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10 julho, 2026

ARRIAGA, Manuel d' -
RENOVAÇÕES HISTORICAS.
Primeira Parte: Necessidade da intervenção das Sciencias Naturaes na Historia Universal dos Povos para assental-a em bases positivas e dar-lhe um caracter verdadeiramente scientifico. Dissertação de... Para o concurso da cadeira de Historia Universal e Pratica no Curso Superior de Letras. Lisboa,  273 - Imprensa - Rua da Rosa - 275, 1878. In-8.º (20,5x14,5 cm) de 47, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Importante trabalho académico de Manuel de Arriaga, que, não obstante a sua evidente qualidade, seria desvalorizado pelos decisores do concurso.
Renovações Históricas (1878), é um ensaio filosófico e científico de Manuel de Arriaga, figura incontornável do republicanismo e primeiro Presidente de Portugal. A obra defende a aplicação dos métodos e princípios das ciências naturais à História Universal, perspectivando a evolução social e cultural com base no evolucionismo. O livro reflete a profunda influência do positivismo e das teses darwinistas na intelectualidade portuguesa do final do século XIX. Arriaga argumenta que a evolução humana não é apenas biológica, mas também social, e que a historiografia necessita de uma base científica sólida para compreender o progresso da humanidade e a sua emancipação das amarras dogmáticas. (IA)
Obra rara e muito interessante.
"Um dos traços caracteristicos do seculo que vae findar está manifestamente na decadencia progressiva em que vão os estudos empyricos do passado, baseados na auctoridade e na fé, e a rapida evolução com que se elevam em sentido contrario as sciencias naturaes, baseadas na observação e na analyse.
Desde o meiado do seculo XVIII podemos dizer que as attenções dos grandes pensadores tem-se voltado, quasi exclusivamente, para a contemplação e estudo do mundo exterior, com grave detrimento, é forçoso confessal-o, do nosso mundo interior."
(Excerto do Cap. I)
Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue (Horta, Matriz, 1840 - Lisboa, 1917). "Ilustre advogado, professor, escritor e político português. Orador de excelência e membro destacado da geração doutrinária do republicanismo português, foi dirigente e um dos principais ideólogos do Partido Republicano Português. A 24 de agosto de 1911 tornou-se no primeiro presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo na chefia do Estado ao Governo Provisório presidido por Teófilo Braga. Exerceu aquelas funções até 29 de maio de 1915, data em que foi obrigado a demitir-se, sendo substituído no cargo pelo mesmo Teófilo Braga, que como substituto completou o tempo restante do mandato.
Formou-se no ano de 1865 e no ano seguinte abriu um escritório de advogado em Lisboa, cidade onde se fixou. Tentou então ingressar na docência do ensino superior e nesse ano de 1866 concorreu, sem êxito, a um lugar de professor da 10.ª cadeira da Escola Politécnica de Lisboa. Não tendo conseguido ingressar na docência, rapidamente se notabilizou como advogado, ganhando uma carteira de clientes que lhe permitia segurança financeira e os meios para ajudar o irmão a terminar os seus estudos.
Também se revelou, desde os seus tempos de Coimbra, cultor da poesia e da literatura, tendo mantido até ao fim da sua vida uma actividade literária e interesses culturais que o integram claramente na Geração de 70.
Em 1878 concorreu para o lugar de professor de História Universal e Pátria do Curso Superior de Letras, mas voltou a ser preterido, apesar do brilhantismo da dissertação que apresentou a concurso. Apesar de ser considerado um gentleman e de vestir à melhor moda da aristocracia do tempo, a sua fama de revolucionário não deixou certamente de influir sobre o júri."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa apresenta mancha e pequena falha de papel no canto superior direito. Interior correcto.
Raro.
Peça de colecção.
45€

