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07 maio, 2026

AUGUSTO, Ignacio -
A INFELIZ.
Conto moral. Por... [Porto], Editor Ignacio Augusto [Imprensa Nacional], 1905. In-8.º (19x12 cm) de 16 p. ; B.
1.ª edição.
Conto verídico com intuitos moralizadores. Narra a "perdição" de uma moça do campo, desde os tempos da fábrica onde se empregara (e fora seduzida) às ruas de Lisboa onde, de prostíbulo em prostíbulo, terminou os seus dias. No final, o autor apela à consciência colectica pela "extranha tolerancia em favor das vergonhosas casas de prostituição".
Opúsculo curioso e muito invulgar. A BNP não menciona. Nada foi possível apurar acerca do autor d'A infeliz, uma vez que não foi possível chegar a qualquer fonte bio-bibliográfica, mas pelo sentido da narrativa seria do Porto, como aliás a "biografada", mas esta dos arrabaldes da Cidade Invicta.
"Em 1886, epocha em que se passa esta narrativa, vivia n'uma das freguezias do visinho concelho do Porto, uma familia composta de pae, mãe e uma filha, uma innocente e loira creancinha que era o enlevo de seus paes.
Thereza, assim se chamava a joven que fórma o assumpto d'esta narração, passou os primeiros annos da sua vida na aldeia. Na plenitude das suas forças e da sua saude, Therezinha tomava parte alegremente em todos os innocentes jogos das creanças da sua idade.
Á medida que ia crescendo, notava-se que chegaria a ser uma rapariga formosissima; possuia umas bellas feições e uma esbelta figura, presentes do céu que desgraçadamente se trocam para muitas infelizes em rêdes de Satanaz. A sua educação domestica deixou alguma coisa a desejar, não obstante, a sua familia desfructava de uma certa consideração na aldeia.
Therezinha foi crescendo, crescendo, e, pelo espaço de muitos annos, cumpriu com exactidão todos os seus deveres.
Como seus paes não fossem ricos, com pesar seu, se viram obrigados pela idade avançada e pela falta de saude, a pedirem a uns antigos conhecimentos, para que a sua filha fosse admittida como operaria-aprendiza em uma fabrica de tecidos, onde pudesse ganhar o sufficiente para a ajuda do seu alimento e do seu vestuario. [...]
Na fabrica acima dita, quem exercia o logar de pagador era o filho d'um dos proprietarios da mesma, um valdevinos, em toda a extensão da palavra, e a quem o pae obrigou a trabalhar, para lhe tornar com a prisão d'um trabalho assiduo, a orgia menos extensa.
Mas, mesmo assim o seu germem vicioso e envenenador, ia-se alastrando lentamente em todas as victimas que por fatalidade de dirigiam um olhar, ou por algumas d'aquellas a quem a necessidade obrigava a dirigirem-se-lhe.
Carlos, pois assim se chamava o pagador, nas suas horas vagas passeava pela fabrica jogando ás escondidas de seu pae, chalaças ás operarias. As mais escrupulosas respondiam-lhe inconvenientemente, em quanto que as menos escrupulosas se riam das suas chalaças respondendo com ditos e gracejos de toda a ordem. No numero d'estas, contava-se Thereza."
(Excerto de A Infeliz)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Envelhecido e manuseado. Capas frágeis, manchadas, com defeitos.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
20€

