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21 setembro, 2026

ROSA, Marques - TRES MULHERES (novelas historicas). Prefácio de Julio Dantas. Lisboa, Depositaria a Empreza Portugal-Brazil [Composto e impresso na Tip. do Instituto - Sernache do Bonjardim], [1921]. In-8.º (17x11,5 cm) de [4], 203, [5] p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de três novelas históricas tendo como protagonistas, cada uma delas, uma mulher "lendária" em diferentes épocas da história nacional, reportando a primeira à lenda de Gonçalo Hermigues, o Traga-Mouros, cavaleiro templário, companheiro de armas de D. Afonso Henriques, e a sua amada Oureana (Fátima). Livro interessante, de leitura agradável.
Ilustrado com três bonitas capitulares, uma por novela.
Inclui no final um glossário dos termos antigos utilizados pelo autor.
"Do alto do minarete da masejad (mesquita) de Al-Kassr-bun-abu-Danés (Salatia, Urbs Imperatoria - Alcacer do Sal) o muezzin debruçado nos balustres, rodeando a bôca escancarada com as mãos em campânula, lançou o apêlo, gritado na sua lingua, vagaroso e cantante:
«Só Deus é Deus e Mahomét o seu profeta: - Orai.»
Como se apenas esperasse que os ultimos écos do brado se apagassem, ondulando pelas quebradas do rio e pelos recôncavos da várzia, o sol espreitou por cima das cumiadas da Serra das Chagas e da Serrinha os corucheus da mesquita e dirigiu para as glaucas e arrepiadas aguas do Chetawir (Sado) as primeiras flechas de luz.
N'este comenos desaportilhou-se lentamente, com estrépito de trancas e guinchos de roldanas, a porta de ferro aberta ao Leste da muralha; e uma alegre cavalgada irrompeu e serpeiou, descendo a congosta que vinha dar á veiga extendida a montante do rio, ao Norte e ao Oriente da povoação.
Mancébos e donzelas, a jovial mocidade da opulenta capital de Al Kassbr vozeavam, parolavam, trocavam salamaleks e cortesias, vibrando o ar ambiente de ruidos d'estribilhos e saturando-o de perfumes de laranjeira e nardo. [...]
Acoudelava a turba das mulheres, a filha do kaid d'Al Kassr.
Quinze anos. Estatura esbelta. Busto onduloso. Contornos amplos. Na côr mate da pele a bôca fendia-se curta, abrindo os lábios rubros sobre os dentes pequeninos, brancos de nacar. [...]
Em tôrno d'ela agruparam-se os moços almuades enamorados e volteiros.
E a joven castelã ria d'êles, com um riso sonoro e soluçado, desnorteando-os com a sua irónica desenvolvura."
(Excerto de Fátima)
"Na sexta feira 17 de janeiro de 1578, o senhor bispo conde D. Manuel de Menezes voltou-se a meio na grande cadeira de jacarandá com o assento e o alto espaldar de coiro lavrado de Córdova, tauxiado de prata. Acomodôu sôbre as rebeldes farripas de cabêlo já grisalho, o solideu roxo. Sofraldou um pouco a samarra e puxou de leve os cordões da murça.
Antes de falar, fixou sucessivamente a queixosa e o arguido. Depois tornou a medir com o olhar a queixosa.
Era ela uma destas criaturas de idade imprecisa, tanto aparentando 25 como 40 anos, que nunca tiveram ao menos aquêle período de frescura que caracteriza os primeiros tempos seguintes á puberdade.
Não tinha contornos.
Toda a figura era angulosa, dura de linhas, espalmada. [...]
Era esta criatura filha do grande matemático Pedro Nunes, lente de Prima nos Estudos Gerais de Coimbra."
(Excerto de Guiomar)
"Acabára tempestuosamente a refeição da manhã.
Tinham as madres do convento de Santa Clara de Vila Real começado apenas a dispersar do refeitório para o lavabo erguido com a sua dupla concha no claustro, quando a garria de bronze entrou de tanger a capítulo.
Em volta do tanque, as freiras dividiram-se imediatamente em dois bandos. As mais velhas, com as mãos metidas nas mangas dos habitos cinzento, sorriam irónicamente. As mais novas e as noviças, torcendo as mãos brancas, quasi diáfanas, cheias de aneis, e gesticulando com violencia, batiam de quando em quando o lagêdo polido com os sapatinhos de tacão de perdiz, altos tacõis pintados de vermelho, fivelados de oiro ou prata com pedras preciosas, e arremessavam para a nuca os veus negros da Regra."
(Excerto de Soror Clara)
Índice:
Fátima. (Século XIII) | Guiomar. (Século XVI - 4.º Quartel) | Soror Clara. (Século XVIII - 1.º Quartel).
Policarpo Marques Rosa (1864-1927?). "Natural de Pederneira, Nazaré. Ilustre filho adoptivo de Alvaiázere. Apesar de não ter nascido no concelho de Alvaiázere, adoptou Alvaiázere como sendo a sua terra natal, pois foi aqui que viveu a maior parte da sua vida. Desempenhou vários cargos, entre eles, presidente do Senado Municipal, Administrador do Concelho de Alvaiázere, Director do Hospital e do Grémio Alvaiazerense, durante a Primeira República.
Como activista republicano fundou, na vila de Alvaiázere, os semanários “O Combate” e o “Pátria Livre”, dos quais foi seu director e seu principal redactor, sendo colaborador nos semanários “A Voz da Justiça” e “Gazeta da Figueira”, ambos da Figueira da Foz.
Marques Rosa foi um escritor erudito, escreveu vários romances históricos sobre diversas personagens de épocas diferentes, o que o obrigou a fazer muita investigação no Arquivo Nacional/Torre do Tombo, Lisboa. No entanto, o seu estilo literário na época estaria muito longe do modernismo emergente, pois estava muito próximo dos escritores Júlio Brandão e em particular de Júlio Dantas.
Este nosso conterrâneo foi um nome sonante no seu tempo, viveu uma vida intensa e multifacetada, foi um republicano convicto, advogado, notário, solicitador, arquitecto, politico, investigador, escritor, prosador, ensaísta, jornalista e poeta."
(Fonte: https://terrasdaribeirinha.wordpress.com/category/policarpo-marques-rosa/)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
Com interesse histórico.
35€

