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11 julho, 2026

DIAS, Carlos Malheiro -
OS TELLES D'ALBERGARIA : romance
. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901. In-8.º (18x11,5 cm) de [8], 463, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Os Telles d'Albergaria é um romance marcante, e um dos mais estimados títulos da bibliografia do autor, publicado originalmente em 1901, no início da sua carreira literária.
A história decorre na zona da aldeia de Albergaria, e acompanha a vida e os conflitos dos membros da família Teles, nas suas dinâmicas e dilemas individuais face às pressões sociais e geracionais. "Foca o cenário político da segunda metade do século XIX, iniciando-se com as lutas liberais e culminando com a tentativa frustrada de implantação da república em Portugal, a 31 de janeiro de 1891. Em ambos encontra-se refletida, nos termos da escola realista e naturalista, a filiação monárquica do autor e a sua rejeição do regime constitucionalista então vigente."
Obra interessante e muito curiosa, sem registo na BNP; esta menciona apenas a 2.ª edição (1910).
"Por um claro domingo de Julho, á hora da missa, uma taquitana velha desembocava a trote no largo da Feira, em Guimarães, indo estacar á frente do palacios dos condes de Villa Torre - casarão envelhecido pelas chuvas e soes de quasi dous seculos, que emparedava com a frontaria de solar e convento todo um lado da praça, hasteando sobre um portal enorme, de couçoeiras denegridas, as armas nobres dos senhorios, entre janellinhas gradeadas de cadeia.
Longamente, os cavallos estafados saccudiram as colleiras de guizos, enxotando as moscas; e da boleia descem um velho creado, entre mordomo e feitor, que foi abrir a portinhola perra do landeau, desbarretado em frente do menino.
- Cá estamos em casa das tias de V. Ex.ª.
Então, saltou o estribo largo, ergueu-se um rapazinho franzino e pallido, como um uniforme de collegio, saccudindo uma vergasta de amieiro.
A sineta do portal badalou por muito tempo, echoando nas abobadas de pedra; e foi preciso esperar ainda um pedaço, á torreira do sol, antes que viessem abrir o vasto portão de masseira, chapeado de ferro, á lei da boa desconfiança minhota."
(Excerto do Cap. I)
Carlos Malheiro Dias (Porto, 1875 - Lisboa, 1941). "Jornalista, político e historiador. Natural do Porto, onde nasceu em 1875. Cursou Direito em Coimbra e frequentou Letras, em Lisboa. Foi deputado por Viana do Castelo e Vila Real.
Após a proclamação da República, exilou-se voluntariamente no Brasil, onde decorreu parte da sua actividade, tornando-se, em dado momento, o herdeiro espiritual de Eça de Queiroz a quem sucedeu na Academia Brasileira de Letras, e paladino devotado das ideias tradicionalistas.
Grande escritor, foi o romancista incomparável da Paixão de Maria do Céu, dos Teles de Albergaria e da coletânea de crónicas jornalísticas "A Verdade Nua". Doutrinador nacionalista da Exortação à Mocidade, dirigiu a obra monumental "História da Colonização Portuguesa do Brasil (1921)". Fez parte dos fundadores da Academia Portuguesa de História. Em 1935 foi nomeado embaixador em Madrid, de que não chegou a tomar posse, por motivo de doença."
(Fonte: https://archeevo.amap.pt/descriptions/90283)
Encadernação do editor em percalina com ferros gravados a seco e  ouro nas pastas e na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
Indisponível

03 julho, 2026

COSTA, Vieira da -
A FAMILIA MALDONADO (pathologia social). Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, 1908. In-8.º
(19x13 cm) de 437, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Romance realista 
cuja acção decorre na zona de Lamego.
Raro muito interessante, porventura a obra mais importante do autor.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do editor - Gomes de Carvalho - a Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), conhecido escritor, publicista e bibliófilo português.
"Foi na tarde de um domingo d'Agosto, em 1886, que a familia Maldonado chegou a Lamego, para ahi fixar residencia.
Era aquella a hora habitual do passeio, e a população, endomingueirada, formigava, convergindo para o Campo das Freiras a ouvir a banda do 9, ou para a Alamêda a gosar a frescura dos arvoredos e das aguas correntes. Pela rua dos Mercadores, um pouco angulosa, como pela de Almacave, accidentada e larga, e ainda pela da Olaria, estreita e ingreme, ia um fervilhar de gente. Bandos elegantes de senhoras em toilettes alvadias, de estio, criadas de servir ou operarias de folga com lenços de côres variegadas, berrantes, homens de campo e da cidade em trajos de festa, cavalheiros fumando e discutindo, conegos roliços, vermelhaços, d'uma adiposidade suina, rolando penosamente a sua rotundidade, - tudo isto pejava os passeios, invadia as ruas; os alumnos do collegio, em filas, commandados pelos padres, passavam unidos em batalhão; e os officiaes do 9, fazendo tilintar nas lajes dos passeios ou nas pedras da rua as suas espadas, punham uma nota marcial na pacatez das ruas pacificas.
Poucos em Lamego conheciam a familia Maldonado, e por isso, quando o carro que a conduzia, um pesado char-á-banks empoeirado e com o tejadilho abarrotado de malas, começou a subir penosamente a rua d'Almacave, grande foi a curiosidade que o seguiu, e os que melhor o observaram puderam vêr, atravez das cortinas entreabertas, quatro senhoras novas e bonitas, um cavalheiro idoso de bigode e pêra já brancos, e uma creada magra, esgalgada, com perturberancias osseas no rosto já rugoso, e o queixo deformado n'um prognatismo de caricatura."
(Excerto do Cap. I)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas, A Irmã Celeste e A Familia Maldonado. Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."
(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação meia de percalina com pastas recobertas de fantasia emoldurada por cercadura. Lombada lisa. Sem capas de brochura.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas manchadas com cortes e defeitos marginais
.
Raro.
50€