05 setembro, 2025

AMARAL, João de Deus -
O AMÔR DA PÁTRIA - APOLOGIA DA RELIGIÃO CRISTÃ.
Impressões em prosa e verso dum crente patriota. Edição do Autor. Mangualde, Comp. e Imp. - Tip. de V. Guerra, 1920. In-8.º (19,5x13,5 cm) de [4], 143, [1] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Obra de forte pendor patriótico e fervor religioso, publicada em época de pobreza e convulsões sociais. O autor - «pobre e pai de muitos filhos» - discorre sobre tudo um pouco: verseja sobre moral e religião, dá lições de patriotismo, apresentando inclusive um projecto para a "salvação da pátria" (saneamento das finanças públicas, que contaria com a colaboração de todos os contribuintes, em diferentes graus, de acordo com os vencimentos, e que seria vertido em lei após atingir 50% dos objectivos), e reflete sobre a inveja, a preguiça, o trabalho, a política, o socialismo, a alma humana, etc., dedicando no final um capítulo às mães e às esposas, pejados de conselhos e boas recomendações.
Obra insólita, rara e muito interessante, impressa em Mangualde, por certo com tiragem reduzida.
Ilustrada com retrato do autor em página inteira.
"No intuito de espalhar o mais possivel, levando até ao mais recôndito do país o espirito patriótico e a abnegação de que está impregnada, tencionava o auto desta obra mandar fazer uma grande tiragem.
Os pesados encargos, porèm, que tal empreendimento lhe acarretavam, ínibiram-no de o fazer, limitando-se por isso a encomendar uma tiragem bastante inferior, que está no entanto na disposição de repetir e aumentar, no caso de os seus esforços serem coroados de bom êxito.
Dêste modo, espera o autor que todas as pessoas a quem êste livro fôr remetido lhe enviem em seguida a sua ímportância, que é de 500 reis, ou lho devolvam no caso de não quererem adquiri-lo.
Auxiliarão assim a propaganda das ideias expendidas nesta obra, que obedeceu exclusivamente a espalhar o mais possivel o Amôr da Pátria, fazendo ao mesmo tempo a Apologia da Religião Cristã."
(Excerto da Advertência)
"A todos, sem excepção de ninguem, pertence, nesta hora crítica e aflitiva da nossa boa e querida Pátria, sacrificar-nos em seu favor e prol da sua independência.
Devemos todos mar a nossa Pátria até ao sacrificio, dedicando-nos por ela com carinho e amôr. [...]
Quereis salva-la? Quereis redimi-la? Quereis que ela seja um país belo e florescente como os melhores do mundo?...
Está tudo na nossa mão! A questão é querer!
Eu vou dar os apontamentos, as indicações precisas para que tudo se consiga. [...]
E essa obra póde levar-se a cabo realisando duas coisas: Fazendo a paz nacional e redimindo o País da enorme divida pública, que pesa sobre a Pátria e sobre todos nós, que somos seus filhos. [...]
O governo fará uma lei, que, afim de se apurar quem são os verdadeiros patriotas, não deve ser obrigatoria.
Essa lei é submetida á opinião ou assinatura de todos os portugueses, que voluntariamente a queiram assinar.
Quando o numero de assinaturas tenha já passado de metade dos que a ela estão sujeitos por dever de amôr á sua Pátria, então se fará obrigatória para os rebeldes e maus patriotas
Essa lei deve ser assinada primeiro pelo Snr. Presidente da República e por todos os ministros e deputados da nação, que devem ser os primeiros a dar o exemplo, provando assim o seu Patriotismo."
(Excerto de  Modo facil de saber-se quais são os verdadeiros patriotas)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Papel de fraca qualidade. Capas frágeis com defeitos. Contracapa apresenta falha de papel no canto inferior esquerdo.
Raro.
25€

