Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura erótica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura erótica. Mostrar todas as mensagens

28 julho, 2026

PEREIRA, Vaz -
PARA NÃO LER : quinze contos
. Porto,  Typ. a vap. da Emprêsa Litteraria e Typographica, 1908. In-8.º (17,5x11 cm) de [12], 188, [6] p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de pequenos contos de matriz sensual. Ao baptizar um livro de ficção "Para não ler", o autor faz uso da psicologia inversa para instigar a curiosidade do leitor. Ou talvez não...
Obra curiosa e muito interessante. Sem menção na BNP, ou qualquer outra fonte bibliográfica.
Exemplar muito valorizado pela extensa dedicatória manuscrita a Albino Forjaz de Sampaio... terminando com "offerece o Autor".
"Não leiam, minha senhoras, este livro. É apenas o producto fantasioso d'uma mocidade estouvada.
Não o leiam, mas comprem-o. Emfim, a impressão está feita e de nada vale o peccavi do meu arrependimento. O formato não é de todo feio, e com uma bôa lombada não ficará talvez mal na vossa estante. Com as folhas fechadas, póde apparentar d'um bom livro."
(Excerto de Ás mulheres)
"Era extraordinaria a condessa.
Tudo experimentava sem conseguir saciar a enorme sede de prazer que a devorava no intimo.
Já em creança partia com fastio as bonecas que tanto a seduziam nas vitrines dos bazares...
Cresceu. Como era rica, possuindo o grande realisador de todas as chimeras, nunca deixada de satisfazer o mais pequeno capricho, vindo logo o aborrecimento com o capricho satisfeito.
Não havia um só homem que a não incensasse de galanteios e homenagens nas festas em que aparecia e de que ella era a rainha sempre, pela belleza que irradiava, pela graça do seu sorrir, pela maneira do seu andar, pela finura do seu espirito e até pelos encantos estouvados da sua irrequietação. Achava os homens banaes na pautada ondulação das suas casacas e massava-se com o unctuoso dos seus requebros pensados. [...]
Tendo casado para experimentar a legalidade do amôr e os encantos d'um noivado com um homem que lhe indicaram, em breve detestou aquelle prazer a horas como a regra d'um convento. [...]
Queria sensações violentas, um amôr com sobresaltos e com perigos, porque lhe parecia que não podia ter apetite, tendo sempre na sua frente uma meza posta.
Teve um amante - o mais conceituado homem de espirito que frequentava o seu boudoir. Afinal na alcôva era banal como seu marido, e mesmo... cheiravam a tabaco os beijos que lhe dava.
(Excerto de Voluvel - I)
"Uma noite sahia da Traviata, e, ao canto da carruagem, pensava nos amores de Gautier. Interessou-se pelas copulas d'accaso e pelas cohabitações de momento. Talvez houvesse algum encanto nesta variedade d'amôr!
Chegou a casa. Havia uma hora que o conde tinha entrado e dormia nos seus aposentos. A noite estava linda. Um ar tepido e embalsamado entrava pelas janellas abertas. Os theatros tinham acabado e os clubs estavam desertos. Já se não ouvia o rodar das carruagens na calçada das ruas. Dentro em pouco a cidade dormia...
Só a condessa velou a noite toda, sentindo um desejo indefenido e vago.
Se pensava num homem louro, logo os morenos a captivavam, e queria ser apertada por uns braços musculosos e rijos que se tornassem depressa muito franzinos e debeis.
Apetecia as delicadezas d'um gentleman, mas ainda mais as brutalidades d'um rustico.
Queria experimentar tambem a variedade no amôr. Mas para saciar a irrequietação do seu espirito, era preciso que essa variedade igualasse a das paisagens que a vidraça d'um wagon encaixilha quando a locomotiva segue uma carreira veloz.
Sahiu de casa quando uma baça claridade já vagueva nas ruas, e, envolta num manton de Sevilha como uma andaluza que o ultimo tren tivesse trazido á gare, entrou na primeira casa onde na vespera vira, por entre as taboas verdes d'uma persiana, umas mulheres de labios pintados e com robes de percale."
(Excerto de Voluvel - II)
Indice:
[Ás mulheres] | Voluvel | Somnambula | A pastorinha | O mais amante | Lise Margot | Nos annos da Mimi | A encommenda | Condessa de Brives | Uma carta d'amor | O modelo | O perfume da duqueza | O morango | A virgem | Cartas mutiladas | A liga.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Extremidades da lombada apresentam pequena falha de papel.
Muito raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
Indisponível

07 junho, 2026

BOCAGE -
OLINDA E ALZIRA
. Lisboa, Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1915. In-8.º (18,5x12 cm) de 40 p. ; B.
Edição centenária das célebres Cartas de Olinda a Alzira.
'Romance-ensaio', invulgar e muito curioso, composto por sete epístolas.
Obra não relacionada na Biblioteca Nacional (BNP), revestida de capa belíssima, não assinada.
"O erotismo tem sido cultivado com alguma frequência na literatura portuguesa. [...]
As Cartas de Olinda a Alzira - que constituem um caso inédito na literatura portuguesa, pois são um relato das primícias sexuais de uma jovem, na primeira pessoa, como assinala Alfredo Margarido – por sua vez, são dadas à estampa nos finais do século passado com as precauções proverbiais: sem a menção da data, editor, local ou organizador.
Com o advento da República, a liberdade de expressão, grosso modo, foi uma realidade. Estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para a Guimarães Editores assumir a publicação de Olinda e Alzira, em 1915."
(Fonte: https://purl.pt/1276/1/erotismo.html)
"Diz-se que Cartas de Olinda e Alzira, romance epistolar em verso de Manuel Maria Barbosa du Bocage que circulou clandestinamente pelo país, é um dos primeiros manifestos feministas. Não seria de estranhar, já que este escritor pré-romântico, desaparecido há 200 anos, foi tido, no seu tempo, como personalidade escandalosa e pervertida e vítima de interdições, censura e abusos vários.
Cartas de Olinda e Alzira é a composição de que se parte para este espectáculo homónimo: proposta ética - e não de ocasião - mas, muito provavelmente, bizarra são cenas "pintadas” e, nelas, tudo o que parece, é. É mesmo! A tonalidade do espectáculo, como a do texto, é confessional e reproduz os movimentos do coração que sobem direitos "à nossa condição maravilhosamente corporal” (Montaigne). E, a título de justificação antecipada, citamos Bocage que dizia: "(...) instintos naturais se não são crime, como crime será narrar seus gozos?(...)"
(Fonte: https://www.tndm.pt/pt/eventos/detalhe.php?id=119)

"Que estranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr'ora hei sido!
Minhas vistas ao céu lânguidas se erguem,
E a mim propria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assoberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora
Sem que eu possa atinar a causa, a origem,
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.
Das mesmas sup'rioras a presença,
Que d'antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte; ignoro o que procuro;
Ah! minha cara! Os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.
"

(Epistola I - Olinda a Alzira)

"Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Precede ao fructo a flor já matizada,
Que fôra antes de flôr botão mimoso."

