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30 outubro, 2026

TRANCOSO, Francisco -
A VERTIGEM DO INFINITO : non nova sed nove
. Lisboa, Tip. da Biblioteca Nacional, 1921. In-8.º (21,5x16 cm) de [4], 122, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Capa belíssima assinada F. Valença - Francisco Valença (1882-1862), conhecido ilustrador e caricaturista português.
Romance "estranho", intenso, levemente erótico, em que o amor e a morte andam de braço dado.
O lema latim em subtítulo - non nova sed nove - significa "não coisas novas, mas de uma forma nova".
Obra rara e muito curiosa, sem referências bibliográficas, incluindo a BNP que não menciona. Esta dá conta de um Francisco Xavier Peres Trancoso, que tem recenseados 4 livros na sua base de dados, publicados entre 1913 e 1920, todos não ficção. Em todo o caso, talvez seja a mesma pessoa, dada a ligação deste à aviação - que dava os primeiros passos em Portugal - tema caro ao autor e recorrente no livro.
"- Daisy, Daisy, lá vem a Aguia! e estendendo o braço branco e serpentino, Maria Eduarda apontava para um ponto negro, que se destacava nitidamente no esplendor do azul.
Sobre o terraço o seu corpo esbelto, e elastico, dominava todo o valle obscuro. Era a hora doce que antecede o crepusculo, quando sol mergulha em resplendores de oiro, álem cristas das montanhas que se vestem de lilaz, para os ritos da noite... Uma aragem leve, o halito fresco que acompanha a morte do dia, fazia ramalhar as leguas de pinhal que lhe corriam pela encosta, sob os pés pequeninos e preciosos... [...]
- Meu Deus, meu Deus, como tremo! - e o seu braço, apoiou-se no hombro da ingleza. No rosto claro, passou-lhe um rictus de angustia. Os seus grandes olhos castanhos e limpidos, não despregavam da machina voadora, que já se fazia ouvir muito longe.
Maria Eduarda era alta, gracil e loira. A sua linda cabeça era uma tempestade de oiro, emoldurando a testa pequenina, branca, lisa e firme. Sob a pelle translucida, via-se-lhe o azulado fins das veias, onde corria um sangue ardente e nobre.
Maria Eduarda de Foyos e Menezes, era filha do Morgado de Quintans, que após a morte de sua mulher abandonara a rigidez simples da vida das Beiras e retirara para Paris, onde levara a grande e requintada vida, dos que teem nervos afinados para sentir os mais belos e raros gosos da existencia. [...]
Nesta atmosphera crescera Maria Eduarda, entre os cuidados d'uma institutrice fria, e as lições apuradamente artistas de seu pae. D'ele herdara a alma altiva, e a acuidade nervosa, dos gulosos da sensação..."
(Excerto do Cap. I)
Francisco Xavier Peres Trancoso (1877-1952). "Nasceu em Paço de Arcos em 1877. Concluiu o curso de maquinista na Escola Naval. Como Oficial da Armada prestou serviço no Ultramar (Índia, Macau) e no Japão, o que lhe permitiu contactar e descrever diferentes povos e culturas. Foi sócio correspondente Academia de Ciências e o do Instituto de Coimbra. Professor da Escola Naval e da Escola Auxiliar de Marinha. Em 1914 presidiu à comissão técnica do Centro Nacional de Aviação (Pires, 2020: 977-978). Em 1918 ascendeu ao posto de capitão-tenente. Na política, Peres Trancoso foi eleito deputado do Partido Republicano Português (PRP), pelo círculo de Arganil, em 1915. E sem ser um parlamentar pouco interventivo, apoiou a intervenção portuguesa na Grande Guerra, integrando a Comissão Promotora da Mobilização Agrícola (Diário da Câmara dos Deputados (DCD), 9.3.1917). Em 1919, após o sidonismo, não foi reeleito deputado, mas tornou-se membro substituto do Directório do PRP (Diário de Notícias, 28.10.1919; O Século, 30.10.1919). Fez também parte da Comissão Executiva da Conferência de Paz, cujas atribuições principais eram a “recolha de informações e a elaboração dos documentos informativos necessários para a participação portuguesa no Tratado de Paz” (Diário do Governo (DG), Lei n.º 857, 22.8.1919)."
(Fonte: Leal, Pedro - Francisco Peres Trancoso e o Comissariado Geral dos Abastecimentos (1920-1922). História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 14 nº 1 2024. 285-307.)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
85€

