VASCONCELLOS, Henrique de - CONTOS NOVOS. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1903. In-8.º (20x12 cm) de 237, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Conjunto de contos, segunda obra em prosa do autor (das três publicadas), saída após A mentira vital (1896). Uns históricos, outros do 'tempo presente' (redigidos na primeira pessoa), sendo comum a todos uma certa matriz sanguinária, e a presença da morte - do amor e da morte.
"N'um longinquo Outróra, governava um ducado vasto como um reino, o duque Alindôr.
Governava? Não. Vexava os povos, exigindo constantemente contribuições para as desabridas correrias nas fronteiras d'um estado visinho; violava as virgens espreitando o pasmo que se lhes abria nos olhos; mandava tirar dos thalamos enfeitados as esposas recentes, para gaudio das suas ceias, que se demoravam até á noite alta despejando vastas canecas de vinhos fortes.
Fôra a maldição que cahira sobre aquelles povos, um flagello peor que a peste, porque esta passa, e o duque, apesar das orgias, da sua gula infrene, da volupia, era forte e são aos cincoenta annos, e parecia um pagem na ligeireza com que saltava para a sella e ia para montes distante e pelas florestas caçar faisões ou correr javalis."
(Excerto de As forcas)
"Foi em Carthagena, a cidade amaldiçoada e esteril, toda em montanhas asperas e pardas em que não cresce uma herva, que comecei a frequentar tabernas sujas de bairros excentricos, onde se reunem, pela noite morta, cocheiros, ladrões, almocreves e a fina flôr dos prostibulos reles, toda a Hespanha nocturna e pittoresca, faces queimadas, olhos brilhantes de creaturas magras, angulando e desperdiçando gestos. [...]
Uma noite fomos a uma pequena taberna, toda branca como uma ermida, isolada, em Quita-Pillegas, secco o ramo de louros á porta.
Vinha lá de dentro um rumor de briga e de risos. Alguem sahiu, gritando, as mãos no ventre.
E nós entrámos. Ainda pude vêr o brilho d'uma navalha que se limpava; aos poucos, toda a gente se foi sumindo, ficando apenas o taberneiro, impassivel, sentado ao balcão, como homem habituado ás scenas de facadas, e um bebedo, silencioso, o busto lançado sobre a mesa."
(Excerto de A cabeça da morta)
Henrique de Vasconcelos
(São Filipe, Cabo Verde, 1876 - Lisboa, 1924). "Diplomata, político,
jornalista e escritor português, colaborador e amigo de Afonso Costa,
deputado em várias legislaturas da Primeira República Portuguesa. Poeta
decadentista, autor da Missa negra, foi Director Geral do Ministério dos
Negócios Estrangeiros e um importante bibliófilo, detentor de uma vasta
biblioteca.
Cabo-verdiano
de nascimento, radicou-se cedo em Lisboa,
desfrutando de prestígio literário em Portugal. Licenciou-se em Direito,
pela Universidade de Coimbra, e foi Director–Geral do Ministério dos
Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em legações e missões
diplomáticas em vários países.
Com uma obra de temática
europeia, foi autor, entre outras, das seguintes obras: Flores cinzentas, poesia (Coimbra, 1893); Os esotéricos, poesia (Lisboa, 1894); A Harpa de Vanádio, poesia (Coimbra, 1894); Amor Perfeito, poesia (Lisboa, 1895); A mentira vital, contos (Coimbra, 1897); Contos novos, contos (Lisboa, 1903); Flirts, contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e Sangue das rosas, poesia (Lisboa, 1912). Também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas O Branco e Negro (1899), Ave Azul (1899-1900), Brasil-Portugal (1899-1914), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920)."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado de conservação. Aparado à cabeça. Capa de brochura frontal alvo de restauro; com assinatura de posse.
Raro.
40€


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