(Excerto de Epistola II - Alzira a Olinda)

"Quanto gratas me são as tuas lettras,
Querida Alzira! Ao coração me falas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtede tal, que apenas lidas
D'ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, prezada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos, mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a origem. [...]
Revela á tua amiga este mysterio
D'onde sinto prender o meu repouso.
Eu não exp'rimentava, o que exp'rimento:
Os meus sentidos todos alterados,
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas;
O coração no peito turbulento
Pula, bate com ancia estranhamente:
O sangue, pelas veias abrazado,
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do pezo da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d'antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D'outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lizos té'qui, mácula um brando pello,
Como o buço ao mancebo, é ave a pennugem.
Sobresalta-me d'homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vel-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos, que expressar me custa;
Amor... E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?"

(Excerto de Epistola III - Olinda a Alzira)

Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
50€

17 março, 2026

VASCONCELLOS, Henrique de -
A MENTIRA VITAL. Coimbra, Edição da Imprensa da Universidade, 1896 [capa, 1897]. In-8.º (22x14 cm) de XVI, 188, [8] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de contos, alguns históricos, outros fantásticos, como o encontro surreal entre um abade e o Tentador (Satan), outros ainda impregnados de erotismo, o que, na época, configuraria certo arrojo literário. Inclui ainda um capítulo dedicado aos touros de morte, e outro devotado a três cidades portuguesas: Coimbra; Aveiro; Viana do Castelo. Sete dos contos estão referenciados no Dicionário de Literatura Gay, 7.ª edição, Index, 2022. Relativamente a este assunto, no mesmo Dicionário, é citado António Fernando Cascais: "A Mentira Vital, [está] todo ele recheado de contos (A Elipse; Cerebrais; No Terraço; Eros Trágico; Alma a Penar; O Tentador e A Mentira Vital, que dá título ao volume) sumamente sugestivos do ponto de vista queer." 
Obra ecléctica, invulgar e surpreendente, impressa em papel encorpado.
O autor, assumidamente balzaquiano, no extenso prólogo defende-se das críticas e justifica a obra:
"Abominando os chamados realistas e em geral todas as coteries, sou um discipulo de Balzac. Outra coisa não deve ser o romance ou o conto, senão a analyse d'uma Alma ou d'um estado d'Alma, transitorio ou permanente.
Nos ligeiros contos que apresento ao leitor, em que ás vezes o pensamento parece ficar suspenso, não quis fazer outra coisa.
«Dizer o que vi, o que pensei, o que senti, na melhor prosa de que pude dispôr», foi esta a minha ambição, durante todo o tempo que gastei a escrever as paginas que vão seguir-se."
(Excerto do Prólogo - Isagoge)
"O abbade dormia na rude gruta, sobre um punhado de feno, quando lhe appareceu o Tentador, bello, supremamente bello; no seu olhar nadavam á mistura um grande orgulho e uma grande dôr.
O abbade dormia. Abertas as eclusas, o sonho voava para o peccado. Na noite rasgava-se uma aurora, onde elle via, o pobre santo, montões d'oiro, montões de soes a chamal-o. Caiam pedrarias, como chuvas, caíam oiros, toda a riqueza; levantavam-se palacios magnificos do solo, a recebel-o antre theorias deslumbrantes de raparigas batendo crotalos, antre theorias de escravos illuminando com archotes, firmes como estatuas. [...]
Ouvindo passos, o abbade abriu os olhos,
- Sonho!... sonho!... gemeu com infinita amargura, misturada com o prazer de não ter peccado.
- Dormes? O somno é um peccado, porque a Alma não está com Deus. Vagueia pelo mundo, ora subindo aos altos pincaros para cuspir o céu, ora descendo aos poços envenenados onde a Luxuria estreita os corpos, abraça as Almas. O teu espirito não vae pela escada que o pastor viu no céu, em peregrinação para Deus: erra pelos prados, onde cantaste outr'ora a belleza das cearas e os corpos alvos das ceifeiras...
O abbade crendo ser um anjo, pela belleza surprehendente, rojou-se, beijou-lhe os pés brancos e afilados.
- Perdoae-me, Senhor, perdoae-me! Sonhar não é peccado, porque a Alma está desarmada; se o Demonio vem travar batalha, qual o soldado que despertará? A Alma é então como um campo onde houve carnificina...
- Vês? retorquiu Satan. Emquanto dormias deixaste entrar em tua casa o ladrão..."
(Excerto de O Tentador)
Henrique de Vasconcelos (São Filipe, Cabo Verde, 1876 - Lisboa, 1924). "Diplomata, político, jornalista e escritor português, colaborador e amigo de Afonso Costa, deputado em várias legislaturas da Primeira República Portuguesa. Poeta decadentista, autor da Missa negra, foi Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta biblioteca.
Cabo-verdiano de nascimento, radicou-se cedo em Lisboa, desfrutando de prestígio literário em Portugal. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em legações e missões diplomáticas em vários países.
Com uma obra de temática europeia, foi autor, entre outras, das seguintes obras: Flores cinzentas, poesia (Coimbra, 1893); Os esotéricos, poesia (Lisboa, 1894); A Harpa de Vanádio, poesia (Coimbra, 1894); Amor Perfeito, poesia (Lisboa, 1895); A mentira vital, contos (Coimbra, 1897); Contos novos, contos (Lisboa, 1903); Flirts, contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e Sangue das rosas, poesia (Lisboa, 1912). Também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas O Branco e Negro (1899), Ave Azul (1899-1900), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920)."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado de conservação
Raro.
Indisponível

22 dezembro, 2025

A CEIA DOS CARDEAIS - Acto único
. [S.l.], [s.n.], [19--]. In-4.º (28,5x22,5 cm) de 15 f. ; B.
1.ª edição.
Paródia "erótica" à Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas. O diálogo dos religiosos e as descrições dos seus "feitos" carnais, inclui linguagem licenciosa. Trata-se do exemplar original desta peça, batido à máquina a duas cores. Título manuscrito na capa, sublinhado a traço ondulado. Desconhece-se o autor e data (primeira metade do século XX?), e se foi reproduzido em livro ou de outra forma.

