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26 junho, 2026

MUCHARREIRA, Manuel -
CARTUCHEIRA DE RECORDAÇÕES : Episódios de Caça. [S.l.], [s.n. - Composto e Impresso na Beira Douro, Lda.], 1988. In-8.º (21x14 cm) de 385, [7] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Memórias de caçador do autor. A obra foca-se na literatura cinegética portuguesa, reunindo memórias e crónicas - cerca de uma centena - sobre a atividade da caça.
Livro ilustrado no texto com desenhos e fotografias a p.b.
"Por ser jovem e me sentir possuído de aptidões qualificadas para a cinegética, resolvi ser caçador. Até porque os meus antepassados também praticaram este desporto. [...]
Nas décadas de 40 e 50, não sei quantos quilómetros percorri em cima das tíbias. Seria curioso sabê-lo. Apenas afirmo, sem temer exagerar, que matei nesse período algumas centenas de perdizes. Eu vivia isolado, em pleno campo, no meio delas, e saía quase todos os dias. Isto não significa que eu fosse um caçador primoroso. Fiz, como a maioria, dezenas de azelhices, muitas de "palmatória!, tanto nos coelhos como nas perdizes; talvez mais nestas do que naqueles! Só que... Havia-as na região para comer, dar e vender! A "salto" e em terreno livre, não era raro os bons caçadores atingirem 20, 30 e mais cabeças, em dias de "abertura"! [...]
Ao cabo de alguns anos, resolvi reunir todas as historietas publicadas [no "Jornal de Caça e Pesca"], juntá-las com outras e fazer um livro... Não venho mostrar as minhas aptidões literárias... Longe disso! Trata-se apenas dum pequeno volume, dedicado aos caçadores e para ser lido por caçadores. Não é próprio para senhoras, nem os assuntos nele tratados podem interessá-las. Aqui e além, encontram-se anedotas com piripiri, capazes de melindrar uma ou outra mais sensível a certos termos..."
(Excerto do Prefácio)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Manuseado; contracapa vincada.
Muito invulgar.
45€

25 abril, 2026

COELHO, R. - HORAS DE GUERRA. Memórias de Um Miliciano. Fornos d'Algodres, Tipografia Mondego, 1924. In-8.º (22,5 cm) de [16], 174, [10] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
M
emórias de guerra de Manuel Benjamim Rodrigues Coelho, natural de Tavira, que combateu na Grande Guerra nas fileiras do C. E. P., sendo um dos sobreviventes de La Lys. Trata-se dos seus apontamentos, em grande parte, escritos no front.
Livro ilustrado com sete estampas em página inteira, incluindo um croquis do itinerário seguido pela 11.ª C. do B. I. 12 na batalha de 9 de Abril.
"No dia 8 nada de anormal! Nada indicava que estávamos da véspera dos importantes acontecimentos que vieram a desenrolar-se, no entretanto dão-se ordens para que o batalhão disponha as coisas para retirar na manhã do dia 9. Estes preparativos e estas ordens são dadas e cumpridas com alegria e entusiasmo: - chegava enfim o anceado repouso ao cabo de três intenssissimos mêses de luta nas trincheiras dum sector agitadissimo. Mas esta vida é tôda feita de surprêsas - e a alegria transbordante dos nossos homens fôi surpreendida pela agitação nervosa, inquietantes, dum infernal bombardeamento que na negra madrugada de 9, veio assaltar as nossas linhas. E os homens da 11.ª companhia em vez de retirarem, teem contraordem e marcham a ocupar um reducto de Pem du Hem.
A ordem é cumprida sem exitação, - as leis da guerra são duras - e o alferes Assis Gonçalves, que sempre teve os seus homens obedientes e disciplinados, leva-os para mais um sacrificio sem uma única defecção. E lá marcham debaixo dum bombardeamento de cada vez mais violento, correndo ou rastejando sob uma chuva intenssissima de estilhaços, indo um deles atingir em pleno peito, o sargento Domingues o qual lhe fura a máscara anti-gaz. Mas isso só serve para o encorajar! Metem-se a córta-mato, atravessam em La Fosse o canal Lawe na direcção de Bout Deville, pois é impossivel o transito nas estradas, batidas em tôda a extensão. Procuram através de tudo cumprir a ordem do comando do batalhão!
Meio desnorteados encontram um reducto à frente do chateau du Marais ocupado já por tropas inglêsas comandadas por um alferes e depois superiormente pelo capitão Holdswuth, mas para o atingir é necessário atravessar a vau o largo dreno de irrigação que o circunda.
Os homens levavam consigo apenas as munições de reserva, ou seja 100 cartuchos cada um, e as secções de metralhadoras traziam os depósitos vasios, em virtude da ordem repentina do comando do batalhão e por informarem e por informarem o comandante da companhia, que no reducto havia munições; de sorte que, encontraram-se na frente do inimigo com aquela miseria!...
Aqui, neste pequeno reducto, os soldados do 12 procuraram salvar a honra do seu Exercito."
(Excerto do Cap. X, Do Lys ás areias de Ambleteuse)
Índice:
Prefácio. I - A Viagem. II - Durante a preparação. III - Na fornalha. IV - Laventie. V - O Parque. VI - A Permissão. VII - De volta ao Front. VIII - Uma eleição torpedeada. IX - Outro modo de vida. X - Do Lys ás areias de Ambleteuse. XI - O grande delírio. XII - De regresso.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas ligeiramente oxidadas, com mancha antiga de humidade junto da lombada.
Raro.
40€

