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03 julho, 2026

COSTA, Vieira da -
A FAMILIA MALDONADO (pathologia social). Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, 1908. In-8.º
(19x13 cm) de 437, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Romance realista 
cuja acção decorre na zona de Lamego.
Raro muito interessante, porventura a obra mais importante do autor.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do editor - Gomes de Carvalho - a Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), conhecido escritor, publicista e bibliófilo português.
"Foi na tarde de um domingo d'Agosto, em 1886, que a familia Maldonado chegou a Lamego, para ahi fixar residencia.
Era aquella a hora habitual do passeio, e a população, endomingueirada, formigava, convergindo para o Campo das Freiras a ouvir a banda do 9, ou para a Alamêda a gosar a frescura dos arvoredos e das aguas correntes. Pela rua dos Mercadores, um pouco angulosa, como pela de Almacave, accidentada e larga, e ainda pela da Olaria, estreita e ingreme, ia um fervilhar de gente. Bandos elegantes de senhoras em toilettes alvadias, de estio, criadas de servir ou operarias de folga com lenços de côres variegadas, berrantes, homens de campo e da cidade em trajos de festa, cavalheiros fumando e discutindo, conegos roliços, vermelhaços, d'uma adiposidade suina, rolando penosamente a sua rotundidade, - tudo isto pejava os passeios, invadia as ruas; os alumnos do collegio, em filas, commandados pelos padres, passavam unidos em batalhão; e os officiaes do 9, fazendo tilintar nas lajes dos passeios ou nas pedras da rua as suas espadas, punham uma nota marcial na pacatez das ruas pacificas.
Poucos em Lamego conheciam a familia Maldonado, e por isso, quando o carro que a conduzia, um pesado char-á-banks empoeirado e com o tejadilho abarrotado de malas, começou a subir penosamente a rua d'Almacave, grande foi a curiosidade que o seguiu, e os que melhor o observaram puderam vêr, atravez das cortinas entreabertas, quatro senhoras novas e bonitas, um cavalheiro idoso de bigode e pêra já brancos, e uma creada magra, esgalgada, com perturberancias osseas no rosto já rugoso, e o queixo deformado n'um prognatismo de caricatura."
(Excerto do Cap. I)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas, A Irmã Celeste e A Familia Maldonado. Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."
(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação meia de percalina com pastas recobertas de fantasia emoldurada por cercadura. Lombada lisa. Sem capas de brochura.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas manchadas com cortes e defeitos marginais
.
Raro.
50€

26 setembro, 2025

COSTA, Vieira da -
ENTRE MONTANHAS (Scenas da vida do Douro). Por...
 Romances Nacionaes - III. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1903. In-8.º (19x12 cm) de 493, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Romance naturalista de costumes durienses cuja acção decorre, sobretudo, no Praso das Mattas, vasta quinta vinhateira situada no Douro transmontano.
"Nos principios d'este ultima decada do seculo, que vae correndo, era motivo geral de curiosidade nas Caldas do Mollêdo, já entre os banhistas adventicios, já entre os indigenas interessados, a presença alli, em determinados dias, d'um rapaz para muitos desconhecido, e que de ordinario se apresentava com uma regularidade severa de funccionario escrupuloso. Viam-n'o sempre chegar a horas certas, pelo começo da tarde, ás vezes a cavallo, ás vezes no comboio, inteiramente vestido de luto aliviado, muito cuidado no seu vestuario e profundamente comedido nos seus modos. Tão comedido mesmo, que ninguem lograva atinas com a causa das suas visitas, para muitos inteiramente mysteriosas.
Era um elegante typo de rapaz, alto e delgado, de curtis mate, olhos castanhos e um fino bigode louro-escuro sobre a bocca séria, sensual e carnuda. Não tomava banhos, não visitava ninguem, não parára jamais em frente de qualquer janella: e como tambem não assistia a nenhum divertimento, - a nenhum baile ou soirée, a nenhuma reunião ou merenda, a nenhuma burricada ou regata - nem mesmo se podia dizer que o desejo de distracções o trouxesse á terra.
A verdade, porém, é que se muitas eram as pessoas que ignoravam quem elle fôsse, algumas havia, comtudo, que o conheciam a fundo, com grande precisão de pormenores illucidativos. E d'essas, o commendador Amaral Leitão era o mais instruido, e foi o que logrou desvendar o mysterio.
O tal rapaz, que elle conhecia tão bem como os seus dêdos - aquelles dêdos grossos, cabelludos, com um rico annel de brilhantes no fura-bollos da mão direita - chamava-se Affonso Duarte da Cruz Silveira, era vaccinado, tinha vinte e cinco annos de edade e 1,74 centimetros d'altura, rigorosamente medidos no estalão administrativo quando fôra á inspecção para soldado, de que, aliás, um numero alto o livrára. Pelo que respeitava a bens de fortuna, ou meios de a adquirir, possuia uma casa de moradia nas ribas do Douro, uma legua para oeste, em sitio ermo, com uma terreola annexa onde cultivava com aproveitamento couves gallegas e aboboras meninas, cebollinho e outras plantas hortenses e dois milheiros de cêpas muito cuidadas, que davam o melhor de doze pipas de vinho, bom anno, mau anno, ; tinha ademais uma commisão para compra de vinhos da respeitavel firma ingleza - Coley and Smith - Oporto - que negociava na especialidade; e como esperanças de futura prosperidade, possuia lá para as bandas de Murça um tio materno, septuagenario, doente e sem mais herdeiros. Sobre o luto, que elle trazia, não se sabia nada."
(Excerto do Cap. I)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas (1903) A Irmã Celeste (1904) e A Familia Maldonado (1908). Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou-o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."
(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação simples em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Com imperfeições nas pastas.
Raro.
Indisponível