17 junho, 2026

LOPES, M. Duarte - CERTAS ALMAS... Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1925. In-8.º (19x13 cm) de 173, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Romance fundado em acontecimentos reais atestados pelo autor. Nada foi possível apurar acerca deste, a não ser que tem meia dúzia de obras recenseadas na base de dados da Biblioteca Nacional.
Invulgar e muito interessante.
"No momento que passa não progridem nem frutificam, mesmo no terreno fundeiro dos espíritos ultra-românticos, as histórias de imaginação ou os vôos da fantasia.
Tudo tende, nesta emergência única, para um positivismo sólido. [...]
O que vai ler-se não é produto de uma tendência literária nem representa a flôr de uma imaginação doente.
Antes, várias das suas personagens vivem ainda.
Declaro-o corajosamente nêste logar - com solenissima ênfase.
Os nomes foram, por natural pudor do literato, cobertos da capa do pseudónimo, durante a gestação da novela.
Porém, ponderado o passo, êle reconhece que nada o obriga a ocultá-los.
Atire-se, pois, a verdade, com inquebrantável desplante:
O Comendador é a máscara do falecido Conselheiro Ribas Galvão, considerado e prestigioso palaciano, Gran-Cruz de Cristo, e amigo dilecto de El-Rei. Ainda está na memória de todos a tragédia que foi a sua morte, creio que em 1910, depois daquele escandaloso duelo na Estrada das Laranjeiras.
Todos os jornais da época se referem à maneira como terminou os seus dias. Enforcou-se, como Judas, em galho sêco de figueira num quintalejo árido dos arredores de Chelas.
A senhora Albuquerque é a malfadada esposa de Ribas Galvão. Decerto, não desconhecem o episódio: abandonado o lar com o amante, - o capitão Magno, de Caçadores, hoje tenente-coronel, nas Ilhas - a adúltera incitou-o a desafiar o marido com sobranceria e impertinência, em pleno Paço e numa tarde de recepção.
Mudou de vida e mudou de amores. Pelo que me contou a filha, morreu miserável e abandonada de todos numa distante vilória do Algarve. [...]
Vive ainda a filha do Conselheiro Galvão; creio não haver, em Lisboa, môço atento que a desconheça."
(Excerto do Antelóquio)
Exemplar brochado, envelhecido, em bom estado geral de conservação.
Muito invulgar.
Indisponível

01 julho, 2025

MACEDO, Lino de -
A BANDEIRA.
(Estudo psychologico d'uma desequilibrada). Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1897. In-8.º (19,5 cm) de 500 p. ; B.
1.ª edição.
Romance baseado numa história verídica, cuja acção decorre entre Lisboa e a Figueira da Foz. Escrito a partir de um manuscrito entregue ao autor por uma freira francesa, que num hospital do Rio de Janeiro cuidara de um português moribundo, proprietário do documento e participante directo na história, "fallecido havia poucos dias de febre amarella, no mesmo hospital" em que Lino de Macedo se encontrava internado.
Obra rara e muitíssimo interessante. Trata-se de um romance de análise psicológica com cariz realista. O subtítulo impresso na capa - Romance d'uma desequilibrada - difere da f. rosto - Estudo psychologico d'uma desequilibrada.
"Sahi do hospital e, no doce remanso do hotel de Paineiras, á beira estrada do Corcovado, onde fui convalescer, principiei a leitura, receiando ir deparar com banalidades sem proveito. Não succedeu assim: - o manuscripto revelava uma d'estas tragedias que se desenrolam em silencio, ao abrigo de todas as leis sociaes, sem merecer attenção á reportagem dos papeis diarios, nem á justiça dos nossos tempos de humanidade.
Dando-me a conversar o manuscripto, tal interesse me despertou a sua leitura que, regressando a Portugal curei de alcançar noticias e promenores que elle não atingia, mas que deixava antever. Em Lisboa e em outra viagem que fiz ao Rio de Janeiro colhi os materiaes necessarios não para architectar um romance cimentado de phantasia, mas para fazer uma narrativa, repugnante por descrever o vicio, mas interessante por ser verdadeira e repassada por lagrimas. [...]
Quem procurar paginas amenas, onde deseje vêr prepassar prados em flôr e amôres castos e serênos, quede-se por aqui porque não encontra o que deseja.
Se os viciosos farejam n'estas paginas sensações que lhes alimentem os seus instinctos degenerados, pódem tambem fechar o livro e escolher outra leitura. Aqui só se descreve o vicio para se pôr em relêvo a repugnancia que elle meréce a todos os cerebros equilibrados."
(Excerto  do Preambulo 
"Sete da noite; fim do mez d'agosto; praia da Figueira: - são os traços mais fortes do desenho.
Esbocemos:
- Não era assim - dizia Luiz de Mello, cofinado demoradamente o bigode. O Magalhães jogava regularmente as carambolas; tinha jogo variado, grande certeza em bolas de tabella; mas estava muito longe, muito, do Mayer, um francez que elle vira o inverno passado no Montanha, em Lisboa.
João Capella defendia o Magalhães, brazileiro adoptivo como elle, mas mais velho. Magalhães era um dos melhores tacos que elle conhecera aqui e no Rio, onde frequentara os principaes cafés e vira tudo quanto de bom a grande cidade tinha. [...]
Mello continuava combatendo contra os meritos do Magalhães. Tinha um jogo feroz, dizia, sempre a defender-se, atirando só pela certa, receiando ter de pagar a partida...
E questionando iam os dois descendo a rampa que deriva da rua da Concordia para a do conselheiro Silva.
Ao longo da praia, por entre a copa do arvoredo que se estendia a perder de vista, como uma fita negra posta sobre o escuro transparente do ceu sem lua, reinava silencio. [...]
Os dois pararam, discutindo opiniões sobre carambolas, fallando de jogadores e de bilhares, questionando, de rosto chegado e bengala em punho.
Na sobra, caminhando para elles, principiou a destacar-se um pequeno ponto negro, que pouco a pouco foi tomando corpo, avolumando-se e se revelou uma mulher. Era uma rapariga que apresentava os seus vinte e seis annos, baixa, rosto largo, olhos pretos e fulgurantes, cabello alourado e tez clara, - um d'estes typos de mulher em que o norte de Portugal é fertil. Por sobre um vestido de chita, esbranquiçado, levava um chaile castanho, de barra azul e branca, dobrado em bico. Na cabeça um lenço de seda azul com flores brancas. Caminhava apressada, occultando parte do rosto no chaile, que segurava com as duas mãos.
Luiz de Mello e João Capella estavam parados, discutindo na borda do passeio, quando a rapariga passou por elles.
- Adeus, como está? - interrogou Capella, pondo na voz ternuras de namorado.
- Adeus, sr. Capella, contestou a rapariga, a Mariquinhas da Bandeira, como vulgarmente lhe chamavam na Figueira."
(Excerto do Cap. I)
Lino de Macedo (1858-1919?). "Nasceu em Coimbra, em 1858, mas residiu quase toda a sua vida em Vila Franca de Xira, onde exerceu o seu trabalho de escritor, jornalista e político. Fundador e redactor principal do jornal “O Campino”, serviu-se dos jornais, livros, folhetins e outras publicações para expandir o ideal republicano em Vila Franca de Xira e Alhandra. “Em 1887 Lino de Macedo apresenta o Programa Republicano – Carta ao Sr. Dr. Teófilo Braga, acto que foi uma ousadia para a época. Era um programa pautado por ideais republicanos de esquerda, defendendo a justiça gratuita e a cultura para todos, o anti-militarismo, a abolição da carga fiscal, a autonomia municipal e a defesa dos direitos dos trabalhadores”."
(Fonte: https://omirante.pt/semanario/2010-11-04/cultura-e-lazer/2010-11-03-o-primeiro-centro-republicano-fundado-em-alhandra-nao-conseguiu-mais-que-16-socios)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, manchadas, com defeitos e pequenas falhas de papel. Assinatura possessória na f. rosto.
Raro.
75€