14 abril, 2026

SOUSA,  Carlos de -
SCENAS AFRICANAS : 1897 a 1917
. Lisboa, Lamas, Motta & C.ª, [1917?]. In-8.º (19,5x13 cm) de 328 p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de crónicas sobre histórias e episódios protagonizados pelo autor em África, por terras de Moçambique. Inclui viagens e capítulos devotados à caça grossa e a ao "encontro" com leões, um búfalo furioso e uma  carga de elefante, e ao seu relacionamento com a terra e as gentes indígenas e os seus costumes.
Obra com interesse histórico e etnográfico. Nada foi possível apurar sobre o autor, a não ser, pela leitura do livro, que foi oficial do exército português, tendo privado com Mousinho de Albuquerque e Gomes da Costa; era valente, apreciava sobremaneira África e tinha gosto pela aventura.
Livro ilustrado com inúmeras fotogravuras no texto.
"Todo aquelle que, levado á Africa pelos asares da vida e ao cabo de vinte annos quasi consecutivos de trabalho intenso, de sobreexcitação cerebral, devida á grande lucta para a existencia, n'aquelle meio e n'aquelle clima, embora resistindo á ferroada traiçoeira e vil dos inoculadores da malaria, tenha uma ou duas vezes passado pelas forcas caudinas da febre biliosa, e depois d'essa sobreexcitação, se encontre, embora com as maximas comodidades, o maximo carinho e conforto dos seus, no remanso do lar portuguez, é fatalmente invadido no fim de pouco tempo, que em geral não vae alem de um anno, pela terrivel doença nervosa, o desejo cruciante de voltar para lá, que tanto mais nos ataca, quanto mais tenhamos sofrido das febres, quantas mais contrariedades ali tenhamos tido, a terrivel nostalgia africana..."
(Excerto de Nostalgia Africana)
"Tinhamos sahido de Catuane n'uma chata de Monhé, tripulada por dois pretos, empurrada á vara; o rio ali junto á fogueira, é pouco fundo, e só pode ser navegado por aquelles barcos. Tinha a chata uns 4.m de comprido e 1m,20 de largo, e fizemos-lhe um toldo de capim com o duplo fim de nos abrigar do sol, e nos mascarar dos animaes do rio, para mais de perto os podermos caçar. Iamos sentados em comodas  cadeiras de lona, com as armas na mão, e a diante das mallas, cantina e um braseiro para fazer a comida. Para nós tinha um grande atractivo a viagem pois que sem nos massarmos, nem apanhar-mos muito sol, podiamos gosar a paisagem fluvial do rio Maputo que é realmente interessante.
Vinhamos da fronteira da Suazilandia e de Estatuene. O meu companheiro, um rapaz muito novo e muito rico, que viajava por diletantismo, fora-me recomendado em Lisboa; tinha um grande empenho em atirar a um cavallo marinho [hipopótamo], caça ali muito abundante; trazia uma Mauser com bala dum dum, eu uma Winchester de bala explosiva; vinhamos portanto bem armados para isso.
Elle chegára a Lourenço Marques havia poucos dias, e era completamente novato em caçadas de féras, e visitas a povoações de pretos. Com a ideia de atirar a um cavallo marinho, parecia uma creança.
«Espere, lhe disse eu, se tivesse vindo comigo ha uns seis meses, quando de volta da fronteira desci este rio, acompanhado do Corte Real, então era muito facil a caça a estes  monstros, mas agora, no tempo do cio, são umas verdadeiras feras; se se atira a uma femea, é certo que o macho vem sobre nós, se a um macho que vem atraz da femea, peor ainda, se a uma femea com filho, é ella que nos atáca; de resto são animaes muito pacificos, de olhar meigo, e nunca atacam que não os ataca primeiro.» [...]
Em breve vimos dois hipopotamos aos pulos na agua; era um casal brincando, o macho enorme, e apesar do rio ter ali uns 60m de largura de agua, parecia pequeno para elle. tão entretidos estavam os dois, aos pulos, que não deram por nós. N'um certo momento em que o macho estava mais socegado, e de cabeça de fóra disse ao meu amigo, que atirasse, apontando bem entre os olhos e, de espingarda engatilhada, fiquei esperando para acudir em caso de necessidade."
(Excerto de No rio Maputo, o regulo M'Pobobo)
Exemplar brochado em bom esta de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Raro.
85€

13 abril, 2026

CAVACO, Faustino - VIDA E MORTES DE FAUSTINO CAVACO. Organização de: Rogério Rodrigues. Lisboa, Euroclube, 1988. In-8.º (21,5x16 cm) de 516, [4] p. ; C.
1.ª edição.
Memórias de Faustino Cavaco, conhecido assassino, assaltante de bancos, que na sua fuga da cadeia de alta segurança de Pinheiro da Cruz (Grândola), em 1986, deixou atrás de si um rasto de mortos e feridos.
"A 29 de Julho de 1986 [...] seis perigosos reclusos tinham conseguido fugir da cadeia de Pinheiro da Cruz, a vinte quilómetros de Grândola, deixando para trás três guardas prisionais mortos e outros dois feridos com alguma gravidade. [...] No interior do edifício, destruíram o rádio para impedir comunicações com o exterior e arrombaram o armeiro de onde tiraram quatro G3 e cinco pistolas. Três guardas que tentaram travar a fuga foram abatidos a sangue-frio e outro ficou ferido. Outros três foram feitos reféns e usados como escudo pelos cadastrados para chegarem ao exterior. [...] Pinheiro da Cruz demorou meia hora a alertar o posto da GNR mais próximo, situado a 25 quilómetros, por só haver uma linha telefónica. [...] No final do dia, havia uma certeza: aquela era a fuga mais sangrenta na história das prisões portuguesas."
(Fonte: https://observador.pt/especiais/faustino-cavaco-a-fuga-da-prisao-que-parou-o-pais/)
Inclui no final um glossário dos termos e expressões utilizados pela banditagem entre si.
"José Faustino Cavaco é o anti-herói. Ninguém que mereça a nossa piedade nem o nosso respeito. É o que foi um jovem que matou seis pessoas, por revolta, por medo, por vezes, gratuitamente.
Condenado à pena máxima pelos tribunais portugueses, marcado por humilhações, vexames e mesmo violências insuportáveis por parte do sistema prisional português, um universo contraditório e, com frequência, arbitrário, José Faustino Cavaco, encerrado, durante meses, na solitária de Coimbra, começou a escrever as suas memórias (curtas mas intensas), um morrer diário com vidas de ontem.
Com uma grande capacidade narrativa, capas de criar situações e desenvolver instantes e gestos com uma intuição e facilidade que não deixam de nos surpreender, este livro, a que eu tive acesso em primeira mão, num original de letra esguia, azul, angustiada, é um ajuste de contas com a vida, uma certa predisposição para não-viver.
Os seus protagonistas são crápulas e vulgares, volúveis e venais, sem gestos de honra nem actos de coragem, sem códigos nem organização, agindo sob as necessidades de momento.
Faustino Cavaco fez parte e um bando comummente conhecido por FP-27 que realizou mais assaltos a bancos, em Portugal, que qualquer outra quadrilha.
Mas não se pode dizer que pertencia a uma organização complexa, com núcleos estanques e apurados estudos de alvos a atingir.
Faustino Cavaco era um operacional de caçadeira de canos serrados. Fazia parte de um pequeno grupo que quatro ou cinco elementos, expressões nocturnas e excepcionais, de jovens perdidos na comunidade portuguesa, emigrada em França.
Foi por casualidade que o original me veio parar às mãos. Mais tarde encontrámo-nos na cadeia de Coimbra. E falámos sobe o livro. Faustino Cavaco parecia desejar muito pouco a vida. Era sua  obsessão que, dia mais dia menos, pode ser abatido. A sua única referência futura é o futuro da sua filha, a sua paixão,o único elo que o liga à vida. [...]
Não me compete emitir juízos de valor. Que cada um faça os seus. Penso, isso sim, que este desfilar de misérias, de sofrimento e grandes carências de toda a ordem, é um apelo à sensibilidade do leitor, à descoberta de um tempo quase único - de brusquidão, de ternura mortal, de infância às tiras, num universo onde só cabem os sobreviventes.
Mas as palavras de Faustino Cavaco falam por si.
Este é o seu último assalto, com tiros que não matam, mas doem."
(Excerto de Nota explicativa)
Índice:
Introdução. | A minha infância. | A minha ida para França. | A morte da minha mãe. | Um carrasco na pele da madrasta. | O «irmão» da minha ruína. | Regresso ao Algarve. | Regresso do meu pai. |! A morte do meu filho. | O princípio do meu fim. | O Pires chega de França. | Assalto ao banco de Beja. | A morte do Laginha e dos guardas-fiscais. | A GNR sem pistolas. | Assalto nas barbas da PJ. | Prisão do Michel. | Os últimos assaltos. | Dois de Janeiro de 1985 - O dia em que morri. | Pela primeira vez na prisão. | Entrada na Penitenciária. | O inferno de Pinheiro a Cruz. | A fuga para a morte. | Perseguição e captura. | As últimas horas. | Glossário.
Encadernação cartonada do editor em vermelho com letras a negro nas pastas e na lombada, e retrato de Faustino Cavaco na pasta posterior.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
Com interesse histórico e criminal.
35€
Reservado