"A acção passa-se em Roma

Personagens:

Cardeal Pipia......... Sugeito com voz de mulher
Cardeal Rufo..........Tipo com fumaças de valente
Cardeal Vigni......... Sugeito com modos aristocráticos

A cena representa uma sala bem mobilada com estilo e elegância. A um canto, uma estante de música e instrumentos. Ao abrir o pano, os Cardeais sentados à mesa, ceiam. Os fâmulos servem-nos de joelhos.

Rufo

Vem amanhã o embaixador francês?!...
É preciso acabar com isto de uma vez.
(Outro tom). A França é um país que em tudo se intromete.
E um sujeito qualquer lá da terra do [...],
Vem abusar de nós com lérias e com tretas.
Ora que se deixe disso e vá fazer [...]!

Vigni

E Roma o que é então?... É uma santa gente,
E onde uns figurões se [...] mùtuamente!
Têm os vícios fatais de Sadoma e Gamorra
E quer dar leis ao mundo! Olha que porra! 
Sabe dos Cardeais que postos em fileira,
Gosavam todos três levando na [...]?
Oh!... Houve um escândalo tal no Vaticano
Que ao ouvido chegou, do Papa soberano!
E o Papa respondeu: Êle é de censurar.
Mas o que está no meio... Ai!... Muito há-de gosar!
(Outro tom). Veja lá se em França existe êste deboche?
(Orgulhoso). A França é grande em tudo!...

Rufo - (Atalhando)

Até em fazer [...].

Pipia - (Conciliando)

Não se zanguem, Iminências, então?! A zanga tem os seus perigos
E eu não quero ver ralhos entre amigos.

Vigni - (A um fâmulo)

Porto Velho

Rufo

Madeira.
Em tudo a primeira.

Vigni

É Roma. Não negue a própria luz do dia.

Rufo

É filho de francês, por isso se agonia.

Pipia (Intervindo conciliador)

Então, deixem-se disso e vamos cear.
Não viemos aqui para para estarmos a altercar.
Na pândega, passar alegre, a vida tôda,
É a nossa divisa. O mundo que se [...]."

(Excerto da Peça)

Exemplar em brochura, preso por atilho, em bom estado geral de conservação. Capas ligeiramente oxidadas, apresentam pequenos cortes marginais.
Raro.
Peça de colecção.
Indisponível

20 setembro, 2025

GALLIS, Alfredo - A BAIXA.
Lisboa no Seculo XX. (A grande aldeia). Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1910. In-8.º (
19x12 cm) de [6], 394, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Curioso romance de costumes de cariz erótico. O autor, conhecido pela sua escrita sensual, descreve a baixa de Lisboa em tudo quanto esta pode oferecer de mau e repreensível, atentatória da moral e bons costumes da época, através dos "tipos" que a frequentam e habitam.
Obra invulgar e muito curiosa.
"Ha que explicar ao publico a synthese philosophica e sociologica d'esta obra, antes de entrarmos na sua contextura litteraria propriamente dita.
Ao raiar o dia 11 de Março do anno de 1910, dia em que começámos este trabalho, Lisboa, capital do reino de Portugal, tomada aos m ouros pelo primeiro rei portuguez D. Affonso Henriques, no anno de 1147, contando portanto sete seculos e sessenta e tres annos de existencia, é ainda, se a compararmos com as demais capitaes, do mundo civilisado, uma grande aldeia que d'essa civilisação mundial,  só tem um vago conhecimento pelo que lhe contam os donos das lojas de modas e chapeus para senhora, que annualmente vão a Paris e Londres fazer as suas encommendas e escolher os seus fornecimentos para a proxima estação de inverno.
Seria um erro grosseiro, chamar-se absolutamente civilisada, a uma capital europea, simplesmente porque ella possue tracção electrica, um theatro lyrico, meia duzia de avenidas desgraciosas e mal illuminadas, um tribunal da Boa Hora, que nem para servir de sentina publica está nos casos exigidos pela hygiene e decencia precisas, e alguns hoteis antiquados em locaes improprios a maioria d'elles aproveitando-se da velha disposição architectonica de quando a cidade foi reedificada depois do terramoto de 1755, ha seculo e meio!
Chamar-se franca e positivamente civilisada a esta capital, onde os garotos jogam a pedra pelas ruas, e os mendigos andrajosos e cobertos de vermes dia e noite assaltam os transeuntes, estendendo a mão á caridade publica como se usa nas estradas da Beira; onde no seu centro mais concorrido gira toda a noite uma legião de prostitutas, bandalhas da mais alta esphera, trocando entre si phrases obscenas, que chegam aos ouvidos de toda a gente, e servindo de materia de engorda para os cofres das multas policiaes; onde a gaitada semi-núa e devassa, risca a carvão as paredes dos predios, desenhando imagens eroticas e palavras indecentes... [...]
A vida da cidade é na baixa que circula com mais intensidade, n'esse acanhado peymetro que vae da rua das Pretas ao Terreiro do Paço, da rua dos Fanqueiros á praça de Camões. É n'elle que existem os theatros, os clubs, as lojas de modas, os hoteis, os restaurantes, os cafés, as tabacarias de luxo, as secretarias de estado, os tribunaes, o correio, os telegraphos, os templos elegantes, os ateliers de modista, os consultorios medicos de maior fama, as ourivesarias mais opulentas, as pastellarias da moda, os grandes magasins, Gran della e Armazens do Chiado; os dentistas de fama, os cabelleireiros e perfumistas, tudo emfim quanto chama a concorrencia e intensificação da vida de uma capital, á excepção dos banhos publicos,  que eram as casas de reunião dos romanos distinctos dos tempos de Nero e Tiberios."
(Excerto do Proemio)
Joaquim Alfredo Gallis (1859-1910). "Mais conhecido por Alfredo Gallis, foi um jornalista e romancista muito afamado nos anos finais do século XIX, que exerceu o cargo de escrivão da Corporação dos Pilotos da Barra e o de administrador do concelho do Barreiro (1901-1905). Usou múltiplos pseudónimos, entre os quais 'Anthony', 'Rabelais', 'Condessa do Til' e 'Katisako Aragwisa'. Desde muito jovem redigiu artigos e folhetins em jornais e revistas, entre os quais a Universal, a Illustração Portugueza, o Jornal do Comércio, a Ecos da Avenida e o Diário Popular (onde usou o pseudónimo Anthony). Como romancista conquistou grande popularidade, especializando-se em textos impregnados de sensualismo exaltado que viviam das «fraquezas e aberrações de que eram possuídas, eram desenvolvidas entre costumes libertinos e explorando o escândalo». Escreveu cerca de três dezenas de romances, por vezes publicados com o pseudónimo 'Rabelais'. Alguns dos seus romances têm títulos sugestivos da sensualidade que exploram, nomeadamente Mulheres perdidas, Sáficas, Mulheres honestas, A amante de Jesus, O marido virgem, As mártires da virgindade, Devassidão de Pompeia e O abortador. É autor dos dois volumes da História de Portugal, apensos à História, de Pinheiro Chagas, referentes ao reinado do rei D. Carlos I de Portugal."
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Aparado. Capa frontal apresenta pequenas falhas de papel no pé.
Muito invulgar.
45€