20 janeiro, 2019

COSTA, Vieira da - A IRMÃ CELESTE (pathologia religiosa). Lisboa, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1904. In-8.º (18,5cm) de 498, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance realista/naturalista de forte pendor anticlerical.
"Foi por um bello dia de março, no momento preciso em que na torre da igreja matriz soavam as dose badaladas do meio dia, que as Irmãs de Caridade, ha tanto tempo esperadas, chegaram á vasta portaria do hospital, amontoadas dentro d'um velho landau fechado e poeirento, puxado por trez magros cavallos esqueleticos, d'ossaduras salientes.
Áquella hora não eram esperadas, e por isso não havia ninguem que as recebesse. O provedor estava ausente, o medico não chegara ainda; e só havia presente o velho pharmaceutico hospitalar, Norberto Taveira, sentado á janella da botica, no rez do chão da casa, a ler o Seculo."
(Excerto do Cap. I)
"Chamava-se, no seculo, Valentina de Castro Aboim de Noronha, a linda irmã Celeste, e tinha vinte annos. O pae, Manuel de Souza Aboim de Noronha, morgado de Valle de Cedros, e a mãe D. Maria Vasques de Castro, lá deviam residir ainda no velho solar da Beira, definhando dia a dia n'uma trizteza morna e inconsolavel, desde que a partida da filha os deixara n'uma solidão desolada como um abandono.
Quinta na ordem de nascimento, Valentina tornara-se filha unica por morte de seus quatro irmãos, fallecidos creanças. Ella mesmo não dera, a principio, esperanças de viabilidade, tão franzina, tão delicada era a sua compleição. O sangue dos paes, derrancado e empobrecido por successivos casamentos consanguineos, não transmittira aos filhos senão uma seiva dessorada e debil, - e d'ahi aquelle sersinho fraco e doentio, que a morte parecia a cada ameaçar com sua fouce impiedosa."
(Excerto do Cap.II)
"A installação da vespera, toda provisoria, só n'esse dia teve o seu caracter definitivo, - e desde então tudo entrou nas praxes determinadas, que o regulamento prescrevia.
Mas quasi logo começou mais uma vez a desenhar-se para Valentina o espectro sarcastico da desillusão, que tantas vezes a fustigara já com o rijo tagante do desgosto: as Irmãs, as santas Irmãs de Caridade, que ella sempre imaginara uns entes piedosos a desentranharem-se em dedicações sublimes pelos enfermos, surgiam agora, sem os atavios da consagração, o que real e verdadeiramente eram, uns simples typos mercenarios, cumprindo uma obrigação, que lhes era imposta."
(Excerto do Cap. III)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas, A Irmã Celeste e A Familia Maldonado. Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."

(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Sem f. anterrosto.
Muito raro.
Indisponível