09 abril, 2026

CUNHA, Annibal -
EM MINHA LEGITIMA DEFEZA.
Exposição apresentada ao Senado da Republica Portugueza por... Capitão-Pharmaceutico. Porto, Typographia Artes & Lettras, 1913. In-8.º (21x15 cm) de 27, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Importante contributo para a história da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, ocorrida no Porto. Trata-se da narrativa do autor, participante directo do movimento conspirativo, tendo tomado parte nos encontros e negociações de bastidores entre militares e iminentes figuras da República, e do que se seguiu - a fuga, e o exílio após o fracasso golpista, - e por fim o regresso à Pátria, onde, após o 5 de Outubro de 1910, reclama da sua situação militar. Inclui diversa documentação relacionada com o 31 de Janeiro, incluindo missiva abonatória em seu nome expedida por João Chagas do Limoeiro, em artigo de 1897, publicado no jornal Marselhesa, que o próprio dirigia a partir da cadeia, e outros testemunhos abonatórios de conhecidas personalidades do regime recém-instituído.
Opúsculo valioso, raro, sem referências bibliográficas, incluindo a BNP que não menciona a obra. Por certo com tiragem reduzida
"Sendo estudante, assentei praça, como voluntario, no mez de Janeiro de 1888, no Regimento de Infanteria 18, requerendo licença para estudos, que me foi concedida. Em 1890, á data do Ultimatum do governo inglez, tinha eu o posto de cabo. Tomei parte activa nas manifestações academicas de caracter politico que então se produziram, chegando a dirigir os meus companheiros do Lyceu do Porto sob o meu commando.
Terminando o anno lectivo, recolhi ao corpo e empreguei todo o tempo disponivel na propaganda republicana a dentro dos quarteis, distribuindo, secretamente, periodicos republicanos pelas casernas, organisando grupos e dando reuniões de cabos depois do toque de recolher.
Uma noite, estando de inspecção o capitão Sarsfield, reuni os meus camaradas e propuz-lhes a conveniencia de sahirmos  armados para a rua, afim e se proclamar a Republica. No meu enthusiasmo de rapaz, julguei que o momento era opportuno, visto que á Guarda Municipal não tinha sido ainda distribuida a espingarda Kropatschek, o que nos dava uma grande superioridade, apezar de estarem muito reduzidos os quadros dos regimentos da guarnição do Porto, pelo facto de haverem  sahido grandes contingentes d'estes corpos para o cordão sanitario. Quando este plano estava prestes a ser executado, alguem lembrou a conveniencia de préviamente nos entendermos com os elementos civis, pois poderia a nossa precipitação prejudicar quaesquer trabalhos revolucionarios que estivessem organisados. Por proposta minha, ficou desde logo nomeada uma commissão de cabos, que no dia immediato procuraria João Chagas, director da Republica Portugueza, para lhe offerecer a nossa cooperação Assim se fez, indo nós á redacção do jornal avistarmo-nos com João Chagas, que ficou surpreehendido com o que ouvia e deliberou enviar-nos no dia seguinte um delegado seu, que se entenderia connosco no Jardim da Cordoaria.
De facto, lá appareceu, á hora marcada, o Dr. Eduardo de Souza, que, em face da nosse attitude, e reconhecendo a gravidade da situação, nos aconselhou a fallarmos novamente com João Chagas, ficando eu incumbido d'essa missão.
João Chagas aconselhou-nos que esperassemos alguns dias até ao regresso ao Porto de Bazilio Telles e Santos Cardoso, para depois se dar inicio aos trabalhos revolucionarios entre militares. Pôz-me depois em relações directas com Alves da Veiga, Bazilio Telles e Santos Cardoso, que morava então na rua do Almada, onde João Chagas, para este effeito, lhe foi apresentado por José Pereira de Sampaio, que os reconciliou."
(Excerto da Narrativa)
Aníbal Augusto Cardoso Fernandes Leite da Cunha (1868-1931). "Cientista, pedagogo e militar. Filho de António Cardoso Leite da Cunha, militar, e de D. Quitéria Augusta Fernandes Cunha, naturais do Porto e moradores na rua do Almada, nasceu na freguesia da Vitória, Porto, a 8 de setembro de 1868. Foi batizado no dia 24 de outubro seguinte, tendo como padrinhos José Fernandes, seu avô materno, e Ana Rita da Costa Pinto.
No Porto fez o curso dos liceus e cedo se notabilizou pela sua intervenção cívica. Militar desde 1888 (assentou praça como voluntário no Regimento de Infantaria 18), participou na Revolta de 31 de Janeiro de 1891, facto que o conduziria ao exílio. Em Espanha, onde se exilou, foi um dos subscritores do Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891, editado em Madrid a 12 de abril desse ano. No Brasil, onde também esteve exilado, exerceu o magistério.
Regressou a Portugal após amnistia, a 6 de junho de 1893, e casou com Laura Vieira d’Andrade.
Em 1910 foi reintegrado no exército, mais tarde, em 1921, foi promovido a Major Farmacêutico e em 1930 colocado na situação de reserva.
Aníbal Cunha é considerado um dos principais obreiros da afirmação do ensino farmacêutico em Portugal, muito tendo contribuído para a converter a Escola de Farmácia na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, em 1921.
Integrou associações científicas e foi condecorado com a medalha de prata de classe de comportamento exemplar, medalha de bronze comemorativa da Revolta do 31 de Janeiro e medalha de ouro de comportamento exemplar. Foi, ainda, distinguido, com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e o título de Comendador da Ordem Militar de Avis.
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito raro.
Com interesse histórico.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
85€
Reservado

