09 abril, 2026

CUNHA, Annibal -
EM MINHA LEGITIMA DEFEZA.
Exposição apresentada ao Senado da Republica Portugueza por... Capitão-Pharmaceutico. Porto, Typographia Artes & Lettras, 1913. In-8.º (21x15 cm) de 27, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Importante contributo para a história da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, ocorrida no Porto. Trata-se da narrativa do autor, participante directo do movimento conspirativo, tendo tomado parte nos encontros e negociações de bastidores entre militares e iminentes figuras da República, e do que se seguiu - a fuga, e o exílio após o fracasso golpista, - e por fim o regresso à Pátria, onde, após o 5 de Outubro de 1910, reclama da sua situação militar. Inclui diversa documentação relacionada com o 31 de Janeiro, incluindo missiva abonatória em seu nome expedida por João Chagas do Limoeiro, em artigo de 1897, publicado no jornal Marselhesa, que o próprio dirigia a partir da cadeia, e outros testemunhos abonatórios de conhecidas personalidades do regime recém-instituído.
Opúsculo valioso, raro, sem referências bibliográficas, incluindo a BNP que não menciona a obra. Por certo com tiragem reduzida
"Sendo estudante, assentei praça, como voluntario, no mez de Janeiro de 1888, no Regimento de Infanteria 18, requerendo licença para estudos, que me foi concedida. Em 1890, á data do Ultimatum do governo inglez, tinha eu o posto de cabo. Tomei parte activa nas manifestações academicas de caracter politico que então se produziram, chegando a dirigir os meus companheiros do Lyceu do Porto sob o meu commando.
Terminando o anno lectivo, recolhi ao corpo e empreguei todo o tempo disponivel na propaganda republicana a dentro dos quarteis, distribuindo, secretamente, periodicos republicanos pelas casernas, organisando grupos e dando reuniões de cabos depois do toque de recolher.
Uma noite, estando de inspecção o capitão Sarsfield, reuni os meus camaradas e propuz-lhes a conveniencia de sahirmos  armados para a rua, afim e se proclamar a Republica. No meu enthusiasmo de rapaz, julguei que o momento era opportuno, visto que á Guarda Municipal não tinha sido ainda distribuida a espingarda Kropatschek, o que nos dava uma grande superioridade, apezar de estarem muito reduzidos os quadros dos regimentos da guarnição do Porto, pelo facto de haverem  sahido grandes contingentes d'estes corpos para o cordão sanitario. Quando este plano estava prestes a ser executado, alguem lembrou a conveniencia de préviamente nos entendermos com os elementos civis, pois poderia a nossa precipitação prejudicar quaesquer trabalhos revolucionarios que estivessem organisados. Por proposta minha, ficou desde logo nomeada uma commissão de cabos, que no dia immediato procuraria João Chagas, director da Republica Portugueza, para lhe offerecer a nossa cooperação Assim se fez, indo nós á redacção do jornal avistarmo-nos com João Chagas, que ficou surpreehendido com o que ouvia e deliberou enviar-nos no dia seguinte um delegado seu, que se entenderia connosco no Jardim da Cordoaria.
De facto, lá appareceu, á hora marcada, o Dr. Eduardo de Souza, que, em face da nosse attitude, e reconhecendo a gravidade da situação, nos aconselhou a fallarmos novamente com João Chagas, ficando eu incumbido d'essa missão.
João Chagas aconselhou-nos que esperassemos alguns dias até ao regresso ao Porto de Bazilio Telles e Santos Cardoso, para depois se dar inicio aos trabalhos revolucionarios entre militares. Pôz-me depois em relações directas com Alves da Veiga, Bazilio Telles e Santos Cardoso, que morava então na rua do Almada, onde João Chagas, para este effeito, lhe foi apresentado por José Pereira de Sampaio, que os reconciliou."
(Excerto da Narrativa)
Aníbal Augusto Cardoso Fernandes Leite da Cunha (1868-1931). "Cientista, pedagogo e militar. Filho de António Cardoso Leite da Cunha, militar, e de D. Quitéria Augusta Fernandes Cunha, naturais do Porto e moradores na rua do Almada, nasceu na freguesia da Vitória, Porto, a 8 de setembro de 1868. Foi batizado no dia 24 de outubro seguinte, tendo como padrinhos José Fernandes, seu avô materno, e Ana Rita da Costa Pinto.
No Porto fez o curso dos liceus e cedo se notabilizou pela sua intervenção cívica. Militar desde 1888 (assentou praça como voluntário no Regimento de Infantaria 18), participou na Revolta de 31 de Janeiro de 1891, facto que o conduziria ao exílio. Em Espanha, onde se exilou, foi um dos subscritores do Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891, editado em Madrid a 12 de abril desse ano. No Brasil, onde também esteve exilado, exerceu o magistério.
Regressou a Portugal após amnistia, a 6 de junho de 1893, e casou com Laura Vieira d’Andrade.
Em 1910 foi reintegrado no exército, mais tarde, em 1921, foi promovido a Major Farmacêutico e em 1930 colocado na situação de reserva.
Aníbal Cunha é considerado um dos principais obreiros da afirmação do ensino farmacêutico em Portugal, muito tendo contribuído para a converter a Escola de Farmácia na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, em 1921.
Integrou associações científicas e foi condecorado com a medalha de prata de classe de comportamento exemplar, medalha de bronze comemorativa da Revolta do 31 de Janeiro e medalha de ouro de comportamento exemplar. Foi, ainda, distinguido, com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e o título de Comendador da Ordem Militar de Avis.
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito raro.
Com interesse histórico.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
85€

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