14 junho, 2026

KANT, Immanuel -
ENSAIOS DE KANT A PROPÓSITO DO TERRAMOTO DE 1755.
Traduzidos por Luís Silveira. Lisboa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1955.In-8.º (21,5x16,5 cm) de [4], III, [1], 64, [2] p ; B.
1.ª edição.
Obra curiosíssima do eminente filósofo alemão, elaborada pouco tempo após o Terramoto de Lisboa em 1755, pela primeira vez vertida para português no ano em que se assinala o bicentenário da tragédia.
Acerca dos ensaios de Kante relacionados com o Terramoto de Lisboa, com a devida vénia, reproduzimos parte do artigo de Leonel Ribeiro dos Santos da UL:
"Os 3 ensaios que, sobre o terremoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755, Kant escreveu nas semanas e meses que seguiram à catástrofe e que foram publicados nos primeiros meses do ano 1756 (o primeiro, em 24 e 31 de janeiro, num semanário de Königsberg, o segundo e mais longo, publicado autonomamente no início de março, e o terceiro, publicado no mesmo semanário do primeiro, a 10 e 17 de abril), têm sido objeto de muito escassa atenção, até mesmo por parte dos kantianos, passando despercebidos ou sendo mesmo desvalorizados, ora porque se tomam por meros escritos de juventude e de circunstância, não sendo o assunto de que se ocupam nenhum tópico relevante da agenda propriamente filosófica da época, ora porque se pensa tratarem eles de matérias que eram objeto de saberes ainda “selvagens” ou em processo de constituição como a Geologia e a História da Terra, baseados na descrição e na interpretação de fenómenos empíricos para cuja explicação se invocava teorias antigas e, por isso, também sem uma real relevância para os estudos da sismologia “científica”, que só se afirmaria como tal muito mais tarde. Desvalorizados, por conseguinte, tanto pela sua irrelevância filosófica quanto pela científica. [...]
A primeira coisa que impressiona ainda hoje o leitor destes ensaios é a rapidez da resposta reflexiva de Kant aos acontecimentos e a amplitude e densidade científica e especulativa dessa resposta. [...] Atendendo à quantidade de autores, testemunhos e fontes (mais de uma vintena) que cita, refere e comenta nesses ensaios, sobretudo no segundo, não é verossímil que Kant os tivesse encontrado e reunido todos à pressa para apoiar as suas reflexões. Na verdade, esses escritos, embora sejam motivados pelo acontecimento sísmico, que abalou e destruiu Lisboa na manhã do 1 de novembro de 1755, inscrevem-se numa fase importante de constituição e afirmação do pensamento do jovem Kant, nos anos 1754-1756, caracterizada por preocupações naturalistas, na qual ele se revela já como um pensador autónomo e extremamente ousado, ocupado sobretudo com questões de Cosmologia e Cosmogonia, de História da Terra e Geografia Física. [...]
Mas não só isso. O jovem Kant revela-se particularmente impressionado pelo caráter singular do acontecimento. Disto dão prova várias declarações esparsas pelos ensaios que apontam todas para a singularidade, a magnitude e extensão de efeitos, o alcance e o significado do terremoto de Lisboa, e não apenas como fenómeno físico digno de ser pensado por investigadores da natureza, mas também pelo que ele representa como desafio, interpelação e ocasião para uma reflexão sobre o destino coletivo dos homens e sobre a condição humana."
(Fonte: Santos, Leonel Ribeiro dos, Pensar a catástrofe, pensar a atualidade: Os ensaios de Kant sobre o terremoto de Lisboa, Universidade de Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Lisboa, Portugal), 2016)
"Os ensaios escritos por Kant acerca do terremoto de 1755 merecem ser considerados, ainda hoje, entre as mais importantes páginas da literatura mundial que dizem respeito ao acontecimento.
Ao fazer-se a presente tradução para língua portuguesa destes escritos pretendeu-se chamar, de novo, a atenção para uma das melhores descrições coevas do fenómeno e para as considerações éticas do filósofo em volta dele. [...]
Quando Kant, porém, corajosamente, sustentou que o abalo de terra e de mar que atingiu Lisboa com destruições e morte não teria sido o castigo divino caído sobre a cidade cheia de pecados, e pretendeu demonstrar a utilidade dos terremotos e a vanidade do juízo dos homens sobre as desgraças que os oprimem, escreveu páginas profundas que transpuseram os limites do tempo e conservam, hoje ainda, o vigor e a beleza com que há duzentos anos foram escritas."
(Excerto do Preâmbulo)
"Grandes acontecimentos, que interfiram no destino da humanidade, despertam, com razão, a curiosidade inerente a tudo quanto é fora do vulgar e levam a inquirir das causas que os provocaram. [...]
A primeira observação que qualquer faz imediatamente é que o solo sobre o qual vivemos deverá ser oco e que as abóbadas que o formam se continuam, umas ligadas às outras, até sob o mar.
Não quero ir buscar exemplos históricos, pois não pretendo escrever uma história dos tremores de terra. [...] Lisboa e a Islândia, por exemplo, que distam uma da outra mais de quatro centenas e meia de milhas alemãs, sofreram, no mesmo dia, um terremoto. [...]
Se em casos tão terríveis valesse aos homens tomar precauções, e não se julgasse inútil e irrisório opor fracas resistências a desgraças gerais, deviam as ruínas de Lisboa Lembrar que não se deveria tornar a construir ao longo do Tejo, dado que o rio indica a direcção que, naturalmente, os tremores de terra seguirão nesse país. [...]
A catástrofe de Lisboa parece que foi também maior por a cidade estar construída ao longo do Tejo; por esta razão, as cidades em regiões onde são frequentes os tremores de terra e onde é possível determinar o sentido deles não deveriam ser construídas em direcção paralela à dos sismos. Mas a maior parte dos homens, em circunstâncias semelhantes a esta, pensa de modo diferente. Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que se não podem minorar por qualquer preocupação e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina."
(Excerto da Introdução de Kant)
[Preâmbulo] | [Introdução de Kant] | História e descrição dos acontecimentos mais notáveis do terremoto que no fim do ano de 1755 agitou grande parte da Terra | Explicação preliminar do estado em que se encontra o interior da Terra | Acerca dos antecedentes do último terremoto | O terremoto e maremoto do dia 1 de Novembro de 1755 | Considerações acerca das causas deste movimento das águas | O terremoto de 18 de Novembro | O terremoto de 9 de Dezembro | O terremoto de 26 de Dezembro | Dos lapsos de tempo que medeiam entre tremores de terra sucessivos | Do local da combustão subterrânea e dos lugares onde os tremores de terra são mais frequentes e perigosos | Da direcção em que o solo é agitado pelos tremores de terra | Da relação dos tremores de terra com as estações do ano | Da influência dos tremores de terra na atmosfera | Da utilidade dos terremotos | Observação | Considerações finais | Novas considerações acerca dos últimos abalos da Terra.
Immanuel Kant (1724-1804). "Nasceu em 1724, em Könisberg, onde faleceu em 1804. Teve uma vida calma, sóbria, dedicada ao estudo e ao ensino. Profundamente imbuído dos ideais do Iluminismo, Kant professou uma profunda simpatia pelos ideais da Independência Americana e da Revolução francesa. Foi pacifista convicto, antimilitarista e estranho a toda a forma de patriotismo exclusivista. As obras de Kant costumam distribuir-se por três períodos, que habitualmente se denominam pré-crítico, crítico e pós-crítico. As suas obras mais conhecidas e influentes foram escritas no segundo período, incluindo-se entre elas a Metafísica dos Costumes."
(Fonte: Wook)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
30€

12 junho, 2026

BEAU, Albin Eduard -
ANTERO DE QUENTAL E A IDEA DA MORTE. Por...
Coimbra, [s.n. - Composto e impresso nas oficinas da Coimbra Editora, Limitada], 1935. In-4.º (25x16 cm) de 20, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Importante ensaio anteriano sobre a ideia da Morte, e como esta vai influenciar a vida e o trabalho do Poeta.
Antero de Quental e a idea da morte, publicado pelo germanista e professor Albin Beau em 1935, analisa a evolução do pensamento do poeta português.
Beau explora como a reflexão de Antero sobre a finitude se transforma numa "filosofia idealista da morte", vista não como tédio mórbido, mas como libertação e fusão com o infinito. (IA)
Obra invulgar e muito interessante. 
"O combate espiritual travado entre os dois Anteros, o luminoso e o nocturno, marca o início da Modernidade na literatura portuguesa: o seu drama pessoal e a profunda crise de consciência encontraria, através da reflexão filosófica, a resposta para questões metafísicas como o Ideal, a Morte, a Verdade. A sua «Filosofia idealista da Morte» veicula uma aspiração positiva e libertadora, ultrapassando a ideia pessimista e mórbida, e revela um percurso evolutivo desde uma impressão negativa até à ansiada liberdade no infinito. Questionando a existência e o mistério do Além e confessando o seu tormento íntimo e a sua inquietação, Antero medita na ideia da Morte aliada à concepção do bem, da liberdade ou do amor, recorrendo ao sonho como forma de estabelecer comunicação com a profundidade e os segredos do universo." (Guerreiro, Emanuel, A ideia da morte nos Sonetos de Antero de Quental, FCHS-UA, 2008)
"Quando Antero de Quental, nas notas para o Ensaio sôbre as bases filosóficas da moral ou filosofia da liberdade, chegou a considerar «a idea da Morte a base da vida moral», tal pensamento já era o fruto - se bem que ainda não o definitivo ponto de chegada - dum longo e variado desenvolvimento sentimental e intelectual.
A Morte, quer contemplada ou sentida como fenómeno natural, quer cantada como visão poética, quer encarada e pensada como problema filosófico e metafísico, constitui um tema integrante do seu pensar, sentir e poetar, atravessando a sua obra, desde as primeiras poesias até as últimas manifestações que lhe conhecemos."
(Excerto do Ensaio)
Albin Eduard Beau (Hamburgo, 1907 em Hamburgo - Coimbra, 1969). "Foi um filólogo alemão, romanista e lusitano. Em 1930 tornou-se professor de alemão no Instituto Alemão da Universidade de Coimbra. Foi  Secretário-Geral do Instituto Alemão de Cultura em Lisboa."
(Fonte: https://archeevo.amap.pt/descriptions/78435)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas algo manchadas. Interior correcto.
Muito invulgar.
20€

