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24 janeiro, 2026

MACEDO, Diogo de - O CHRISTÃO NOVO.
Romance historico do seculo XVI. Porto Imprensa Portuguesa, 1876. In-8.º (18x12 cm) de 179, [5] p. ; B.
1.ª edição.
Romance histórico ao gosto da época, baseado em factos verídicos da história de Portugal.
"Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de 1553, no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava casual ou intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de rendas de Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.
Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de cincoenta annos de idade. Em volta do pescoço alvejava-lhe uma das amplas gorgueiras encanudadas que, na frase picaresca de um novellista espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto de um melão collocado em cima de um prato de porcelana branca. Pronunciava-se-lhe bem um nariz em demasia grosso, era baixo de corporatura como qualquer burguez e parecia reforçado dos musculos como um legitimo descendente de Hercules. [...]
Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de um poderosa mulher  e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e esbeltos personagens do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta conversação com essa mulher em quem todos «descobriam raras e heroicas virtudes, grande zelo e piedade christan, grande brandura e affabilidade em obras e palavras para com grandes e pequenos.»
- Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da vossa nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das minhas esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de Arzilla ou das heroicas muralhas de Dio...
- Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco serve o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em vosso auxilio."
(Excerto de I - Ciumes de um rei)
Diogo de Macedo (1844-1938). Natural do Peso da Régua. Escritor e jornalista, área em que atingiu alguma projecção no segundo quartel do século XIX à frente de diversos jornais. Publicou dois romances: O christão novo (1876) e A rainha das aguas (1882).
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos e pequenos cortes marginais.
Raro.
Indisponível

26 setembro, 2025

COSTA, Vieira da -
ENTRE MONTANHAS (Scenas da vida do Douro). Por...
 Romances Nacionaes - III. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1903. In-8.º (19x12 cm) de 493, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Romance naturalista de costumes durienses cuja acção decorre, sobretudo, no Praso das Mattas, vasta quinta vinhateira situada no Douro transmontano.
"Nos principios d'este ultima decada do seculo, que vae correndo, era motivo geral de curiosidade nas Caldas do Mollêdo, já entre os banhistas adventicios, já entre os indigenas interessados, a presença alli, em determinados dias, d'um rapaz para muitos desconhecido, e que de ordinario se apresentava com uma regularidade severa de funccionario escrupuloso. Viam-n'o sempre chegar a horas certas, pelo começo da tarde, ás vezes a cavallo, ás vezes no comboio, inteiramente vestido de luto aliviado, muito cuidado no seu vestuario e profundamente comedido nos seus modos. Tão comedido mesmo, que ninguem lograva atinas com a causa das suas visitas, para muitos inteiramente mysteriosas.
Era um elegante typo de rapaz, alto e delgado, de curtis mate, olhos castanhos e um fino bigode louro-escuro sobre a bocca séria, sensual e carnuda. Não tomava banhos, não visitava ninguem, não parára jamais em frente de qualquer janella: e como tambem não assistia a nenhum divertimento, - a nenhum baile ou soirée, a nenhuma reunião ou merenda, a nenhuma burricada ou regata - nem mesmo se podia dizer que o desejo de distracções o trouxesse á terra.
A verdade, porém, é que se muitas eram as pessoas que ignoravam quem elle fôsse, algumas havia, comtudo, que o conheciam a fundo, com grande precisão de pormenores illucidativos. E d'essas, o commendador Amaral Leitão era o mais instruido, e foi o que logrou desvendar o mysterio.
O tal rapaz, que elle conhecia tão bem como os seus dêdos - aquelles dêdos grossos, cabelludos, com um rico annel de brilhantes no fura-bollos da mão direita - chamava-se Affonso Duarte da Cruz Silveira, era vaccinado, tinha vinte e cinco annos de edade e 1,74 centimetros d'altura, rigorosamente medidos no estalão administrativo quando fôra á inspecção para soldado, de que, aliás, um numero alto o livrára. Pelo que respeitava a bens de fortuna, ou meios de a adquirir, possuia uma casa de moradia nas ribas do Douro, uma legua para oeste, em sitio ermo, com uma terreola annexa onde cultivava com aproveitamento couves gallegas e aboboras meninas, cebollinho e outras plantas hortenses e dois milheiros de cêpas muito cuidadas, que davam o melhor de doze pipas de vinho, bom anno, mau anno, ; tinha ademais uma commisão para compra de vinhos da respeitavel firma ingleza - Coley and Smith - Oporto - que negociava na especialidade; e como esperanças de futura prosperidade, possuia lá para as bandas de Murça um tio materno, septuagenario, doente e sem mais herdeiros. Sobre o luto, que elle trazia, não se sabia nada."
(Excerto do Cap. I)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas (1903) A Irmã Celeste (1904) e A Familia Maldonado (1908). Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou-o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."
(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação simples em tela com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Com imperfeições nas pastas.
Raro.
Indisponível