18 fevereiro, 2025

BARROS, João de -
TEIXEIRA DE QUEIROZ (Bento Moreno).
Por... Lisboa, Sera Nova, 1946. In-8.º (19,5x12 cm) de 37, [1] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Apontamento biográfico de Teixeira Queiroz (1848-1919), escritor minhoto, natural de Arcos de Valdevez, associado à escola literária do Realismo, conhecido sobretudo pela sua obra de cunho analítico sobre os costumes rurais e citadinos, distribuídos por duas séries de romances/contos - Comédia do Campo e Comédia Burguesa. Trata-se de um ensaio sobre a vida e obra do ilustre romancista lido no Instituto Minhoto de Braga, em Fevereiro de 1945.
Ilustrado com o retrato do biografado - por António Carneiro - em página inteira.
"Aceitei com alegria o honroso convite do Instituto Minhoto para falar do romancista, do novelista e do contista que, segundo creio, melhor do que ninguém revelou e interpretou na sua obra literária a alma encantadora do Minho e de sua gente - porque nesta cidade, de Braga, de tão minhoto sabor, creio existir o ambiente mais adequado para essa, aliás breve e imperfeita, ressurreição literária.
Foi também Teixeira de Queiroz um intérprete de agudíssima sensibilidade, perante os fenómenos complexos da existência citadina pois as suas aspirações literárias não se acomodavam dentro de qualquer espécie de doutrina ou de intuito regionalista. Pelo contrário... E seja-me permitido afirmar que estava e ficava assim na atitude que mais fàcilmente e mais plenamente o levaria a evocar figuras, tipos e aspectos da província onde nascera e que tanto amara."
(Excerto do Ensaio)
João de Barros (1881-1960). “Foi um dos mais prestigiados pedagogos republicanos e, pode dizer-se, o principal ideólogo da escola republicana. Com uma vida inteira dedicada à causa pedagógica sempre pugnou por uma educação anti-dogmática e anti-autoritária e pela laicização da escola, combatendo a tradição jesuítica que influenciara, durante séculos, educação portuguesa. Ministro dos Negócios Estrangeiros, no governo de José Domingos dos Santos, de 22 de Novembro de 1924 a 15 de Fevereiro de 1925. Autor de «A República e a Escola» (1913) e «Educação Republicana» (1916).
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado de conservação.
Invulgar.
10€

22 agosto, 2024

AMORIM, Francisco Gomes de - AS DUAS FIANDEIRAS : romance de costumes populares
. Lisboa, David Corazzi - Editor: Empreza Horas Romanticas, 1881. In-8.º (16,5 cm) de 390, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Romance de costumes rurais. Trata-se de uma das mais apreciadas e invulgares obras do autor que escolheu a sua terra natal - Avelomar (A-Ver-o-Mar) - para epicentro da acção.
O presente exemplar terá pertencido ao próprio Gomes de Amorim, dado ostentar aquele que julgamos ser o seu carimbo pessoal na folha de ante-rosto, bem como correcções do texto a tinta ao longo do livro.
"Ha na formosa provincia do Minho uma freguezia rural denominada S. Thiago de Amorim, que se compõe de numerosas aldeias. Entre todas estas, avulta Avelomar, como a maior e mais bella pela sua posição. Está situada em planicie ampla, cortada por muitos riosinhos, semeada de fontes e arvoredos, que dão aos seus campos, sempre verdes e floridos, os aspecto de jardim vistosissimo.
Nada ha mais pittoresco e alegre do que essa povoação. De todos os lados se avista a fita azulada das aguas do oceano, orlando a terra, desde o sudoeste até ao norte."
(Excerto do Cap. I, Avelomar)
"N'um domingo, do anno de 1845, seriam apenas oito horas da manhã, estava já a capella de Nossa Senhora das Neves atulhada de gente. Fazia calor, e as portas achavam-se todas abertas de par em par. Sem embargo de respeito religioso, com que todos os habitantes, á excepção das beatas, se conservam sempre nas egrejas do Minho, e em Avelomar principalmente, notava-se ali não sei que vaga animação, n'aquelle dia; e todos cochichavam, mais ou menos. Como era cedo, e o padre não tinha vindo ainda para a sachristia, o sussurro da conversa ia crescendo de instante a instante. Unicamente os homens velhos fallavam pouco: todo o mulherio parecia agitado; esquecia-se completamente dos rosarios, e ficava longo tempo com as boccas colladas nos ouvidos das vizinhas; as raparigas casadas de pouco, olhavam com inquietação para os maridos; as solteiras, que não podiam córar mais, por serem naturalmente da côr das romans, mordiam os beiços de despeito, notando a impaciencia com que os rapazes olhavam para as portas.
Evidentemente, Avelomar estava commovida. A entrada de toda a população para a capella, uma hora antes da missa, era acontecimento que nunca se tinha dado desde que o mundo é mundo. Homens e mulheres haviam voltado as costas ao altar, o que era desacato estupendo; mas ninguem deu por elle. [...]
O padre Manuel entrou na sachristia e começou a revestir-se. Com a sua vinda cessou o borborinho; mas ninguem se virou para o altar; todos os olhos continuaram tenazmente a interrogar as portas.
Repentinamente, uma corrente electrica percorreu a multidão.
Duas mulheres, envoltas em grandes capas escuras, entraram pela porta da travessa. Apezar de estar tudo cheio, os homens esmagaram-se uns contra os outros, e abriu-se largo espaço, onde cabiam á vontade as recem-chegadas. Estas ajoelharam-se, com as costas para a porta, de modo que podiam ver e ser vistas de todos os lados."
(Excerto do Cap. II, Anna e Rosa Estella)
Francisco Gomes de Amorim (Avelomar, Póvoa de Varzim, 13 de agosto de 1827- Lisboa, 4 de novembro de 1891). "Poeta, jornalista e dramaturgo português, emigrou com dez anos para o Brasil, tendo sido caixeiro, em Belém do Pará. Vítima dos maus tratos de patrões portugueses, Gomes de Amorim fugiu para o sertão amazónico, onde por acaso encontrou, na cabana de uma família indígena, o poema Camões, de Almeida Garrett, episódio que dá início à sua vida de poeta, conforme relata no prefácio autobiográfico de Cantos Matutinos (1858). De volta ao Portugal, em 1844, depois de dez anos de ausência, estreita a relação de amizade que une Gomes de Amorim a Almeida Garrett, que tendo publicado o Romanceiro e Cancioneiro Geral, em 1843, irá influenciar o amigo e discípulo na valorização da cultura popular. A essa primeira influência soma-se a das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, em 1871, que irão desembocar no movimento nacionalista de valorização do mundo rural, enquanto repositório das raízes da Nação. É nesse contexto impregnado de amor à Pátria e de preservação das tradições populares que desponta As Duas Fiandeiras, “romance de costumes populares”, publicado por Gomes de Amorim em 1881 (embora escrito em 1866), pela prestigiosa editora de David Corazzi de Lisboa, dentro do selo “Horas Românticas”. A dedicatória da obra, evocação da paisagem amazónica, e a geografia da narrativa, a Avelomar natal, configuram as duas pátrias às quais o autor dizia pertencer. Retratados com fidelidade e verosimilhança, os tipos humanos que povoam As Duas Fiandeiras vêm ao encontro da caracterização regionalista nos quadros do realismo-naturalismo, ao mesmo tempo em que respondem pela idealização de uma ruralidade mítico-simbólica, com a qual se inicia a narrativa: “Ainda lá não chegaram os esplendores e os vícios da civilização, que ilustra e corrompe tudo (...)”.
(Fonte: Biblioteca Digital)
Encadernação coeva em meia de pele com nervuras e ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado, com falhas de pele na lombada, sobretudo nas extremidades. Miolo sólido, com ocasionais manchas de acidez.
Raro.
Indisponível