15 setembro, 2026

LODY, George -
A RUSSIA NEGRA : romance.
Versão livre de João Amaral Júnior. Dramas da Espionagem. As aventuras dos mais célebres espiões internacionais III. Lisboa, João Romano Torres & C.ª : Livraria Editora, [193-]. In-8.º (21x14,5 cm) de 320 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Romance histórico de espionagem cuja acção decorre durante o período da Grande Guerra. Trata-se do terceiro volume (de 7) da estimada Colecção Dramas da Espionagem.
Obra da autoria de João Amaral Júnior, o 'tradutor', que assina com o pseudónimo George Lody.
Livro ilustrado com 16 desenhos e fotogravuras, incluindo um mapa e retratos de personalidades da época, sendo 9 em pagina inteira. A capa e os desenhos são de Ramos Ribeiro (1888-?).
"Do mesmo modo que em fins de 1916 - ano em que uma conjura de patriotas chefiada pelo principe russo Felix Yussopoff procurou sarar os males da Rússia, suprimeindo trágicamente o celebre taumatugo Rasputine - em fins de 1917 a França, assim como os demais païses da Entente, continuava seguindo com olhos alarmados o desencadear dos extraordinarios acontecimentos internos que na imensa patria de Nicolau III iam reflectir-se na sua acção guerreira do front... [...]
Ora o alarme despertado pelo éco de tão graves e variadas ocorrencias, determinaram naturalmente um consequente serviço de informações mais desenvolvido e, assim, o tenente Jorge Dulac, que acabava de dar firme prova da sua dedicação à patria e da sua tactica sôbre diplomacia secreta, partiu para Petrogrado, incumbido de elaborar circunstanciado relatório. Devia observar tudo quanto se referia à comparticipação da guerra por parte da Rússia e mais o que houvesse de concreto sôbre o tão apregoado defectismo que visava o tratado de uma paz em separado, a paz da Russia com a Alemanha."
(Excerto de I - A «missão» do tenente Jorge Dulac)
João dos Santos Amaral Júnior (Lisboa, 1899 - ?). "Tal como Guedes do Amorim e Rocha Martins, não concluiu qualquer curso superior, sendo exemplo de mais um autodidacta de sucesso que colaborou com a Romano Torres. Estreou-se antes dos 20 anos com o romance A ladra (1920), seguindo-se em 1923 novo romance intitulado Direito de viver com prefácio de Manuel Ribeiro. O Dicionário Universal de Literatura atribui ao bom acolhimento que teve destas primeiras obras o impulso que o levou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Embora não tivesse sido jornalista, colaborou enquanto crítico literário com o jornal A República e dirigiu o quinzenário Novidades Literárias.
Curiosamente, o Dicionário Universal de Literatura aponta o seu pseudónimo George Lody como sendo autor da «tradução livre» de alguns escritores estrangeiros, indicando como exemplos disso mesmo as obras Legião maldita, Rússia negra, Sentinelas dos mares, Braseiro ardente, Soldado da sombra e Espiões da Paz. Há clara confusão, visto que é o próprio João Amaral Júnior que se apresenta como tradutor de um alegado autor francês de nome George Lody, afinal seu pseudónimo. Este caso foi desconstruído por Maria de Lin Sousa Moniz no seu ensaio «A case of pseudotranslation in the Portuguese literary system». No entanto, o verbete do Dicionário Universal de Literatura, publicado em 1940, serve de exemplo para a confusão que à época havia relativamente à pseudotradução (Amaral Júnior não foi o único na Romano Torres, veja-se os casos de Guedes de Amorim e José Rosado).
A colaboração de Amaral Júnior na Romano Torres foi intensa, quer como autor, quer como tradutor. Para além de ter escrito os seis romances já referidos sob o pseudónimo de George Lody, que constituíram a colecção «Dramas de espionagem: as aventuras dos mais célebres espiões internacionais», escreveu também sob o pseudónimo de Fernando Ralph o livro O golpe alemão (1936), e no seu próprio nome Minha mulher vai casar (s.d.), O nosso amor não é pecado (s.d.), A mulher que jurou não ser minha (1936), etc. Enquanto tradutor, dedicou-se especialmente a Max du Veuzit e Claude Jauniére. Não se conseguiu apurar a data ou o local da sua morte."
(Fonte: fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=63#G)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos. Contracapa apresenta  falhas de papel nos cantos. Lombada reforçada com fita-cola. Páginas ligeiramente oxidadas.
Muito invulgar.
20€