17 fevereiro, 2025

BASTOS, José Joaquim Rodrigues de -
OS DOIS ARTISTAS OU ALBANO E VIRGINIA.
Pelo Conselheiro... Segunda edição. Porto: Na Typographia de Sebastião José Pereira, 1853. In-8.º (201x13 cm) de 242, [2] p. ; E.
Romance moralista ao gosto da época, exemplo típico da escola romântica.
"Em todas as idades o homem precisa de ser verdadeiro; mas esta precisão é ainda maior, se é possivel, quando elle está proximo a comparecer no Tribunal Divino. Assim, eu devo esperar que se me dê credito, ao protestar  que nada do que digo é allusivo a pessoa alguma.
Puz-me a caminho, e não vi nem me importaram pessoas; e para que me haviam ellas de importar? O escriptor moral deve esquecêl-as ao pegar da penna, para melhor avaliar as cousas: deve fechar os olhos a tudo, menos á razão, á justiça e á verdade.
O amor póde cegal-o, o odio extravial-o. As paixões são escolhos, de que o prudente navegador se afasta, para não correr o risco de naufragar."
(Excerto do Prefacio)
"O esculptor tinha um filho, Albano, que já em tenra idade dava grandes esperanças; e, querendo formar-lhe o coração antes do espirito, levava-o todos os dias aos templos, e lhe dava algum dinheiro com que elle podesse fazer suas esmolas, não se enfadando de lhe repetir, que nem ha verdadeira devoção sem caridade, sem verdadeira caridade sem devoção. [...]
Lembrando-se de que os antigos imprimiam na sua mocidade as regras de viver e a sciencia dos costumes, por meio de breves e vivas sentenças, que se retinham sem fadiga, e se repetiam com prazer, entregou-lhe uma judiciosa collecção de maximas, determinando-lhe que decorasse todos os dias uma porção d'ellas, de que lhe tomaria conta, e ficou admirado, quando, passadas vinte e quatro horas, vio que as tinha decorado todas."
(Excerto do Cap. II)
José Joaquim Rodrigues de Bastos (Conselheiro) (17477-1862). "Nasceu a 8 de Novembro de 1777 em Moutedo, Valongo do Vouga, e veio a falecer no Porto a 4 de Outubro de 1862. Matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra e formou-se em 1804, passando a exercer a advocacia no Porto. A partir de 1812 envereda pela magistratura ao ser nomeado Juiz de Fora em Eixo e vilas de Paus, Óis da Ribeira e Vilarinho do Bairro. Em 21 de Novembro de 1823 é nomeado Corregedor e Provedor da Comarca do Porto e, no ano seguinte, a 9 de Abril de 1824, é ordenado Cavaleiro da Ordem de Cristo. De 22 de Junho de 1825 a 16 de Agosto de 1826, exerce as funções de Desembargador da Relação e Casa do Porto, posto o que foi Intendente Geral da Policia da Corte e do Reino, em 1827, e tomou o título de Conselheiro. A 25 de Outubro de 1826 a Infanta regente, D. Isabel Maria, nomeia-o Fidalgo da Casa Real. Politicamente, milita nas fileiras do Partido Liberal Conservador, sendo eleito deputado pela Província do Minho em Dezembro de 1820, e tendo participado nas primeiras Assembleias Gerais Legislativas portuguesas. Em 1833 abandonou em definitivo a vida política e passou a dedicar-se, exclusivamente, à literatura e a estudos religiosos. Obras publicadas: “Colecção de Pensamentos, Máximas e Provérbios” (1847); “Meditações ou Discursos Religiosos” (1842); “A Virgem da Polónia” (1849); ”Os dois artistas ou Albano e Virginia” (1853); ”O Médico do deserto” (1857); “Biografia da Sereníssima Senhora Infanta D. Isabel Maria”.
(Fonte: https://agueda.bibliopolis.info/Catalogo/Autores-Locais/ModuleID/1497/ItemID/1068/mctl/EventDetails)
Encadernação meia de tecido com cantos em pele e rótulo com dourados na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Carimbo e rubrica de posse na f. rosto.
Raro.
Indisponível

24 outubro, 2024

PENSAMENTOS DE OLIVEIRA MARTINS.
Colhidos das suas obras por Um Amigo. Lisboa, Imprensa Nacional, 1889. In-16.º (14x9 cm) de 54, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Máximas de Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894) escolhidas por um seu amigo em homenagem à sua obra, labor e dedicação à causa pública.
"Colligindo estes pensamentos das obras do nosso primeiro historiador, tive em mira pôr em frente da vossa vista bons preceitos de moral e politica que, não provindo de escriptor estrangeiro, nem por isso deixam de ter merito, como verão.
Dividi este livrinho de amor em duas partes: na primeira se contem os pensamentos politico-sociaes, na segunda os philisophico-moraes. Pensei igualmente em dal-o n'esta edição (pocket-edition) para que o podesseis levar para toda a parte como um objecto de especial carinho."
(Excerto de Á mocidade portugueza)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis, com defeitos, e pequenas falhas de papel marginais. Capa apresenta carimbo de posse e de biblioteca.
Raro.
Com interesse histórico e bibliográfico.
A BNP dá notícia do livro, porém, com a indicação "sem informação exemplar".
25€