09 julho, 2025

GALLIS, Alfredo –
AS 12 MULHERES DE ADÃO.
Fantasia Biblica e Histórica através dos séculos. (2.ª edição). Lisboa, Casa Ventura Abrantes : Livraria Editora, [1927]. In-8.º (20x13 cm) de 303, [3] p. ; E.
Colecção de contos naturalistas de cariz erótico tendo por assunto, em sentido figurado, as mulheres de Adão, o "primeiro homem na Terra". São portanto doze as "degeneradas", alvo do trabalho do autor. Gallis "parte do pecado original de Eva para criar perfis de mais onze mulheres “pecadoras” através dos séculos, num arco temporal que vai da Roma antiga ao século XIX. Dos doze perfis, alguns são baseados em pessoas reais, como a romana Messalina (17-48) e a rainha Joana de Nápoles (1326-1382). Outros perfis são puramente ficcionais." (Mendes, Leonardo & Moreira, Aline, Alfredo Gallis (1859-1910), pequeno naturalista, Convergência Lusíada, Rio de Janeiro, 2021)
"Todos sabem que o amor transfigura o homem, adoça-lhe o caracter, burne-lhe o porte, alegra-lhe o espirito, rejuvenesce-lhe a alma e enflora-lhe de galas o coração, por mais duro e frio que elle seja.
O que o amor não consegue conquistar, cousa alguma existe no mundo que lhe tenha força e poder superiores. […]
E para que esse sentimento ao mundo viesse com os primeiros seres humanos, Adão apaixonou-se por Eva apenas se viu a sós com ella, e esse amor crescia dia a dia com a posse material da formosa mãe dos homens. Então o Paraiso duplicou de encantos á sua vista e a todos os seus sentidos!"
(Excerto de No Paraizo - Eva)
"Por uma noite fria e escura do anno de 1791, um homem de elevada estatura e apresentando robustez pouco vulgar, de grandes olhos negros e brilhantes, bocca desdenhosa e fresca como a de uma donzella, espessos cabellos pretos annellados e lustrosos, entrou rapido n'uma das tabernos mal afamadas de Londres, sentou-se a um canto, e pediu, brandy, emquanto sacudia a longa capa cinzenta que escorria agua por todas as suas amplas pregas.
A taberna achava-se atulhada de freguezes, caras m ais ou menos suspeitas, rufiões, trabalhadores do porto, operarios, marinheiros e vadios perigosos, que beberricavam, riam e falavam em voz alta... [...]
Uns dez d'estes frequentadores, que a policia vigiava de perto, faziam roda a uma rapariga dos seus dezoito annos, dotada de peregrina formosura, formosura pouco vulgar, rara mesmo, ainda nos seus menores detalhes.
Vestia pobremente, mas atravez a modestia do seu fato, descobria-se a s fórmas delicadas e correctissimas do seu corpo gentil. [...]
Os homens semi-embriagados, dirigiam-lhe amabilidades obscenas, e ella ria muito, sem se mostrar melindrada nem offendida.
Do seu canto, o homem da capa cinzenta observava-a fixamente."
(Excerto de Na Inglaterra e na Italia - Lady Hamilton)
Joaquim Alfredo Gallis (Lisboa, 1859-1910). "Jornalista, romancista, contista, tradutor e historiador, iniciou-se na imprensa, segundo várias fontes, no periódico As Instituições, em 1881 – assinou aí crónicas políticas e sociais, contos e poemas, com nome próprio e com um dos pseudónimos que mais usou (Rabelais).
Escreveu para periódicos de forma continuada (As Instituições; A Ilustração Portuguesa; O Universal; Tempo; Nova Alvorada; Ecos da Avenida; Jornal do Comércio; Diário Popular; O Manuelinho d’ Évora) ou episódica, como no Correio Paulistano, de São Paulo, de que foi correspondente em 1893, publicando as 
crónicas políticas "Correspondência de Lisboa", assinadas por Rabelais.
Dedicou-se aos romances naturalistas – escritos que evidenciariam a observação direta da natureza e a análise rigorosa das histórias dos homens sem rodeios nem abstrações. Entre 1901 e 1904, publicou os 12 volumes de Tuberculose Social, destinados a denunciar os vícios e males da sociedade. Como uma tuberculose podia atacar qualquer dos órgãos do corpo, também "a moral pode estar tuberculosa em qualquer das suas múltiplas e complexas manifestações" (Chibos, 1901, p. 9). Cabia ao escritor não só declarar aos doentes a sua enfermidade como demonstrar aos saudáveis as causas da doença e a sua quota-parte de responsabilidade na propagação.
Dedicou-se, também, aos romances sensualistas, licenciosos, eróticos e pornográficos, com representações e descrições explícitas de sexo, vendidos aos milhares e abundantemente noticiados na publicidade dos jornais (como "Livros para homens" ou "Biblioteca do solteirão"). Distinto jornalista e escritor afamado, estimado e ultrajado, reconhecido em Portugal e no Brasil, publicou cerca de 35 títulos. No Brasil saíram volumes de contos eróticos e muitas livrarias brasileiras possuíam uma categoria chamada "Obras de Rabelais". Mais de uma dezena de obras estiveram proibidas durante o Estado Novo. Além de Rabelais, usou como pseudónimos Antony, Barão de Alfa, Condessa de Til, Duquesa Laureana, Kin-Fó, Ulisses e Katisako Aragwisa. Em 1908, aos 49 anos, publicou o primeiro de dois volumes que continuavam a 3.ª edição da História de Portugal. Popular e Ilustrada, de Pinheiro Chagas, a quem chamava “mestre” (já continuada por Barbosa Colen e Marques Gomes). Para escrever a quente sobre o regicídio, a editora tinha escolhido "um escritor brilhantíssimo na forma, ponderado nas ideias, independente e, portanto, imparcial em política, homem que tem o braço afeito a publicações desta ordem" (História de Portugal (Complemento)…, p. 6)."
(Fonte: Dicionário de Historiadores Portugueses - Da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo)
Encadernação inteira de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Mancha de humidade no pé, mais ou menos visível, mas transversal a todo o livro. Capa restaurada. Dedicatória manuscrita - não do autor - na f. ante-rosto.
Raro.
Indisponível