21 agosto, 2026

BRANCO, Alfredo de Freitas -
O DESTINO.
Romance historico. Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1915. In-8.º (18,5x12 cm) de 63, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante romance histórico, com referências à Madeira, terra natal do autor.
Obra invulgar e muito curiosa, não mencionada na BNP.
"Nos confins da Europa, ao sul, isolada no meio do Atlantico a Madeira apparece aos olhos do viajante fatigado do horizonte immenso e monotono entre a agua e o espaço, como uma ilha encantada, surgindo das ondas com as suas negras montanhas cobertas de frondosos arvoredos, de exuberante vegetação, e indo os seus altos picos esconderem-se nas nuvens. [...]
Despido de monumentos, pobre de palacios e grandes edificios, com a sua vida muito calma, muito insipida, na sua simplicidade e no seu socego, o Funchal é encantador refugio para os espiritos doentes, atordoados e cançados do bulicio dos grandes centros.
Raros divertimentos ha além dos cinematographos. [...]
E na tão decantada «Perola do Oceano», esquecido, abandonado pelos governos, luctando para viver do seu proprio esforço, vive um Povo bom e laborioso... [...]
Mas o espirito de independencia nunca alvoraçou a alma dos Madeirenses que parecem felizes nas suas montanhas, no seu isolamento, no seu labutar esteril, com a sua vida monotona e calma, servindo de instrumento para o estrangeiro agglomerar riquezas, para os governos extorquirem impostos, contemplando os «touristes» que chegam de manhã trazendo a alegria e o bulicio e que ao entardecer, depois das excursões voltam para bordo, seguem pelo mar além emquanto a cidade recae no seu repouso triste, no seu silencio...
N'uma dessas apraziveis vivendas que se estendem isoladas, rodeadas de flôres e de arvoredo, para os lados dos Ilhéus, habita uma familia estrangeira. O Pae, um rapaz no vigor da vida, a Mãe joven ainda mas doente, pallida, uma tosse carvernosa destruindo-lhe, abalando-lhe o peito, e um filhinho de poucos annos, creança anemica e franzina confiada aos cuidados duma «institutrice». [...]
Aquella manhã de Maio despontou triste e chuvosa. Terminado o almoço em que escasseou a conversação entre os dois esposos, como sempre succede quando dois entes que se uniram sem paixão se encontram ligados para toda a vida, sem se sentirem familiares nem felizes na solidão. Rodrigo de Sequeira, sentado á secretária, olhava distrahido, através da vidraça, as enormes vagas do mar que vinham despedaçar-se com estrondo, levantando nuvens de espuma, sobre o caes e sobre os rochedos. Após uns instantes de contemplação, sacudindo a cabeça como para afastar pensamentos sombrios, escreveu por largo espaço, interropendo-se, monologando, e por fim leu:
«Meu varo Eduardo
Ha dois mezes que me encontro n'este isolamento sob a bandeira da «joven Republica Portugueza» tão indifferentemente recebida e em tão pouco tempo já odiada!"
(Excerto do Romance)
Alfredo de Freitas Branco (1890-1962). "Conhecido pelo título de Visconde do Porto da Cruz. Jornalista, publicista e escritor, foi também um homem de causas públicas, tendo abraçado várias ideologias políticas e doutrinárias, em diferentes fases da sua existência. [...]
Personalidade incontornável da cultura contemporânea insular, no seu tempo e espaço. [É possível identificar] representações culturais e identitárias da Madeira na sua escrita, evidenciando o discurso relativo à ilha, através de uma abordagem da obra de ficção, com particular incidência em O Destino (1915) e A viagem aventurosa de Suvenine Boliface a Zelstrufs (1934). Escritas em diferentes etapas do percurso literário do autor, a sua produção literária revela um cunho autobiográfico, e evoca questões históricas, políticas, sociais, culturais e identitárias. Deste modo, contribuiu para o conhecimento da identidade madeirense da primeira metade do século XX, fomentando uma reflexão acerca da atualidade de algumas situações retratadas."
(Fonte: https://digituma.uma.pt/entities/publication/38b7e6b8-b31a-4cf7-9b64-7c7ede621a9a)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa manchada à cabeça por acção da luz.
Muito invulgar.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€
Reservado

18 agosto, 2026

GARCIA, Alice -
O CASTELO MISTERIOSO OU A ASPIRAÇÃO DE DUAS ALMAS
e AMORES DUM CIGANO. Novelas. Lisboa, Edição de Alice Garcia, 1933. In-8.º (19,5x12,5 cm) de 165, [3] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de duas novelas, versão livre de duas histórias vetustas, adaptadas para o século XIX(?), empresa de Alice Garcia, a responsável pela edição do livro. Trata-se de um curioso exemplo de literatura de cordel, barata, destinada ao operariado e às classes menos instruídas, algo vulgares na década de 30 do século passado. A total ausência de informações sobre as tais histórias leva-nos a pensar, salvo melhor opinião, estarmos em presença de dois contos originais da "editora": o primeiro acaba mal; o segundo, bem; ou seja, dois contos moralizadores de raiz histórica com finais opostos, que preenchem os intuitos da autora.
Obra ilustrada com 8 bonitas estampas em página inteira, 4 por cada história.
"Êste pequeno mas interessante livrinho, consta de duas novelas emocionantes, como sugerem os seus títulos.
Estas novelas foram extraídas de dois antiquíssimos romances, que os meus antepassados muito estimavam e que às minhas mão vieram parar por heranças sucessivas.
Resolvi publicá-las, arrancando-as à poeira das antiguidades, depois de por mim concertadas e adaptadas da linguagem antiga à dos nossos dias, quási como homenagem a tão grande aprêço dos meus avoengos, senão com o prazer de tornar conhecidas tão interessantes novelas, pois estou esperançada no seu bom acolhimento."
(Aos leitores)
"O marquez enviuvara havia já alguns anos; fica dêsse matrimónio uma filha, Margarida, assim se chamava ela, uma encantadora rapariga de olhos azuis sonhadores e tristes, e longas tranças côr de ouro. Na época em que tem comêço a nossa narração, Margarida contava apenas quinze primaveras, era alta, elegante, de formas franzinas e delicadas como as ninfas de João Goujou; o seu rosto pálido e doentio, davam-lhe um tom que mais formosa a tornava ainda. Margarida era dotada duma extrema bondade, mas um tanto orgulhosa talvez devido à sua jerarquia. Seu pai, o velho marquez vivia só para ela que era todo o seu enlêvo... [...] Viviam num imenso castelo rodeado de grandes jardins e duma mata que se estendia a léguas de distância, o marquez, sua filha, duas velhas criadas, Joana e Mafalda, uma criada de quarto de Margarida, um velho criado que s echamava José, e Maurício, descendente de raça fidalga que era quem acompanhava o marques em tôdas as suas viagens e passeios."
(Excerto do Preâmbulo de O castelo misterioso...)
O marquez contava os seus 60 anos, era alto, magro, de tez morena, queimada pelo sol d'Árica, quando mais novo lá passara parte da sua vida, e no seu regresso assistia pouco depois à morte de seus pais, dos quais herdara o título de marquez, e a imensa fortuna de que eram possuidores.
Antes de partir para África vivia enamorado de uma jovem formosíssima que contava a essa data 14 primaveras. Vivia Helena com seus pais numa casa modesta em frente ao castelo dos velhos marquezes. [...]
Ora um dia, a horas já avançadas da noite,, estava Helena sentada junto de seu pai quando entrou pela porta dentro uma tribu de ciganos chefiada por Ruby, cigano valente e destemido."
((Excerto do Preâmbulo de Amores dum cigano)
Exemplar brochado em bom estado geral de consevação. Cansado. Capas amarelecidas.
Muito invulgar.
25€