18 maio, 2024

GOMES, Celestino - MARIA DA DÔRES. [S.l.], [s.n. - Tipografia "Beira-Mar" - Ilhavo], MCMXXII [1922]. In-8.º (16,5X11 cm) de 57, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante novela, algo densa, de cunho modernista. Maria das Dores, a moça que dá nome ao livro, definha por causa de um amor impossível.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor ao jornalista aveirense Manuel Lavrador.
"Lentamente, na indecisão de seu andar nostálgico, Maria das Dôres descera a velha escada de granito escuro. Estiraçada, a sombra desenhava arabescos de roixo-cinza nos lilaseiros floridos do jardim onde ela viera sentar-se.
Na candura suavíssima dos seus desaseis anos incompletos, Maria das Dôres, mimosa figurinha de iluminura a cujo oiro tostado do cabelo o sol arrancava scintilas, costumava distrair fenilmente os olhos côr de alecrim nos verdes canteiros bordados de primaveras e gardénias, emquanto no regaço lhe repousava, a tempos olvidado, o volume do romance predilecto.
Raro se topariam mágoas naquêles olhos sombreados dum lilás delido, que raro, também, na sua alma de menina entrara alguma contrariedade maior que o vestido com que a modista faltou.
Tudo, nela, era graça e sorriso. Tanto, que fôra de costume já os pobresinhos tristes de chagas e velhos aleijões conhecerem-na pelo alvorecer de chilreantes risos com que acolhê-los vinha, junto do nicho musgoso da sua casa solarenga, cada segunda-feira, a dar-lhes a piedosa esmola semanal."
(Excerto do Cap. I)
João Carlos Celestino Gomes (Ílhavo, 1899 - Lisboa, 1960). "Foi um médico, professor, escritor e pintor português. Pertence à segunda geração de artistas modernistas portugueses. Foi pintor e ilustrador, área em que utilizou o nome João Carlos; escreveu sobre medicina; dedicou-se à literatura de ficção, à crítica e história da arte, sob o nome Celestino Gomes."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação inteira de pele com cercadura dourada na pasta anterior e ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Capas cansadas; impresso em papel de fraca qualidade.
Raro.
25€

22 outubro, 2023

FLAUBERT - A TENTAÇÃO DE SANTO ANTÃO. Traducção de João Barreira. Porto, Livraria Chardron De Lello & Irmão, editores, 1902. In-8.º (19x12,5 cm) de 228 p. ; E.
1.ª edição.
Primeira edição portuguesa deste clássico de Gustave Flaubert, obra em que o autor terá trabalhado cerca de 30 anos, foi originalmente publicada em 1874, sendo de imediato proibida.
"Na Tebaida, no alto de uma montanha, Antão é assaltado pela dúvida e por desejos longamente reprimidos, que se metamorfoseiam em visões de rara beleza e contundente terror.
Inspirado no conhecido quadro de Bruegel, A Tentação de Santo Antão é a história de um eremita torturado por fantasmas e alucinações que põem à prova a autenticidade da sua fé e a firmeza das suas resoluções.
Publicado em 1874, depois de várias versões, este texto antecipa algumas propostas da psicanálise e algumas das técnicas do surrealismo."
(Fonte: Wook)
"É na Thebaida, no cume de uma montanha, sobre uma platafórma talhada em meia-lua e circumdada de rochedos.
A cabana do Ermita fica ao fundo. É feita de lôdo e de canniçado, o tecto chato, sem porta. Vê-se lá dentro uma bilha e pão negro; ao centro, n'um estrado de madeira, um grande livro; pelo chão, aqui e acolá, filamentos de esparto, duas ou tres esteiras, uma cesta, uma faca.
A dez passos da cabana ha uma cruz alta, plantada no chão; no outro tôpo da platafórma, uma velha palmeira torcida pende sobre o abysmo, porque a montanha é cortada a prumo, e o Nilo parece formar um lago no sopé da escarpa."
(Excerto do Cap. I)
Gustave Flaubert (1821-1880). "Romancista francês. Filho de um cirurgião que trabalhava no Hospital de Rouen, fez os estudos secundários na sua terra natal e matriculou-se em Direito na Sorbonne. Em 1844, os primeiros sintomas de doença nervosa que o haviam de afligir toda a vida levaram-no a abandonar o curso. Quando já tinha adiantada a redacção de La Tentation de Saint Antoine, interrompeu-a para escrever o seu grande romance Madame Bovary, que em 1857 foi publicado em folhetins na Revue de Paris. Esta obra, que lhe custou cinco anos de trabalho, iria também levá-lo à barra do tribunal, em 1858, por atentado contra os bons costumes. Apesar do escândalo, a crítica consagra a obra pela novidade, perfeição e equilíbrio, e as tendências realistas. Em 1862, quatro anos depois da sua viagem a Cartago, Flaubert escreve Salammbô, revelando grandes faculdades criadoras. Em 1869 foi publicada l'Éducation Sentimentale, obra de análise psicológica que não foi bem apreciada e deixou o escritor muito desiludido. Só em 1874 é que publicaria La Tentation de Saint Antoine, que foi proibida. Nesta obra trabalhou Flaubert aproximadamente trinta anos. A obra de Flaubert representa o expoente máximo do romance realista em França e terá influenciado o escritor português Eça de Queirós."
(Fonte: Wook)
Bonita encadernação em meia de pele com cantos; pastas recobertas de fantasia de serpente e dourados e nervuras na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Invulgar.
Indisponível