25 outubro, 2026

AMARAL JÚNIOR, João - A SECRETA MISSÃO DE ANA VLADIA : romance-documentário
. Lisboa, João Romano Torres & C.ª : Livraria Editora, [1935]. In-8.º (19x12 cm) de 242, [14] p. ; B.
1.ª edição.
Capa belíssima assinada por Ramos Ribeiro (1888-?).
Romance histórico de espionagem entre guerras. Trata-se do sétimo (e último) volume da estimada Colecção Dramas da Espionagem, obra da autoria de João Amaral Júnior, que assina os romances anteriores WW1 com o pseudónimo George Lody. A acção do presente decorre no período pós Grande Guerra, quando Hitler assume o poder na Alemanha.
"Max Dulmine - matricula 93 - chegou finalmente a Paris... Caía a tarde quando entrou no gabinete privado do seu chefe, o coronel do Estado Maior francês, Ernesto de Vilancourt.
Achou-o num mar de papeis. Com os dedos magros e ageis numa dubadoura, uma chavena de chá a fumegar a seu lado, o monóculo a reluzir - trabalhava activamente... [...]
Dulmine alisou o cabelo despenteado e sentou-se numa cadeira que puxou para diante da secretária.
Mais sereno, Vilancourt estendeu-lhe por cima do tinteiro de prata a cigarreira aberta.
Sem proferir palavra, Max serviu-se; bateu o cigarro e acendeu-o.
Depois, na sua atitude autoritária,  queimando tambem um cigarro e desentalando o monóculo para logo o segurar melhor, o oficial atirou uma pergunta:
- Então?
- Recebeu o meu telegrama?
- Recebi.
Matricula 93 relanceou um olhar inquieto pelo gabinete.
- Posso falar?
-À vontade - disse Vilancourt após deitar um olhar à porta, que Dorteill fechára silenciosamente."
(Excerto de I - «Se quizerdes a paz, preparai a guerra!»)
"Quem era ao certo esta heroína loira que se chamava Ana Vladia?
Sabia-se que viera de Moscou, fugida numa caravana de exilados e que chegára a Paris no inverno de 1918. Dado o golpe de estado Lénine-Kerensky, participara no grande exodo de perseguidos pelas tropas revolucionárias do exercito vermelho.
Filha duma familia burguêsa, Ana vivera desde criança sósinha com seu pai, czarista ferrenho, dedicado oficial do imperador - e habitavam em Moscou, quando maximalistas e soldados do governador travaram entre si sangrentas batalhas. [...]
Fugindo à prisão e ao morticínio tinham feito a debandada trágica; mas, ao aproximarem-se de Paris, o antigo capitão, já muito doente, e molestado pelos solavancos de viatura, falecera.
Vladia viu-se então sósinha, a braços com a miséria. Passou fome para defender a sua dignidade."
(Excerto de II - Ana Vladia)
João dos Santos Amaral Júnior (Lisboa, 1899 - ?). "Tal como Guedes do Amorim e Rocha Martins, não concluiu qualquer curso superior, sendo exemplo de mais um autodidacta de sucesso que colaborou com a Romano Torres. Estreou-se antes dos 20 anos com o romance A ladra (1920), seguindo-se em 1923 novo romance intitulado Direito de viver com prefácio de Manuel Ribeiro. O Dicionário Universal de Literatura atribui ao bom acolhimento que teve destas primeiras obras o impulso que o levou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Embora não tivesse sido jornalista, colaborou enquanto crítico literário com o jornal A República e dirigiu o quinzenário Novidades Literárias.
Curiosamente, o Dicionário Universal de Literatura aponta o seu pseudónimo George Lody como sendo autor da «tradução livre» de alguns escritores estrangeiros, indicando como exemplos disso mesmo as obras Legião maldita, Rússia negra, Sentinelas dos mares, Braseiro ardente, Soldado da sombra e Espiões da Paz. Há clara confusão, visto que é o próprio João Amaral Júnior que se apresenta como tradutor de um alegado autor francês de nome George Lody, afinal seu pseudónimo. Este caso foi desconstruído por Maria de Lin Sousa Moniz no seu ensaio «A case of pseudotranslation in the Portuguese literary system». No entanto, o verbete do Dicionário Universal de Literatura, publicado em 1940, serve de exemplo para a confusão que à época havia relativamente à pseudotradução (Amaral Júnior não foi o único na Romano Torres, veja-se os casos de Guedes de Amorim e José Rosado).
A colaboração de Amaral Júnior na Romano Torres foi intensa, quer como autor, quer como tradutor. Para além de ter escrito os seis romances já referidos sob o pseudónimo de George Lody, que constituíram a colecção «Dramas de espionagem: as aventuras dos mais célebres espiões internacionais», escreveu também sob o pseudónimo de Fernando Ralph o livro O golpe alemão (1936), e no seu próprio nome Minha mulher vai casar (s.d.), O nosso amor não é pecado (s.d.), A mulher que jurou não ser minha (1936), etc. Enquanto tradutor, dedicou-se especialmente a Max du Veuzit e Claude Jauniére. Não se conseguiu apurar a data ou o local da sua morte."
(Fonte: fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=63#G)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos.
Muito invulgar.
15€
Reservado

23 outubro, 2026

MONTEIRO, José de Sousa -
OS AMORES DE JULIA. Scenas da antiga Roma.
2.ª edição. Lisboa, Livraria Classica Editora de A. M. Teixeira & C.ta, 1909. In-8.º (19x12 cm) de 286, [2] p. ; E.
Romance histórico cuja acção decorre no tempo de Jesus Cristo. História escrita com estilo irrepreensível e rico vocabulário. De acordo com Maria o'Neill, amiga e discípula do autor, trata-se, incontestavelmente, da sua melhor obra: "Se, em vez de ter nascido em Portugal, tivesse visto a luz em França ou Inglaterra, esta obra ter-lhe-ia dado fama universal, porque excede em muito o Quo Vadis".
"Pode, talvez, ser ainda para todos fórma acceita e viva de arte o romance historico mediante tres precisas condições:
Acção breve, condensada e rapida;
Caracteres escrupulosamente estudados na historia ou nos costumes, e intensamente expressos;
Scenas, cujos minimos accessorios, de extricta exacção archeologica, quanto possivel, quanto possivel se enlacem, se entreteçam, se fundam, na narrativa, - em traço ou côr.
Desvelei-me, com longo amor, paciente e caricioso, por que os espiritos attentos, finda a lição das paginas que seguem, digam, em sua consciencia illuminada: Pode."
(Preâmbulo)
"Era o quarto dia das kalendas de março do anno decimo quarto depois de Christo. Nas casas petricias as clepsydras gotejavam a hora nona.
O azul engasta-se sem macula no horisonte amplissimo: apenas, muito longe, no occidente, alguns cumulos se amontoam, como ovelhas aconchegadas no redil. [...]
Uma prescripção de Augusto veda a vehiculos, estranhos ao culto, o transito de Roma antes da hora decima: aconselhou-a a tortuosa estreiteza das ruas da cidade. Alta noute, emquanto atroam becos e viellas rufiões armados, prostitutas ebrias, voltas sanguentas, obscenas serenatas, as vias principaes enxameiam de carreiros, pragejando ao estralejar dos lategos, plaustros, pesados de novidades hortenses, petorritas atapulhadas guincham, sacudindo, nas asperezas do piso, as rodas barulhentas coo os cymbalos de Pan.
Por isso ás portas de maior frequencia, - á Collina onde se fundem as Vias Salaria e Nomentana, á Esquillina crusada das Vias Tiburtina e Prenestina, á Capena, serventia natural da Via Latina e da Via Appia - reune-se da nona á decima hora um sem-numero de cisios, rhedas, carpentos colossaes, carrucas tauxiadas. [...]
No couce da fila, á orla humida do bosque, pára um cisio, de aluguer jungido a dois velhos mús. Logo atraz uma rheda com varios fardos entre taipaes de madeira tosca. As mulas pendem tristemente as cabeças; da aridez do chão não lhes sorri febra de erva. Arquejam e agitam, fustigando-se, as caudas poeirentas. Varejeiras esvoaçam assustadas ou sevam-se famintas nas mataduras do couro, despellado, do latego.
No cisio sentam-se a par um homem corpulento, e uma rapariga de delgada pequenez. Collocaram-se, a principio, á cabeça da extensa renque. Depois, sem causa conhecida, desceram a occupar o logar extremo. Seduzira-os talvez o bosque, sagrado á inspiradora de Numa, a cujas sombra refoge a passarada chilreando em festa."
(Excerto de I - Ad veteres arcus madidamque  Capenam)
José de Sousa Monteiro (1846-1909). "Nasceu na Praia (Cabo Verde) a 20 de agosto de 1846 e faleceu em Lisboa a 12 de outubro de 1909. Em Lisboa obteve o Curso Superior de Letras e o de Diplomacia. Foi diplomata, jornalista, escritor, deputado (1879-1882) e diretor-geral do Ministério das Finanças.
Pertenceu ao Instituto de Coimbra, foi comendador de Carlos III de Espanha e comendador de Leopoldo da Bélgica e recebeu ainda a Grã-Cruz da Ordem de Santiago.
Na Academia das Ciências de Lisboa foi eleito sócio correspondente da Classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras a 5 de junho de 1884 e efetivo a 25 de junho de 1891. Desempenhou nesta Academia os cargos de Vice-Secretário (1896), Secretário-Geral (?-1909) e Presidente da Classe de Letras (1909)."
(Fonte: https://arquivo.acad-ciencias.pt/authorities/20134)
Encadernação recente meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
15€
Reservado