19 abril, 2026

NEMÉSIO, Vitorino - ERA DO ÁTOMO/CRISE DO HOMEM.
Colecção Ciências Sociais e Humanas
. Amadora, Livraria Bertrand, 1976. In-8.º (18,5x11,5 cm) de 145, [3] p. ; B.
1.ª edição.
"Conjunto de reflexões escritas em plena guerra fria entre o bloco de Leste e o Ocidente. Nelas o autor simboliza no problema do átomo todo um conjunto de características com que pretende identificar essa etapa da humanidade."
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor a Mário Mesquita.
"Vamos tentar versar o tema crucial do nosso tempo: as dúvidas que se levantam - em certos espíritos, pelo menos - acerca do caminho por onde a civilização conduz o homem moderno.
Generalizou-se a designação de Era Técnica para o tempo que vivemos. Mas, dado o aspecto mais saliente e característico da Técnica gerada mundialmente pela revolução industrial é a desintegração da energia nuclear, que produziu a bomba atómica, há já quem chame ao nosso tempo a Era Atómica. Não certamente pelo volume de energia dessa proveniência ao dispor das tarefas da paz, mas porque o espectro da guerra, desde a terrível revelação estratégica de Hiroxima, é dominado pela ameaça do poder catastrófico dos engenhos nucleares teleguiados.
Intitulei estas considerações - Era do Átomo/Crise do Homem -, não só por ceder a esse pendor, mas pela vantagem de ganhar indirectamente um símbolo (pois não me esqueço de que sou poeta) para exprimir o lado talvez mais alarmante da crise contemporânea: a despersonalização massificada - e portanto atomística - do tipo de homem que a vive ou nela é gerado."
(Excerto do Cap. I)
Vitorino Nemésio (1901-1978). "Justamente considerado um dos maiores poetas e prosadores portugueses do século XX, Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, nasceu em Praia da Vitória (Ilha Terceira, Açores), cursou Direito e Letras em Coimbra e licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (1931). Fundador da Revista de Portugal (1937-1940), professor catedrático (1941) e notável conferencista, cedo se tornou uma das mais importantes referências na investigação e crítica literárias, para além de originalíssimo prosador e poeta, cuja obra emparceira com a de Eça de Queirós, no romance e crítica e a de Fernando Pessoa na poesia."
(Fonte: https://acpc.bnportugal.gov.pt/espolios_autores/e11_nemesio_vitorino.html)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Invulgar.
35€

04 abril, 2026

ALMEIDA, P. Teodoro d' -
RECREASAÕ // FILOZOFICA, // OU // DIALOGO // Sobre a Filozofia Natural para instruc- // saõ de pesoas curiozas, que naõ // frequentáraõ as aulas. // PELO // P. TEODORO D'ALMEIDA // da Congregasaõ do Oratorio de S. Fi- // lipe Neri. // TOMO IV. // Trata do Omem. //
LISBOA. // Na Oficina de MIGUEL RODRIGUES, // Impres. do Emin. Senhor Cardeal Patriarca. // M. DCC. LVII. // Com todas as licensas necesarias, // e Privilegio Real. In-8.º (17x11 cm) de [8], 333, [3] p. ; [5] f. desdob. ; il. ; E.
1.ª edição.
Tomo IV desta obra admirável - de proporções enciclopédicas - do iluminismo português -, escrita e publicada em 10 volumes entre os anos de 1751 e 1800. Trata este tomo dos olhos, dos sentidos e do corpo humano em geral.
"Recreação Filosófica é uma obra monumental do Padre Teodoro de Almeida, publicada entre 1751 e 1800, que divulga a filosofia natural e ciência experimental no séc. XVIII através de diálogos didácticos entre mestre e pupilos. A obra visa instruir os curiosos, defendendo uma pedagogia oratoriana que conciliava a ciência com a fé, num formato acessível e estruturado em vários tomos."
(Fonte IA)
Exemplar ilustrado no início com bonita gravura no texto, e no final, com 57 figuras distribuídas por 5 estampas desdobráveis em separado (completo).
"Eug. Emfim, já se abararaõ os embarasos, amigo Silvio, que atéqui tanto me impediaõ o vir continuar a nosa Recresaõ Filozofica, em que eu tanto me instruia com a vosa doutrina, e do noso amigo Teodozio; porem cheguei; e já envergonhado de tanta demora, sem lhe prometer tempo determinado, venho inesperadamente: vamos a busca-lo lá dentro.
Silv. Eu vos afirmo que já em nós ambos tinha crescido muito a desconfiansa de que os diversos empregos  e ocupasoens em que vos tinhaõ entretido, vos fizesem perder o gosto, ou totalmente esquecer da nosa literaria conversasaõ; entrai vós primeiro, quero que Teodozio tenha todo o gosto de repente.
Teod. Amigo Eugenio; basta que já vos vejo em minha caza!
Eug. Muito tempo à que me vereis, se me deixasem; como conheceis a minha vontade, escuzado é dar-vos relasaõ dos meos embarasos.
Teod. Todos tenho eu sentido; porem mais que todos a vosa molestia dos olhos, que muito me magoou.
Eug. Grande cuidade me deo, vendo-me quazi cego; porque sem vista~, eu naõ sei que alegria posa aver no caorasaõ umano: toda a beleza das creaturas, e a fermozura deste grande jardim do mundo, é inutil para um cego..."
(Excerto Da admiravel fabrica dos Olhos)
Index das materias, que se trataõ neste Tomo IV:
Tarde XVI - Trata do sentido da Vista. Tarde XVII - Da Dioptrica, ou dos Instrumentos de que uzaõ os olhos, e fazem seu efeito com a refracsaõ. Tarde XVIII - Da Catoptrica, ou dos Instrumentos de que uzaõ os olhos, e fazem seu efeito com a reflexaõ. Tarde XIX - Trata dos outros sentidos do Omem, Externos, e Internos, da Vós umana, do Sono, Vigia; e outras coizas deste genero. Tarde XX - Da Fabrica do Corpo Umano. Tarde XXI - Continúa a tratar da fabrica do Corpo Umano. | Erratas.
Teodoro de Almeida (1722-1804). "Oriundo de uma família de extracção social modesta, de Lisboa, Teodoro de Almeida ingressou na Casa do Espírito Santo da Congregação do Oratório a 11 de Abril de 1735, possivelmente devido à protecção do prepósito da Casa, o pe. Domingos Pereira. Iniciou depois os seus estudos sob a direcção do pe. João Baptista, o autor da Philosphia Aristotelica Restituta, que o influenciará de forma decisiva, definindo-se então o seu interesse pela Filosofia Natural.
Em 1748 foi substituto do mestre encarregue do triénio de Filosofia, o pe. Luís José, cujo docência assegurou a partir de 1751. Neste mesmo ano saíram dos prelos os dois primeiros volumes da sua obra mais importante, a Recreação Filosófica.
A década de 1750 é a da plena afirmação de Teodoro de Almeida, que ganha prestígio crescente como pregador, mas sobretudo como escritor e divulgador de temas científicos. Os volumes da Recreação sucedem-se a ritmo veloz, publicando-se o sexto em 1762. Em 1752 o pe. João Baptista inicia as conferência de Filosofia Experimental - ou Filosofia Natural - na Casa das Necessidades, beneficiando do excelente equipamento de laboratório doado à Congregação por D. João V, nas quais o seu discípulo viria a ter papel de destaque. As conferências eram abertas ao público e foram um sucesso, chegando a registar mais de 400 assistentes, entre os quais o próprio monarca. Todavia o fenómeno ficou algo a dever à curiosidade de salão, sem que todos os que a ela assistiam pudessem ter a percepção do que estava realmente em jogo do ponto de vista científico.
Enquanto expoente desta popularidade da divulgação científica, Almeida foi alvo de várias críticas e polémicas, sendo acusado de desvios em relação à ortodoxia religiosa e de ser plagiário. De entre os que vieram em sua defesa salienta-se o jesuíta Inácio Monteiro, autor de uma obra importante obra pedagógica também.
Na década seguinte alguns dos Oratorianos mais influentes conheceram a perseguição de Pombal. Teodoro de Almeida foi forçado a exilar-se em 1768, continuando a desenvolver uma acção pedagógica importante em França. Regressou a Portugal em 1778, logo após o afastamento de Carvalho e Melo, embrenhando-se nos anos seguintes na revitalização do Oratório, na escrita e nos cursos.
É também um dos elementos do grupo que organiza a criação da Academia das Ciências de Lisboa, que se apresenta a público com uma Oração de Abertura de sua autoria, proferida a 4 de Julho de 1780; nela comparava o atraso do país em matéria científica ao reino de Marrocos, suscitando uma violenta reacção dos sectores intelectuais ligados ao pombalismo, expressa em várias cartas anónimas que vituperavam o orador e a nova Academia.
Continuou depois a Recreação, cujo plano editorial se concluiu com a publicação do volume X em 1800. Esta última fase é porém já dominada por um conservadorismo que reage às repercussões políticas do ideário das Luzes, que foi o seu numa primeira fase enquanto não pôs em causa a religião revelada e a ordem social vigente, à qual Teodoro de Almeida se encontrava fortemente vinculado, embora longe da sua componente ultramontana; manifestava-se sim contra os descrentes, pela conservação do seu ideário religioso, como antes de afirmara contra os escolásticos, pela renovação do ideário científico.
Da obra ficou sobretudo o grande projecto enciclopédico que foi a Recreação Filosófica (com os volumes I a VI sobre a Filosofia Natural, o VII sobre a Lógica, e os últimos três sobre a Ética e a Moral), complementada pelas Cartas Físico-Matemáticas (3 vols., 1784-1798), sendo aquela a obra que leva mais longe e ao mesmo tempo marca os limites das possibilidades da Ilustração católica portuguesa. Mas além destas deixou muitos mais escritos, como o Feliz Independente do Mundo e da Fortuna (3 vols., com 2.ª ed. corrigida em 1786), o mais celebrado dos seus livros sobre espiritualidade."
(Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p47.html)
Encadernação coeva inteira de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado, com pequenas "esfoladelas" nas pastas.
Muito invulgar.
30€