15 junho, 2023

ALMEIDA, Julia Lopes d' - A VIUVA SIMÕES
. Lisboa, Antonio Maria Pereira - Editor, 1897. In-8.º (16,5 cm) de 210, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Romance de costumes brasileiro cuja acção decorre no Rio de Janeiro. Originalmente saído dos prelos em livro pela mão do editor António Maria Pereira (Lisboa), foi anteriormente publicado como folhetim na Gazeta de Notícias (Rio, 1895). A obra da autora - Júlia Lopes de Almeida - insere-se na corrente literária do Realismo/Naturalismo, e foi "reconhecida pelos críticos coetâneos como a primeira romancista brasileira, uma profissional das letras".
"Em uma de suas obras mais relevantes, A viúva Simões, Júlia Lopes de Almeida enfatiza as prescrições às mulheres brasileiras, o que se dá pela representação de uma viúva e o ressurgir de uma paixão há tempos esquecida. Telles (2008) resume a narrativa dizendo que:
[...] temos mãe e filha da alta burguesia apaixonadas pelo mesmo homem.
No conflito, a mãe experiente e conhecedora das artes da sedução e a filha
inocente e ingênua, as duas enlouquecem e permanecem encarceradas nos
anseios e culpas de uma vida sem nenhuma perspectiva, a não ser a regra
social do casamento
(Telles, 2008, p. 438).
Conforme a estudiosa destaca, a transgressão da personagem acaba punida, revelando, portanto, o destino daquelas que ousavam transgredir os papéis impostos socialmente."
(Fonte: Guimarães, Cinara Leite - O espaço ficcional em narrativas de Júlia Lopes de Almeida: A viúva Simões e a Falência, João Pessoa, 2015)
"Apesar de moça e de rica, a viuva Simões raras vezes sahia; dedicava-se absolutamente á sua casa, um bonito chalet em Santa Thereza. Vivia sempre alli, inquirindo, analysando tudo n'um exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados: a Benedicta, cosinheira preta, ex-escrava da familia; o Augusto, copeiro, francez, habituado a servir só gente de luxo; a lavadeira Anna, allemã, de roasto largo e olhos deslavados; o jardineiro João, portuguez, homem já antigo no serviço, e uma mulatinha de quinze annos, cria de casa, a Simplicia, magra, baixa, com um focinho de fuinha e olhos pequenos, perspicazes e terriveis.
Não era facil dirigir pessoal tão differente em raças e em educação. A viuva, modesta, e um pouco indolente para os deveres exteriores, consumia alli, dentro das suas paredes, toda a sua actividade.
Em vida do marido frequentara algum tanto a sociedade; mas depois que elle partiu sósinho para o outro mundo, ella encolheu-se com medo que se discutisse lá fóra a sua reputação, cousa em que pensava n'uma obsessão quasi nevrotica.
Adquirira fama de menagère exemplar; e então levava o escrupulo a um ponto elevadissimo, para não desmerecer nunca do conceito de boa dona de casa."
(Excerto do Cap. I)
Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). "Nasceu no Rio de Janeiro, a 24 de setembro de 1862, numa família de abastados imigrantes portugueses. Importante escritora, ativista pelo abolicionismo e cronista brasileira, teve uma educação liberal e esmerada. Em 1886, mudou-se para Lisboa e, no ano seguinte, já casada com o poeta português e diretor da revista A Semana Ilustrada Filinto Almeida, publicou o seu primeiro livro de contos, Traços e Iluminuras. Colaborou intensamente com diversas publicações periódicas sobre temas políticos e sociais, como a abolição da escravatura e os direitos civis, e, depois do seu regresso ao Brasil, para São Paulo, em 1889, publicou o seu primeiro romance, Memórias de Marta. Ao longo dos seguintes, Júlia Lopes de Almeida publicará alguns dos seus mais conhecidos romances, entre eles, A Falência. Nos primeiros anos do início do século, o casal mudou-se para uma casa no Rio de Janeiro, conhecida como Salão Verde, um espaço frequentado por intelectuais cujas conhecidas tertúlias eram organizadas e dirigidas por Júlia. Apesar de ter sido uma das impulsionadoras da criação da Academia de Letras Brasileira, viu, por ser mulher, o seu nome preterido da lista de membros-fundadores, em favor do marido. Em 1925, a família cruza novamente o Atlântico para se fixar em Paris. De regresso ao Brasil, Maria Júlia Lopes de Almeida, um dos nomes mais importantes do modernismo brasileiro, morre na sua cidade-natal, vítima de malária, a 30 de maio de 1934."
(Fonte: Wook)
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado de conservação. Capa apresenta pequeníssima falha de papel no pé.
Muito raro.
75€