25 maio, 2024

GOMES, Joaquim Maximo Virginiano - A BIBLIA DA NATUREZA, OU A RELIGIÃO CATHOLICA, DEMONSTRADA PELA NATUREZA E RAZÃO, por..., e traduzida do inglez por seu sobrinho José João Gomes Junior, Proprietario, do Pezo da Regoa. Porto, Typographia do Portugal, 1856. In-8.º (18,5x12 cm) de 176, [4] p. ; E.
1.ª edição.
Obra curiosa, algo extremista, visão religiosa de um crente português radicado em Londres.
No capítulo intitulado Philosophismo, totalmente dedicado à vinda do Anti-Cristo, o autor disserta sobre a explicação para o fenómeno, incluindo o esquema alfanumérico que conjuga o número da Besta - o 666.
Raro e muito interessante.
"Meu benevolo leitor, o gosto particular que fiz desta Obra não foi a vaidade, nem a ostentação de querer figurar na republica litteraria, foi sómente excitado na grande utilidade que pode resultar do estudo  desta - Biblia da Natureza - pela sua instrucção christan, de tal modo demonstrado pela natureza e razão, que todos podem conhecer a brilhante eloquencia do seu immortal auctor. Esta excellente obra foi impressa em Dublin na lingua ingleza; e como o auctor era portuguez mandou para Portugal alguns exemplares d'ella, e conhecendo eu a rara sabedoria do seu auctor, por ser meu tio, excitou-me o desejo de a querer ler; mas como não sabia o inglez, lancei mão de um diccionario, que foi o meu unico mestre, e emprehendi a ardua tarefa da sua traducção. Vendo eu, pois, a excellencia desta immortal obra, que, apezar de reszmida no volume, é grande no valor, assentei que um rico thesouro destes não devia ser desconhecido aos portuguezes, que ignoram a lingua ingleza, por não apparecer até agora na lingua portugueza um compendio da Biblia da Natureza, que se possa comparar com este, ou que seja bastante para supprir a sua falta; persuadi-me então que devia aproveitar uma tam boa occasião de mostrar o meu affecto patriotico, consagrando alguma parte da minha applicação, e trabalho ao aproveitamento da nação portugueza."
(Excerto de Advertencia do traductor)
"Pela besta do Apocalipse entendem os mysticos o reinado da Idolatria, e do anti-christo.
Eis-aqui, o que vemos hoje á risca. Anti-christo é quem nega Christo; mas principalmente certo impio que afinal apparecerá á testa do mundo idolatra, e se declarará contra Christo. Nós o que já vemos, são seitas, e apostazias; por tanto falta vir incorporar-se a esta sinagoga o seu impio chefe. Diz "que adorarão a besta os que habitam a terra, aquelles cujos nomes não estão escriptos no livro da vida." D'aqui se vê que a idolatria será geral; mas que Satanaz não terá poder de enganar os eleitos de Deus; mas só os reprobos. A estes fará a besta que sejam marcados na mão, ou nas testas, e só comprem, ou vendam os que tem a marca da besta. [...]
Pela marca da besta se podem entender os signaes dos filhos da luz, e sua matricula; assim como a cruz, e o baptismo são os signaes d'um christão. Muitos acharão o numero da besta 666 no nome grego Maometis; e o mesmo numero acharão na palavra = apostata.
Eis-aqui um nome geral que serve a todo o membro da seita anti-christan, e a todo o abjurador da fé. Veja-se a obra intitulada = Percursores do Anti-christo.
(Excerto Philosophismo - Glossa 5)
Index das materias que contem esta obra:
Atheismo | Deismo | Philozophismo | Chistianismo | Catholicismo | Breve Nota | Conclusão.
Joaquim Máximo Virginiano Gomes. Natural de Vila Franca, Régua. Agente da Casa Ferreira em Londres, cidade onde cedo se radicou. Foi amigo e homem de confiança de António Bernardo Ferreira I, que nele delegou a tarefa de divulgar e vender o vinho da Porto, num projecto pioneiro de internacionalização da marca "Ferreira". Sem o sucesso desejado, nem por isso António Bernardo Ferreira deixou de encarregar Virginiano Gomes da orientação do seu filho único, António Bernardo Ferreira II - primo e futuro marido de D. Antónia, a "Ferreirinha" - nos seus estudos na capital inglesa. Mandou imprimir em Dublin «A Biblia da Natureza...» (escrita em inglês), obra posteriormente traduzida e publicada no Porto em 1856 (com 2.ª edição em 1864) por seu sobrinho José João Gomes Júnior. Publicou ainda - também no Porto - o título O burro philosopho ou theatro das humanas chimeras (1856).
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação.
Raro.
Indisponível