14 março, 2026

MOSER, Isabel Pestana -
ECUMENISMO E IRENISMO NO PENSAMENTO DE DAMIÃO DE GÓIS
. Lisboa, Ediual, 2006. In-4.º (23,5x17 cm) de 402, [2] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Obra de fôlego. Importante subsídio biográfico sobre Damião de Góis - o homem, o humanista, o seu pensamento.
Ilustrada em página inteira com retratos do biografado, a cores e p.b. (3), e outros filósofos coevos: Erasmo; Lutero; Melanchthon.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa da autora.
"Damião de Goes, sem dúvida o português mais erasmista e em especial irenista, pelo seus diálogos com os humanistas católicos e protestantes já em plena Reforma mas abertos à paz, pela sua defesa dos Lapões serem ensinados e não forçados a converterem-se, e pela valorização do cristianismo etíope dos Prestes João e de uma religião de coração e não de ritos, preceitos, intermediários e superstições."
(Fonte: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/01/humanismo-e-irenismo-no-renascimento-e.html?m=1)
"O trabalho que hoje apresento vem na sequência das investigações que, desde há muito, tenho efectuado sobre a vida e a obra de Damião de Góis, o mais europeu dos humanistas portugueses, particularmente no que respeita à prática e conceito do Irenismo e Ecumenismo de que deu exemplo constante ao longo da sua vida, e da larga repercussão que a figura ainda representa nos dias de hoje..."
(Excerto da Introdução)
Índice:
Apresentação | Agradecimentos | Introdução | I - A Vida de Damião de Góis e a Crítica Moderna. II - Humanismo, Movimento de Diáspora. III - Damião de Góis e a História: Atitudes e Critérios. IV - Damião de Góis e o Irenismo. V - Damião de Góis e o Ecumenismo. O Processo na Inquisição. Estudo Crítico. | Conclusão | Bibliografia | Índice Remissivo.
Damião de Góis (Alenquer, 1502-1574). "Historiador e humanista, epistológrafo, viajante, diplomata e alto funcionário régio, foi figura ímpar e uma das personalidades mais relevantes do Renascimento em Portugal. De cultura enciclopédica e dotado de um dos espíritos mais abertos e críticos da sua época, pode ser considerado como um verdadeiro traço de união entre Portugal e a Europa culta do século XVI. Foi hóspede de Erasmo de Roterdão e privou com humanistas como Glareanus, Veit Amerbach, Albrecht Dürer, Sebastian Münster, os cardeais Pietro Bembo e Jacopo Sadoleto e o historiador e geógrafo Giovàn Battista Ramùsio. Conheceu Inácio de Loyola. Frequentou a Universidade de Pádua, entre 1534 e 1539, e completou a sua formação no Colégio Trilingue da Universidade de Lovaina.
Em 1545 a convite do rei D. João III, mudou-se para Portugal com a família, ao tempo a mulher e três filhos, para ser mestre do príncipe D. João. Contudo, apesar de ter regressado aureolado de prestígio pelas amizades que contraíra na Europa e da evidente protecção régia, ainda assim foram-lhe movidos dois processos no Tribunal do Santo Ofício, o primeiro dos quais, logo em 1545, ao ser acusado de heterodoxia e denunciado à Inquisição pelo seu antigo companheiro de estudos, o padre Simão Rodrigues, ao tempo o preceptor do príncipe herdeiro D. João e pouco depois nomeado por Inácio de Loyola como primeiro provincial da Província Portuguesa."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
Indisponível