27 agosto, 2024

GIL, Francisco - ESTUDO // CURIOSO. // LIVRO DE THEOLOGIA MORAL, // COMPOSTO PELO PADRE // FRANCISCO GIL, // Abbade de Meixedo, Bispado de Mi- // randa. // Dado à luz pelo Padre // JOAM DE MEDEIROS TEIXEIRA. // OFFERECIDO // AO DOUTOR // BELCHIOR DO REGO // E ANDRADE, // FIDALGO DA CASA DE SUA MAGESTADE, E DO SEU // Concelho, Desembargador do Paço, Procurador da Coroa, dos // Concelhos da Rainha N. Senhora, e das Serenissimas Casas de Bra- // gança, e Infantado, Chanceller Mòr das Tres Ordens Militares // Conservador da Naçaõ Britannica, Regedor das Justiças, &c. // LISBOA OCCIDENTAL, // NA OFFICINA DA MUSICA // M. DCC. XXXIV. // Com todas as licenças necessarias, e Privilegio Real. In-8.º (20x13,5 cm) de [14], 394 p. ; E.
1.ª edição.
Curioso compêndio de cariz moral e religioso, elaborado em jeito de pergunta/resposta para melhor compreensão do conteúdo.
"Sacramentum est signum sensibile rei Sacre sanctificantis nos. Signum se poem em lugar de genero, por onde convem com os outros finaes, que naõ saõ Sacramentos: rei Sacre he a differença, e significa a graça, a qual formalmente santifica o homem, porque Deos só o santifica conmo causa efficiente.
P. De quantos modos he o final do Sacramento? R. Que de tres: Rememorativo da Paixão de Christo, Demonstrativo da graça, e Prognostico da gloria: Juxta illud D. Thom. O'Sacrum convivium, in quo Christus summitur, recolitur memoria passionis ejus, mens impletur gratia, & futura gloria nobispignus datur.
Ha quatro estados da Natureza, 1. da Innocencia, 2. da Ley Natural, 3. da Escrita, 4. da Graça. No estado da Innocencia naõ houve Sacramentos, pois a justiça original dava os mesmos auxilios, que podiaõ dar os Sacramentos. Nos outros estados houve Sacramentos, quia Deus vult omnes homines salvos fieri, e naõ ha outro remedio, por onde se possaõ salvar; e depois do peccado naõ se podiaõ salvar sem elles. Os da Ley Velha eraã a Circuncisaõ, Agno Paschal, Sacrificio, e Protestaçaõ da Fé in fide parentum. Os da Ley da Graça saõ sete sc. Baptismus, etc. [...]
P. Quantos saõ os Sacramentos? R. Que sete, Bautismo, Confirmaçaõ, Eucharistia, Penitencia, Extrema-Unçaõ, Ordem, e Matrimonio. P. Quem instituhio os Sacramentos? R. Christo N. Senhor. P. Para que os instituhio? R. Para remedio dos peccadores, e mayor perfeiçaõ das almas."
(Excerto de De Sacramentis in genere.)
Encadernação coeva inteira de pele com dourados na lombada.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Pequeno orifício de traça, no pé, sem afectar o texto, visível nas primeiras folhas. Mancha antiga de humidade junto ao festo, mais evidente nas últimas folhas do livro.
Invulgar.
55€

26 julho, 2024

L. A. -
CONTOS INFANTIS
. Lisboa, Livraria Ferin & C.ª, 1897. In-8.º (20,5x14 cm) de [8], 48 p. ; B.
1.ª edição.
Obra constituída por três contos moralistas dirigidos aos mais pequenos.
Nada foi possível apurar acerca do autor desta colectânea. A BNP não dispõe desta edição; antes dá notícia da segunda, datada de 1914, dando como autor "L. de Albuquerque".
Livro ilustrado com belíssimos desenhos no texto, capitulares e gravurinhas encimando cada uma das histórias.
"Era uma vez um cavalheiro, nobre e muito rico, que vivia á lei da grandeza. No meio do seu fausto e ostentação, manifestava sempre muita soberba e desamor para os pobres e pequeninos.
O braço e perna esquerdos, e grande parte do corpo, cobriram-se-lhe de uma crusta negra e aspera, que similhava ferrugem. Para encobrir a praga com que Deus o havia castigado, calçava uma luva que cerrava no pulso, e não tirava, nem de dia nem de noute."
(Excerto de O fidalgo de ferrugem)
Índice:
[Preâmbulo] | I - O fidalgo ferrugento. II - A Corcundinha. III - O Reino dos Sonhos.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Frágil com defeitos. Sem capas. F. rosto apresenta tosco restauro com fita gomada; na sequência do mesmo as 4 páginas iniciais, que incluem a f. anterrosto, foram colocadas no fim do livro. Deve ser encadernado.
Raro.
Sem registo na BNP.
Indisponível

