, o general Ludendorff, seu Quartel Mestre General, ao desabar de todos os seus sonhos!"
(Excerto da primeira parte da obra)
Encadernação simples em meia de percalina com cantos. Corte das folhas pintado. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Aparado. Assinatura de posse(?) - Autógrafo do autor(?) na f. rosto.
Raríssimo.
Com interesse histórico.
Sem registo na BNP ou de qualquer outra fonte bibliográfica.
Peça de colecção.
Indisponível

10 dezembro, 2018

HISTORIA DO IMPERADOR CARLOS MAGNO, E DOS DOZE PARES DE FRANÇA, augmentada com a noticia circumstacial das estaturas, e fisionomias do imperador Carlos Magno, e dos Doze Pares de França. Dividida em tres partes. Traduzida do castelhano em portuguez, com maior elegancia para a nossa lingua. Nova edição. LISBOA: Na Typ. de Mathias José Marques da Silva. 1854. In-8.º (15,5cm) de [8], 464, 16 p. ; E.
Romance de cavalaria, obra clássica da literatura cavalheiresca, originalmente publicado sob anonimato, em França, no século XVI. Conheceria a 1.ª edição portuguesa na primeira metade do século XVIII, em duas partes (1728-1737), sendo seu tradutor Jerónimo Moreira de Carvalho.
"Na era de 467 floreceo o Imperador Carlos Magno, respeitado de todos os Monarcas, pelo seu distincto valor, e de seus Paladinos, de que se faz uma breve descripção.
Carlos Magno era de grande estatura, e mui robusto, com 70 pollegadas de alto, cara espaçosa, e redonda, olhos avermelhados, que indicavão ferocidade ao gesto, cabellos bastante ruços, pernas grossas, e grandes pés; conservava a barba do comprimento de 7 pollegadas; dormia pouco, porque velava parte da noite, occupado em Santos exercicios; era pois observante Catholico e de rectissima justiça."
(Excerto de Noticia circunstancial)
"Mandando Carlos Magno apregoar por todo o Reino, a sua partida contra os Turcos, muitos principaes Cavalheiros, e Senhores grandes se resolvêrão acompanhallo, deixando as suas casas, mulher, filhos e familia, e se ajuntárão em pouco mais de trinta mil homens de peleja, e vendo-se Carlos Magno acompanhado de tão luzida gente, zelosa pela Fé de Jesu Christo, partio de París para Jerusalem, com grande esperança de alcançar victoria, e restaurar as cousas santas.
Chegado á Turquia; entrárão em hum aspero monte, que tinha quinze legoas de comprido e dez de largo; e por cauda da immensidade de Leões, Tigres, Ursos, Guidos, e outros ferozes animaes, soffreo grande ruina no Exercito, e principalmente de noite; e com a fadiga e sobresalto dos ditos animaes; perdêrão os guias o caminho, e não sabião o que havião de fazer; e buscando estrada direita, chegou a noite e se achárão todos cançados, e sem mantimentos.
Vendo isto Carlos Magno, mandou que em huma planicie, que alli estava, se ajuntasse todo o Exercito, e poz nas entradas os soldados, que lhe pareceo estavam mais descançados, para se defenderem dos animaes, que com grande furor os accommettião para fartar a fome; e retirado Carlos Magno junto a huma arvore, se encommendou a Deos, e lhe pedio que tivesse piedade da sua gente."
(Excerto deo Cap. IX, Como Carlos Magno se partio com um grande Exercito para Jerusalem)
Encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação. Com seis páginas alvo de restauro.
Raro.
Inocêncio não menciona esta edição, que também não se encontra recenseada na BNP.
Indisponível

04 novembro, 2018

CANCIONEIRO DO BAIRRO ALTO. Colecção de chistosas poesias de um patusco oferecidas às meninas finas da Baixa. [S.l.], Edições Vénus, [197-]. In-8.º (20,5 cm) de 144 p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de poesias "impublicáveis" publicadas por um patusco 'sem nome', certamente pouco após 25 de Abril de 1974.
O autor procurou associar o título do livro a uma obra obscena editada no século XIX, que pelo seu conteúdo indecoroso, a tornou conhecida e procurada; trata-se do Cancioneiro do Bairro Alto : collecção de chistosas poesias de um author patusco offerecidas a certas meninas que fazem certas coisas, Cadiz, 1864.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro.
Sem registo na BNP, e sem qualquer outra referência bibliográfica.
Peça de colecção.
Indisponível

01 novembro, 2018

RECOPILAÇÃO DO DIREITO CANONICO E DOUTORES SOBRE A QUESTÃO DE JURISDICÇÃO ECCLESIASTICA. POR UM SACERDOTE SECULAR DO BISPADO DE VISEU. Coimbra: Imprensa de Trovão, & Comp.ª - 1840. In-8.º (21,5cm) de 47, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante obra sobre a disciplina eclesiástica, incidindo sobretudo na legitimidade dos vigários capitulares em substituir os Bispos ausentes das suas dioceses - das suas obrigações e afazeres.
"Ha cinco annos que constantemente se falla e se escreve sobre a legitimidade canonica dos Vigarios Capitulares; e para se dar valor e legalidade aos seus actos, por diversas causas se tem pretendido mostrar as Sés vagas, ou impedidas: e quando se tem querido espalhar a luzes da evidencia sobre tão importante materia, pelo contrario se tem obscurecido e desfigurado, offerecendo-se argumentos em que se descobrem antes motivos de capricho, do que razões de Direito bem fundadas. Sempre a paixão cega: e não é por isso muito facil ao homem voltar sobre seus passos, e marchar desembaraçado de prevenções, e ainda de condescendencias pouco airosas pelo caminho seguro das Leis e da Justiça, até deparar com a verdade, posto que fugitiva, sempre augusta. Pessoas aliás de merecimento e literatura tem sustentado e deffendido aquellas vacaturas ou quasi vacaturas, e pennas igualmente bem apparadas as tem negado, produzindo razões e principios incontrastaveis; mas infelizmente até'gora sem effeito, ou porque se tem tido em pouco materia de tamanha gravidade, ou porque se lhe não tem querido dar o devido assenso. Não posso eu, nem devo por todos os motivos, esperar melhor fortuna; entretanto tocarei neste objecto, tanto quanto permittir a minha pequena capacidade, apontando as fontes, e extrahindo a doutrina Canonica respectivamente ás obrigações e direitos dos Bispos, e dos seus Cabidos assim como qual a pratica seguida neste Reino desde tempos mais remotos."
(Excerto do preâmbulo)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Aparado à cabeça. Capas simples, frágeis, com defeitos. Para encadernar.
Muito raro.
Com interesse jurídico, histórico e religioso.
Sem registo na BNP, ou outra fonte bibliográfica.
Indisponível