09 agosto, 2026

LODY, George - BRAZEIRO ARDENTE : romance. Versão livre de João Amaral Júnior. Dramas da Espionagem. As aventuras dos mais célebres espiões internacionais. Lisboa, João Romano Torres & C.ª, [193-]. In-8.º (21 cm) de 228 p. ; il. ; B. Colecção Dramas da Espionagem ,IV
1.ª edição.
Romance histórico sobre espionagem durante o período da Grande Guerra. Quarto volume (de 7) da estimada Colecção Dramas da Espionagem.
Obra da autoria de João Amaral Júnior, o 'tradutor', que assina com o pseudónimo George Lody.
Livro ilustrado ao longo do texto com 14 gravuras, sendo 8 em pagina inteira. Capa e desenhos de Ramos Ribeiro (1888-?).
"Jorge Dulac voltou a Helsingfors...
Depois da sua piedosa visita à campa de Kaluga, no pequenino cemitério da aldeia nevada, apenas lhe restava abafar o desgosto causado pelo doloroso capítulo de amor que acabava de enlutar Rampov.
A missão oficial com que partira da França para a Rússia, achava-se retardada pelo grave incidente que no anterior volume narrámos.
As circunstâncias exigiam pois toda a inergia das suas faculdades, o absoluto desprendimento de entraves, para, exclusivamente, se entregar à dupla actividade com que esperava ganhar parte do tempo perdido."
(Excerto do Cap. I, Manhã de tiroteio)
João dos Santos Amaral Júnior (Lisboa, 1899 - ?). "Tal como Guedes do Amorim e Rocha Martins, não concluiu qualquer curso superior, sendo exemplo de mais um autodidacta de sucesso que colaborou com a Romano Torres. Estreou-se antes dos 20 anos com o romance A ladra (1920), seguindo-se em 1923 novo romance intitulado Direito de viver com prefácio de Manuel Ribeiro. O Dicionário Universal de Literatura atribui ao bom acolhimento que teve destas primeiras obras o impulso que o levou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Embora não tivesse sido jornalista, colaborou enquanto crítico literário com o jornal A República e dirigiu o quinzenário Novidades Literárias.
Curiosamente, o Dicionário Universal de Literatura aponta o seu pseudónimo George Lody como sendo autor da «tradução livre» de alguns escritores estrangeiros, indicando como exemplos disso mesmo as obras Legião maldita, Rússia negra, Sentinelas dos mares, Braseiro ardente, Soldado da sombra e Espiões da Paz. Há clara confusão, visto que é o próprio João Amaral Júnior que se apresenta como tradutor de um alegado autor francês de nome George Lody, afinal seu pseudónimo. Este caso foi desconstruído por Maria de Lin Sousa Moniz no seu ensaio «A case of pseudotranslation in the Portuguese literary system». No entanto, o verbete do Dicionário Universal de Literatura, publicado em 1940, serve de exemplo para a confusão que à época havia relativamente à pseudotradução (Amaral Júnior não foi o único na Romano Torres, veja-se os casos de Guedes de Amorim e José Rosado).
A colaboração de Amaral Júnior na Romano Torres foi intensa, quer como autor, quer como tradutor. Para além de ter escrito os seis romances já referidos sob o pseudónimo de George Lody, que constituíram a colecção «Dramas de espionagem: as aventuras dos mais célebres espiões internacionais», escreveu também sob o pseudónimo de Fernando Ralph o livro O golpe alemão (1936), e no seu próprio nome Minha mulher vai casar (s.d.), O nosso amor não é pecado (s.d.), A mulher que jurou não ser minha (1936), etc. Enquanto tradutor, dedicou-se especialmente a Max du Veuzit e Claude Jauniére. Não se conseguiu apurar a data ou o local da sua morte."
(Fonte: fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=63#G)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com defeitos. Lombada fendida. Páginas ligeiramente oxidadas.
Invulgar.
20€
Reservado

