MARRECAS, Candido - A MULHER NA GUERRA. [S.l.], [s.n.], [191-]. In-8.º (21,5x13,5 cm) de 11, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Conferência proferida pelo autor, em Lagos, no Algarve, em benefício dos feridos da Grande Guerra.
Opúsculo revestido de belíssima capa, não assinada, publicado a expensas de João Calleça, que também assina o preâmbulo.
Raro, por certo com tiragem reduzida. Sem referências bibliográficas. A BNP não menciona.
"Em nenhuma epoca da historia talvez tanto como agora se tivesse oferecido á mulher ocasião de pôr em jogo a multiplice serie de virtudes de que ella tem feito a força da sua fraqueza.
O velho mundo atravessa uma formidavel crise de que é possivel que surja uma nova era para a humanidade. É a Europa inteira em armas; milhões de homens alapados em covas como lôbos, espreitando-se, tendo como fito unico exterminar o seu adversario e ocupar o terreno que elle não poude manter. São cidades que levaram seculos a erguer, demolidas num dia. [...]
São familias inteiras sem pão, fugindo deante do flagelo exterminador, tropegas de fadiga, chorando a casa destruida, as sementeiras devastadas e os filhos que ficaram mortos na lucta, confundidos nas enormaes valas que conteem centenas de cadaveres, dormindo sob os braços duma grande cruz feita de duas traves tôscas.
São os velhos sem arrimo, as creanças que perderam os paes, as mulheres vagueando tresloucadas pelos caminhos desertos, por entre a fumaceira das aldeias destruidas, e os troncos das arvores seculares que as balas esgalharam e que ficam, como atonitos gigantes, estendendo os braços impotentes para a miseria formidavel das coisas humanas.
São s ecolas transformadas em hospitaes, as egrejas em quarteis, os palacios em officinas de metralha.
São os monstros de aço, pavorosas machinas de exterminio que surgem um dia na costa e arremessam sobre as cidades indefesas a morte vomitada pela guela escancarada dos seus canhões. [...]
No meio desta rajada formidavel de miseria e dôr, só a mulher tem um designio que não é de morte, um pensamento que não é de vingança...
A ela cabe um papel consolador e pacifico, de arrimo para a desgraça, de ternura para o sofrimento. Ela se torna no anjo bom do grande inferno em que se transformou o velho mundo e vê-se surgir, vestida de branco, com a cruz vermelha no braço, como um simbolo augusto de paz.
Depois de horas lentas de batalha, sob o troar da artilharia e a grita feroz dos assaltos, os que voltam feridos das trincheiras encontram-na junto ao leito do hospital com os cuidados solicitos duma enfermeira terna e com um dôce sorriso animador.
Ella vae aos escombros das casas derruidas, escutando os gemidos dos soterrados, arranca-los para a vida. Ela consola as creancinhas perdidas nos exodos, recolheno-as nas creches e é para ellas uma nova mãe.
Ella ouve e executa os derradeiros mandatos dos moribundos; e quando a sua cabeça toucada de b ranco se inclina sobre os peitos d'onde o halito vae fugir, o que morre entrevê no ultimo instante a sua figura terna de consoladora piedade.
Ella faz os fatos para os orphãos da guerra, as ligaduras para os feridos, os agasalhos para os soldados.
E emquanto o homem, armado até aos dentes, mais feroz que os brutos, com a sua força centuplicada pela sciencia e pela astucia, deitando fora de si a philantropia de racional que vinte seculos de civilisação não tornaram ainda mais duravel que uma ligeira mascara postiça; emquanto ella usa, para aniquilar o seu irmão, de requintes de inexcedivel barbaridade, com o prazer animal de embeber as armas em sangue, com a face transtornada e sinistra e os olhos injectados de bilis rancorosa, a mulher vae por entre a metralha recolhendo os feridos, calmando o desespero dos moribundos, sem armas nem abrigos, com o sorriso doce das grandes dedicações generosas..."
(Excerto da Conferência)
Exemplar em brochura, bem conservado. Capas frágeis, com pequenos defeitos. Contracapa apresenta vinco ao centro.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
45€