18 outubro, 2026

PORTO DA CRUZ, Visconde do -
A VIAGEM AVENTUROSA DE SUVENINE BOLIFACE A ZELSTRUFS. [Pelo]... Socio Efectivo da Associação dos Arqueologos Portuguezes, Socio Correspondente do Instituto Portuguez de Historia, Arqueologia e Etnologia, etc. [S.l.], [s.n. - Comp. e imp. na Imprensa Lucas & C.ª - Lisboa], Janeiro - 1934. In-8.º (19x12 cm) de 133, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima, enquadrável no domínio da narrativa fantástica e de ficção científica. A viagem de Suvenine Boniface na sua nave - o Passaro Novo - pelo espaço sideral, mais não é que um ensaio satírico de crítica de costumes políticos e sociais do país, e da Madeira em particular, substituindo o nome de Portugal, Lisboa e Funchal por nomes ficcionados de um planeta distante, com hábitos idênticos aos nossos.
Trata-se antes de tudo, de um exercício irónico sobre o carácter das elites lisboetas e do povo madeirense, do mais "ilustrado" ao mais "simplório", contando histórias e episódios, verídicos, por certo, sob a capa de nomes de família e empresas "alternativos", que farão as delícias de quem estiver na disposição de tentar desvendar os destinatários das farpas, numa e noutra região. 
No início da história, ainda nos EUA, ponto de partida da viagem, o autor alude com fina ironia ao modo de vida americano. No final refere-se a Salazar como o grande «Apostolo» de Benciana, "sacerdote muito subtil, muito serafico que sabia mais de diplomacia que os mais afamados diplomatas... [que] com untuosidade tinha sabido dominar na vida publica dos velhos tempos idos e com o novo estado de cousas lá ia fazendo chegar a braza á sua sardinha...".
Romance "fora da caixa" estas 'memórias' de Suvenine Boliface, raro e muito interessante, certamente com tiragem reduzida.
"Estava a dar a hora da partida quando o Jornalista entrou precipitadamente naquele compartimento de 1.ª classe...
A noticia de que Suvenine Boliface chegára a Lisboa e seguia, em rigoroso incognito, no rápido do Norte caíra inesperadamente na redacção.
Tornava-se indispensavel descobrir aquele sabio audacioso que, em parte, realisára um sonho de Julio Verne atravessando o espaço e chegando a um planeta desconhecido...
O feito apaixonára os estudiosos, os homens de ciências e até os prosaicos burguezes! Na verdade é merecedor de assombro e da curiosidade o homem que abandona a Terra, atravessa o espaço como um meteóro, chega a um outro planeta e, depois de tudo isto, ainda encontra coragem e energia para regressar heroicamente ao nosso triste «vale de lágrimas».
Quando Suvenine Boliface, depois da sua viagem maravilhosa, aterrou proximo de New-York sentiu-se tão infeliz com a imprevista celebridade que deliberou esquivar-se ás mais simples revelações. Os Reporters, com a audaciosa impertinencia profissional, afligiam-no de tal forma que resolveu fugir... Andou pelos vastos Estados Americanos mas, quando menos esperava, surgiu-lhe um Reporter implacavel, com o «Kodak», o lapis e o bloco, na ancia de colher elementos com que saciar a bisbilhotice internacional da Imprensa. [...]
O planeta a que me tinha levado o audacioso empreendimento era designado, pelos homens que o habitavam, por Zelstrufs.
Não tardou a que me certificasse de que ali, tal como na Terra, os homens eram identicos e nutriam os mesmos instintos, a mesma alma, as mesmas ambições... Aconteceria assim em todos os outros planetas que povoam o espaço?
Havia em Zelstrufs varios paizes e homens de raças diversas.
O Passaro Novo levou-me por felicidade para um dos paizes que mais contingentes déra ao progresso e á civilisação.
Uma especie de monarca governava o estado mas a sua acção nunca podia actuar beneficamente porque os organismos publicos e ainda mais os politicos dominados pela cegueira das democracias prejudicavam todos os planos e a boa vontade do Principe que só queria bem servir a Patria e assegurar ao seu Povo paz e prosperidade."
(Excerto do Romance) 
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934). Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais, culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar em brochura, por abrir, bem conservado.
Raro.
Com interesse histórico e regional.
50€
Reservado

14 outubro, 2026

BOCAGE, Manoel Maria de Barbosa du -
RIMAS, DEDICADAS Á AMIZADE.
De... Tomo II. Terceira Edição, correcta pelo Author. LISBOA. M. DCCC. XIII. Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. Com licença da Meza do Desembargo do Paço. Vende-se na mesma Officina na Calçada Salitre Nº 84. In-8.º (14x9,5 cm) de [10, 368, [2] p. ; E.
Segundo volume das Rimas dedicado à amizade, no qual o Bocage agradece a todos aqueles que contribuíram para aliviar as suas angústias, especialmente nos momentos de maior adversidade, quando doente ou em reclusão. Nestes versos, Bocage afasta-se da matiz estritamente satírica ou erótica e dirige-se aos amigos que o apoiaram nos momentos de maior dificuldade..
"A Maior parte das Poesias que publico, foi recobrada com a memoria em casa do meu officioso Amigo José Salinas de Benavides, huma das pessoas mais benemeritas, e qualificadas de Santarem, onde me avisárão de que, affectada a minha letra por algum de muitos malévolos, que, á maneira de lobos, matão ás vezes o que não hão de comer, ou, deixando figuras, por algum dos que prejudicão sem utilizar-se, fôra em meu nome extrahida aos depositario dos meus bens poeticos a caixa, em que jazião, com os trastes proporcionados á minha profissão, e hum tanto peores, que os versos. Temendo a perda do que, para mim ao menos, era prcioso, examinei o livro interior, que me não pódem roubar, e com effeito copiei delle tudo o que dou á luz não relativo a hum desastre tão impensado, como penoso, que me sobreveio depois, e occasionou as producções, em que o chóro.
Leitor intelligente, verdadeiro Crítico (e não a chusma de Zoilos, que usa infestar a República literaria, e crê que a mordacidade suppre o talento) o Sábio imparcial (em que só me louvo) talvez não desdenhe estas novas Rimas... [...]
Poderáõ os Zoilos abocanhar a m inha Musa, mas serão obrigados a reconhecer a minha gratidão na Epistola dedicatoria, que dirijo ao extremoso Amigo, cuja beneficiencia me adoçou o infortunio, e deo a saber que o seculo do Egoismo ainda soffre excepções proveitosas aos infelices."
(Excerto de Ao Leitor)