25 julho, 2026

DUBRAZ, João - 
ACHMET. Conto de fadas : fundado em lendas patrias. Lisboa: Vende-se na Loja de A. M. Pereira. Rua Augusta, n.º 188. 1852. In-8.º (16,5x11,5 cm) de XII, [2], 250 p . ; E.
1.ª edição.
Romance histórico de João Dubraz publicado sob anonimato. Obra oferecida pelo editor a Francisco d'Assis Salles Caldeira, que sobre a autoria de Achmet, nos diz na dedicatória: "O author do livro que ousei dedicar a V. S.ª já não existe: viveu obscuro e morreu ignorado - vida e fim communs a todos os engenhos desvalidos n'esta epoca corruptamente alchymica, que parvos e velhacos intitularam civilisada. Sem ser um genio, o author do Achmet era comtudo mancebo de rasão clara, juizo recto, e leal coração, que algumas decepções haviam quiçá lançado no scepticismo".
"Trata-se de um romance em prosa, muito inspirado na obra, D. Branca considerada uma das primeiras expressões do romantismo em Almeida Garrett,escritor que João Dubraz muito admirava e com o qual muito se identificava devido às convicções políticas que ambos perfilhavam.
O herói deste romance é Achmet, jovem mouro, guerreiro valente, amante apaixonado, sofrendo amores incompreendidos e cuja breve existência decorreu nos campos cerca dos rios Xévora e Caia, ou seja, nas terras onde foi fundada a vila de Campo Maior."
O romance foi apresentado pelo editor como se o texto lhe tivesse chegado às mãos sem nele constar o nome do autor. Por isso, era publicado anonimamente."
(Fonte: https://alemcaia.blogs.sapo.pt/21457.html)
A última parte do livro, desde a página 211 até ao final, é preenchida com uma colecção de poesias do autor do Achmet, também de cariz histórico.
"O som da buzina venatoria fere as montanhas, e echôa nas profundezas do valle. O real veado, surprehendido em seu leito de verdura, ergue-se d'um pulo ao fatal clangor estirando os membros ageis; e depois d'haver interrogado a impregnada aragem, e escutado com ouvido attento, busca refugio nos matos onde alteia sobrelevada a sua ramosa corõa; entretanto o bravo javali corre por entre as moitas intrincadas, e evita o perigo que se aproxima, fugindo por instincto ao ruido da montaria.
Sôa ao longe o latido dos sabujos, que em matilha farejam os passos da rez fugitiva: conjuntamente rebôa o galope de guerreiros ginetes e o clangor das buzinas de caça, tangidas com frequencia por fervidos caçadores.
Redobra mais e mais este ruido longinquo: os cães seguem açodados a pista da venção, e os briosos corceis, contidos por seus cavalleiros, brincam agora impacientes, porque os não deixam ultrapassar as recovas dos alões.
Progride a montaria, e o arruido é cada vez maior. Olfactando a caça, os sabujos embrenham-se nas selvas, e vam descobrir o real fugitivo, que colhido em asylo da charneca, de mau grado o deixa para correr diante dos mastins que inutilmente o perseguem."
(Excerto do Cap. I, O Lago do Muro)
Índice:
Achmet: [Dedicatória] | [Prólogo do Editor] | [Prólogo do Autor] | Achmet - Invocação | 1.º O Lago do Muro. 2.º A dama do corcel fouveiro. 3.º A lucta das alimarias. 4.º A ilha encuberta. 5.º A Torre-do-Moiro. 6.º O Castello-do-Amor. 7.º O torneio na Cabela-aguda.
Poesias: A pastora perdida | O pagem cioso | Dom Florisel | Dom Rodrigo, o Trovador | Liberdade.
João Francisco Dubraz (1818-1895). Natural de Campo Maior. "Professor de latim e francês. Dedicou-se ao comércio, que depois trocou pelo professorado. Foi também advogado provisional. Escreveu: Achmet (Lisboa, 1852); Recordações dos últimos quarenta anos, esboços humorísticos, descrições, narrativas históricas, e memórias contemporâneas (Lisboa, 1868) (2.ª edição em 1869); A Republica e a Ibéria (Lisboa, 1869); Cinco finados ilustres (autopsias e comemorações) (Lisboa, 1869); O aventureiro francês (Lisboa, 1869). Colaborou também em vários jornais."
(Fonte: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. IX, p. 327.)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos e falhas de papel marginais. Lombada restaurada, cadernos colados.
Raro.
85€
Reservado

15 julho, 2026

PATRICIO, F. J. -
TELAS ROMANTICAS.
Collecção de contos. Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira, 1903. In-8.º (17x10,5 cm) de 120, [4] p. ; [1] f. il. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de pequenos contos - históricos uns, outros de época, - enquadráveis na corrente literária do romantismo tardio.
Obra rara e muito curiosa, organizada com intuitos patrióticos e moralizadores.
Ilustrada em separado com o retrato do autor.
"Pelas onze horas da noite ninguem via já signal de vigilia no castello de Benil; havia muito que as luzes dos diversos aposentos e dependencias se tinham ido apagando pouco a pouco. O silencio reinava alli apenas cortado a espaços pelo grasnar de algumas rãs nos lagos da extensa quinta. O clarão de lua que subia len tamente no horisonte, desenhava nos vestustos adarves as sombras do arvoredo, mostrava a fórma ogival das frestas e distinguia as caprichosas aberturas das setteiras.
De todos os habitantes de Benil, fidalgos da mais nobre estirpe, cavalleiros de maior nomeada, opulentos senhores que se orgulhavam de ter em seus salões os retratos de familia em que havia venerandos prelados, esforçados paladinos, austeras abbadessas, graves geraes de mosteiros, ousados navegadores e reputados lettrados; de todos os habitadores do velho castello, incluindo os mordomos e capellães, os pagens e escudeiroed, os homens d'armas e os numerosos creados, só estava disperta, acordada e vigilante uma formosa donzella como todo o prestigio da m ais extraordinaria belleza e todas as graças e encantos proprios de quem apenas contava dezanove primaveras; era Violante, a meiga e sympathica filha dos senhores de Benil."
(Excerto de Como se amava no seculo XV)
"[...] Alvaro de... (não denunciarei mais, pois um nome basta para o conto), Alvaro era um esforçado cavalleiro em todo o vigor da edade e com todo o realce da fidalguia.
Ora, como todos sabem, a edade media é um periodo que tem sombras como uma noite de tempestade e ao mesmo tempo idillios como uma alvorada primaveral,; a humanidade peregrinava em toda essa epocha como o viajeiro atravez d'uma floresta, defrontando apenas, de espaço a espaço, com a luz escassa de alguma clareira.
N'esses tempos de cavallaria o amor tinha impetos selvagens quando era deslealmente correspondido.
Os amores de Alavaro por uma dama tão gentil como voluvel, tiveram um desenlace funesto. O coração magoado pela traição afundou-se n'um pelago de odios, o espirito, obscurecido pelo ciume, precipitou o brioso cavalleiro nos abysmos da vingança.
- Á mulher que me trahiu, dizia elle, o meu odio interminavel, ao meu rival a lamina da minha espada!"
(Excerto de O filho do crime)
Indice:
Como se amava no seculo XV | A captiva | Beatriz | O remorso | Milzura | Catita | O segredo de ermitão | O filho do crime | O mysterio da herdade | O prologo d'um noivado | O raminho de violetas | O milagre do annel | O monge d'Alpendurada | O perfumado mysterio de mademoiselle X | Um crime no seculo XVI.
Francisco José Patrício CvSE (Vitória, Porto, 1850 - Porto, 1911). "Foi um sacerdote católico, ilustre orador sacro, e investigador histórico português. Notabilizou-se pela sua grande capacidade oratória, tendo sido responsável por fazer a prédica em diversos momentos notáveis. Os seus sermões foram mais tarde reunidos em diversos volumes, sob o título Trabalhos Oratórios. Enquanto escritor, deixou impresso um livro, Telas Românticas, que reuniu diversos escritos da sua juventude, bem como diversos artigos de investigação histórica sobre a origem de romarias e usos populares, a maior parte publicados no Comércio do Porto mas também no Comércio Português, Jornal do Porto, Província, e Jornal da Manhã. Foi eleito deputado pelo círculo eleitoral do Porto nas eleições de 1881, por Viana do Castelo em 1896, e novamente pelo Porto em 1901 e 1904; não se envolveu, contudo, em debates importantes."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação recente em skivertex com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura anterior.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