16 maio, 2025

CAMARA, A. Freitas da -
COSTA DO SOL : Romance Rialista
. Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, [1932]. In-8.º (18,5x13 cm) de 346, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Capa belíssima assinada por Alfredo Cândido (1879-1960), conhecido ilustrador limiano.
Curioso romance, levemente erótico para os padrões da época, o suficiente para, sujeito à censura do Estado Novo, ser proibido de circular. Posteriormente, em 1933, Freitas da Câmara viria a publicar o romance Vampiro lúbrico : estudos literário-sexuais, que, tal como este, foi banido pelo regime.
Obra invulgar e muitíssimo interessante.
"Ás oito e meia, como de costume, a Leonor bateu levemente á porta do quarto de Maria Luisa. Não obtendo resposta, voltou a bater as tres pancadinhas habituaes com os nós dos dedos, a inquirir:
«Posso entrar, menina?»
De dentro, a voz musical de Maria Luisa preguntou, com aquela intonação propria de quem acaba de ser despertada de improviso;
«Quem é?»
«Sou eu, menina. São horas do pequeno almoço,» voltou a dizer a Leonor.
«Ah. Entra.»
A criada deu a volta ao fecho da porta e penetrou no aposento imerso em quasi completa escuridão. Distinguiam-se vagamente os objectos que adornavam aquele lindo aposento de mulher: o mobiliario de estilo, o lavatorio a um canto onde abundavam os sabonetes de boa marca, o psyché repleto de frasquinhos de capitosos perfumes, a escrivaninha, tudo disposto com muita arte e indiscutivel bom gosto.
ALeonor deu os bons dias e, pousando numa mesinha de centro a salva com a chicara de café com leite que fumegava e as torradas macias e tépidas, dirigiu-se á janela e abriu as portas de madeira.
Um jorro de luz barnca, coada pelos cortinados de tule penetrou no quarto onde flutuva um indifenivel perfume, grato á narina, de essencias de preço e de cheiro a carne feminina bem cuidada."
(Excerto de I - Virgindade inquieta)
"Deitada na chaise, a fumar com volupia uma cigarrilha turca, Maria Luisa lia atentamente a secção «Praias e Termas» do jornal.
Um dos pés descançava sobre o tapete emquanto o outro, apoiado no rebordo do movel, brincava indolentemente com a sapatilha suspensa pelas pontas dos dedos.
A tarde estava quente o que a forçava a afastar as bandas do pijama para refrescar a pele, afogueada a despeito da caricia fresca do sedoso tecido.
Crusou as pernas, ageitou-se melhor na posição horisontal em que estava e pousou o jornal sobre o joelho saliente; em seguida poz-se a observar com curiosidade o movimento ascensional do fumo do seu cigarro até deter a vista num ponto fixo do tecto. Meditava em que praia ou estancia termal lhe conviria veranear nesse ano, parecendo-lhe sentir uma inexplicavel inclinação pelo Estoril.
No ano anterior estivera na Figueira da Foz. Não voltaria lá tão cedo.
Das restantes localidades que a gente chic habita na época calmosa eram-lhe familiares a Curia, o Bussaco, Vila do Conde, a Nazare e outras estancias de verão mais ou menos atraentes desde os tempos em que o papá ia a Vizela todos os anos para as suas massagens mercuriaes. De forma que hesitava na escolha."
(Excerto de II - Meditações)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação.
Raro.
Indisponível

07 janeiro, 2025

BOISSIER, Dr. Henri - GERAÇÃO E FECUNDAÇÃO. Os vicios no amor. 
[Pelo]... Da Academia de Medicina de Paris
. Lisboa, João Romano Torres & C.ª : Editores, [191-]. In-8.º (18 cm) de 35, [1] p. ; B. Biblioteca Scientifica Sexual, N.º 2
1.ª edição.
Interessante trabalho saído da pena do portuguesíssimo Henrique Marques, autor de diversos trabalhos de índole médico-sexual publicados sob a capa do pseudónimo Henri Boissier, via escolhida para a divulgação destes temas - "sensíveis" na época.
"É certo que os primeiros gosos do amor augmentam a energia do systema circulatorio do sangue e por isso mesmo, os vasos ãrteriaes levam mais calor e mais vida a todas as partes do corpo.
A satisfação dos desejos e das necessidades a que conduz a união dos sexos dá egualmente uma nova disposição ás faculdades intellectuaes.
A donzella, ha pouco timida, torna-se desembaraçada; a timidez transforma-se-lhe em confiança e até em audacia no desejo; os movimentos são mais livres, o andar mais medeiado, na conversação, a voz é menos incerta, sonora e, emfim, todo o porte se apresenta mais resoluto. [...]
A satisfação dos sentidos e o prazer material que d'ahi resulta são apenas o meio que a mulher emprega para chegar ao termo completo, ao objecto exclusivo de todas as suas vistas - a reproducção da especie.
Ser mãe, eis a aspiração suprema de toda a mulher!"
(Excerto do Cap. II, Segredos da Fecundação)
Sumario:
I - Destino dos sexos. II - Segredos da Fecundação. A concepção. - III - A fecundação. IV - Influencia do estado physico sobre a fecundação. V - Previsões dos sexos (Determinismo sexual).
Exemplar em brochura, por aparar, bem conservado. Sem capas. Deve ser encadernado.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
30€