30 maio, 2023

QUEIROZ, Eça de -
SINGULARIDADES D'UMA RAPARIGA LOURA.
Brinde aos Senhores Assignantes do Diario de Noticias em 1873. Lisboa, Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, 1874. In-8.º (17 cm) de 144 p. ; B.
1.ª edição.
Livrinho da apreciada colecção Brinde do "Diário de Notícias". O presente número é composto por 5 histórias amenas onde o fantástico se cruza com o histórico, da autoria de algumas das mais destacadas personalidades do panorama literário da época, incluindo um conto do fundador e proprietário do DN - Eduardo Coelho -, destacando-se no entanto dos demais a primeira edição absoluta de Singularidades d'uma rapariga loura, de Eça de Queiroz - que ocupa as primeiras 40 páginas - sendo esta uma das suas primeiras produções bibliográficas impressas em livro.
"Em 1872 Eça de Queirós é nomeado cônsul de Portugal em Havana e parte para as Antilhas. Enceta, depois, uma longa viagem pela América do Norte, tendo viajado pelos Estados Unidos (Nova Orleans, Filadélfia, Chicago, Nova Iorque) e pelo Canadá, onde visita Montreal. Em 1874 o Diário de Notícias publica no seu «Brinde» anual, o seu primeiro conto de grande fôlego, «Singularidades de uma rapariga loira», já marcado pelo normas realistas que pretende adoptar."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7266)
Vale a pena dar conta de um pormenor que muito ilustra a veia irónica e "realista" de Eça nesta pequena novela, publicada pouco tempo após as Conferências do Casino: a dada altura, no início do conto, que infra reproduzimos excerto, refere: "o facto é - que eu, que sou naturalmente positivo e realista..." Touché!, - ironia e profissão de fé.
"Escrito em 1873 e publicado em 1901 num volume de contos do autor, Singularidades de Uma Rapariga Loira é geralmente apresentado como o primeiro conto realista em português e uma das obras-primas de Eça de Queiroz. Nele se conta a história do amor de um jovem honesto e trabalhador, Macário, por Luísa, uma rapariga loira de «carácter louro como o cabelo - se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo "pois sim"; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências». Macário apaixona-se por essa rapariga aparentemente dócil, etérea e sem vontade própria, a ponto de sair de casa do tio Francisco, para quem trabalhava como escriturário, e ir até Cabo Verde em negócios, só para merecer casar com ela. No entanto, Luísa é de facto uma rapariga loura e singular..."
(Fonte: Wook)
"Começou por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macario...
Devo contar que conheci este homem n'uma estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, lusidia e lisa, com repas brancas que se lhe errissavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pelle em roda engelhada e amarellada, e olheiras papudas, tinha uma singular claresa e rectidão - por traz dos seus oculos redondos com aros de tartaruga. [...]
Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e secca e uma escuridão apparatosa. Eu tinha descido da dilligencia, fatigado, esfomeado, tiritando, n'um cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram 8 horas da noite. Os ceos estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monotono da dilligencia, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influencia da paisagem descarpada e chata, sob o concavo silencio nocturno, ou a oppressão da electriciade, que enchia as alturas - o facto é - que eu, que sou naturalmente positivo e realista, - tinha vindo tyrannisado, pela imaginação e pelas chimeras. [...]
Mas eu estava assim, e attribuo a esta disposição visionaria a falta de espirito - a sensação - que fez a historia d'aquelle homem dos canhões de velludilho. A minha curiosidade começou á ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio - e a creada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava defronte de mim, comendo traquillamente a sua geléa: perguntei-lhe, com a bocca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspendo nos dedos - se elle era de Villa Real.
- Vivo lá. Ha muitos annos - disse-me elle.
- Terra de mulheres bonitas, segundo me consta, disse eu.
O homem callou-se.
- Hein? tornei.
O homem contrahiu-se n'um silencio saliente. Até ahi estivera alegre, rindo dilatadamente, loquaz, e cheio de bonhomia. Mas então immobilisou o seu sorriso fino.
Comprehendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de certo no destino d'aquelle velho uma mulher."
(Excerto de Singularidades d'uma rapariga loura)
Contos:
Singularidades d'uma rapariga loura, por Eça de Queiroz | O primeiro amor (conto phantastico), por Marianno Froes | Firme-Fé, por Oliveira Pires | A Peste Negra, por Gomes Leal | A condessa do Carregal, por Eduardo Coelho.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Pequenas falhas e defeitos. Falha de papel na lombada. Com mancha antiga - desvanecida - nas primeiras folhas do livro.
Raro.
75€

07 maio, 2023

GUIMARÃES, Domingos - O TRISTE FIM D'UM MONSTRO. Illustrações de Candido da Cunha. Novellas de Portugal I. Paris, Aillaud & Cia, [1900]. In-8.º (14,5x7,5 cm) de [6] f. il. ; 34, [4] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
História pungente de um pequeno aleijado - o "monstro" - que se arrasta por caminhos poeirentos para adorar - de perto e de longe - uma beleza citadina. O seu convívio de crianças faz-se nas férias, junto da casa de campo da família da rapariga. Os anos passam e o moço espera e desespera pelo período do estio para retomarem os seus "diálogos amenos", mas a sua condição desigual - em "corpo" e alma - não se compadece com a sua índole sonhadora, levando-o ao desespero.
Livro precioso, em formato diamante, impresso em papel muito encorpado e de excelente qualidade, ilustrado com 6 belíssimos desenhos à parte do conhecido mestre-pintor barcelense Cândido da Cunha (1866-1926). Essas mesmas ilustrações são depois replicadas no texto, mas com cores diferentes entre si.
"Entre rendas a sua cabecinha poisava como n'um tufado nunho; seus olhos tinham o brilho vivaz e espantado de uma intteligencia desabrochada cedo; o nariz era petulante como a graça gauleza.
Disse-lhe um poeta, em madrigal, que, se Deus a não tivesse feito, a teria inventado. Não comprehendeu; mas o seu subtil instincto de mulher bonita segredou-lhe que era uma lisonja, e a lisonja agradava-lhe tanto como o debicar cerejas frescas com os seus dentinhos afilados de leôa precoce.
A paz da sua vida era serena e sem uma ruga. Ás tardes, debruçada para a estrada, com os cotovelos fincados nas pedras, via passar os carros que vinham das serras, com os seus tunneis de lona, e ficava-se a olhal-os com uma interrogação nos labios e uma curiosidade insatisfeita; muitas vezes pegava de conversa com os aldeões que passavam; e as suas risadas, que tiniam no claro ar com uma alegria doida, faziam rir os outros, infantilmente, como se lhes passasse pelo corpo um fremito d'aquella exuberancia de contentamento.
Mas o que a levava alli era o aleijadinho que se arrastava no pó, com as suas pernas quebradas, e uma bella cabeça loira a fitar, carinhosa, a cabecinha d'alveloa  que se pendurava no muro."
(Excerto do história)
Domingos Guimarães (1869-1934). Foi literato e publicista, trabalhou na imprensa, principalmente, como crítico de teatro e de literatura. Natural de Guimarães, foi no Porto que iniciou a sua carreira. Frequentou as mais selectas tertúlias, cultivando amizade com os escritores e artistas mais notáveis da época. Em finais de Outubro de 1897 mudou-se para Paris, abandonado a direcção do Branco e Negro. Segundo José Sarmento, que lhe fez a despedida em nome do semanário, iria assumir a função de correspondente de alguns diários informativos (n.º 84, de 7 de Novembro de 1897). Faleceu em Guimarães no ano de 1934.
Belíssima encadernação inteira de pele - executada pelo mestre encadernador Raúl de Almeida - com finos ferros gravados a ouro nas pastas e na lombada. Conserva as capas de brochura.
A numeração do livro está incorrecta, sugerindo a falta de 4 páginas, que não se verifica. A BNP tem registado na sua base de dados um exemplar igual, mas com apenas três estampas.
Muito raro.
Peça de colecção.
75€

23 março, 2023

QUEIROZ, Teixeira de - D. AGOSTINHO.
Por... Comedia Burgueza
. Lisboa, Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão, 1894. In-8.º (19 cm) de 338, [2] p. ; E.