11 julho, 2026

DIAS, Carlos Malheiro -
OS TELLES D'ALBERGARIA : romance
. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901. In-8.º (18x11,5 cm) de [8], 463, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Os Telles d'Albergaria é um romance marcante, e um dos mais estimados títulos da bibliografia do autor, publicado originalmente em 1901, no início da sua carreira literária.
A história decorre na zona da aldeia de Albergaria, e acompanha a vida e os conflitos dos membros da família Teles, nas suas dinâmicas e dilemas individuais face às pressões sociais e geracionais. "Foca o cenário político da segunda metade do século XIX, iniciando-se com as lutas liberais e culminando com a tentativa frustrada de implantação da república em Portugal, a 31 de janeiro de 1891. Em ambos encontra-se refletida, nos termos da escola realista e naturalista, a filiação monárquica do autor e a sua rejeição do regime constitucionalista então vigente."
Obra interessante e muito curiosa, sem registo na BNP; esta menciona apenas a 2.ª edição (1910).
"Por um claro domingo de Julho, á hora da missa, uma taquitana velha desembocava a trote no largo da Feira, em Guimarães, indo estacar á frente do palacios dos condes de Villa Torre - casarão envelhecido pelas chuvas e soes de quasi dous seculos, que emparedava com a frontaria de solar e convento todo um lado da praça, hasteando sobre um portal enorme, de couçoeiras denegridas, as armas nobres dos senhorios, entre janellinhas gradeadas de cadeia.
Longamente, os cavallos estafados saccudiram as colleiras de guizos, enxotando as moscas; e da boleia descem um velho creado, entre mordomo e feitor, que foi abrir a portinhola perra do landeau, desbarretado em frente do menino.
- Cá estamos em casa das tias de V. Ex.ª.
Então, saltou o estribo largo, ergueu-se um rapazinho franzino e pallido, como um uniforme de collegio, saccudindo uma vergasta de amieiro.
A sineta do portal badalou por muito tempo, echoando nas abobadas de pedra; e foi preciso esperar ainda um pedaço, á torreira do sol, antes que viessem abrir o vasto portão de masseira, chapeado de ferro, á lei da boa desconfiança minhota."
(Excerto do Cap. I)
Carlos Malheiro Dias (Porto, 1875 - Lisboa, 1941). "Jornalista, político e historiador. Natural do Porto, onde nasceu em 1875. Cursou Direito em Coimbra e frequentou Letras, em Lisboa. Foi deputado por Viana do Castelo e Vila Real.
Após a proclamação da República, exilou-se voluntariamente no Brasil, onde decorreu parte da sua actividade, tornando-se, em dado momento, o herdeiro espiritual de Eça de Queiroz a quem sucedeu na Academia Brasileira de Letras, e paladino devotado das ideias tradicionalistas.
Grande escritor, foi o romancista incomparável da Paixão de Maria do Céu, dos Teles de Albergaria e da coletânea de crónicas jornalísticas "A Verdade Nua". Doutrinador nacionalista da Exortação à Mocidade, dirigiu a obra monumental "História da Colonização Portuguesa do Brasil (1921)". Fez parte dos fundadores da Academia Portuguesa de História. Em 1935 foi nomeado embaixador em Madrid, de que não chegou a tomar posse, por motivo de doença."
(Fonte: https://archeevo.amap.pt/descriptions/90283)
Encadernação do editor em percalina com ferros gravados a seco e  ouro nas pastas e na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
Indisponível

10 junho, 2026

FALCÃO, Garibaldi - LUCRECIA BORGIA.
Adaptação do celebre drama de Victor Hugo. Por... Lisboa, Guimarães & C.ª - Editores, 1916. In-8.º (20x12,5 cm) de 23, [5] p. ; E.
1.ª edição.
Romance histórico. Trata-se de «Lucrecia Borgia», adaptação da famosa peça teatral de Victor Hugo (representada pela primeira vez em 1833), brilhantemente adaptada por Garibaldi Falcão, escritor e jornalista português. Explora a figura mítica de Lucrécia Bórgia - filha do Papa Alexandre VI -, uma mulher marcada pela lenda negra do Renascimento italiano, em época de decadência e dissolução moral, dividida entre a intriga, a crueldade da sua família e a paixão. (IA)
Garibaldi Falcão, na sua versão livre da peça, dá-nos a conhecer uma Lucrécia Bórgia na linha de Hugo, contrariando outros romances entretanto publicados, que procuravam reabilitar a nobre italiana. Em todo o caso, trata-se de um romance autónomo interessante e muito bem redigido.
"A personalidade de Lucrecia Borgia tem sido ultimamente das mais discutidas. Quer no theatro, quer no romance, Lucrecia Borgia era apresentada como o prototypo - até ha lgum tempo - da envenenadora, da mulher cynica, depravada, eivada de todos os vicios possiveis e imaginaveis, que iam desde o incesto com seus proprios irmãos até ser amante de seus pae, o papa Alexandre VI.
É assim que a tradição a representa e foi assim que o grande Mestre que é Victor Hugo a pôz em scena no seu drama, que, como todas as obras do Mestre genial, occupa e occupará sempre um logar de destaque na litteratura mundial."
(Excerto do Prefacio)
"No palacio dos doges, em Veneza, na noite de terça feira de Carnaval de um dos primeiros annos do seculo XVI, realisava-se um baile de mascaras.
Era então magistrado supremo da Republica Veneziana o celebre Barbarigo.
Os sumptuosos salões resplandeciam com myriades de luzes, que iam reflectir-se nas aguas dormentes do canal que circumdava os jardins do palacio e pelo qual deslizavam mansamente gondolas com mascarados, uns cheios de alegria expansiva e ruidosa, outros immersos em silencio e como que receiando até falar, não fôssem as aguas contar ao formidavel Conselho dos Dez um segredo meio revelado, uma palavra de sentido dubio, que trouxesse a morte a quem imprudentemente a proferira.
Porque Veneza tinha o terror da espionagem. Um gesto, uma palavra, por vezes mesmo um olhar eram uma sentença de morte."
(Excerto de I - No baile de mascaras)
José Garibaldi Viegas Falcão (1864-1944). "Foi um destacado jornalista, escritor e tradutor português. Exerceu a profissão jornalística durante cerca de 50 anos em conceituados jornais, como o Correio da Manhã, Diário de Notícias e O Século. É amplamente reconhecido como um dos grandes introdutores e divulgadores da literatura universal em Portugal. Destacou-se como autor de extensas obras documentais sobre a I Guerra Mundial, como a História Ilustrada da Grande Guerra. Traduziu para português obras de escritores consagrados, com destaque para Lev Tolstói (como Guerra e Paz), Victor Hugo, Honoré de Balzac e Charles Dickens. Para além do seu trabalho editorial, ficou também conhecido na história da imprensa portuguesa por ter sido o mentor e guia do lendário jovem jornalista Reinaldo Ferreira, mais conhecido como o Repórter X." (IA)
Encadernação em percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