20 março, 2026

VICTÓRIA, Margarida -
AMORES DA CADELA "PURA".
Volume I. Confissões. [Volume II. Memórias da Marquesa de Jácome Corrêa]. Lisboa, Bertrand Editora : Chiado, 2004. 2 vols in-4.º (23x15 cm) de 291, [1] p. ; [8] p. il. (I) e 188, [20] p. il. (II) ; B.
1.ª edição.
Memórias da Marquesa de Jácome Corrêa, mulher irreverente, cosmopolita, à frente do seu tempo, viveu em São Miguel, Lisboa, Paris e no Cairo. Obra completa, em dois tomos. O primeiro volume teve edição em 1976, sendo o segundo inédito, editado apenas em 2004, postumamente.
Obra ilustrada com inúmeras fotografias distribuídas por 28 páginas extra-texto: 8 no 1.º volume; 20 no 2.º volume.
"Margarida Victória nasceu em Ponta Delgada em 1919, no seio de uma aristocrática e abastada família.
Estas confissões são um relato apaixonado e pungente de uma vida de encontros e desencontros.
Corajosamente verdadeiro, Amores de uma Cadela "Pura", é sem dúvida um grande documento humano."
(Retirado da badana anterior)
"Margarida Victória Borges de Sousa Jácome Correia nasceu em Ponta Delgada, em 31 de Março de 1919, no seio de uma aristocracia e abastada família açoriana. Com uma infância dominada pelos fortes traços do carácter do pai, o Marquês de Jácome Correia, e pela formação ultraconservadora da mãe, Margarida Victória cresceu quase entregue a si própria e viria a prender-se muito cedo a um casamento irremediavelmente condenado. A partir daí a vida de Margarida Victória foi um constante laboratório das mais ímpares experiências humanas, umas envoltas pelo véu de um romantismo exótico, fantástico e cosmopolita, outras eivadas de um entendimento terno e simples, onde o denominador comum residia sempre numa forte cumplicidade e numa natural adesão a espíritos cultos e sensíveis. Margarida Jácome Correia, Margarida Victória, Marquesa de Jacóme Correia ou, simplesmente, para muitos da sua Fajã natal, a marquesinha, soube resistir à força das convenções, dos espartilhos rígidos e das razões preconcebidas."
(Fonte: Wook)
"O livro de memórias de Margarida Victória tem o título forte e original de Amores de uma Cadela "Pura". A sua leitura suscita várias interrogações: é a confissão de uma vida? o auto-retrato de uma mulher infeliz? a autópsia de uma família? a denúncia de uma época e de um lugar, a sociedade fechada e hipócrita da ilha de São Miguel? É, de acto, isto tudo. E o segundo volume com o mesmo título, até agora inédito, vem completar o itinerário recordado desta mulher invulgar. Do que ela foi, do que quis ser ou do que a obrigaram a ser. Haverá diferenças ou aproximações entre a Cadela Pura (e os seus amores) e a Macaca de Fogo, última musa de Vitorino Nemésio, celebrada nos seus derradeiros poemas, envolvidos com as chamas de um amor tardio mas vulcânico?"
(Excerto de Retrato (incompleto) de Margarida Jácome)
Margarida Jácome Correia (Ponta Delgada, 1919 - Lisboa, 1996). "Detentora de grande beleza, de forte personalidade, e de considerável fortuna familiar, Margarida Vitória Borges de Sousa Jácome Correia, Marquesa de Jácome Correia ou, para o povo da Ilha de S. Miguel, A Marquesinha, era filha de Aires Jácome Correia, marquês de Jácome Correia, e de Dona Joana Chaves Cymbron Borges de Sousa. Cultivou relações com personalidades importantes do meio cultural português, designadamente os escritores Armando Côrtes-Rodrigues, com quem foi casada, Domingos Monteiro, Hernâni Cidade, Natália Correia e Vitorino Nemésio.
A sua vida afetiva, recheada de acidentes por vezes dramáticos, por vezes pitorescos, atingiu contornos escandalosos para os padrões portugueses e sobretudo insulares da época. Foi através de Côrtes-Rodrigues que Margarida Vitória conheceu Vitorino Nemésio, que por ela se apaixonou, vivendo os dois uma relação amorosa de enorme intensidade que durou até à morte de Nemésio e que este registou nos poemas que viria a reunir no livro Caderno de Caligraphia. Encontram-se ecos desta relação nas memórias de Margarida Vitória, o polémico Amores de Cadela «Pura»: confissões, cujo primeiro volume (1976) foi escrito com o apoio de Vitorino Nemésio – e sobretudo no segundo volume, concluído pouco antes da morte da autora e que só viria a ser publicado em 2004."
(Fonte: https://www.agendalx.pt/events/event/margarida-jacome-correia/)
Exemplares em brochura, bem conservados.
Esgotado.
35€

10 março, 2026

GUEDES, Fernando -
EU, EDITOR, ME CONFESSO.
Palestra proferida no Círculo Eça de Queirós na noite de 5 de Fevereiro de 1988 integrada no ciclo «Confissões». [S.l.], Verbo, 1988. In-8.º (20,5x13,5 cm) de 34, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Apontamento autobiográfico em forma de conferência pelo editor-livreiro Fernando Guedes, fundador da Editorial Verbo, coincidindo esta com a comemoração dos 30 anos da conhecida empresa.
"Desde a minha vinda para Económicas, e graças a um amigo comum, o Dr. Júlio Evangelista, eu travara relações com aquele que viria a ser meu sócio para o resto das nossas vidas, o Sebastião Alves, mas a nossa amizade começou quando voltei para Lisboa, já a trabalhar. [...]
Já por mais de uma vez pretendera envolver-me nos seus projectos e em alguns, mais ou menos episódicos e mais ou menos fracassados,  eu interviera, desde uma certa Importadora e Exportadora Cresus até uma loja de artesanato na Rua D. João V. Agora, em 1958, a proposta era outra e tão sedutora que, ao fim de resistir durante alguns meses, me entreguei completamente à ideia: iríamos fundar uma editora: ia nascer a Editorial Verbo."
(Excerto da Palestra)
Manuel Fernando Ayres da Silva Guedes (1929-2016). "Editor, poeta e crítico de arte, natural do Porto, frequentou a Universidade Técnica de Lisboa na área da Economia. Inicia a atividade profissional em 1951 numa empresa comercial inglesa, após estágio em Inglaterra. Foi sócio fundador da Editorial Verbo, em 1958, cuja direção integrou desde o início. Foi ainda presidente da direção do Grémio Nacional de Editores e Livreiros (1969), da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (1982-87), vogal da Corporação da Imprensa e Artes Gráficas, membro da Câmara Corporativa, da Comissão Internacional da União Internacional de Editores, com sede em Genebra, onde integrou, em 1981, a sua comissão executiva. Em 1988 foi eleito presidente do Groupe des Éditeurs de Livres de la CEE, em Bruxelas, vice-presidente da União Internacional de Editores, bem como vice-presidente do «Grupo Livro» do Comité de Consultores Culturais da CEE. Fundou, com David Mourão-Ferreira, Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, a folha de poesia «Távola Redonda» (1950), dirigiu a revista «Tempo Presente» (1959-62), codirigiu a secção belas artes da Enciclopédia Luso-brasileira de Cultura para a qual escreveu vários artigos. Como crítico de arte, domínio em que publicou vários livros, destacou-se pela crítica à pintura abstrata. Como poeta, Caule, Flor e Fruto (1962) foi galardoado com o Prémio Antero de Quental e Poesias Escolhidas: 1948-68, foi Prémio Nacional de Poesia no ano de 1968."
(Fonte: https://acpc.bnportugal.gov.pt/espolios_autores/e58_guedes_fernando.html)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
15€

05 março, 2026

REIS, Alves - 
O SEGRÊDO DA MINHA CONFISSÃO
. Lisboa, Edições Novo Mundo / Edições Europa, 1931-1932. 2 vols in-8.º (19x12,5 cm) de 314 [6] p. ; [15] p. il. (I) e 412 [4]. p. (II) ; B.