"Vós, que de meus extremos sois a historia,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co’ promto auxilio de fiel memoria:

Da Inveja conseguindo alta victoria,
Ide, meus Versos, em Amor fiados,
Que delle só dependem vossos Fados,
Que nelle só demando a minha gloria:

Não vos importe o público juizo;
Da Voz que pelo Mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflamma;
Tereis de Anarda approvador sorriso;
Hum sorriso de Anarda he mais que a Fama.
"

(Soneto I.)

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805). " Foi o maior poeta português do século XVIII, que se irmana com Camões no destino do estro e nas desventuras de uma existência repartida entre Portugal e a Índia. Manuel Maria l' Hedois de Barbosa du Bocage – de seu nome completo – era filho de um advogado e de uma senhora francesa de ascendência normanda. Orfão de mãe desde os dez anos, assentou praça em Setúbal em 1781, tendo-se alistado dois anos depois na recém-fundada Academia dos Guardas-Marinhas, em Lisboa. Conheceu então a boémia lisboeta, os botequins, o Nicola, onde o seu génio poético se afirmou no improviso e lhe ganhou aplausos. Subitamente, ao fim de dez meses de frequência do curso, Bocage abandonou os estudos, sendo dado como desertor em 6 de Junho de 1784. Nomeado guarda-marinha, partiu para a Índia a 4 de Abril de 1786, fazendo escala no Rio de Janeiro, tendo chegado a Goa a 20 de Outubro. A sua estada na Índia foi por ele comparada ao exílio de Ovídio entre os Getas – os «bárbaros» indianos que o rodeavam. Promovido ao posto de tenente, foi destacado em Damão, mas só aí permaneceu dois dias, 7 a 8 de Abril de 1789, refugiando-se em Macau de onde viajou para Lisboa, em 1790. No seu regresso, Bocage aderiu à Nova Arcádia, onde assumiu o pseudónimo literário de Elmano Sadino. Em 10 de Agosto de 1797 foi preso por ordem do intendente Pina Manique, acusado de ser «autor de papéis ímpios e sediciosos». A peça principal do auto de acusação era o poema Pavorosa Ilusão da Eternidade. A 7 de Novembro do mesmo ano foi transferido para os cárceres da Inquisição, daí seguindo, a 22 de Março de 1798, para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, dirigida pelos padres do Oratório.
Toda a poesia de Bocage se nutre das suas vicissitudes biográficas. O amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas, vibram nos seus versos com a intensidade do excesso, que a forma apurada e o rigor verbal dominam, tornando mais impressionante o seu efeito estético. O poeta cultiva com igual desenvoltura todos os géneros, desde o soneto de fina conceituação petrarquista ao verso fescenino, servindo-se ainda dos códigos de um discurso classicizante, onde prorrompe já um vigoroso individualismo em revolta com as normas e os tabus da sociedade vigente. A atitude do poeta contra a tirania e o despotismo não implica, no entanto, a aceitação do radicalismo da Revolução Francesa, a que se opõe, nem a via do libertino, que o seduziu, esmoreceu nele as suas crenças e convicções de católico. Bocage foi um ser contraditório, que soube viver intensamente na sua poesia as suas contradições existenciais. O seu fascínio pela morte e a expressão da sua extrema emotividade fazem dele um precursor do Romantismo, cujos desbordamentos evitou no apego à contenção clássica, impondo-se como um artífice do verso, o chamado elmanismo, que tanto atrairá os parnasianos portugueses e brasileiros."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?autorid=7375)
Encadernação coeva em pele.
Exemplar em razoável estado de conservação. Cansado. Pastas e lombada apresentam falhas no revestimento. F. rosto com pequeno orifício ao centro. Aparado à cabeça.
Raro.
15€

