14 abril, 2026

SOUSA,  Carlos de -
SCENAS AFRICANAS : 1897 a 1917
. Lisboa, Lamas, Motta & C.ª, [1917?]. In-8.º (19,5x13 cm) de 328 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de crónicas sobre histórias e episódios protagonizados pelo autor em África, por terras de Moçambique. Inclui viagens e capítulos devotados à caça grossa e a ao "encontro" com leões, um búfalo furioso e uma  carga de elefante, e ao seu relacionamento com a terra e as gentes indígenas e os seus costumes.
Obra com interesse histórico e etnográfico. Nada foi possível apurar sobre o autor, a não ser, pela leitura do livro, que foi oficial do exército português, tendo privado com Mousinho de Albuquerque e Gomes da Costa; era valente, apreciava sobremaneira África e tinha gosto pela aventura.
Livro ilustrado com inúmeras fotogravuras no texto.
"Todo aquelle que, levado á Africa pelos asares da vida e ao cabo de vinte annos quasi consecutivos de trabalho intenso, de sobreexcitação cerebral, devida á grande lucta para a existencia, n'aquelle meio e n'aquelle clima, embora resistindo á ferroada traiçoeira e vil dos inoculadores da malaria, tenha uma ou duas vezes passado pelas forcas caudinas da febre biliosa, e depois d'essa sobreexcitação, se encontre, embora com as maximas comodidades, o maximo carinho e conforto dos seus, no remanso do lar portuguez, é fatalmente invadido no fim de pouco tempo, que em geral não vae alem de um anno, pela terrivel doença nervosa, o desejo cruciante de voltar para lá, que tanto mais nos ataca, quanto mais tenhamos sofrido das febres, quantas mais contrariedades ali tenhamos tido, a terrivel nostalgia africana..."
(Excerto de Nostalgia Africana)
"Tinhamos sahido de Catuane n'uma chata de Monhé, tripulada por dois pretos, empurrada á vara; o rio ali junto á fogueira, é pouco fundo, e só pode ser navegado por aquelles barcos. Tinha a chata uns 4.m de comprido e 1m,20 de largo, e fizemos-lhe um toldo de capim com o duplo fim de nos abrigar do sol, e nos mascarar dos animaes do rio, para mais de perto os podermos caçar. Iamos sentados em comodas  cadeiras de lona, com as armas na mão, e a diante das mallas, cantina e um braseiro para fazer a comida. Para nós tinha um grande atractivo a viagem pois que sem nos massarmos, nem apanhar-mos muito sol, podiamos gosar a paisagem fluvial do rio Maputo que é realmente interessante.
Vinhamos da fronteira da Suazilandia e de Estatuene. O meu companheiro, um rapaz muito novo e muito rico, que viajava por diletantismo, fora-me recomendado em Lisboa; tinha um grande empenho em atirar a um cavallo marinho [hipopótamo], caça ali muito abundante; trazia uma Mauser com bala dum dum, eu uma Winchester de bala explosiva; vinhamos portanto bem armados para isso.
Elle chegára a Lourenço Marques havia poucos dias, e era completamente novato em caçadas de féras, e visitas a povoações de pretos. Com a ideia de atirar a um cavallo marinho, parecia uma creança.
«Espere, lhe disse eu, se tivesse vindo comigo ha uns seis meses, quando de volta da fronteira desci este rio, acompanhado do Corte Real, então era muito facil a caça a estes  monstros, mas agora, no tempo do cio, são umas verdadeiras feras; se se atira a uma femea, é certo que o macho vem sobre nós, se a um macho que vem atraz da femea, peor ainda, se a uma femea com filho, é ella que nos atáca; de resto são animaes muito pacificos, de olhar meigo, e nunca atacam que não os ataca primeiro.» [...]
Em breve vimos dois hipopotamos aos pulos na agua; era um casal brincando, o macho enorme, e apesar do rio ter ali uns 60m de largura de agua, parecia pequeno para elle. tão entretidos estavam os dois, aos pulos, que não deram por nós. N'um certo momento em que o macho estava mais socegado, e de cabeça de fóra disse ao meu amigo, que atirasse, apontando bem entre os olhos e, de espingarda engatilhada, fiquei esperando para acudir em caso de necessidade."
(Excerto de No rio Maputo, o regulo M'Pobobo)
Exemplar brochado em bom esta de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Raro.
85€

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