25 junho, 2025

ANTUNES, João -
PSICOLOGIA EXPERIMENTAL.
(Notas de propedeutica filosófica). 2.ª edição. Colecção Psicologia Experimental - I. Lisboa, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & C.ª (Filhos ), 1926. In-8.º (19x12 cm) de 116 p. ; B.
Interessante ensaio filosófico.
"As sciências de observação adquiriram, ao findar do século transacto, uma feição nitidamente positivista. A criteriologia de Augusto Comte foi erguida a uma categoria dogmática. E neste espírito de análise e de síntese, quer descendo aos infinitamente pequenos pela citologia, quer estudando os astros firmamentares pela análise espectral, não se prescindiu da afirmação concreta dos laboratórios.
O critério scientífico actual é exclusivamente experimental. O idealismo de Kant suscitou por contragolpe o positivismo comtista. [...]
O espírito scientífico evolucionou, pois, sob estas novas fórmulas, alicerçando os dados scientíficos nas resultantes matemáticas da fenomenologia experimental. [...]
E não obstante o problema misterioso da morte e o facto inexplicável da vida psicológica tem subsistido, latente ou patente, através de tôdas as raças e de tôdas as civilizações.
Foi êsse, precisamente, o problema, de novo, hodiernamente lançado para a banca anatómica da análise filosófica.
Considerado à feição de Louis Figuier, de Hyppolute Rivail, pela forma tradicionalista, ou pelo critério enciclopedista a vida psicológica, resultante uma individuação autónoma ou duma síntese neurológica, a morte terminus dum modo de ser funcional ou fase de transição e a vida futura ilusão ou facto, tudo isto obsidia actualmente o espírito experimental da filosofia como problemas ponderosos e basilares."
(Excerto do Preâmbulo)
João Antunes (1885-1956). Advogado e Professor, nasceu em Lisboa em 10 de Fevereiro de 1885. “Escreveu com rara inteligência, um conjunto apreciável de artigos (em revistas) e livros, sobre "conhecimentos que pela sua natureza se não devem vulgarizar". Trata-se, evidentemente, de temas ligados ao ocultismo (na sua versão primitiva, via Papus), cabalismo, esoterismo, teosofia, martinismo, teurgia, templarismo, maçonaria, carbonarismo, etc. Mas foi, particularmente, um grande mentor do pensamento teosófico, quando este estava ainda (por cá) no seu começo, tendo sido um dos fundadores (e primeiro presidente: até 1924?) da Sociedade de Teosofia de Portugal [STP], nascida em 1921."
(Fonte: http://almocrevedaspetas.blogspot.pt)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
15€

05 junho, 2025

SEIXAS, J. M. da Cunha - O PANTITHEISMO NA ARTE : canticos e poesias. Por... Advogado em Lisboa, socio do Instituto de Coimbra, etc. Lisboa, Typographia da Bibliotheca Universal, 1883. In-8.º (17x13 cm) de XL, 279, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante obra em termos literários e filosóficos, cujo objectivo - ambicioso - o autor procura transmitir através da sua devoção ao pantiteísmo, corrente filosófica derivada do sistema de Krause, que reconhece a presença de Deus em tudo.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa do autor a Manuel J. Teles, cujo carimbo de posse é visível na f. rosto.
"Este livro é nos dominios da arte a expressão de um novo systema de philosophia. Tendo por fito uma obra d'este, aspira a divinisar tudo o que é bello na natureza e na socidade sob a idea pantitheista. [...]
O apostolado de uma idea, se tal fosse a minha mira, poderia consistir, não no convencimento mas ao menos em se conseguir desvio á corrente contraria.
Se eu, solitario e melancholico lidador, conseguir, no pobre outono da minha vida, que alguem pense, já alcanço muito."
(Excerto do Ante-prologo)
José Maria da Cunha Seixas (Trevões, São João da Pesqueira, 1836 - Lisboa, 1895). "Foi um intelectual e filósofo, criador e adepto do pantiteísmo, uma dissidência do krausismo (panenteísmo) que tem por doutrina reconhecer a presença de Deus em todos os lugares e em tudo, mas propondo que apesar de Deus estar em tudo, Deus não se identifica com a coisa criada. [...] Com apenas 14 anos de idade, em 1850, tomou ordens menores iniciando de seguida estudos de teologia. O isolamento em que cresceu e estrita educação católica a que foi submetido parecem ter influenciado a sua personalidade, deixando-o solitário e com poucas aptidões sociais. Manuel António Ferreira Deusdado, que privou com ele, descreve-o assim: "O José Maria da Cunha Seixas não foi nem poderia ser um político, porque lhe faltavam qualidades de adaptação; não poderia ser um dramaturgo, um romancista, porque na sua abstracção não tinha o jeito da observação social. Era excêntrico, ingénuo de mais; muitas coisas não as via, a sua boa-fé quase infantil prejudicou-o muitas vezes e gravemente." Apesar de se ter matriculado no ano de 1858 nos cursos de teologia e filosofia da Universidade de Coimbra, aparentemente para ser eclesiástico, transferiu-se para a Faculdade de Direito daquela Universidade, onde se formou em 27 de Junho de 1864, aprovado Nemine discrepante, com honras de accessit, distinção que já obtivera nos três últimos anos do curso. Ainda estudante em Coimbra iniciou-se como publicista, colaborando com artigos de crítica literária e de política em diversos periódicos, entre os quais O Viriato (Viseu), Comércio de Portugal, Jornal de Lisboa, Académico de Coimbra, Comércio de Lisboa, Jornal do Comércio, Distrito de Beja e muitos outros periódicos, em especial de Lisboa. Terminado o curso, fixou-se em Lisboa, com banca de advogado e como professor de filosofia no Instituto de Ensino Livre de Lisboa. Manteve a sua intensa colaboração com periódicos diversos e fez-se sócio de diversas agremiações científicas, estabelecendo a sua reputação de intelectual."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Com duas assinaturas de posse na f. rosto, sendo uma em carimbo oleográfico.
Raro.
Indisponível