1.ª edição.
Rara edição original do terceiro volume da série naturalista «Comédia Burguesa», e um dos mais notáveis romances do autor.
"Palmyra estava só e triste. Enterrada na poltrona, a pequenina e airosa cabeça entre as mãos constelladas de anneis, esperava anciosamente seu marido. Pouco antes estivera ali a condessa de Franzuella a dispol-a para a dolorosa noticia. As reticencias, as consolações vagas, as esperanças sem horisonte deixadas nas suas palavras, fizeram-lhe peor, tornaram-na excessivamente nervosa. O ranger das botas de Sallustio despertou-a. Quando elle entrou, aquelle seu aspecto convencional de tristeza deu-lhe logo a ideia de que tudo estava perdido. Agarrando-se-lhe freneticamente ao pescoço, perguntou n'uma explosão soluçante:
- Então?...
Sallustio beijou-a amoravelmente na testa, desprendeu-a do seu pescoço, acompanhou-a até ao sophá e, sentando-a a seu lado, disse n'uma voz resignada, designando-lhe o ceu com o olhar:
- Aquelle está melhor que nós
- Morreu! - exclama. Ai! meu querido pae! Tudo está acabado entre nós!
Atirou-se ao troco do marido como a um arrimo. O soluçar doloroso e sentido entrecortava-lhe as palavras de recordação e amor. Eram coisas da infancia, do tempo em que ella já não tinha mãe. Durante a vida, elle, seu pae, nunca tivera outra preocupação, outro pensamento, que não fosse o bem estar, a felicidade de Palmyra. Trabalhou sá para ella, dedicou-se-lhe absolutamente, como humilde escravo d'um sentimento affectuoso e enorme."
(Excerto do Cap. I)
Francisco Teixeira de Queiroz (Arcos de Valdevez, 1848 - Sintra, 1919). “Romancista e contista, Francisco Teixeira de Queirós licenciou-se em Medicina, tendo ocupado diversos cargos públicos, entre os quais o de deputado, de vereador da Câmara Municipal de Lisboa e de ministro dos Negócios Estrangeiros, neste caso em 1915. Chegou a ser presidente da Academia das Ciências de Lisboa. Fundou em 1880, com Magalhães Lima, Gomes Leal e outros, o jornal «O Século», tendo também colaborado nos periódicos «O Ocidente», «Revista de Portugal», «Revista Literária», «Arte & Vida», «Ilustração Portuguesa», «A Vanguarda» e «A Luta», entre outros. Em 1876, publicou o seu primeiro romance, «Amor Divino», com o pseudónimo de Bento Moreno, que viria a usar em outros livros. A sua vasta obra está repartida em dois grupos: «Comédia de Campo» e «Comédia Burguesa», imitando assim a «Comédie Humaine», de Balzac, um dos seus mentores. Durante cerca de 40 anos, reformulou o seu plano e a sua doutrinação literária sobre o romance, procurando incansavelmente aplicar o seu programa realista-naturalista de base científica. Cultivou uma escrita de feição realista, fazendo uma crítica constante à alta sociedade lisboeta, evidenciando os seus costumes, os seus modos de agir e de estar perante a sociedade portuguesa em geral. Em algumas das suas obras, por outro lado, retrata de uma forma carinhosa e saudosa os seus tempos de infância, vividos na quietude da sua terra natal.”
Encadernação recente inteira de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
35€

21 junho, 2022

LIMA, Jayme de Magalhães - TRANSVIADO. Romance illustrado com magnificas gravuras. Lisboa, Empreza Editora, 1899. In-8.º (17 cm) de 293, [3] p. ; [6] f. il. ; B.
1.ª edição.
Romance rural de índole realista. Vida e morte de Cláudio - os seus amores e desamores, ilusões, desilusões e opressões de uma alma inquieta e atormentada. A acção decorre entre 'Vilalva', Albergaria e Coimbra.
Livro ilustrado com 6 desenhos fora do texto de autor não identificado, sendo as chapas abertas por Pastor (Francisco Pastor, 1850-1922).
"Nos campos do Mondego, abaixo de Coimbra, a primavera é frequentemente agreste e fria. Quando o vento do mar sopra rijo sobre os brancos lençoes de malmequeres a surgir da terra humida e paludosa, ainda farta das aguas do inverno, as tardes são inclementes para o corpo ávido de repouso e doçura da natureza.
Este rapaz que além se apeou d'uma carruagem, em frente da estação de S. Braz, na estrada que vem dos lados de Albergaria, atravessou a linha conchegando o gabão que o vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em que só destaca uma carreta abandonada com poucos fardos, procura onde se abrigue. Estamos todavia n'uma tarde d'abril.
O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare; na porta em que leu «sala d'espera» abriu e entrou. A uma canto, sobre um duro banco de madeira, dormitava um homem gordo, de lunetas, mãos nos bolsos e chapéu derrubado para os olhos; ao lado uma mulher esbelta e franzina, um olhar brilhante sob o véo que lhe cobria o rosto.
- Eu agora... contra a luz... não distinguia bem. Pedoe v. ex.ª! disse dirigindo-se ao recem-chegado.
- Eu tambem, como vinha de fóra e a sala estava um pouco escura, não o conheci á primeira vista. Foi necessario reparar um pouco...
- Então como tem passado v. ex.ª depois da sua jornada ao estrangeiro?... Será melhor sentar-nos, acrescentou apressadamente o homem das lunetas sem esperar resposta... V. ex.ª tem aqui logar... dizia affastando um cesto de morangos d'um sofá que parecia mais commodo.
- Muito obrigado, muito obrigado... Não se incommode... Em qualquer sitio...
E o rapas ia a sentar-se quando o outro, abruptamente, o obriga a aprumar-se apontando-lhe a mulher.
- Minha mulher... o sr. Claudio de Souza Portugal, um cavalheiro muito illustrado e do meu maior respeito!"
(Excerto do Cap. I)
Jaime de Magalhães Lima (1859-1936). Natural de Aveiro. Foi um pensador, poeta, ensaísta e crítico literário português, irmão do jornalista e político republicano Sebastião de Magalhães Lima. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1888, onde conheceu Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e o seu grande amigo Antero de Quental. Era admirador de Tolstoi, que conheceu quando foi à Rússia, conforme relata no seu livro Cidades e paisagens (1889). Dirigiu a revista Galeria Republicana (1882-1883) e colaborou na Revista de Portugal de Eça de Queiroz. Colaborou ainda com regularidade no mensário O Vegetariano, dirigido por Amílcar de Sousa e em diversas publicações periódicas, nomeadamente nas revistas: A semana de Lisboa (1893-1895), Branco e negro (1896-1898), Atlântida (1915-1920), Pela Grei (1918-1919) e na revista Homens Livres (1923). A sua bibliografia é variada. Escreveu romances, ensaios e biografias.
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos e pequenas falhas de papel, com especial relevância no canto superior direito onde falta um pedaço. Lombada restaurada. Deve ser encadernado.
Raro.
25€