11 outubro, 2026

ALMEIDA, Eduardo d' -
ALMAS DO PURGATÓRIO
. Guimarães, Editores Cunha & Lemos (Tabacaria e Papelaria Lemos) - Compôsto e impresso na Tipografia Minerva Vimaranense de Antonio Luiz da Silva Dantas, 1920. In-8.º (21,5x14 cm) de [14], 256, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Junto com:
ALMEIDA, Eduardo d' - DISCURSOS. Guimarães, Editores Cunha & Lemos (Tabacaria e Papelaria Lemos) - Compôsto e impresso na Tipografia Minerva Vimaranense de Antonio Luiz da Silva Dantas, 1921. In-8.º (21,5x14 cm) de [10], 274, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Duas obras de Eduardo de Almeida, ilustre causídico, proprietário e homem da cultura de Guimarães, encadernadas num único tomo. O primeiro volume - Almas do Purgatório - é um conjunto de contos, dois de alguma dimensão; o segundo - Discursos - reproduz as suas intervenções de maior relevo até 1921.
O título Discursos encontra-se autografado pelo autor com dedicatória a António do Amaral.
"Acordo queimado de febre, a estranha sensação do côrpo rechinando num lençol de suor frio, ainda na convulsa epilepsia dum mau pesadêlo.
Falta-me o ar. A muito custo, fazendo estalar os ossos empedernidos, busco uma caixa de fósforos, com mão nervosa, pesada, e, se já me arripia o contacto metálico do relógio, ao tocar os dêdos formiguentos no mármore da cabeceira, a descarga duma faísca electrica atravessa-me, deslumbradôra como fôgo de santelmo.
Vejo, olhos abertos na escuridão abafada do quarto, destacando-se de brancura escultural, as ultimas imagens do sonho - a deusa da Morte, na cinica e vulgar figura de Parca, (como a dum conhecido moimento do cemitério da Atouguia) mitológica e ausente, cortando-me o fio da vida; e, logo, sôbre o meu próprio cadaver amortalhado no hábito de irmão franciscano, o coveiro atira, em burocráticos movimentos indiferentes, grossa pàsádas de lama...
Na sacudida tenacidade do desejo, com a ância de acordar, a alucinação esvai-se; só, por largo tempo, erguidas ao meio do quarto, com violência luminosa de fotosfera, as mãos da estatua funerária não desarmam o gesto - e é dento do meu peito que êle se reflecte como se, na verdade, as tesoiras de aço me desfibrassem as raízes do coração.
Assusta-me o silêncio. [...]
Penso em chamar um criado. - mas envergonha-me a alarmante cobardia -; em sair, errar ao acaso, a ver se topo o sinal duma outra vida, que me dê reconfortadôra impressão de ser um facto a minha própria vida."
(Excerto de Agonia de amor)
Eduardo Manuel de Almeida Júnior (1884-1958). "Nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1884, numa casa na rua de S. Dâmaso, em Guimarães. O seu pai, de quem tomou o nome, era um destacado homem de negócios. Estudou no Colégio de S. Dâmaso, que então funcionava no antigo Convento da Costa, onde completou o ensino secundário. Partiu para Coimbra em 1900, com o mesmo destino da maioria dos filhos da burguesia da terra que prosseguiam estudos superiores, inscrevendo-se na Faculdade de Direito da Universidade, cujo curso completaria em 1905, aos 21 anos.
Concluído o curso, regressa a Guimarães, onde se faz advogado, onde cedo consolidaria a sua fama de causídico competente e eloquente, com o um memorável tirocínio num caso particularmente difícil, em que assumiu a defesa de Antónia de Macedo, a Tiça, mulher do povo acusada da prática de triplo infanticídio e que, lida a sentença, acabaria absolvida.
Eduardo de Almeida foi, antes do mais, um homem de letras. Publicou o seu primeiro romance, A Lama, em 1905, ainda em Coimbra, um manifesto dirigido contra a sociedade decadente e desigual, onde proliferava a miséria, com uma clara influência da obra de Émile Zola. Desde muito jovem, colabora em inúmeras publicações periódicas, por onde irá dispersar incontáveis textos dedicados aos mais variados assuntos. O seu primeiro artigo na Revista de Guimarães foi publicado em 1906.
Eduardo de Almeida destacou-se como escritor, de grande mérito, sendo autor de uma obra que vai da ficção (publicou um romance e quatro volumes de novelas) aos estudos jurídicos e sociológicos. Quando assumiu a Direcção da Sociedade Martins Sarmento e da Revista de Guimarães, deu início às suas investigações históricas, publicando uma notável série de estudos dedicados à história de Guimarães."
(Fonte: https://pedraformosa.blogspot.com/2008/01/no-cinquentenrio-da-morte-de-eduardo-de.html)
Encadernação meia de percalina com ferros gravados a seco e a negro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado.
Raro.
30€

24 setembro, 2026

IVO, Pedro -
CONTOS. Por... Porto, Typographia da Revista, 1874. In-8.º (17,5x12 cm) de 266, [4] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante colecção de contos, rústicos, de inspiração romântica.
"Corre a manhã de um domingo de novembro, frio, triste e chuvoso.
Na unica rua da aldeia, formada por meia duzia de casas térreas, separadas umas das outras pelos muros de vedação de algumas hortas, onde raros pés de couve, queimados pelas geadas, se erguem d'entre as hervas parasitas, não transita viva alma.
As unicas creaturas, que vagueiam fóra de telhas, são um porco e um frango: o primeiro, na sua marcha tortuosa e indecisa, vai roçando com o focinho quanto encontra no chão, soltando o monótono grunhido que, em lingua suína, deve exprimir: «Serve-me,» «Não me serve,» e o segundo, caminhando em passo presumido, vai vasculhando no lixo o pão de cada dia.
Não se ouve outro ruído, que não seja o das gotas da chuva, que cáhem das beiras dos telhados.
Aberta, apenas se vê uma porta.
Entremos.
Eis-nos na tenda do Snr. José... da Tenda.
Não sei se os leitores se teem, como eu, recolhido algumas vezes n'uma tenda de aldeia, á espera que a chuva passe.
Se teem, conhecem de certo o desconsolo, que causa a vista d'aquelle sólo composto da lama acarretada pelos tamancos de quatro gerações, o aspecto do balcão negro e ensebado, suando immundicie por todos os poros da madeira, com o bordo polido pelo roçar dos freguezes, fartos de escutar pela vigesima vez a historia de dois cruzados novos e tres moedas de doze falsos, e pregados ao mesmo balcão, como prova da pureza d'alma do tendeiro e da perversidade dos homens, que não são tendeiros."
(Excerto de O milagre)
Indice:
O milagre | A sentença da tia Angelica | A boneca | A doida de Tagilde | Meigo | A quina d'espadas | A figa d'azeviche | O embarcadiço | O cruzeiro da via-sacra | O berço.
Pedro Ivo (1842-1906). "Pedro Ivo é o pseudónimo literário de Carlos Lopes. Nasceu e faleceu no Porto. Viveu na Alemanha, onde estudou, esteve no Brasil e na África portuguesa, tendo sido Presidente da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro de África. Nas suas obras de ficção notam-se influências de Camilo e de Júlio Dinis, em especial nas descrições da vida do campo e no sentimento trágico da vida.
Obras: Contos (1874); O Sello da Roda (romance, 1876); Serões d'Inverno (contos, 1880)."
(Fonte: https://vercial.utad.pt/ivo.htm)
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cantos com sinais de uso.
Raro.
35€