27 abril, 2025

ALMEIDA, Padre Theodoro d’ -
HARMONIA // DA RAZAÕ, E DA RELIGIAÕ, // OU // REPOSTAS FILOSOFICAS // AOS ARGUMENTOS DOS INCREDULOS, //
que reputaõ a Religiaõ contraria á Boa // Razaõ. // Dialogo do Author da Recreaçaõ Filoso- // fica sobre a parte da Metafysica, que // se chama Theologia Natural. // TOMO IX. // LISBOA // NA OFFICINA PATRIARCAL. // M. DCC. XCIII. // Com licença da Real Meza da Commissaõ / Geral sobre o Exame, e Censura // dos Livros. In-8.º (18x11 cm) de [20], 403, [1] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Tomo IX (de 10) que compõem a Recreação Filosófica, obra maior do padre oratoriano Teodoro de Almeida, sendo este volume dedicado ao tema da Metafísica. Obra redigida em forma de diálogo, sendo interlocutores no desfiar da mesma "Baron" e "Theodosio", dedicada pelo autor "Ao Ill.mo e Ex.mo Senhor D. Joseph Maria de Mello, Bispo Titular do Algarve, Confessor de Sua Magestade Fidelissima, e Inquisidor Geral".
Ilustrado com uma bonita gravura no início da obra (Tarde I).
"Sendo as Obras que se imprimem offerecidas ao Publico, convem que este seja informado das intenções de quem lhe faz obsequio de lhe sacrificar o seu trabalho. Eu tenho visto, com confusaõ minha, a acceitaçaõ, que o Publico tem feito dos primeiros trabalhos da minha mocidade, na Recreaçaõ Filosofica, mostrando ser-lhe agradavel o meu intento de vulgarizar o conhecimento das bellezas naturaes, que todos tinhaõ diante dos olhos e poucos viaõ; cresceo com este favor do Publico o desejo de servir, e continuarei com a instrucçaõ sobre a Logica, familiarisando, e illustrando (quanto a materia abstracta soffria) os movimentos do nosso entendimento no descobrimento da verdade. Confirmei estas regras com a Geometria e Mecanica, que formaõ em dois volumes do supplemento á Recreaçaõ. E achando-me já algum tanto fatigado pela idade e pelos acontecimentos, me inclinava a cessar desta fadiga, posto que gostosa. Porém persuasões, que eu por modo nenhum devia desprezar, me fizeraõ pegar outra vez da penna: entaõ o juizo especulativo, e o sangue ainda activo me conduziraõ a pensamentos mais altos, subindo com o discurso á parte superior da Filosofia, que chamaõ Matafysica; e escrevi na Ontologia as Maximas Geraes sobre o conhecimento de tudo o que tem existencia, ainda que naõ seja Materia; e entrando na Pneumatologia, ou Sciencia do espirito, o objecto principal, que se offerecia a meus olhos era Deos; isto he, a parte que chamaõ Theologia Natural: porém neste ponto me achei muitos annos perplexo; e vou a declarar o motivo."
(Excerto de Prefacçaõ)
Indice das matérias, que aqui se trataõ neste Tomo:
[Dedicatória] | [Prefacçaõ] | [Indice das matérias, que aqui se trataõ neste Tomo] | Tarde I. Que as materias da Religiaõ se devem tratar com muito respeito, attençaõ, e cuidado. Tarde II. Do estylo, com que se deve averiguar a verdade nas materias de Religiaõ. Tarde III. Sobre a Existencia de Deos. Tarde IV. Sobre os Mysterios da nossa Religiaõ em commum. Tarde V. Sobre a Lei Natural, e Luz da Razaõ, e necessidade das Leis Positivas. Tarde VI. Sobre a Materia, e Espitito. Tarde VII. Da Espiritualidade, e Immortalidade da Alma. Tarde VIII. Sobre a Religiaõ Revelada commum. Tarde IX. Sobre o Peccado Original. Tarde X. Sobre a Maxima, que diz: Fóra da Igreja ha salvaçaõ. Tarde XI. Sobre o Interesse, que Deos tem nas nossas acçaões. Tarde XII. Sobre o Culto devido a Deos Interior e Exterior. Tarde XIII. Sobre a Immortalidade Divina, e sobre o Fogo vingador da outra vida. | Appendix. Tarde XIV. Sobre a Graça Divina, e Conceiçaõ da Senhora. Tarde XV. Sobre a Confissão Auricular.
Teodoro de Almeida (1722-1804). "Oriundo de uma família de extracção social modesta, de Lisboa, Teodoro de Almeida ingressou na Casa do Espírito Santo da Congregação do Oratório a 11 de Abril de 1735, possivelmente devido à protecção do prepósito da Casa, o pe. Domingos Pereira. Iniciou depois os seus estudos sob a direcção do pe. João Baptista, o autor da Philosphia Aristotelica Restituta, que o influenciará de forma decisiva, definindo-se então o seu interesse pela Filosofia Natural.
Em 1748 foi substituto do mestre encarregue do triénio de Filosofia, o pe. Luís José, cujo docência assegurou a partir de 1751. Neste mesmo ano saíram dos prelos os dois primeiros volumes da sua obra mais importante, a Recreação Filosófica.
A década de 1750 é a da plena afirmação de Teodoro de Almeida, que ganha prestígio crescente como pregador, mas sobretudo como escritor e divulgador de temas científicos. Os volumes da Recreação sucedem-se a ritmo veloz, publicando-se o sexto em 1762. Em 1752 o pe. João Baptista inicia as conferência de Filosofia Experimental - ou Filosofia Natural - na Casa das Necessidades, beneficiando do excelente equipamento de laboratório doado à Congregação por D. João V, nas quais o seu discípulo viria a ter papel de destaque. As conferências eram abertas ao público e foram um sucesso, chegando a registar mais de 400 assistentes, entre os quais o próprio monarca. Todavia o fenómeno ficou algo a dever à curiosidade de salão, sem que todos os que a ela assistiam pudessem ter a percepção do que estava realmente em jogo do ponto de vista científico.
Enquanto expoente desta popularidade da divulgação científica, Almeida foi alvo de várias críticas e polémicas, sendo acusado de desvios em relação à ortodoxia religiosa e de ser plagiário. De entre os que vieram em sua defesa salienta-se o jesuíta Inácio Monteiro, autor de uma obra importante obra pedagógica também.
Na década seguinte alguns dos Oratorianos mais influentes conheceram a perseguição de Pombal. Teodoro de Almeida foi forçado a exilar-se em 1768, continuando a desenvolver uma acção pedagógica importante em França. Regressou a Portugal em 1778, logo após o afastamento de Carvalho e Melo, embrenhando-se nos anos seguintes na revitalização do Oratório, na escrita e nos cursos.
É também um dos elementos do grupo que organiza a criação da Academia das Ciências de Lisboa, que se apresenta a público com uma Oração de Abertura de sua autoria, proferida a 4 de Julho de 1780; nela comparava o atraso do país em matéria científica ao reino de Marrocos, suscitando uma violenta reacção dos sectores intelectuais ligados ao pombalismo, expressa em várias cartas anónimas que vituperavam o orador e a nova Academia.
Continuou depois a Recreação, cujo plano editorial se concluiu com a publicação do volume X em 1800. Esta última fase é porém já dominada por um conservadorismo que reage às repercussões políticas do ideário das Luzes, que foi o seu numa primeira fase enquanto não pôs em causa a religião revelada e a ordem social vigente, à qual Teodoro de Almeida se encontrava fortemente vinculado, embora longe da sua componente ultramontana; manifestava-se sim contra os descrentes, pela conservação do seu ideário religioso, como antes de afirmara contra os escolásticos, pela renovação do ideário científico.
Da obra ficou sobretudo o grande projecto enciclopédico que foi a Recreação Filosófica (com os volumes I a VI sobre a Filosofia Natural, o VII sobre a Lógica, e os últimos três sobre a Ética e a Moral), complementada pelas Cartas Físico-Matemáticas (3 vols., 1784-1798), sendo aquela a obra que leva mais longe e ao mesmo tempo marca os limites das possibilidades da Ilustração católica portuguesa. Mas além destas deixou muitos mais escritos, como o Feliz Independente do Mundo e da Fortuna (3 vols., com 2.ª ed. corrigida em 1786), o mais celebrado dos seus livros sobre espiritualidade."
(Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p47.html)
Belíssima encadernação coeva inteira de pele, gravada com título e entalhes a ouro nas pastas e na lombada.
Exemplar em bom estado geral de conservação.
Raro.
45€