11 maio, 2026

VASCONCELLOS, Julio Stretch de -
CONTOS
. Porto, Typ. de Arthur José de Sousa & Irmão, 1890. In-8.º (22,5x13,5 cm) de 200, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de contos curiosos e muito bem redigidos, alguns de matriz rural, onde o histórico se mistura com o presente, uma vez que o autor utiliza a técnica de inserir histórias de tempos passados em paralelo com o tempo actual.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor, parcialmente obliterada.
Obra rara e muitíssimo interessante, dedicada "Aos Ill.mos e Ex.mos Snrs. Condes de Castello de Paiva", oferta impressa com data de julho de 1890, em Celorico de Basto.
Júlio Stretch de Vasconcelos (1856-1896). Pouco foi possível apurar acerca do autor. Segundo a BNP, foi redactor do Jornal da Bairrada, desde 1 Jan 1888 (1.º número) e director da Gazeta de Paiva, desde 1 Out. 1894 (1.º número). Para além deste Contos, única obra em prosa, escreveu Breves noções de telegrafia electrica para uso dos empregados telegrafo-postaes segundo o programa oficial (1889). Faleceu cedo, com 40 anos de idade.
"O José de Felgueiras era um caseiro de terras a quem a vida não ía mal. Colhia á sua banda tres carros de milho e quatro pipas de vinho sem falar no centeio, nos feijões e o mais que as terras produziam que, por não ser aos carros, elle não contava. Uma unica cousa o affligia; casado, ia já em dez annos, com a Josepha, uma mulher gorda e sacudida. Deus não lhe dava filhos.
Fizeram promessa á Santa Eufemia, uma santa muito milagrosa, advogada de todos os males e afflicções que perseguem a humanidade; mas a santa ficou surda aos seus rogos e a Josepha continuava esteril.
Bem se diz nada ser perfeito n'esta vida e o José de Felgueiras ia-se fazendo mandrião, amigo de patuscadas e principiava já a frequentar as tabernas, onde pagava por bom dinheiro, um vinho ruim, salvo seja, baptisado com agua, que lhe derrancava o estomago e punha á divina a algibeira.
Uma noute em que elle se demorára mais na tasca na companhia d'uns almocreves, gente muito alegre que, por transitar muitas terras, sabe cousas de pasmar, ao vir pela barroca em direcção a casa, ouviu um vagir entre as silvas tanto parecendo gemer de cão, como de creança recem-nascida."
(Excerto de O José de Felgueiras)
Encadernação coeva meia de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado. Lombada descorada, com vestígios de selo de biblioteca. Interior correcto.
Raro.
Indisponível

27 abril, 2026

VASCONCELLOS, Henrique de -
FLIRTS. Lisboa, Ferreira & Oliveira, L.da, 1905. In-8.º (19x12 cm) de 240, [2] p. ; E.

1.ª edição.
Conjunto de contos originais, escritos em prosa rica e sensual, versando todos eles o amor descomprometido, o flirt, sendo alguns de índole histórica, do "tempo presente" e do domínio do fantástico. Trata-se da terceira (e última) obra em prosa do autor. Antes disso publicou A mentira vital (1896) e Contos novos (1903).
"Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza.
Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura acorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram  vêr os olhos puros. Ninguem o conseguiu.
Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu corpo.
Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave d'oiro fechava. E no ultimo a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos intactos esplendores da sua adolescencia."
(Excerto de A Rainha de Sabá)
"Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalavrada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado. [...]
Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. [...]
Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.
Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:
- Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarãos os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, é luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A besta ergue-se - olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobre e se per no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!
Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. [...)
Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.
O Diabo continuou:
- Quero a tua alma..."
(Excerto de Tibidabo)
Indice:
A escóla de Flirt | Flirts | Logica | A Bisantina | Má lingua | A Rainha de Sabá | Chiara Liliam | A Marcia | O cego | A gloria | A festa de maio | Tibidabo | A princeza perdida | Noite de festa | Clara | Idilio triste | Perfil d'aventureiro | Fumo.
Henrique de Vasconcelos (São Filipe, Cabo Verde, 1876 - Lisboa, 1924). "Diplomata, político, jornalista e escritor português, colaborador e amigo de Afonso Costa, deputado em várias legislaturas da Primeira República Portuguesa. Poeta decadentista, autor da Missa negra, foi Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta biblioteca.
Foi Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta biblioteca.
Cabo-verdiano de nascimento, radicou-se cedo em Lisboa, desfrutando de prestígio literário em Portugal. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em legações e missões diplomáticas em vários países.
Com uma obra de temática europeia, foi autor, entre outras, das seguintes obras: Flores cinzentas, poesia (Coimbra, 1893); Os esotéricos, poesia (Lisboa, 1894); A Harpa de Vanádio, poesia (Coimbra, 1894); Amor Perfeito, poesia (Lisboa, 1895); A mentira vital, contos (Coimbra, 1897); Contos novos, contos (Lisboa, 1903); Flirts, contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e Sangue das rosas, poesia (Lisboa, 1912). Também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas O Branco e Negro (1899), Ave Azul (1899-1900), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920)."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação inteira de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Ex-libris dos Condes do Bonfim no verso da capa frontal.
Raro.
Indisponível