19 março, 2024

CÂMARA, Alberto Freitas da - VAMPIRO LÚBRICO : romance.
Estudos literário-sexuais. 1.º milhar
. Lisboa, Livraria Minerva, [1933]. In-8.º (20 cm) de 310, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Romance de costumes "ousado" para a época cujo tema principal são "os amores de um militar com uma ninfomaníaca".
Proibido de circular pela censura do Estado Novo.
Obra encapotada pelo tema do vampirismo, fórmula escolhida pelo autor para fugir ao rótulo "erótico", e à mais que certa condenação do censor, de que aliás não viria a escapar. Raro e muito curioso.
"O problema sexual, que tanto preocupa os pensadores e todo o mundo, não é, como muita gente de escassa mentalidade admite, um assunto «proibido», que tenha, necessariamente de revestir aspectos «pornográficos».
Um livro de índole sexual, seja êle um estudo literário, clínico ou filosófico, será «escabroso» visto que aborda questões que uma educação viciada, plètórica de preconceitos tolos, , decretou como «vedadas» justamente àqueles a quem convinha elucidar; mas, de «escabroso» a «pornográfico» vai um abismo, porque só é pornográfica a obra que use e abuse de termos ofensivos da decência, dêsses termos que sujam a pena de quem escreve e os lábios de quem lê. [...]
O assunto é vasto e complexo e de uma envergadura tal que pode ser estudado sob quatro aspectos diferentes: clínicos, social, filosófico e literário.
Por mim, não sendo médico, sociólogo ou filósofo mas sim romancista, só me interessam, por agora, os efeitos literários que é possível extrair dêsse magno problema."
(Excerto do Introito)
"«Balcão ou Platéia... Ao preço da casa, cá está Balcão ou Platéia...» aprgoávam os contratadores, em voz vibrante, por entre os devotos do écran que iam chegando, escoando-se para o vestíbulo do São Luiz Cine.
Aglomerávam-se os taxis perto da porta principal do elegante cinema de mistura com as conduites de luxo num buzinar ensurdecedor, a reclamar um avanço impossível para sob o alpendre iluminado onde um magote de jovens monoculados fazia a habitual sessão de pose."
(Excerto do Cap. I - A dama da frisa)
Índice:
Introito. | I - A dama da frisa. II - Feitiço de dois olhos. III - A cigana fatal. IV - Un galant monsieur. V - Questões de cifra... VI - Similia Similibus... VII - Chá das cinco. VIII - Uma deliciosa excursão... IX - Duas tempestades. X - Para o salvar. XI - Uma hora de martírio. XII - Um sonho que se desfez. XIII - Luz nas trevas. XIV - Mistério aclarado. XV - Carta de França. XVI - Em paz serena.
Belíssima encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Preserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Aparado, carminado no corte superior.
Raro.
Indisponível

23 janeiro, 2024

A TESÃO DO REI TURCO.
Poema inédito, muito cândido e delicado para marcar presença na nossa reunião de 1977 - CURSO DA F.E.U.P. : De 1941. [S.l.], [s.n.], [1977]. In-8.º (16x10,5 cm) de [18] p. (inc. capas) ; B.
1.ª edição.
Paródia dos alunos da Faculdade de Engenharia da UP - assinado "O." - composto por um poema de teor hard erótico em 54 estrofes, seguido de posfácio, também em verso.
Exemplo do tipo de "literatura estudantil" produzida nos primeiros anos pós-25 de Abril de 74.
Exemplar batido à máquina e fotocopiado.

"Em tempos idos, já remotos
Lá nos orientes ignotos
Reinou um tal Kemal Omar
De quem as tradições e lendas
Que contam guerras e contendas
Nos dizem coisas de pasmar

Bem nascido e mui desejado
Dum califa desanimado
Por não ter um filho varão
Sua favorita mais quente
Por milagre ou outr' agente(?)
Deu-lhe um lindo rapagão"

(I/II)
 
"Não me conhecias a veia. Nem eu!
Foi tontice que me deu
Se gostaste não me envaideças
Não repito nem que me peças
Se não gostaste não me grites
O teu perdão e ficamos quites
Eu não quiz suplantar Camões
Não me venhas, pois, com sermões
Porque então dessa maneira
É tu que ofuscas Vieira."

(Excerto do posfácio)

Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro e muito curioso.
Sem registo na BNP.
35€

07 outubro, 2023

VIEIRA, João -
OS AMORES DE D. JUAN.
Extracto do immortal poema de Lord Byron. Por... Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron : Braga, Livraria Internacional de Eugenio Chardron, 1875. In-8.º (18,5x12 cm) de 135, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Versão livre da vida aventurosa de D. Juan, em prosa, a partir do conhecido poema de Byron. É muito curiosa esta variante de João Vieira, de certo modo irónica e levemente sensual para os padrões da época. O episódio do "fantasma" inglês, propicia a incursão do fantástico (e erótico) na trama.
"Don Juan é um poema satírico de Lord Byron, baseado no mito de Don Juan, que o autor subverte, tratando de descrever Juan não como um conquistador cruel e insaciável (como foi considerado nas interpretações anteriores do mito, por exemplo, em Molina, Molière ou Mozart), mas como um homem facilmente seduzido pelas mulheres, que é lançado nos braços delas pela força das circunstâncias e vicissitudes do destino."
(Fonte: Wikipédia)
"Apenas sahido do berço, viu-se D. Juan orphão de pai, senhor d'uma boa fortuna e confiado aos cuidados e tutela de D. Ignez, sua mãi.
Como a mais sabia das mulheres e das viuvas, quiz esta fazer de Juan um verdadeiro prodigio, digno em tudo de seu alto nascimento; quiz que este possuisse todos os dotes d'um cavalleiro, na hypothese do rei nosso senhor querer de novo fazer guerra.
Aprendeu pois a montar a cavallo, a jogar as armas, a escalar uma fortaleza ou um convento de freiras."
(Excerto de - Primicias d'amor)
Índice:
Primicias d'amor | O naufragio infeliz | O escravo-senhor | O valido da imperatriz Catharina | O phantasma amoroso.
Encadernação em percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito raro.
A BNP menciona o livro com a indicação "sem informação exemplar".
Indisponível