15 setembro, 2026

LODY, George -
A RUSSIA NEGRA : romance.
Versão livre de João Amaral Júnior. Dramas da Espionagem. As aventuras dos mais célebres espiões internacionais III. Lisboa, João Romano Torres & C.ª : Livraria Editora, [193-]. In-8.º (21x14,5 cm) de 320 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Romance histórico de espionagem cuja acção decorre durante o período da Grande Guerra. Trata-se do terceiro volume (de 7) da estimada Colecção Dramas da Espionagem.
Obra da autoria de João Amaral Júnior, o 'tradutor', que assina com o pseudónimo George Lody.
Livro ilustrado com 16 desenhos e fotogravuras, incluindo um mapa e retratos de personalidades da época, sendo 9 em pagina inteira. A capa e os desenhos são de Ramos Ribeiro (1888-?).
"Do mesmo modo que em fins de 1916 - ano em que uma conjura de patriotas chefiada pelo principe russo Felix Yussopoff procurou sarar os males da Rússia, suprimeindo trágicamente o celebre taumatugo Rasputine - em fins de 1917 a França, assim como os demais païses da Entente, continuava seguindo com olhos alarmados o desencadear dos extraordinarios acontecimentos internos que na imensa patria de Nicolau III iam reflectir-se na sua acção guerreira do front... [...]
Ora o alarme despertado pelo éco de tão graves e variadas ocorrencias, determinaram naturalmente um consequente serviço de informações mais desenvolvido e, assim, o tenente Jorge Dulac, que acabava de dar firme prova da sua dedicação à patria e da sua tactica sôbre diplomacia secreta, partiu para Petrogrado, incumbido de elaborar circunstanciado relatório. Devia observar tudo quanto se referia à comparticipação da guerra por parte da Rússia e mais o que houvesse de concreto sôbre o tão apregoado defectismo que visava o tratado de uma paz em separado, a paz da Russia com a Alemanha."
(Excerto de I - A «missão» do tenente Jorge Dulac)
João dos Santos Amaral Júnior (Lisboa, 1899 - ?). "Tal como Guedes do Amorim e Rocha Martins, não concluiu qualquer curso superior, sendo exemplo de mais um autodidacta de sucesso que colaborou com a Romano Torres. Estreou-se antes dos 20 anos com o romance A ladra (1920), seguindo-se em 1923 novo romance intitulado Direito de viver com prefácio de Manuel Ribeiro. O Dicionário Universal de Literatura atribui ao bom acolhimento que teve destas primeiras obras o impulso que o levou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Embora não tivesse sido jornalista, colaborou enquanto crítico literário com o jornal A República e dirigiu o quinzenário Novidades Literárias.
Curiosamente, o Dicionário Universal de Literatura aponta o seu pseudónimo George Lody como sendo autor da «tradução livre» de alguns escritores estrangeiros, indicando como exemplos disso mesmo as obras Legião maldita, Rússia negra, Sentinelas dos mares, Braseiro ardente, Soldado da sombra e Espiões da Paz. Há clara confusão, visto que é o próprio João Amaral Júnior que se apresenta como tradutor de um alegado autor francês de nome George Lody, afinal seu pseudónimo. Este caso foi desconstruído por Maria de Lin Sousa Moniz no seu ensaio «A case of pseudotranslation in the Portuguese literary system». No entanto, o verbete do Dicionário Universal de Literatura, publicado em 1940, serve de exemplo para a confusão que à época havia relativamente à pseudotradução (Amaral Júnior não foi o único na Romano Torres, veja-se os casos de Guedes de Amorim e José Rosado).
A colaboração de Amaral Júnior na Romano Torres foi intensa, quer como autor, quer como tradutor. Para além de ter escrito os seis romances já referidos sob o pseudónimo de George Lody, que constituíram a colecção «Dramas de espionagem: as aventuras dos mais célebres espiões internacionais», escreveu também sob o pseudónimo de Fernando Ralph o livro O golpe alemão (1936), e no seu próprio nome Minha mulher vai casar (s.d.), O nosso amor não é pecado (s.d.), A mulher que jurou não ser minha (1936), etc. Enquanto tradutor, dedicou-se especialmente a Max du Veuzit e Claude Jauniére. Não se conseguiu apurar a data ou o local da sua morte."
(Fonte: fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=63#G)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos. Contracapa apresenta  falhas de papel nos cantos. Lombada reforçada com fita-cola. Páginas ligeiramente oxidadas.
Muito invulgar.
20€

14 setembro, 2026

CASTELLO-BRANCO, Camillo - DELICTOS DA MOCIDADE.
Primeiros attentados litterarios. De... Porto, Livraria Civilisação : De Eduardo da Costa Santos & Sobrinho - Editores, MDCCCLXXXIX. [1889]. In-8.º (18x12 cm) de XII, [4], 269, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Importante colectânea dos primeiros trabalhos de Camilo, inclui prefácio de João António de Freitas Fortuna, seu grande amigo. Publicada originalmente em 1889, no ano anterior à sua morte, reúne poemas, contos, ensaios e estudos literários que marcam os primeiros passos da sua vasta carreira.
O livro funciona como uma compilação de paratextos, memórias e produções juvenis, incluindo o célebre conto Uma Noite no Cemitério, que reflete sobre a perda trágica do seu grande amigo de juventude em Vila Real, José António T. C. de Melo e Nisa. Na própria advertência da obra, Camilo sublinha o caráter íntimo e por vezes doloroso de revisitar estas páginas, que representam em grande parte a história da sua juventude.
"É meia noite. Ao som as doze badaladas, tangidas no velho campanario de S. Diniz, minha alma calou-me nas veias em effluvios de terror e santidade, e depositou-me nos labios tyremu,los uma oração para o Senhor.
E a minha oração era como a vida purificada na particula, que o homem tem de Deus, e na lagrima do céo, estremada de muitas lagrimas da terra.
O meu viver era todo espiritual, e comparei-me ao espirito do justo que, soprado da terra - ás portas de céo - escuta ainda o borborinho cá de baixo e já ouve o cantar dos anjos aos pés do Altissimo. O meu viver material parecia-me a sumir-se lento e suave pelas fisgas dos sepulchros, entre os quaes eu ajoelhava, como o delirante, que pede ao Creador  alma e luz para o finado, que não sente os joelhos do filho, dobrados sobre a lagea silenciosa...............................................
E o extasis desvaneceu-se, porque era de homem, ligado com as paixões dos homens, e eu era o unico cadaver, animado, entre tantos cadaveres.
Voz de vivo, que falla com os mortos - a minha voz era sombria e soturna."
(Excerto de Uma Noite no Cemitério)
Camilo Castelo Branco (1825-1890). "Nasceu em 1825, em Lisboa, e faleceu em 1890, em S. Miguel de Seide (Famalicão). Com uma breve passagem pelo curso de Medicina, estreia-se nas letras em 1845 e em 1851 publica o seu primeiro romance, Anátema. Em 1860, na sequência de um processo de adultério desencadeado pelo marido de Ana Plácido, com quem mantinha um relacionamento amoroso desde 1856, Camilo e Ana Plácido são presos, acabando absolvidos no ano seguinte por D. Pedro V. Entre 1862 e 1863, Camilo publica onze novelas e romances, atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Tornou-se o primeiro escritor profissional em Portugal, dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular a partir da observação da sociedade, com inclinação para a intriga e análise passionais. Considerado o expoente do romantismo em Portugal, autor de obras centrais na história da literatura nacional, como Amor de Perdição, A Queda dum Anjo e Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, cego e impossibilitado de escrever, suicidou-se com um tiro de revólver a 1 de Junho de 1890."
(Fonte: https://www.portoeditora.pt/autor/camilo-castelo-branco/39147)
Encadernação em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Com picos de acidez no interior.
Muito invulgar.
50€