25 agosto, 2020

SAUSSAY, Victorien du - MEMORIAS D'UMA PARTEIRA. (As victimas do amor). Trad. de Bernardo d'Alcobaça. Lisboa, Typographia Lusitana Editora, 1909. In-8.º (20 cm) de XIX, [1], 311, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Obra proibida de circular na época. Trata-se de uma narrativa com forte pendor moralista e laivos de erotismo, em contracorrente com os dictames da época.
"A virtude nem sempre é bella; é, muitas vezes, uma coisa cruel.
Ha pessoas virtuosas que não são admiraveis e que ninguem deve imitar.
Certos crimes hediondos são o resultado d'uma virtude tão barbara, tão impediosa e nefasta, que merecem a piedade e a absolvição.
N'uma sociedade hypocrita e má todo o individuo tem o direito de  proceder livremente, mesmo contra a lei, dado que não leze o proximo. [...]
A maior parte das leis que dirigem o procedimento das mulheres foram naturalmente elaboradas pelos homens; são, portanto, odiosas. Cerebros de cretinos ou de féras produziram monstruosidades. [...]
E  a mulher tão sómente ficará livre dos velhos grilhões que, successivamente, a algemaram, no dia em que fôr unica senhora do corpo, quando puder dispôr incondicionalmente, voluntariamente, da faculdade que a natureza de impoz de copular.
A sociedade creou o casamento legal, mas creou egualmente a mãe illegitima.
No primeiro caso o filho é, ou pode ser acolhido jubilosamente; no segundo, mesmo antes de nascido, as injurias alliam-se aos máus tratos, e a mãe como o filho envolvem-se n'uma mortalha de vergonha e ignominia.
Emquanto a sociedade fôr a madrasta que fere, pune e emporcalha, a mulher terá o direito de não querer ser mãe.
Crime! dirão. Qualquer mulher, seja ella o que fôr, não tem o direito de privar a sociedade de um individuo! Mas tem essa sociedade o direito de sacrificar, immolar á sua virtude hipocrita essa mulher, seja ella o que fôr?
Que a sociedade se transforme, se quer que a mulher execute a sua funcção maternal; para colher é necessario semear.
Presentemente, no começo do seculo XX, se qualquer pobre rapariga, que amou ou foi seduzida - o amor e a seducção podem ser egualmente seguidos de abandono - fica gravida, é expulsa do seio da familia, vulgarmente abandonada pelo amante, insultada e vilipendiada pela sociedade, privada dos meios de ganhar a vida, porque nenhum trabalho que confiam. A que recorrerá? Quaes são as esperanças d'essa creatura enfraquecida, martyrizada pela gravidez? Tem de escolher duas soluções: o suicidio ou o abortamento.
Há ainda uma terceira, que não é mais seductora do que as outras: a prostituição, com a falsa independencia que lhe é inherente. Algumas desgraçadas optam por ella, e a sociedade nem por isto lhes quer peor.
Ha crimes de abortamento que são admiraveis sacrificios de commiseração. Escrevi propositadamente este livro - livro que não me dará a sympathia nem a estima dos que fazem profissão de ser os mais puros d'entre os humanos, o que pouco me importa - escrevi este livro, suggestionado pela necessidade de dizer, corajosamente, e expor, lealmente, o que pode passar-se, em certos momentos, no coração d'uma mulher digna e d'uma mulher corajosa. Simula-se ignora, muito propositadamente, que uma parteira é, acima de tudo, uma mulher, quer dizer um ente essencialmente sensivel, exageradamente sujeita a deixar influenciar-se, capaz de sentir e de vibrar, logo que lhe toquem o nervosismo, logo que appelarem para os seus sentimentos. Ninguem aprecia com inteira imparcialidade as situações em que muitas vezes se vê collocada; ninguem sabe os logros macabros de que é victima.
Uma mulher narrou-me com empolgante franqueza algumas das peripecias tristes da sua soberba existencia. Conta vinte e oito annos de serviços excepcionais. Aparou nas mãos vinte mil creanças, ttalvez mais. Quantos a conhecem, estimam e respeitam.
Este livros encerra essas peripecias lamentaveis da sua vida, a historia simples das horas consagradas ás victimas do amor, e as victimas do amor são anjos."
(Excerto do Prefacio)
Encadernação simples, cartonada, em meia de percalina. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Páginas amarelecidas por acção do tempo, com uma outra mancha.
Raro e muito curioso.
Indisponível