01 setembro, 2023

BRAGA, Victoriano -
OCTÁVIO : peça em três actos. Representada pela primeira vez, em 1916, no Teatro Nacional Almeida Garrett. Lisboa, J. Rodrigues & C.ª, 1927. In-8.º (19,5x13 cm) de 111, [5] p. ; B.
1.ª edição.
Edição original desta peça, talvez a obra mais discutida do autor pelo escândalo que alcançou na época, dada a sua forte componente sensual e erótica.
"Uma sala não muito grande, luxuosíssima. Porta de arco ao fundo, comunicando com o jardim de inervo; à direita, uma porta larga, coberta de um reposteiro de armas, que dá para o salão de baile. Mobília rica e de muito bom gôsto; pelas paredes, retratos a óleo de antepassados ilustres. - A scena não deve estar muito iluminada. Ouve-se o sexteto  antes do pano subir.
Há baile no palácio. É ao comêço da festa, que decorre ainda com intimidade, vendo-se já alguns convidados no jardim.
Gil, de pé, conversa com Octávio, que se tem estirado com elegância num sofá, entre almofadas, à direita da scena. - Octávio, sendo o mais corecto possível, deve no entanto deixar perceber, excepto para com Gil, a grande diferença que está persuadido existir entre si e todos."
(Excerto do Acto Primeiro)
Vitoriano Braga (1888-1940). "Dramaturgo, tradutor e crítico de teatro. Ginasta de mérito, introduz o futebol amador entre nós. Faz moda. Como fotógrafo amador, retratou Guerra Junqueiro e Fernando Pessoa, para além dos nus de Almada. A sua escassa produção de teatro assenta numa construção convencional, mas eficaz, do enredo e insere-se na linha naturalista de análise psicológica e crítica social. As primeiras peças, escritas entre 1908 e 1918, foram representadas pela Sociedade Artística, companhia residente do Teatro Nacional: A Bi (escrita em colaboração com J. Vasconcelos e Sá) em 1911, Octávio, em 1916, e O Salon de Madame Xavier, em 1918. Na década de 1920 estreia, no Teatro Politeama, A Casaca Encarnada (1922), produção da Companhia de Lucília Simões, com cartaz de Almada Negreiros; no mesmo teatro representa-se, em 1926, a comédia dramática Inimigos, escrita no ano anterior, protagonizada por Ilda Stichini e Raul de Carvalho. Entre outras peças, menos destacadas pela crítica, contam-se Lua-de-Mel (Teatro do Ginásio, 1928) e O Conselho da Noite (Chiado Terrasse, 1932).
Com Octávio inicia-se um dos motivos caros ao teatro de Vitoriano Braga, o casamento de conveniência. Não foi, porém, este motivo que dividiu opiniões e provocou uma reacção desfavorável da crítica e a breve carreira do espectáculo. O tema da peça resulta da sua forte componente erótica, desenhada em Octávio e Graça, e nele especialmente: dandy, músico e doente - o actor deve «deixar perceber […] a grande diferença que está persuadido existir entre si e todos» (rubrica do I acto) -, que lembra motivos anteriores do esteta, até na blague, e antecipa traços do singular decadentismo dos anos de 1920 na homossexualidade discreta mas evidente e na exaltação do artista. Octávio não é, porém, um tipo, como acontece a muitas figuras do teatro de Vitoriano Braga; a complexidade desta personagem insinua-se no ambiente, nas palavras como nos silêncios, na música de cena, onde o sexteto para o baile do I acto contrasta com a pequena peça para órgão «com uma melodia de sabor gregoriano» expressamente escrita por Luís de Freitas Branco (Alexandre Delgado, Ana Teles e Nuno Bettencourt Mendes, Luís de Freitas Branco, Lisboa: Editorial Caminho, 2007) talvez para o final do II acto.
A obra foi apreciada por Fernando Pessoa, que se propunha editá-la na Olisipo (c. 1922), com A Casaca Encarnada e O Milagre. Para além disso, Octávio foi motor do ensaio «Sobre o Drama». Na reflexão sobre o ideal dramático da modernidade, afirma: «é no campo da intuição psicológica, no conceito do psiquismo individual, que a cultura científica produziu, na mente do dramaturgo, porque na de toda a gente culta, resultados novos e notáveis. […] Para mim, o valor capital do drama Octávio, o que o torna, a meu ver, notável entre a multidão nula das peças modernas, seja de que nação forem, é que, por acção [de] um seguro instinto, ele é orientado exactamente no sentido que a cultura moderna impõe como o caminho do dever artístico.» (Páginas de Estética, p. 87)."
(Fonte: https://modernismo.pt/index.php/v/794-vitoriano-braga)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Rubrica de posse na f. rosto.
Raro.
Com interesse histórico.
25€