1.ª edição.
Autobiografia de Alves dos Reis, conhecido burlão português, escrita durante o período de cativeiro.
Obra em 2 volumes (completa), ilustrada com reprodução fac-símile de diversos documentos no primeiro livro em 15 páginas separadas do texto.
"Mais de um ano decorreu sôbre a confissão, que fiz ao Tribunal que me condenou, e ainda circulam diversas versões da atitude inesperada que tomei em Santa Clara.
Não quero ouvir o fervilhar dos boatos tendenciosos. Não discuto, portanto, as versões que correm, nem desejo provar a veracidade do segrêdo da minha confissão.
Escrevo a história psicológica das minhas crenças. Narro, o melhor que sei, o meu renascimento e a evolução da minha alma. E os bem intencionados julgarão a Verdade desta narração, que horas bem amargas de carcere não deixar estropiar pelo horror à mentira gerado à custa de muitas lágrimas, pelo culto à Verdade que só Deus sabe ensinar, entre soluços e dores, na religião do sofrimento."
(Excerto da Introdução)
Artur Virgílio Alves Reis (Lisboa, 1896-1955). "Foi um famoso burlão português que, em 1925, ficou associado ao crime de falsificação das notas de 500$00, Efígie Vasco da Gama, no denominado processo "Angola e Metrópole". Além disso, também foi o autor de inúmeras falsificações de documentos e assinaturas, comprou ações de forma ilegal e passou cheques sem cobertura."
(Fonte: https://www.bportugal.pt/arquivo/details?id=48694)
Exemplares brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos.
Invulgar.
25€

21 dezembro, 2025

PIMENTA, Belisário -
MEMÓRIAS DUM APRENDIZ DE GRAVADOR.
Notas para a História da Gravura em Madeira em Portugal (Edição do Autor). Coimbra, Edição do autor, 1961. In-8.º (21,5x15 cm) de 26, [2] p. ; [2] f. il. ; il. ; B.
1.ª edição.
Interessante contributo, autobiográfico, para a história da xilogravura nacional.
Tiragem limitada a 250 exemplares fora do mercado, rubricados pelo autor [chancela].
Livro ilustrado no texto com bonitos desenhos de capitulares e vinhetas tipográficas e, em separado, reproduzindo em duas folhas, respectivamente, a "Casa da Praça do Comércio, n.º 11" e o retrato de "Albino Caetano da Silva", tio do autor (c. 1880).
Muito valorizado pela dedicatória autógrafa de Belisário Pimenta a José Maria da Silva Raposo.
"Andava eu pelos onze anos e meio quando meu tio materno Albino Caetano da Silva, sempre atento ao meu desenvolvimento, me prepôs ensinar a gravar em madeira, dada a minha aplicação a certos trabalhos que ele fazia ainda uma vez por outra. Aceitei com vontade e comecei.
Era no vão da porta da varanda do 1.º andar, do lado norte, no prédio da Praça do Comércio, n.º 11 (ver grav. junta), onde nasci e onde então ainda vivia, que meu tio tinha uma mesa em que estava o estojo de buris e a almofada de camurça já bastante usada. Foi ali que eu comecei a fazer os primeiros traços sobre uma chapa de buxo coberta de alvaiade e que eu comecei a sentir as picadas dos buris nos dedos da mão esquerda quando, por inexperiência, me fugiam do seu destino. E assim por algumas lições."
(Excerto das Memórias)
Belisário Maria Bustorf da Silva Pinto Pimenta (Coimbra, 1879 - Lisboa, 1969). "Nasceu em Coimbra em 1879. Frequentou o colégio externato do Padre Simões dos Reis e depois transitou para o Liceu. Aos 14 anos começou a formar a sua biblioteca pessoal, que no final da sua vida ultrapassava mais de oito mil obras. Seguiu a carreira militar ingressando como cadete na escola Prática de Infantaria de Mafra. Em 1903 foi promovido a alferes e em 1910 passou a ser Comissário da Polícia em Coimbra. A sua vida militar decorreu ainda por Valença, Portalegre, Castelo Branco, Lagos, Porto, Penafiel, Abrantes e Leiria. Em 1913 publica o seu primeiro trabalho sobre Miranda do Corvo, tema que foi uma das suas predileções e cultivou até ao final da sua vida. Os seus escritos sobre o concelho encontram-se dispersos por jornais (Alma Nova, Diário de Coimbra) e monografias, podendo ser considerado como o autor que mais se debruçou sobre o concelho. Privou com figuras ilustres da cultura como sejam Eugénio de Castro, António Nobre, António José de Almeida, Vitorino Nemésio, António Nogueira Gonçalves ou Álvaro Viana de Lemos, entre muitos outros."
(Fonte: https://cm-mirandadocorvo.pt/pt/menu/347/belisario-pimenta.aspx)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capa manchada.
Muito invulgar.
Indisponível