11 abril, 2026

VIEIRA, Affonso Lopes - O ROMANCE DE AMADIS.
Composto sobre o Amadis de Gaula de Lobeira. Por... Lisboa, Sociedade Editora Portugal-Brasil, L.da, [1922]. In-8.º (17,5x12 cm) de [2], XLI, [1], 216, [8] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Versão moderna do Amadis de Gaula, talvez a mais conhecida novela de cavalaria da Península Ibérica.
Ilustrado com bonitas vinhetas tipográficas assinalando o início e o final da obra.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor ao Dr. Moreira Júnior.
"O Romance, Novela, História, Livro ou Conto, escrito por Afonso Lopes Vieira, nobre arauto e mantenedor do Lirismo da alma portuguesa e evocador das suas mais puras manifestações, não é invenção nova, individual dêle.
É a interpretação  moderna, a síntese artística de uma das grandes obras antigas de fantasia que todos conhecem os, de nome e fama pelo menos: o Amadis de Gaula (não da França, mas de Gales, Wales). Isto é: a narração das proezas e aventuras do primeiro e modelar cavaleiro andante das nações peninsulares que criaram o tipo. A narração, sobretudo, dos seus amores com Oriana, a Sem-Par, ora idílicos, ora contrariados.
Derivado, há mais de sete séculos, de lendas bretónicas, cantadas por troveiros anglo-franceses, o Amadis chegara a Portugal na mocidade del-rei D. Denis, nacionalizado por um meigo trovador desta costa ocidental, o qual, impulsionado acaso por atavismos célticos, talvez já tivesse redigido outros Lais de Bretanha, traduzindo e imitando Tristan e Lançarote, que em parte subsistem anónimos, em parte desapareceram."
(Excerto do Prefacio, de Carolina Michaëlis de Vasconcellos)
"Senhores, ouvide o romance de Amadis, o Namorado. Escreve-o um velho trovados português, e depois um castelhano, trocando-lhe a língua e o jeito, da sua terra o levou. Mas já as mais nobres mentes de Espanha por nosso o dão.
Em Portugal tem a segunda pátria o espírito heróico e amoroso da Távola-Redonda.
E o conto é de amor fino e fiel, de português amor, rendido com êle só.
Ao começar o romance de Amadis, invoco a memória do cavaleiro-poeta que o compôs, para que me alumie. Invoco o par para sempre enlaçado e vivo de Tristan e Iseu, que morreram de amor e dor ambos os dois.
E vós que amais com amor heróico e fiel, que amais o amor, ouvide a história como eu a senti."
(Excerto de I - Perion)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas oxidades. Interior correcto.
Muito invulgar.
45€

01 abril, 2026

VASCONCELLOS, Henrique de -
CONTOS NOVOS
. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1903. In-8.º (20x12 cm) de 237, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de contos, segunda obra em prosa do autor (das três publicadas), saída após A mentira vital (1896). Uns históricos, outros do 'tempo presente' (redigidos na primeira pessoa), sendo comum a todos uma certa matriz sanguinária, e a presença da morte - do amor e da morte.
"N'um longinquo Outróra, governava um ducado vasto como um reino, o duque Alindôr.
Governava? Não. Vexava os povos, exigindo constantemente contribuições para as desabridas correrias nas fronteiras d'um estado visinho; violava as virgens espreitando o pasmo que se lhes abria nos olhos; mandava tirar dos thalamos enfeitados as esposas recentes, para gaudio das suas ceias, que se demoravam até á noite alta despejando vastas canecas de vinhos fortes.
Fôra a maldição que cahira sobre aquelles povos, um flagello peor que a peste, porque esta passa, e o duque, apesar das orgias, da sua gula infrene, da volupia, era forte e são aos cincoenta annos, e parecia um pagem na ligeireza com que saltava para a sella e ia para montes distante e pelas florestas caçar faisões ou correr javalis."
(Excerto de As forcas)
"Foi em Carthagena, a cidade amaldiçoada e esteril, toda em montanhas asperas e pardas em que não cresce uma herva, que comecei a frequentar tabernas sujas de bairros excentricos, onde se reunem, pela noite morta, cocheiros, ladrões, almocreves e a fina flôr dos prostibulos reles, toda a Hespanha nocturna e pittoresca, faces queimadas, olhos brilhantes de creaturas magras, angulando e desperdiçando gestos. [...]
Uma noite fomos a uma pequena taberna, toda branca como uma ermida, isolada, em Quita-Pillegas, secco o ramo de louros á porta.
Vinha lá de dentro um rumor de briga e de risos. Alguem sahiu, gritando, as mãos no ventre.
E nós entrámos. Ainda pude vêr o brilho d'uma navalha que se limpava; aos poucos, toda a gente se foi sumindo, ficando apenas o taberneiro, impassivel, sentado ao balcão, como homem habituado ás scenas de facadas, e um bebedo, silencioso, o busto lançado sobre a mesa."
(Excerto de A cabeça da morta)
Henrique de Vasconcelos (São Filipe, Cabo Verde, 1876 - Lisboa, 1924). "Diplomata, político, jornalista e escritor português, colaborador e amigo de Afonso Costa, deputado em várias legislaturas da Primeira República Portuguesa. Poeta decadentista, autor da Missa negra, foi Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta biblioteca.
Cabo-verdiano de nascimento, radicou-se cedo em Lisboa, desfrutando de prestígio literário em Portugal. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em legações e missões diplomáticas em vários países.
Com uma obra de temática europeia, foi autor, entre outras, das seguintes obras: Flores cinzentas, poesia (Coimbra, 1893); Os esotéricos, poesia (Lisboa, 1894); A Harpa de Vanádio, poesia (Coimbra, 1894); Amor Perfeito, poesia (Lisboa, 1895); A mentira vital, contos (Coimbra, 1897); Contos novos, contos (Lisboa, 1903); Flirts, contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e Sangue das rosas, poesia (Lisboa, 1912). Também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas O Branco e Negro (1899), Ave Azul (1899-1900), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920)."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado de conservação. Aparado à cabeça. Capa de brochura frontal alvo de restauro; com assinatura de posse.
Raro.
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