26 maio, 2022

LOBATO, Gervasio - A COMEDIA DO THEATRO. Lisboa, Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor, [188-]. In-8.º (18,5 cm) de 276 p. ; E.
1.ª edição.
Raríssima edição original de uma das mais invulgares obras do autor, publicada na década de 80 do século XIX. Trata-se de um conjunto de cartas satíricas sobre o mundo do teatro endereçadas por Simão Galhardim, personagem fictícia, a um seu amigo da "terra" - Queijadas, "mesquinha aldeia de Vianna".
"São seis horas e dez. A tabella marca o ensaio d'apuro dos Amores de D. Ignez, para as 6 1/2: com o quarto de hora d'espera, seis e tres quartos.
Os actores secundarios e os discipulos, começam a chegar, com terror das multas.
Um dos primeiros é o Fragiola, um rapaz de trinta e cinco annos, que desde os nove annos piza os palcos do theatro impellido por uma irresistivel vocação dramatica, e que vae já no seu vigesimo sexto anno de discipulo.
Fragiola accumula o amor da arte dramatica com um grande fraco pelas lides tauromachicas, e uma santa predilecção pelas irmandades religiosas.
Nunca falta a uma embolação, a um ensaio, e a uma procissão notavel.
Na sua vida artistica teve dois momentos de felicidade mas não os soube aproveitar. O emprezario do campo de Sant'Anna deixou-o um dia servir de homem de forcado, e quasi pelo mesmo tempo o emprezario das Novidades dramaticas, o theatro d'onde passou para o Colyseu das Artes, enfiou-lhe, a pedido da sua esposa, um papel de certa importancia, n'um drama novo.
Fez a pega, e fez o papel; mas não estava em sorte.
Na pega apanhou um trambulhão que o atirou pelos ares, no papel fez dar um trambulhão á peça nova, que a atirou pelo buraco do ponto abaixo.
Nas irmandades é que não conseguira  nunca o seu ambicioso desejo: - levar o pendão.
Os juizes, mais crueis que os emprezarios da praça dos touros, e o das Novidades dramaticas, nunca lhe confiaram esse nobre cargo de responsabilidade."
(Excerto de Antes do ensaio)
Gervásio Lobato (1850-1895). "Nasceu a 23 de Maio de 1850, em Lisboa. Autor, num curto espaço de tempo, de uma obra extensa e variada, foi jornalista, tradutor, comediógrafo e romancista, tendo sido comparado a Rafael Bordalo Pinheiro quanto ao humor e ao talento de caricaturista. Colaborou em vários periódicos da época, como o Diário de Notícias, o Diário da Manhã, o Jornal da Noite e O Ocidente, onde sucedeu a Guilherme de Azevedo na rubrica "Crónica dum ocidental". Os contornos realistas da sua crítica de costumes, exercitada nos romances e nas peças de teatro, são amenizados pelo tom displicente e pelo humor revisteiro. Foi condecorado, pelo rei D. Carlos I, com o Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1892. Morreu a 26 de Maio de 1895, em Lisboa."

(Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/40412828-a-comedia-de-lisboa)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em razoável estado geral de conservação. Manuseado. Pastas e lombada cansadas com defeitos. Assinatura de posse na f. rosto. Contém escritos a lápis na primeira parte do livro.
Raro.
Sem registo na BNP (possui exemplares da 2.ª e 3.ª edição).
Indisponível

26 dezembro, 2021

VIDOEIRA, Pedro - A FIDALGA DO JUNCAL (romance contemporaneo)
. Lisboa, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1904. In-8.º (18,5 cm) de 463, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance de costumes cuja acção decorre no norte do país, sobretudo na cidade de Barcelos e arredores.
"Americanos pesados e alguns trens, vindos da Praça Nova e da Batalha, acabavam de largar na estação de Campanhã os passageiros que do Porto se destinavam á linha do Minho pelo comboio das dez e meia.
Estava-se no inverno - em principios de janeiro - e o dia que rompêra carregado e feio, desentranhava-se numa chuva persistente que não promettia parar. ás dez horas da manhã era tamanha a cerração que muitas lojas, como se a noite se avizinhasse, tratavam de accender o gaz para as voltas indispensaveis da sua labutação quotidiana.
A poucos passos de distancia, não se distinguiam os raros vultos que as suas occupações obrigavam a sahir de casa com tal dia.
Do largo da estação corriam para dentroda sala e entrada, abrindo os seus guarda-chuvas, as pessoas conduzidas pelos trens e americanos.
A sineta era o segundo toque de prevenção. Faltavam sómente cinco minutos para a partida do comboio.
Todos se encaminhavam em direccção ao guichet da bilheteira, enfiando pela grade de resguardo que serve de regulador ás impaciencias dos apressados. [...]
Mais adeante na cantina - o botequim dos pobres, onde os consumidores são menos exigentes em satisfações de paladar - pediam-se copos de genebra e aguardente, que saboreavam com estalinhos na bocca os passageiros de terceira classe, faceis de distinguir pelas suas grossas japonas de saragoça, pelos seus grossos tamancos de pau e pelos seus grossos cajados de marmeleiro. [...]
Os passageiros iam occupando os seus logares, acompanhados dos moços que lhes depunham nas redes os embrulhos, as coberturas, os saccos e as maletas. Os mais previdentes procuravam dr as costas á machina para vitarem no trajecto as lufadas de fumo que invadem os assentos da frente. [...]
A locomotiva - esse hippogrypho do progresso, cujo ventre insaciavel devora colossaes rações de hulha e cuja sêde só se extingue com formidaveis trombas de agua - resfolgava ruidosamente, vomitando espessas columnas de vapor. [...]
Guiado pela experiente direcção do machinista, o monstro começou emfim a mover-se, e a extensa fila de wagons, vagarosamente primeiro, depois com mais presteza, largou pela via fóra, deixando atrás de si um denso pennacho de fumo, que se esvaía pouco a pouco em successivas espiraes. [...]
- Barcellos! Barcellos!
Então abriu-se a portinhola de uma carruagem de primeira e desceu para a plataforma um passageiro de vinte e oito annos, typo moreno, olhar vivo, estatura regular e barba negra pouco espessa. [...]
Percorrida a curta distancia da Avenida que põe Barcellos em contacto com a estação, o nosso passageiro dava entrada no Hotel Central, situado ao fundo do Campo da Feira, e pedia ahi um quarto dos melhores.
Na mesma  noite da chegada daquelle desconhecido, já se sabia - como sempre succede nas terras de provincia - que elle tinha sahido do Porto, que se chamava Luiz Trigoso, que era bacharel em direito e que vinha alli tentar carreira pela profissão de advogado."
(Excerto do Cap I, O filho do lavrador)
Pedro Alcântara Vidoeira (1834-1917). Poeta, escritor e tradutor português, natural de Lisboa. Emprestou a sua colaboração a jornais e revistas da época, onde se destaca a conhecida publicação Branco e Negro : semanario illustrado. A BNP dá conta de extensa lista de obras traduzidas por Vidoeira, sobretudo de Júlio Verne. Refere também duas obras poéticas - Lyrica popular (1895) e Nova lyrica popular (1913) - e dois romances: A fidalga do Juncal (1904) e Ambições de cortezã (1914).
Encadernação em meia de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado. Miolo correcto. Sem f. anterrosto.
Raro.
Indisponível