31 janeiro, 2025

GUSMÃO, Lapas de -
NO MUNDO DESCONHECIDO
. Lisboa, Tip. da Emprêsa Nacional de Publicidade, 1937. In-8.º (19,5x13 cm) de 256 p. ; E.
1.ª edição.
Obra curiosíssima sobre a questão da imortalidade do homem, espécie de romance-ensaio escrito na 1.ª pessoa. Estudo muito interessante, especulativo, situado no âmbito da Ficção Científica em alguns sites/blogues da especialidade neste género de literatura.
"O mistério da Morte - O conceito do Universo - A ideia de Deus problemas eternos que neste livro tento enunciar e apresentar, não em exposições suculentas ou divagações cansativas, mas sob forma leve, vivida e dramatizada, em termos, julgo, de poderem ser apreendidos por tôdas as inteligências.
Problemas eternos são chamados e com inteira razão, porque nunca o espírito do Homem logrará decifrá-los e compreendê-los em toda a sua plenitude, não obstante as doutrinas fantasiosas das religiões, as efabulações metafísicas e lendárias da fé, as investigações positivas da ciência ou as lucubrações, mais ou menos filosóficas e mais ou menos profundas, do génio humano.
Desde sempre, êsses problemas preocuparam a Humanidade e a preocupá-la continuarão por todos os tempos, visto ultrapassarem as possibilidades da sua inteligência e da sua razão, e jàmais êles serão, porventura, desvendados porque, quem sabe? talvez constituam problemas, sim, mas apenas existentes na ansiedade da alma humana.
Neste termos, quem ousará ter a estulta pretensão de apresentar uma solução arrogantemente definitiva, ou ao menos uma explicação inteiramente inédita, sôbre tão magno e angustioso assunto?
Através das indicações da minha razão e das sugestões da minha fantasia, teria eu conseguido vislumbrar uma fugidia sombra da Verdade?
Terá sequer existência real essa suposta Verdade que, segundo pretendem inculcar, todo o homem, consciente ou inconscientemente, guarda no fundo de si mesmo?..."
(Excerto do preâmbulo)
Joaquim Lapas de Gusmão (1886-1962). Jornalista, escritor, Combatente da Grande Guerra em África e França, condecorado com a Cruz de Guerra.
Colaborou nos jornais A Pátria, do Porto, e na Capital, Lucta, Intransigente, O Século e Diário de Notícias, de Lisboa. Publicou entre outros, os volumes Visão da Guerra e A Guerra no Sertão, em que descreve o que viu em França e África durante a Primeira Guerra Mundial, o drama em 3 actos O Mutilado, sobre o mesmo assunto, a tragédia em um acto Uma noite, o romance fantástico No mundo desconhecido e o ensaio filosófico Matéria e Vida.
Encadernação meia de pele com rótulo e dourados na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom  estado geral de conservação. Lombada apresenta falha de pele no pé.
Raro.
Indisponível

24 outubro, 2024

PENSAMENTOS DE OLIVEIRA MARTINS.
Colhidos das suas obras por Um Amigo. Lisboa, Imprensa Nacional, 1889. In-16.º (14x9 cm) de 54, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Máximas de Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894) escolhidas por um seu amigo em homenagem à sua obra, labor e dedicação à causa pública.
"Colligindo estes pensamentos das obras do nosso primeiro historiador, tive em mira pôr em frente da vossa vista bons preceitos de moral e politica que, não provindo de escriptor estrangeiro, nem por isso deixam de ter merito, como verão.
Dividi este livrinho de amor em duas partes: na primeira se contem os pensamentos politico-sociaes, na segunda os philisophico-moraes. Pensei igualmente em dal-o n'esta edição (pocket-edition) para que o podesseis levar para toda a parte como um objecto de especial carinho."
(Excerto de Á mocidade portugueza)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos, e pequenas falhas de papel marginais. Capa apresenta carimbo de posse e de biblioteca.
Raro.
Com interesse histórico e bibliográfico.
A BNP dá notícia do livro, porém, com a indicação "sem informação exemplar".
25€

09 outubro, 2024

ANTUNES, João -
O ESPIRITISMO.
Historia e critica do fenomeno espirita. O Alto-Espiritismo. Teorias, documentos e factos. O Transcendental na Sciencia. Colecção "Psicologia Experimental" V. Lisboa, Livraria Classica Editora de A. M. Teixeira, 1914. In-8.º (19x13 cm) de 110 p. ; B.
1.ª edição.
Importante estudo sobre o Espiritismo da autoria de João Antunes, especialista na matéria.
"Um dos mais interessantes fenomenos da historia da filosofia é a paragem inopinada, repentina da sua evolução, formando ciclos gradativos, renascendo e renovando-se a cada passo, reaparecendo vincada dos estigmas psicologicos das raças, que a criam, reproduzindo-se mil e uma vezes nas afirmações seculares de sistemas vetustos.
Uma das aspirações mais curiosas dessa aspiração milenaria do homem forcejando por rasgar o veu densissimo, que lhe encobre os misterios da natureza que respira, onde vive, querendo palpar o porquê da propria existencia data muito possivelmente do momento historico em que ele sentiu a vida.
Que causas misteriosas o colocaram a meio do Universo, aspirando a ansia descomunal e sofrega de existir?"
(Excerto do preâmbulo)
João Antunes (1885-1956). Advogado, professor, escritor e ocultista e espírita português, natural de Lisboa. "Escreveu com rara inteligência, um conjunto apreciável de artigos (em revistas) e livros, sobre "conhecimentos que pela sua natureza se não devem vulgarizar". Trata-se, evidentemente, de temas ligados ao ocultismo (na sua versão primitiva, via Papus), cabalismo, esoterismo, teosofia, martinismo, teurgia, templarismo, maçonaria, carbonarismo, etc. Mas foi, particularmente, um grande mentor do pensamento teosófico, quando este estava ainda (por cá) no seu começo, tendo sido um dos fundadores (e primeiro presidente: até 1924?) da Sociedade de Teosofia de Portugal [STP], nascida em 1921."
(Fonte: http://almocrevedaspetas.blogspot.pt)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capa apresenta pequena falha de papel marginal, assim como na extremidade superior da lombada.
Muito invulgar.
25€