29 novembro, 2025

CASTRO, Americo de -
ULTIMOS ANOS DA MONARQUIA (memorias)
. Porto, Deposito: Livraria Fernandes de J. Pereira da Silva, 1918. In-8.º (19x12 cm) de 172, [4] p. ; E.
1.ª edição.
Memórias do autor relativas aos anos que precederam a República, desde os tempos de estudante, até ao final da Monarquia e os anos que se seguiram.
Edição do autor, por certo com tiragem reduzida.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor na f. rosto.
"Os ultimos anos da monarquia foram de descredito para o país,  de veniaga e corrupção da parte chamada intelectual e de miseria para o povo.
Os partidos politicos iam buscar aos bancos das escolas os seus mais fortes sustentaculos.
Coimbra, de madre forte e alentada,arremessava para o mundo politico quasi todos os bachereis.
Uma carta de formatura garantia uma administração do concelho.
Quando um estudante recebia das aristocraticas mãos da sua noiva a adorada pasta bordada a matiz ou a ouro, já tinha na sua terreola aquela benesse que servia para os primeiros anos de aflição.
Não era raro ouvir nos geraes da Universidade empomadados quintanistas referirem-se á sua vida politica futura e á votação que tinham na sua terra.
Ali, de ordinario, o futuro bacharel ou pensava em politica baixa e reles ou nos casamentos ricos.
Uma carta de bacharel era uma carta de alforria. Foi na Universidade, dêsse alcouce de Minerva, onde as consciencias sofriam verdadeiros tratos de polé, que sairam todos os males que nos legou a monarquia e de que tem enfermado a propria Republica. Recebido o grau, a borla de lente tonava-se o apagador do senso comum.
Lá vinha por aí fora o bacharel apelintrado e faminto.
Rodeado de esfaimados como êle, subornava consciencias, dominando as gentes tristes das fabricas e dos campos.
Ele infligia o castigo aos seus inimigos e semeavam o dinheiro do Estado por aqueles que apenas sabiam que as eleições davam a maioria a êste ou áquele, ao progressista ou ao regenerador.
Ele era então o terror e o bom deus."
(Excerto de IV - Fim da Monarquia)
Indice:
Ao leitor | I - Vida Academica no Porto. II - Os estudantes republicanos de Coimbra. III - Organisação revolucionaria dos estudantes republicanos de Coimbra (a sua acção em 28 de Janeiro). IV - Fim da Monarquia. V - Sete anos depois. VI - Post scriptum.
Américo da Silva Castro (1889-?). Natural de Santo Tirso, formado em Direito pela Universidade de Coimbra em 1908, abriu banca de advogado no Porto. Fixou residência em Vila Nova de Famalicão desde Dezembro de 1943, exercendo o cargo de Conservador do Registo Civil, trabalhando em advocacia. No Porto, enquanto estudante liceal, fundou, com outros, a União Académica. Dele, já Bernardino Machado, num discurso no Porto, na inauguração do Montepio da Classe Comercial da mesma cidade, se refere nos seguintes termos: "esperançoso e simpático aluno da Faculdade de direito da nossa Universidade" (Bernardino Machado, Obras: Política - I, "A Reforma", p. 414). No Porto, foi vereador da Câmara Municipal, Conservador do Registo Civil no 2.º Bairro, Administrador do Concelho em Matosinhos, Presidente do Tribunal dos Árbitros Avindores, Presidente da Comissão Administrativa dos Bens da Igreja, Director do Instituto Industrial do Porto, Conservador do Registo Civil em Espinho, entre outros cargos. Foi deputado em 1921 pelo círculo de Santo Tirso e, em 1922, pelo Porto nas listas do Partido Democrático. Em 1907 escreveu no jornal "O Porvir" várias crónicas intituladas "Palavras Vermelhas".
Encadernação de amador com rótulo na lombada. Sem capas de brochura. Aparado à cabeça.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
45€
Reservado

26 agosto, 2025

COELHO
, Trindade - IN ILLO TEMPORE. Estudantes, lentes e futricas. Desenhos de Antonio Augusto Gonçalves. Paris-Lisboa, Livraria Aillaud & Cia, 1902. In-8.º (19x12 cm) de [2], 422, [8] p. ; mto il. ; E.

Segunda edição - publicada no mesmo ano da primeira - de um clássico da literatura memorialista do meio estudantil coimbrão. Trata-se de uma das mais apreciadas e emblemáticas obras que se escreveram sobre o assunto, belissimamente ilustrada no texto com desenhos de Mestre António Augusto Gonçalves e fotografias coligidas em Coimbra por António Luís Teixeira Machado e Adriano Marques.
"In illo tempore - no tempo em que eu andava em Coimbra, andava lá tambem a estudar Direito um rapaz chamado Passaro. Elle não se chamava Passaro. Passaro, pozemos-lhe nós, porque além de ser alegre como um pintassilgo, e vivo como um ardal, - usava o cabello não sei de que modo, que parecia que lhe punha duas azas atraz das orelhas, e que a cabeça lhe ia a voar!
Elle não se zangava que lhe chamassem Passaro, e até gostava: - e como alcunha que se ponha em Coimbra, péga como se fôsse visgo, - desde o Camões que era lá em Coimbra o Trinca-fortes, até ao fallecido Alves da Fonseca, chamado o Chato José do Cão, por andar sempre com um cão atraz d'elle e ter um nariz muito chato, ou ao outro a quem por ter só metade do bigode passaram a chamar Gode, e ainda a outro o Sete Fallinhas, que por se desfazer em fifias quando fallava, - ninguem lhe chamava d'outra maneira: - «Ó Passaro, isto!» - «Ó Passaro, aquillo!».
A pontos que o rapaz addicionou a alcunha ao appellido..."
(Excerto de A festa das latas)
Indice:
A festa das latas. | Resurrexit non est hic. | O Saraiva das forças. | Lopes ou Bettencourt? | Poetas balneares. | O Orpheon Academico. | Balthazar, o lethargico! | D, Felicidade. | A Niveleida. | O Lusitano e o Anda a Roda. | A campanha do Ze Pereira. | A sebenta. | Na aula do Chaves. | O «Velho». | As fogueiras do S. João. | A Casaqueida. | Um homem não é de pau. | A récita dos quintannistas. | Alho! Alho! Alho! | A Cabra! | O Bólson das contas lisas. | «Á tabúa!». | «Viu bem?». | Os voluntarios... da Economia!... | O grande Damazio. | «Miserere nobis!». | Leão, rei dos animaes. | Sanches, o comilão.
José Francisco Trindade Coelho (1861-1908). "Escritor. Natural de Mogadouro, a sua obra reflete a infância passada em Trás-os-Montes, num ambiente tradicionalista que ele fielmente retrata, embora sem intuitos moralizantes. O seu estilo natural, a simplicidade e candura de alguns dos seus personagens, fazem de Trindade Coelho um dos mestres do conto rústico português. Fiel a um ideário republicano, dedicou-se a uma intensa atividade pedagógica, na senda de João de Deus, tentando elucidar democraticamente o cidadão português. Era um homem inconformado. Nem a fama de magistrado, nem o prestígio de escritor, nem a felicidade conjugal conseguiam fazer de Trindade Coelho um cidadão feliz. À medida em que avançava no tempo mais se desgostava com a vida, pelo que o desespero o levou ao suicídio em 1908. Deixou uma obra variada e profunda, distribuída por quatro vertentes. Jornalismo, carácter jurídico, intervenção cívica e literária. Algumas obras: «Manual Político do Cidadão Português», o «ABC do Povo», o «Livro de Leitura». A série «Folhetos para o Povo», onde se incluem, entre outros: Parábola dos Sete Vimes, Rimas à Nossa Terra, Remédio contra a Usura, Loas à Cidade de Bragança, e Cartilha do Povo, A Minha candidatura por Mogadouro. Como obras literárias deixou: «Os Meus Amores» (1891) e já inúmeras reedições de «In Illo Tempore» (livro de memórias de Coimbra-1902)."
(Fonte: Wook)
Bela encadernação meia de pele com cantos, nervuras e ferros gravados a ouro na lombada. Carminado à cabeça. Conserva as capas originais.
Exemplar em bom estado de conservação.
Invulgar.
15€