21 agosto, 2026

BRANCO, Alfredo de Freitas -
O DESTINO.
Romance historico. Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1915. In-8.º (18,5x12 cm) de 63, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante romance histórico, com referências à Madeira, terra natal do autor.
Obra invulgar e muito curiosa, não mencionada na BNP.
"Nos confins da Europa, ao sul, isolada no meio do Atlantico a Madeira apparece aos olhos do viajante fatigado do horizonte immenso e monotono entre a agua e o espaço, como uma ilha encantada, surgindo das ondas com as suas negras montanhas cobertas de frondosos arvoredos, de exuberante vegetação, e indo os seus altos picos esconderem-se nas nuvens. [...]
Despido de monumentos, pobre de palacios e grandes edificios, com a sua vida muito calma, muito insipida, na sua simplicidade e no seu socego, o Funchal é encantador refugio para os espiritos doentes, atordoados e cançados do bulicio dos grandes centros.
Raros divertimentos ha além dos cinematographos. [...]
E na tão decantada «Perola do Oceano», esquecido, abandonado pelos governos, luctando para viver do seu proprio esforço, vive um Povo bom e laborioso... [...]
Mas o espirito de independencia nunca alvoraçou a alma dos Madeirenses que parecem felizes nas suas montanhas, no seu isolamento, no seu labutar esteril, com a sua vida monotona e calma, servindo de instrumento para o estrangeiro agglomerar riquezas, para os governos extorquirem impostos, contemplando os «touristes» que chegam de manhã trazendo a alegria e o bulicio e que ao entardecer, depois das excursões voltam para bordo, seguem pelo mar além emquanto a cidade recae no seu repouso triste, no seu silencio...
N'uma dessas apraziveis vivendas que se estendem isoladas, rodeadas de flôres e de arvoredo, para os lados dos Ilhéus, habita uma familia estrangeira. O Pae, um rapaz no vigor da vida, a Mãe joven ainda mas doente, pallida, uma tosse carvernosa destruindo-lhe, abalando-lhe o peito, e um filhinho de poucos annos, creança anemica e franzina confiada aos cuidados duma «institutrice». [...]
Aquella manhã de Maio despontou triste e chuvosa. Terminado o almoço em que escasseou a conversação entre os dois esposos, como sempre succede quando dois entes que se uniram sem paixão se encontram ligados para toda a vida, sem se sentirem familiares nem felizes na solidão. Rodrigo de Sequeira, sentado á secretária, olhava distrahido, através da vidraça, as enormes vagas do mar que vinham despedaçar-se com estrondo, levantando nuvens de espuma, sobre o caes e sobre os rochedos. Após uns instantes de contemplação, sacudindo a cabeça como para afastar pensamentos sombrios, escreveu por largo espaço, interropendo-se, monologando, e por fim leu:
«Meu varo Eduardo
Ha dois mezes que me encontro n'este isolamento sob a bandeira da «joven Republica Portugueza» tão indifferentemente recebida e em tão pouco tempo já odiada!"
(Excerto do Romance)
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934). Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais, culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa manchada à cabeça por acção da luz.
Muito invulgar.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€
Reservado

18 agosto, 2026

GARCIA, Alice -
O CASTELO MISTERIOSO OU A ASPIRAÇÃO DE DUAS ALMAS
e AMORES DUM CIGANO. Novelas. Lisboa, Edição de Alice Garcia, 1933. In-8.º (19,5x12,5 cm) de 165, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de duas novelas, versão livre de duas histórias vetustas, adaptadas para o século XIX(?), empresa de Alice Garcia, a responsável pela edição do livro. Trata-se de um curioso exemplo de literatura de cordel, barata, destinada ao operariado e às classes menos instruídas, algo vulgares na década de 30 do século passado. A total ausência de informações sobre as tais histórias leva-nos a pensar, salvo melhor opinião, estarmos em presença de dois contos originais da "editora": o primeiro acaba mal; o segundo, bem; ou seja, dois contos moralizadores de raiz histórica com finais opostos, que preenchem os intuitos da autora.
Obra ilustrada com 8 bonitas estampas em página inteira, 4 por cada história.
"Êste pequeno mas interessante livrinho, consta de duas novelas emocionantes, como sugerem os seus títulos.
Estas novelas foram extraídas de dois antiquíssimos romances, que os meus antepassados muito estimavam e que às minhas mão vieram parar por heranças sucessivas.
Resolvi publicá-las, arrancando-as à poeira das antiguidades, depois de por mim concertadas e adaptadas da linguagem antiga à dos nossos dias, quási como homenagem a tão grande aprêço dos meus avoengos, senão com o prazer de tornar conhecidas tão interessantes novelas, pois estou esperançada no seu bom acolhimento."
(Aos leitores)
"O marquez enviuvara havia já alguns anos; fica dêsse matrimónio uma filha, Margarida, assim se chamava ela, uma encantadora rapariga de olhos azuis sonhadores e tristes, e longas tranças côr de ouro. Na época em que tem comêço a nossa narração, Margarida contava apenas quinze primaveras, era alta, elegante, de formas franzinas e delicadas como as ninfas de João Goujou; o seu rosto pálido e doentio, davam-lhe um tom que mais formosa a tornava ainda. Margarida era dotada duma extrema bondade, mas um tanto orgulhosa talvez devido à sua jerarquia. Seu pai, o velho marquez vivia só para ela que era todo o seu enlêvo... [...] Viviam num imenso castelo rodeado de grandes jardins e duma mata que se estendia a léguas de distância, o marquez, sua filha, duas velhas criadas, Joana e Mafalda, uma criada de quarto de Margarida, um velho criado que s echamava José, e Maurício, descendente de raça fidalga que era quem acompanhava o marques em tôdas as suas viagens e passeios."
(Excerto do Preâmbulo de O castelo misterioso...)
O marquez contava os seus 60 anos, era alto, magro, de tez morena, queimada pelo sol d'Árica, quando mais novo lá passara parte da sua vida, e no seu regresso assistia pouco depois à morte de seus pais, dos quais herdara o título de marquez, e a imensa fortuna de que eram possuidores.
Antes de partir para África vivia enamorado de uma jovem formosíssima que contava a essa data 14 primaveras. Vivia Helena com seus pais numa casa modesta em frente ao castelo dos velhos marquezes. [...]
Ora um dia, a horas já avançadas da noite,, estava Helena sentada junto de seu pai quando entrou pela porta dentro uma tribu de ciganos chefiada por Ruby, cigano valente e destemido."
((Excerto do Preâmbulo de Amores dum cigano)
Exemplar brochado em bom estado geral de consevação. Cansado. Capas amarelecidas.
Muito invulgar.
25€