22 setembro, 2024

BATALHA, Ladislau -
O NEGATIVISMO. Viagem aventurosa nas regiões do Ideal.
Com uma apreciação sintética pelo professor Miguel Bombarda. Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1908. In-8.º (20,5x13 cm) de [8], 462, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Curioso ensaio do autor sobre ele próprio e a sua visão do mundo, plena de dúvidas e contradições.
"Sr. Ladislau Batalha.
Se o seu livro se chamasse As mentiras do Universo, não lhe iria descabido o titulo. Nunca vi que se escalpellassem com tanta crueza os convencionalismos em que as sociedades vivem, os erros até onde as sciencias se arrastam, as illusões em que tudo se deixa embalar n'este planeta, desde as falsidades a que os sentidos nos levam até aos mais altos vôos da concepção do homem. Mas tambem é um campo de batalha aberto esse seu livro em que combatendo-se pelo determinismo, o proprio determinismo se ataca; em que, degladiando-se contra a erudição, tão larga erudição se patenteia; e em que, sobretudo, na obra scientifica do homem, se faz a parte - ai de nós, a larga parte! - da phantasia e do sentimento.
É uma colossal obra de pessimismo essa que se condensa em 400 paginas de leitura tão empolgante como extranhamente original. São 400 paginas de condemnações, sinceras e desapiedadas como as d'um justiceiro, mas tambem quantas vezes injustas como as d'um arrebatamento de paixão."
(Excerto da Apreciação)
"A esperiencia primitiva e rudimentar dos homens fê-los crear deuses que a mesma esperiencia posterior e mais completa fez negar.
Mais modernamente foi para uns o homem feito á similhança de Deus; para outros foi o homem que serviu de modelo á divindade.
E todas estas contradições e oposições se justificam com argumentos e pontos de vista que chamamos lógicos e positivos.
Ora uma já relativamente longa vida vivida aos empuxões disto a que se convencionou chamar fatalidade, por melhor vocábulo não haver com que se disfarce a ignorancia do destino as coisas, proporcionou-me ensejo de estreitar relações com o mundo, familiarisando-me com elle em todos os seus mais aspectos fisicos e moraes.
Embora eu não tenha a intenção propositada de tratar mais de mim do que do resto, cumpre reconhecer que não seria facil a quem me lesse, esplicar o como e o porquê das desusadas doutrinas que vou desenvolver, se não esposesse como preliminar uma especie de genealogia das minhas concepções.
Com efeito foram imprevistas circumnstancias determinadas por fatores varios que não vem para aqui esplicar, as que me ingeriram na medicina, na jurisprudencia, na navegação, nas peregrinações, nas artes e nos oficios, em toda a escala, emfim, das eventualidades humanas que principiam na luxuria dos palacios e terminam na embriaguez das tabernas.
O longo percurso social que vae desde o vagabundo até ao potentado, caminhei-o eu numa febre de aventureiro, num desânimo de desgraçado, num entusiasmo de bohemio profissional."
(Excerto do Cap. I)
Ladislau Estêvão da Silva Batalha (1856-1939). "Ladislau Batalha poderia ter sido uma personagem de um livro de aventuras. Novo, embarcou como tripulante na marinha mercante, tendo percorrido os mares do norte. Nesta condição, conheceu especialmente os Estados Unidos da América, o Japão, a China e o Ceilão. Trabalhou também como taxidermista em África e como gravador de vidro em São Tomé e Príncipe. A sua experiência dos mares e o trato com inúmeros povos deu-lhe vastos conhecimentos, tanto de línguas como de costumes e culturas, de tal modo que, voltando a Portugal, se tornou professor do ensino secundário sem qualquer curso superior. As suas aventuras no alto mar e em terras longínquas permitiram-lhe também escrever obras como Línguas de África (1889), Costumes angoleses (1890) e O Japão por dentro (1904), entre outros. Enquanto militante activo do partido socialista de então, escreveu obras de cariz político como A burla capitalista (1897) e Pátria e conversão (1898), tendo igualmente proferido várias conferências. Colaborou como redactor com vários jornais portugueses (Diário de Notícias, A Vanguarda, etc.) e estrangeiros (p.e., El Socialista). Em 1919, acolheu em sua casa o poeta Gomes Leal, que, semilouco, passeava pelas ruas de Lisboa em quase mendigagem. Foi aliás em sua casa que Gomes Leal acabou por morrer em 1921. Sobre esta experiência, Ladislau Batalha escreveu o livro de memórias Gomes Leal na intimidade (1933), e encontrava-se a escrever Gente da nossa terra, outro livro de memórias sobre os seus conhecimentos no meio literário, quando morreu em 1939. A sua obra ficcional cinge-se a três romances (Misérias de Lisboa, 1892-1893, Mistérios da loucura, 1890-1891, e Florêncio, 193-) e duas peças de teatro (A miséria e Consequências de um sim)."
(Fonte: http://fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/?page_id=59)
Encadernação editorial em percalina com ferros gravados a seco e a branco nas patas e na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
35€

17 setembro, 2024

REGO, José Teixeira -
NOVA TEORIA DO SACRIFICIO
. Porto, Edição da «Renascença Portuguesa», 1918. In-8.º (19x12,5 cm) de VIII, 268, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Edição original deste conjunto de ensaios histórico-filosóficos sobre religião.
"Teixeira Rego (1881-1934) escreveu a sua Nova teoria do sacrifício em fascículos entre 1912-1915 publicados como artigos na revista Águia. Três anos depois foram editados em livro na Renascença Portuguesa [cujo registo a BNP não possui]. Este trabalho foi levado a cabo na condição de autodidata com todos os riscos que isso comporta."
(Fonte: http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/19008/1/A%20teoria%20do%20sacrif%C3%ADcio%20de%20Teixeira%20Rego%20revisitada.pdf)
"Teixeira Rego ensaiou uma explicação totalmente racional do mito do bem e do mal e do pecado original. Tentou explicar o seu surgimento no tempo, tentou datá-lo, tentou mostrar que isso aconteceu a partir do momento (e isto é significativo) em que o antropóide passou a comer carne em vez de frutos. [...]
A história do pecado original, assim vista, mais não é do que a repetição de uma narrativa que explica que a partir de uma certa altura passou-se a ter uma história inquinada, que até então não era. O pecado original estaria na carne e não no fruto da árvore do bem e do mal. Esta transição «volveu-se no mais horrível martírio»."
"O rito do sacrifício, já de si singularíssimo, ainda apresenta de estranho o ser praticado por todos os povos, desde os tempos mais remotos até hoje. A causa, pois, que o determina deve ser universal, impressionante, terrível, para produzir tal duração e generalidade. As hipóteses tendentes a explicá-lo, embora algumas engenhosíssimas, com indiscutíveis verosimilhanças, tais as de Tyler, Robertson Smith e escola de Durkheim, têm o direito comum de justificarem o sacrifício em alguns povos somente, pois que não é de crer que as mesmas aproximações, mais ou menos remotas, mais ou menos subtis, fossem feitas em toda a parte; e, se se recorre à irradiação dessas ideias do povo ou povos que as pensaram para os restantes povos, não se vê em tais ideias suficiente importância e evidência para serem universalmente adoptadas com um cerimonial rigoroso e complexo, e acatadas com o máximo respeito."
(Excerto do Cap. I, O problema do sacrifício)
José Augusto Ramalho Teixeira Rêgo (1881-1934). "Nascido em Matosinhos em 1881, conviveu desde jovem com algumas das mais importantes figuras do círculo intelectual portuense, tornando-se discípulo de Sampaio Bruno e aprofundando a sua predileção intelectual no âmbito das línguas orientais, da filosofia, da religião e dos temas da cultura geral em sentido lato. Diretor do jornal "O Debate" e membro da "Renascença Portuguesa", movimento cultural que despontara no Porto, estreitou laços de amizade com Leonardo Coimbra, de quem partiu o convite para exercer o magistério na recém-criada Faculdade de Letras do Porto. A sua entrada como Professor Contratado do 2.º Grupo (Filologia Românica), em 1919, rodeou-se de polémica nos meios académicos portugueses, uma vez que José Teixeira Rêgo apenas possuía os estudos liceais. Porém, essa questão foi facilmente resolvida com os argumentos de se tratar uma nomeação governamental e de se basear no critério legal do reconhecimento da idoneidade científica e cultural do candidato."
(Fonte: sigarra.up.pt)
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado de conservação. Capa apresenta assinatura de posse.
Raro.
25€