09 agosto, 2017

AMARAL, P.Jeronymo José do - A MULHER OU O ANJO TUTELAR DA FAMILIA. Porto, Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita-Editor ; Rio de Janeiro, Agostinho Gonçalves Guimarães & C.ª, B. L. Garnier, A. A. Lopes do Couto e J. Neves Pinto, 1875. In-8.º (20cm) de VII, [1], 16 p. ; B.
1.ª edição.
Curioso opúsculo de teor moralista sobre o papel da mulher perante Deus e a família.
"«Se querem educar o homem, eduquem primeiro a mulher», ha dito alguem.
E é assim.
Mas, por uma d'estas aberrações d'entendimento que chegam muitas vezes a produzir a ruina das civilizações, todos conhecem o mal e ninguem, ou quasi, procura remedial-o.
Quer-me, até, parecer que o homem prefere que a mulher, em geral, seja frivola, vaidosa e facil, julgando-a talvez assim mais util e agradavel: erro deploravel!
Só a virtude é sincera e communicativamente alegre, só a innocencia irradia o verdadeiro prazer."
(excerto da Advertencia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com manchas, que se prolongam pelas primeiras páginas do livro.
Raro.
A BNP tem apenas um exemplar recenseado (Un. Católica).
10€

29 dezembro, 2016

BAETA, A. Alves - O BOM CAMINHO. O Adagio, o Proverbio e o Conselho em Verso... Não só podia ser a paz da tua casa, como tambem, de todo o Universo. Lisboa, Tipografia Lusitana, [1932]. In-12.º (13,5cm) de 76 p. , B.
1.ª edição.
Valorizada pela dedicatória autógrafa do autor.
"O bom caminho só se compõe de regras de bom viver, sendo por isso útil a todas as idades e ambos os sexos."
Curioso livrinho oferecido pelo autor a seus filhos: Este livro foi originado unica e simplesmente, por querer deixar a meus filhos, todos os conselhos por escrito! Se procederes de egual forma, nunca te podes arrepender, de tudo quanto deixares dito.
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capa apresenta pequena falha de papel na margem lateral.
Invulgar.
10€

08 julho, 2014

NOVO CATHECISMO SCIENTIFICO, COMPOSTO DE DOUTRINAS MUITO UTEIS A TODO O ESTADO DE PESSOAS, PARA BEM REGULAREM SUAS ACÇÕES. EXTRAHIDO, E CONFORME COM A SCIENCIA DOS COSTUMES, EM QUE SE TRATÃO RESUMIDAMENTE AS REGRAS MAIS PRINCIPAES, E NECESSARIAS A TODA A PESSOA PARA BEM VIVER, E SER FELIZ. POR HUM ANONIMO PORTUGUEZ. OFFERECIDO A SEUS COMPATRIOTAS PARA EDUCAÇÃO DA MOCIDADE. LISBOA: 1823. TYPOGRAPHIA PATRIOTICA. In-8º peq. (14cm) de 126, [2] p.
Curioso trabalho publicado sob anonimato, uma espécie de manual de bons costumes.
"Este Cathecismo consta de 15 Capitulos, como adiante se mostra, e estes de doutrinas uteis, claras, e necessarias a quem as não souber.
No fim destes se dá humas breves noções de virtudes moraes, que o homem pode adquirir pela frequencia de seus actos bons."
(introdução)
Matérias:
I. Obrigações, e officios do homem para com Deos.
II. Das obrigações do homem relativamente á Religião.
III. Das obrigações do homem para consigo mesmo.
IV. Das obrigações do homem para com os outros homens.
V. Das obrigações do homem para com os outros, em razão do dominio.
VI. Das obrigações do homem para com os outros em razão dos pactos, e contractos.
VII. Da Sociedade para que o homem nasceo.
VIII. Da Sociedade Conjugal, ou matrimonio.
IX. Obrigações dos que pertendem tomar o estado do matrimonio.
X. Das obrigações dos que contrahirão o matrimonio.
XI. Obrigações em razão da Sociedade paterna.
XII. Das obrigações dos filhos para com seus pais.
XIII. Das obrigações da Sociedade Senhoril.
XIV. Das obrigações do homem em razão da Sociedade civil em que vive.
XV. Das obrigações do homem na Sociedade Religiosa.
"O Estado, ou Sociedade Civil, deve ser considerada como mãi commum de todos os homens que nascem no gremio della: ella lhes deve proteção, e defeza não só quanto a vida, mas tãobem quanto aos direitos, que lhes competem como homens, e como Cidadãos.
Da mesma sorte cada hum dos ditos individuos deve considerar-se como membro da Sociedade, e devedor a ella de gratidão, e bom serviço: daqui provem a obrigação de amor, de fidelidade, e de prover o bem da Sociedade."
(excerto do prefácio)
"Matrimonio he hum contracto, pelo qual o homem, e a mulher habeis se abrigão a viver em perpetua Sociedade, para se amarem, para se ajudarem, e para bem educarem seus filhos. Este contracto conjugal, está explicado nas palavras acima ditas, deve ser contrahido sem impedimentos, e com obrigação de viverem em perpetua Sociedade, porque não podem contrahir o matrimonio só por tempo determinado, ou por determinado arbitrio delles; e isto he inegavel, ao menos por direito divino positivo."
(excerto do Cap. VIII, Da Sociedade Conjugal, ou matrimonio)
Exemplar desencadernado, aparado, em bom estado de conservação. Em falta uma folha do índice. Carimbo de biblioteca na f. rosto.
Raro.
Sem indicação de registo na BNP (Biblioteca Nacional).
Indisponível