07 julho, 2025

CONTENTE, Firmino Camolas -
8.ª COMPANHIA DE CAÇADORES ESPECIAIS NO NORTE DE ANGOLA DE 22 DE MARÇO DE 1961 A 24 DE DEZEMBRO DE 1962.
Apontamentos para a sua história. [Por]... Soldado 495/60 de 1.º Pelotão da 8.ª C.C.E [RI 11 Setúbal]. In-8.º (21x15 cm) de 71, [1] p. ; mto il. ; B.
1.ª edição.
História do desempenho e acções militares da 8.ª C.C.E. do Regimento Infantaria 11 de Setúbal em Angola, no início do conflito ultramarino, sendo uma das primeiras unidades a chegar à ex-província como resposta do governo da metrópole à insurreição protagonizada pelos operacionais da UPA.
Livro ilustrado no texto com inúmeras fotografias do autor e seus camaradas de armas que ilustram a passagem do Regimento por Angola.
Tiragem limitada a 500 exemplares.
"Estas linhas despretenciosas são apontamentos que relembram acções militares vividas pela 8.ª C.C.E. do Regimento Infantaria 11 de Setúbal e que eu comandava. Estes apontamentos destinam-se a realçar e lembrar as qualidades de adaptação, de zelo e de sacrifícios de toda a natureza, desprezo pela vida, lealdade e muito patriotismo demonstrados sobejamente nas 127 acções militares que a 8.ª C.C.E. teve, desde que chegou a Angola em 22 de Março de 1961.
A todos os componentes dessa Companhia, aos bravos rapazes de Setúbal, são dedicadas estas breves recordações.
A esses bravos rapazes de Setúbal, ante a forma como cada um sabia como proceder, o que lhes fortalecia o moral que sempre mantinham, e a vontade férrea de levar a bom termo as missões que lhe eram confiadas, permitindo confirmar as suas grandes qualidades, dificilmente superáveis dado o seu espírito de sacrifício e iniciativa, bom humor, adaptação rápida a esta forma de combate que nos foi imposta, e sobretudo uma grande lealdade."
(Excerto do Prefácio de Mário Jaime Calderom Cerqueira Rocha, comandante da unidade)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Etiqueta (2) na lombada; carimbo de biblioteca nas duas primeiras páginas.
Muito invulgar.
Com interesse histórico.
Indisponível

23 abril, 2025

RIBEIRO, Fernando Curado -
DIÁRIO DUMA VOZ...
Inconfidências, Críticas, Programas, Entrevistas. Porto, Editora - Livraria Progredior, 1947. In-8.º (19x13 cm) de 263, [1] p. ; [6] f. il. ; B.
1.ª edição.
Livro de memórias de Curado Ribeiro, conhecido actor português e homem da rádio, cuja voz inconfundível acompanhou milhares de portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Ilustrado com 6 folhas separadas do texto.
Exemplar muito valorizado pela sua dedicatória autógrafa a António Miguel.
"Este livro não tem intenções literárias. Escrito a correr, respigado aqui e acolá, deste ou daquele apontamento, deste ou daquele papel esquecido, é um conjunto de ideias nascidas dos passos de um trabalho feito ao microfone ou por ele sugeridas.
Escrevi-o aos tombos, na mesa da locução ou sobre os tampos dos planos, à pressa, arrastado pela paixão da Rádio, na exiguidade de tempo de um homem que é simultâneamente locutor, cantor, produtor radiofónico, actor e jornalista."
(Excerto do Prefácio)
Fernando Teixeira Curado Ribeiro (Lisboa, 1919-1995). "Estudante de engenharia, dotado de boa figura e voz romântica, começou a cantar nos serões académicos do Instituto Industrial e acabou por trocar a engenharia pelas canções: em 1938 ingressa na Emissora Nacional, como cançonetista do conjunto Excêntricos do Ritmo. Em 1940 passa a locutor. Ainda cantou durante uns anos, mas a Emissora Nacional achou que quem cantava não poderia ler notícias sérias – e a vontade de fazer rádio foi preponderante. E foi a bela voz na rádio que despertou a atenção de Milú quando soube que Arthur Duarte procurava um galã para o filme “O Costa do Castelo”. Falou-lhe nele – e Curado Ribeiro acabou contratado ‘dez minutos depois de entrar no gabinete do realizador’, segundo o próprio actor confessou em entrevista, quarenta anos volvidos. Sem abandonar a rádio, Curado Ribeiro vai fazer uma série de filmes de seguida. Entretanto estreia-se no teatro – a cantar – na revista “Festa Rija”, em Novembro de 1944, no T. Avenida."
(Fonte: https://cinemaportuguesmemoriale.pt/Pessoas/id/3014/t/fernando-curado-ribeiro)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenos defeitos, e pequena mancha no pé que se prolonga pelas primeiras páginas do livro.
Muito invulgar.
Com interesse histórico e radiofónico.
25€

16 fevereiro, 2025

TORRES, Francisco Pinheiro -
"ADEUS, SENHOR DOUTOR" (coisas de Coimbra).
2.ª Edição. Coimbra, Coimbra Editora, L.da (Antiga Livraria França & Arménio), 1923. In-8.º (18 cm) de 49, [1] p. ; B.
Interessante visão poética da Coimbra estudantil, originalmente publicada em 1898. Esta reedição, organizada por Alberto Pinheiro Torres, irmão do autor - estudante de medicina - é uma homenagem à sua memória, patente no comovente preâmbulo - Duas palavras - que precede o poemeto.
"Á familia do malogrado auctor do «adeus, Senhor Doutor», foi solicitada auctorisação para a sua reimpressão.
A principio hesitamos porque o poemeto nem revella, nem define a personalidade de meu irmão Francisco, dotade de invulgares qualidades de talento, sobejamente demonstradas n'uma vida infelizmente curta, mas fecunda, de trabalho intteligente e honrado. [...]
Francisco Pinheiro Torres que depois da formatura até à sua morte, que ainda hoje choramos, se consagrou quasi exclusivamente ao seu lar, aos seus doentes, de quem era médico e amigo, e aos pobres, numa obra superior de bondade e de beleza moral, viveu exaustivamente, como poucos, a vida pitoresca, poética, alegre e suave dessa incomparável Coimbra, para onde não raro se volvem nossos cansados e saüdosos olhos. [...]
Buliçoso, saltitante, em perpétua vibração, era um fósforo a arder, como de nosso Pai dizia Camillo.
Eu, que fui seu companheiro, durante alguns anos, na inolvidável casa da rua da Trindade, a que tão ternamente se refere, sei como é sincero, bem do coração e como se resume todo o poemeto o sentidíssimo verso
Tenho a alma pegada a tudo isto!! [...]
Dêsse amor a Coimbra brotaram estes versos, repassados de emoção e de saüdade. Dessa romagem de alguns anos pela Lusa Atenas, como então se dizia, ficou êste poético roteiro, que é ainda actual, apesar de volvido um quarto de século, como o revela a amável e penhorante insistência para esta segunda edição.
Nestas páginas, estuantes de seiva e mocidade a cantar, revive, deliciosa, a amável tradição de Coimbra."
(Excerto de Duas palavras)

"Partir, partir e nunca mais voltar!
Partir, dizer adeus e nem pr'a traz olhar!
Não vão meus olhos ficarem por ahi.
Antes ficassem. Que n'esta terra eu vi
correr sorrindo a minha Mocidade,
de Santa Clara ao Penedo da Saudade.
Coimbra, toda cheiinha d'estudantes,
que á guitarra choram seus descantes.
Toda cheia de tricanas pelo Rio
Onde as lagrimas d'Ignez correm em fio."