14 agosto, 2026

CASTRO, D. João de -
O JOGO DA MORTE : novela.
Por... Biblioteca Civilização - Colecção de pequenos romances portuguêses e estrangeiros : XII. Porto, Livraria Civilização - Editora, 1925. In-8.º (19x12 cm) de 77, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante novela publicada na apreciada colecção Biblioteca Civilização.
"O Joaquim Boaventura, apesar de ter vindo aos quinze anos, dos confins do Minho, com uma mão atrás e outra adiante, como êle próprio dizia, conseguira encaminhar com tamanho tino  e acerto os seus negócios em Lisbôa, que antes dos quarenta já era proprietário de uma drogaria bem afrèguesada, A Flôr do Loreto, onde, além dos artigos ordinários do seu comércio, vendia também clandestinamente, a fazer fé o que assoalhavam os seus competidores menos felizes, certos produtos químicos inimigos da moral sanitária."
(Excerto do Cap. I)
D. João de Castro, pseudónimo literário de D. João de Vasconcelos Sousa Castro e Melo (Azurara, Vila do Conde, 1871 - Prado, 1955). "Foi um escritor português que se tornou conhecido como poeta e romancista, destacando-se no género do romance psicológico de carácter e na investigação histórica.
Fez parte do grupo de escritores "Nefelibatas", juntamente com Júlio Brandão, Raul Brandão, Justino de Montalvão, Alberto d'Oliveira, Eduardo d'Artayett e, ainda, o pintor Inácio de Pinho e o caricaturista Celso Hermínio, entre outros. Para além de ter publicado inúmeras obras, ainda colaborou em diversas publicações periódicas como O Primeiro de Janeiro, Branco e Negro  (1896-1898), Serões (1901-1911), Acção realista (1924-1926) e Feira da Ladra  (1929-1943)."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado.
Invulgar.
10€

09 agosto, 2026

LODY, George - BRAZEIRO ARDENTE : romance. Versão livre de João Amaral Júnior. Dramas da Espionagem. As aventuras dos mais célebres espiões internacionais. Lisboa, João Romano Torres & C.ª, [193-]. In-8.º (21 cm) de 228 p. ; il. ; B. Colecção Dramas da Espionagem ,IV
1.ª edição.
Romance histórico sobre espionagem durante o período da Grande Guerra. Quarto volume (de 7) da estimada Colecção Dramas da Espionagem.
Obra da autoria de João Amaral Júnior, o 'tradutor', que assina com o pseudónimo George Lody.
Livro ilustrado ao longo do texto com 14 gravuras, sendo 8 em pagina inteira. Capa e desenhos de Ramos Ribeiro (1888-?).
"Jorge Dulac voltou a Helsingfors...
Depois da sua piedosa visita à campa de Kaluga, no pequenino cemitério da aldeia nevada, apenas lhe restava abafar o desgosto causado pelo doloroso capítulo de amor que acabava de enlutar Rampov.
A missão oficial com que partira da França para a Rússia, achava-se retardada pelo grave incidente que no anterior volume narrámos.
As circunstâncias exigiam pois toda a inergia das suas faculdades, o absoluto desprendimento de entraves, para, exclusivamente, se entregar à dupla actividade com que esperava ganhar parte do tempo perdido."
(Excerto do Cap. I, Manhã de tiroteio)
João dos Santos Amaral Júnior (Lisboa, 1899 - ?). "Tal como Guedes do Amorim e Rocha Martins, não concluiu qualquer curso superior, sendo exemplo de mais um autodidacta de sucesso que colaborou com a Romano Torres. Estreou-se antes dos 20 anos com o romance A ladra (1920), seguindo-se em 1923 novo romance intitulado Direito de viver com prefácio de Manuel Ribeiro. O Dicionário Universal de Literatura atribui ao bom acolhimento que teve destas primeiras obras o impulso que o levou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Embora não tivesse sido jornalista, colaborou enquanto crítico literário com o jornal A República e dirigiu o quinzenário Novidades Literárias.
Curiosamente, o Dicionário Universal de Literatura aponta o seu pseudónimo George Lody como sendo autor da «tradução livre» de alguns escritores estrangeiros, indicando como exemplos disso mesmo as obras Legião maldita, Rússia negra, Sentinelas dos mares, Braseiro ardente, Soldado da sombra e Espiões da Paz. Há clara confusão, visto que é o próprio João Amaral Júnior que se apresenta como tradutor de um alegado autor francês de nome George Lody, afinal seu pseudónimo. Este caso foi desconstruído por Maria de Lin Sousa Moniz no seu ensaio «A case of pseudotranslation in the Portuguese literary system». No entanto, o verbete do Dicionário Universal de Literatura, publicado em 1940, serve de exemplo para a confusão que à época havia relativamente à pseudotradução (Amaral Júnior não foi o único na Romano Torres, veja-se os casos de Guedes de Amorim e José Rosado).
A colaboração de Amaral Júnior na Romano Torres foi intensa, quer como autor, quer como tradutor. Para além de ter escrito os seis romances já referidos sob o pseudónimo de George Lody, que constituíram a colecção «Dramas de espionagem: as aventuras dos mais célebres espiões internacionais», escreveu também sob o pseudónimo de Fernando Ralph o livro O golpe alemão (1936), e no seu próprio nome Minha mulher vai casar (s.d.), O nosso amor não é pecado (s.d.), A mulher que jurou não ser minha (1936), etc. Enquanto tradutor, dedicou-se especialmente a Max du Veuzit e Claude Jauniére. Não se conseguiu apurar a data ou o local da sua morte."
(Fonte: fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=63#G)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos. Lombada fendida. Páginas ligeiramente oxidadas.
Invulgar.
20€
Reservado