11 julho, 2012

CARVALHO, Alberto Antonio de Moraes – APHORISMOS E PENSAMENTOS MORAES, RELIGIOSOS, POLITICOS E PHILOSOFICOS. Por... Lisboa, Imprensa Nacional, 1850. In-8.º grd. (21,5cm) de 212 p. ; E.
1.ª edição.
Alberto António de Morais Carvalho (1801-1878). “Advogado e político (Vouzela, 22.11.1801 - Lisboa, 15.04.1878). Bacharel em Cânones na universidade de Coimbra, político de ideias liberais, em 1828 comparticipou na revolução que chegou a implementar a Junta do Governo Provisório do Porto e, em consequência do insucesso da intentona, emigrou, com a divisão liberal, para a Galiza, passou a Inglaterra e estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Regressou a Portugal em 1848, cumulando o exercício da advocacia com a actividade política. Foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Lisboa no biénio 1852-1853; membro da Junta Geral do Distrito de Lisboa e Governador Civil em 1859. Deputado em várias legislaturas, tomou parte no Ministério do Duque de Loulé, encarregado da pasta dos Negócios Eclesiásticos e Justiça, que sobraçou até 21.02.1862, já no Ministério de Sá da Bandeira. Par do Reino por carta régia de 30.12.1862, foi dignitário da Ordem da Rosa do Brasil, por mercê do Imperador D. Pedro II, em 1872.” 
O antigo ministro António Alberto Morais de Carvalho, ilustre jurista e liberal, em Aphorismos e Pensamentos Moraes, Religiosos, Politicos e Philosophicos, publicados em Lisboa, no ano de 1850, utilizou a irregular técnica da generalidade e abstracção, para insinuar o seguinte:  
O empregado com pequeno ordenado, que vive com luxo, se não herdou, furtou (293)
Os cargos do Estado, em mãos de probidade, dão proveito, e honra: em mãos de corrupção, dão proveito sem honra (300).
A probidade do empregado público não pode viver, nem com o luxo, nem com a miséria (297).
Os escritores assalariados, de ordinário, são como as rameiras; prostituem-se a quem lhes paga (312).
Se a honra de representar a nação pela deputação fosse estéril de empregos, e distinções, haveria menos quem a ambicionasse (220).
Aos déspotas nunca faltam mandarins, que sejam vis executores dos seus decretos (235).
Os mais elevados estadistas dificilmente se conservam, e morrem no poder (315).
Qualquer grumete se reputa habilitado a dirigir o leme da nau do Estado; por isso, ela, muitas vezes, sofre avarias (317).
O bom exemplo dos grandes vale mais que os códigos criminais (326).
Um governo sábio deve criar homens para empregos e não empregos para homens (384).
Há honras sem honra, assim como há honra sem honras (437).
As maiorias parlamentares são muitas vezes minorias nacionais (607).
Os partidos de princípios podem ser razoáveis; os de pessoas são, de ordinário, execráveis (779).
Ordinariamente os maiores inimigos dos homens que se acham no poder são aqueles que desejam subir a ele (804).”
Encadernação em meia de pele com ferros a ouro na lombada. 
Exemplar em bom estado geral de conservação. Falha de pele na parte inferior da lombada. Rasgão na f. guarda sem perda de papel.
Muito invulgar e curioso.
Indisponível