22 agosto, 2023

GALLIS, Alfredo -
MULHERES PERDIDAS.
(Segunda edição). Tuberculose Social. III. Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, 1931. In-8.º (19x12 cm) de 291, [5] p. ; B.
Romance-ensaio de cariz erótico, o 3.º de 12 da série "proscrita" naturalista Tuberculose Social.
Obra enriquecida com o excelente proémio onde Gallis - autor "maldito" - faz o balanço (pouco animador) da prostituição - o tema do livro - e do cinismo e falsa moralidade com que esta questão era abordada pela sociedade da época, no final do século XIX/princípio do século XX.
"Se a civilisação não fosse uma estrella luminosa que ainda se encontra a biliões de leguas de distancia da realidade pratica da vida das sociedades terrestres, de ha muito que a prostituição teria deixado de existir, como um dos vilipendios e ignominias que mais rebaixam e envergonham os povos cultos, e mais profundamente ferem e offendem o natural respeito que se deve á mulher."
(Excerto do Proemio)
"A lua vinha arrastando o seu disco de prata sob a profundez do ceu constellado, d'uma immaculada pureza limpida, e ao longe, lá muito ao longe, sentia-se o latir dos cães guardadores dos casaes, emquanto as ultimas luzes da casaria do logar se iam apagando umas após outras, é proporção que os seus habitantes se recolhiam aos leitos.
Sómente a fumarenta candeia do Serafim Trigoso se conservava ainda accesa, derramando o seu baço clarão avermelhado nos rostos rudes e grosseiros dos bebedores retardatarios. [...]
O relogio da ermida, presente do fallecido morgado, bateu as onze horas com um som cavo e pausado, que se foi diluindo no espaço, até morrer suffocado entre o frondoso arvoredo da montanha.
Então abriu-se uma pequena portinha pintada de verde, que existia na ala direita do palacio, e um vulto de homem, de alta estatura, embrulhado n'um capote escuro e com largo chapeu derrubado para os olhos, sahiu para a rua e parou um momento a examinar tudo quanto o rodeiava. [...]
O homem tomou a direcção do olival que existia por detraz da casa, e a passo largo e seguro, atravessou-o em toda a sua extensão. Cortou á esquerda, que percorreu na distancia de uns duzentos metros e entrou no estreito carreiro que ficava á esquerda.
Ao fim d'este existia uma sébe.
Sem hesitar saltou-a, e penetrou em terreno cultivado de propridade particular.
Chegado ali parou. Decerto que esperava alguem.
Essa pessoa appareceu dentro em pouco.
Era uma mulher de fórmas avantajadas, que se lhe dirigiu pressurosa.
- Julgava que não viesse hoje, exclamou ella.
- Porque?
- Porque o luar tem estado muito claro.
- Para te abraçar e beijar, respondeu elle apertando-a nos braços, viria, ainda mesmo que o sol rompesse de repente.
Ella sorriu-lhe, deixando vêr a fieira preciosa dos dentes alvissimos emergindo d'entre uns labios frescos e carminados."
(Excerto do Cap. I)
Joaquim Alfredo Gallis (Lisboa, 1859-1910). "Jornalista, romancista, contista, tradutor e historiador, iniciouse na imprensa, segundo várias fontes, no periódico As Instituições, em 1881 – assinou aí crónicas políticas e sociais, contos e poemas, com nome próprio e com um dos pseudónimos que mais usou (Rabelais).
Dedicou-se aos romances naturalistas – escritos que evidenciariam a observação direta da natureza e a análise rigorosa das histórias dos homens sem rodeios nem abstrações. Entre 1901 e 1904, publicou os 12 volumes de Tuberculose Social, destinados a denunciar os vícios e males da sociedade. Como uma tuberculose podia atacar qualquer dos órgãos do corpo, também “a moral pode estar tuberculosa em qualquer das suas múltiplas e complexas manifestações” (Chibos, 1901, p. 9). Cabia ao escritor não só declarar aos doentes a sua enfermidade como demonstrar aos saudáveis as causas da doença e a sua quota-parte de responsabilidade na propagação.
Dedicou-se, também, aos romances sensualistas, licenciosos, eróticos e pornográficos, com representações e descrições explícitas de sexo, vendidos aos milhares e abundantemente noticiados na publicidade dos jornais (como “Livros para homens” ou “Biblioteca do solteirão”).
Distinto jornalista e escritor afamado, estimado e ultrajado, reconhecido em Portugal e no Brasil, publicou cerca de 35 títulos. No Brasil saíram volumes de contos eróticos e muitas livrarias brasileiras possuíam uma categoria chamada “Obras de Rabelais”. Mais de uma dezena de obras estiveram proibidas durante o Estado Novo. Além de Rabelais, usou como pseudónimos Antony, Barão de Alfa, Condessa de Til, Duquesa Laureana, Kin-Fó, Ulisses e Katisako Aragwisa.
Em 1908, aos 49 anos, publicou o primeiro de dois volumes que continuavam a 3.ª edição da História de Portugal, Popular e Ilustrada, de Pinheiro Chagas, a quem chamava “mestre” (já continuada por Barbosa Colen e Marques Gomes). Para escrever a quente sobre o regicídio, a editora tinha escolhido “um escritor brilhantíssimo na forma, ponderado nas ideias, independente e, portanto, imparcial em política, homem que tem o braço afeito a publicações desta ordem” (História de Portugal (Complemento)…, p. 6). 
Autor de uma narrativa laica, antimilitarista, liberal e nacionalista, inscreveu-se numa elite lisboeta de funcionários e jornalistas cultivadores de múltiplos géneros textuais. Fino observador da cidade – A Lisbonolândia, “capital do país dos Papa-Moscas” (Os Selvagens do Ocidente, p. 8) –, pisou o terreno de políticos e decisores, coristas, atores e ladrões comuns, sob o fundo de uma multidão pobre e analfabeta, em torno da qual, e por entre as “brumas de uma selvajaria inaudita onde por todo o país campeia o assassinato, o estupro, a embriaguez, a vingança política pessoal, o clericalismo boçal e reacionário, e as romarias a vários oragos de parva invocação” (Idem, p. 8), tinham decorrido os 19 anos de reinado de D. Carlos."
(Fonte: Henriques, António - Dicionário de Historiadores Portugueses : Da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo, BNP, s/d)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos. Capa apresenta pequeno rasgão (sem perda de suporte) à cabeça.
Muito invulgar.
20€

24 junho, 2023

LAFOREST, Dubut de - A MENINA DE MARBEUF. Traducção de Domingos Cabral de Quadros. Lisboa, "A Editora", [1909]. In-4.º (23 cm) de 151, [1] p. ; il. ; B. Col. Os Ultimos Escandalos de Paris: Grande romance dramatico inedito - XXXII
1.ª edição.
Romance de costumes, levemente erótico, publicado na primeira década do século XX.
Livro ilustrado com bonitos desenhos ao longo do texto.
"Emquanto o bello Arthur vive feliz e contente com as infidilidades conjugaes da Mome-Réséda, sua esposa, e a condessa d'Esbly, a menina Olga Lagrange e Lady Fenwick, esperam pela hora da justiça, nós vamos fazer entrar em scena, uma outra virgem - mas esta é uma rebelde.
Quando o conde Roberto de Marbeuf, uma das honestas victimas do krack, se decidiu ir para longe tentar fortuna no negocio dos diamantes, a duqueza de Torçy acceitou de alma e coração o encargo de tomar conta da sua sobrinha Christiana, filha unica do conde, que ficara sem recursos e sem protecção. A senhora de Marbeuf, uma princeza russa de sangue imperial, cujo casamento morganatico foi um verdadeiro acontecimento parisiense, acabava de se sacrificar para pagar as dividas do marido."
(Excerto do Cap. I - A cilada)
Índice:
I - A cilada. II - Occupemo-nos do fidalgo aventureiro. III - Idyllio. IV - Primo e prima. V - O paraiso do amor. VI - O capitão Raymundo de Pontaillac.
Jean-Louis Dubut de Laforest (1853-1902). Escritor francês. Autor prolífico, publicou vários romances sobre assuntos considerados ousados na época, alguns como folhetins em jornais e revistas.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa apresenta pequeno rasgão marginal sem perda de suporte.
Raro.
25€