(Excerto do poemeto)

Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
25€

15 novembro, 2024

FRANCO, Chagas - AS SACRIFICADAS (memorias duma madrinha de guerra). Lisboa, Livraria Editôra Guimarães & C.ª, [1918?]. In-8.º (18 cm) de 255, [1] p. ; E.
1.ª edição.
Relato pungente, verídico, da saga de uma moça portuguesa - Suzana - que vai ao encontro do namorado, um oficial português do C.E.P., de licença em Paris, seguindo depois com ele para a Flandres, onde fica instalada a 20 kms do front. A história acaba mal. Dois meses depois, Fernando de Ataíde - o noivo da rapariga - encontra-se preso ao leito num hospital de Mervillle, ferido de morte nos combates que antecederam a batalha do Lys; por se recusar a abandonar a cabeceira do rapaz e bater em retirada com os demais, Susana foi importunada e seviciada por soldados alemães, sendo mais tarde resgatada pelas forças inglesas.
A Segunda Parte é integralmente dedicada à correspondência de Fernando para Susana- não censurada - aqui reproduzida.
"Uma noite, no pequenino hospital de Dohen, entre os dois habituais bombardeamentos de Saint-OMer, contaram-me esta impressionante historia.
Tempos depois, em Paris, conheci a admiravel mulher que coligia as «Memorias» que vão ler-se: ela era tão santa na sua resignação como tinha sido nobre no seu sacrificio.
Nada, ou quasi nada, tive de alterar nas suas notas tão documentadas pela dôr, tão vividas, tão humanas, tão flagrantes: elas tinham sido a esperança, a anciedade, o frémito, a agonia de cada minuto do seu coração; elas exprimem a vida daqueles tragicos tempos - elas são a verdade
Possa a comoção dos meus leitores engrandecer a minha homenagem - a homenagem do meu respeito alargado do luto dessa mulher sublime ao de todas aquelas que «sofrêram para a redenção do mundo», de todas que, como ela, fôram sacrificadas."
(Preâmbulo)
"Meu tio, já no estribo, abraçára-me, beijára-me quasi rudemente, com uma lagrima na face:
- Adeus! Juizo e boa fortuna...
Era noite já; e, debruçada á portinhola, subito comovida, eu via-o ainda á luz dos arcos voltaicos, com as suas malas e o seu casacão de viagem, muito amplo, côr de mel, ao longo dessa gare de Bordeus, onde êle tivera de deixar-me.
Ficava assim completamente entre estranjeiros; e o meu sonho parecia-me agora mais temerario e mais vão e a minha coragem mais frouxa, quási fatigada já - e todo o nobre impulso do meu coração, correndo após o amor, uma quimera apenas distinta num mundo de quimeras. [...]
Eu ia só, aos vinte anos, nesse país que o meu espirito havia tanto amava, em demanda do meu amor saudoso - mas ele estava áquela hora bem longe sem me poder valer no fundo ignorado de uma trincheira escura, e nos sucessos daquela noite claramente eu via a dissolução desse país em guerra, os ultrajes que me esperavam."
(Excerto da Primeira Parte - Cap. I)
"Hoje de manhã, quando desci á primeira linha, num intervalo breve da trovoada, sob o sol de fogo, o Patachão aproximou-se de mim, tristemente:
- Deixe-me saltar o parapeito, deixe-me ir busca-lo...
Logo o Evaristo, o cabo de olhos negros, habitualmente tão silencioso e tão grave, me explicou o caso estranho: durante a noite, um dos da patrulha, o José da Roleta, patricio do Patachão, tinha lá ficado sem dizer ai, crivado pelos estilhaços. E a sessenta metros apenas, no meio dos arames contorcidos, emaranhados pela metralha, negros das chuvas e dos gazes, eu via o cadaver com os baços abertos, a face caída na lama, todo inteiriçado, enorme, singular no seu abandono.
- Deixe-me ir buscá-lo...
Neguei. Afastei-me contrariado. [...]
- Os ratos vão comê-lo. Deixe-me ir buscá-lo.
E eu fui ao telefone pedir para o batalhão a licença necessaria. Mas o major declinou a responsabilidade, telefonou para a brigada. Por fim, resmungadamente, veio o indeferimento que eu esperava.
Então, num desespero que eu não pude conter, que ninguem podia conter, o Patachão saltou no parapeito, só e sem armas, prescrutando, um momento com os grandes olhos meridionais, vagamente loucos, a trincheira inimiga. Depois começou a correr pela Terra de Ninguem, através dos charcos e das crateras, desesperadamente, abrindo as enormes pernas em passadas tão vivas, tão loucas, como se, aproveitando o assombro de todos nós, fôsse a desertar.
Alguns tiros isolados vindos do parapeito contrario não conseguiram detê-lo; estava já no meio dos arames, junto do cadaver.
Depois, um momento, todos vimos a face do morto soerguer-se na lama, os seus braços agitarem-se, logo cairem como duas hastes rigidas, pesadamente, em cruz. [...]
Mas era evidente que um homem só nada poderia contra aquela imobilidade marmorea, tão querida e tão pesada.
Então o Evaristo correu a ajudá-lo, sem uma palavra, no seu grave silencio - e eu quasi lhe gritei um «bravo!» ao vê-lo correr assim.
Todos os meus homens estavam agora de pé no parapeito, palidos, ansiosos, esquecendo o perigo, esquecendo as armas! E lá em baixo, defronte de nós, na trincheira alemã, outros soldados erguiam-se, porventura palidos tambem, esquecendo tambem a guerra, abandonadas tambem as armas. Depois, quando o morto foi transportado enfim, livida a face, as pernas já tumefactas, bamboleantes, escorrendo lôdo dos charcos fétidos, os soldados alemães e os nossos simultaneamente fizeram a mesma continencia nobilissima nessa funerea tregua inesperada, triste confraternização da morte."
(Excerto da Segunda Parte - IV)
Sezinando Raimundo das Chagas Franco (1878-1944). Militar, escritor, político e professor português. Major de Infantaria, integrou as forças do C.E.P. em França, onde combateu. Foi professor de História no Colégio Militar e "leitor" de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Rennes, França (1921).
Encadernação em meia de pele com ferros a negro e a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Raro.
Com interesse histórico.
Indisponível