19 agosto, 2023

LEMOS, Maximiano -
CAMILO E OS MÉDICOS.
Com novos elementos para a biografia do grande escritor. Porto, Companhia Portuguesa Editora, 1920. In-8.º (18x12,5 cm) de [4], 655, [1] p. ; il. ; E.
1.ª edição.
Importante subsídio camiliano. Obra de fôlego. Trata-se de um conjunto alargado de apontamentos biográficos dos médicos que, de uma forma ou outra, se cruzaram com Camilo, e que com ele privaram ou se corresponderam.
"Nesta obra, o autor mostra-nos o contacto de Camilo Castelo Branco com o mundo da doença, dos remédios, da medicina, dos médicos; Desde logo quando em jovem tenta, ele próprio, cursar medicina, acabando por desistir. O Camilo e os Médicos é uma singular biografia de Camilo. Nela se reflectem os passos do escritor, desde os primeiros, é modo de dizer, até ao último, que foi o remate do longo suicídio. Na vida de Médicos e curandeiros que o trataram, ou com quem tratou."
Ilustrado com reprodução de inúmeros retratos dos facultativos.
"Desde muito novo que senti a maior admiração pelo glorioso romancista Camilo Castelo Branco. Não se me apegou o contágio que na minha mocidade grassou de procurar abatê-lo do pedestal a que o tinham erguido as suas duzentas obras que hão-de ser lidas emquanto a lingua portuguêsa tiver um logar no mundo.
Comoveram-me profundamente as suas desventuras. Chegando a uma altura da vida em que sinto avizinhar-se a passos largos a decadência final, quiz reler ainda a obra que tanto me tinha impressionado nos primeiros anos e fui notando o nome dos médicos que alguma vez estiveram em contacto com êle, os farmaceuticos que lhe mereceram uma referência mais ou menos precisa, e até alguns charlatães que encontrou na sua atormentada carreira. Uns eram cheios de prestígio e notoriedade; outros nunca despertaram um movimento de curiosidade sequer. Muito poucos vivem; para colher alguma noticia de alguns foram necessarias pesquisas longas e demoradas. Convem notar que que não existe uma edição completa das obras do grande escritor e que muitos dos seus primeiros trabalhos ainda andam dispersos em periodicos que ninguem lê e que nem todos são faceis de encontrar."
(Excerto do preâmbulo)
Maximiano Lemos (1860-1923). "Nasceu em Peso da Régua em 1860. Ainda mal tinha acabado de completar 16 anos, inscreveu-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, tendo concluído o Curso de Medicina a Cirurgia em 1881. Depois de uma curta passagem pelo exercito, em 1889 inicia uma carreira académica que, passando por outras maneiras, o levou por fim à História da Medicina, área em que se notabilizou. Homem dado às Letras, viciado na leitura dos nossos escritores, relacionou-os com a Medicina."
(Fonte: Wook)
Encadernação simples em meia de percalina com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva as capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Pastas apresentam cantos algo desgastados.
Muito invulgar.
Com indubitável interesse camiliano.
35€

13 fevereiro, 2023

AMORIM, Guedes de - MORFINA : novela
. Lisboa, João Romano Torres & C.ª - Editores, [1932]. In-8.º (19 cm) de 197, [1] p. ; B
1.ª edição.
Romance naturalista de costumes sobre o bas-fond lisboeta referente ao 1.º período literário do autor. Retrata a Lisboa viciosa e boémia dos loucos anos 20, das boites e dos cabarets...
"Uma enorme população de noctívagos, formando ruidosa feira cosmopolita, inundava o salão do luxuoso cabaret, ocupando todas as mêsas. Vivia-se, com música, champagne e gargalhadas, mais uma noite de festa dos sentidos. E, pela numerosa frequencia, os mais acostumados ao ambiente, podiam afirmar, cronometricamente, que eram três horas da manhã.
- Provoca-me tonturas viver aqui esta hora alucinante...
Fausto olhos o amigo, sorridente, com um vago ar de descrença, e respondeu-lhe:
- Adoras demasiado a mentira, para que eu possa acreditar-te...
Pedro Antonio, que se sentia agitado por uma tempestade de nervos, retorquiu:
- Falo verdade. Esta hora, vermelha, com os projectores rubros borrifando de sangue toda a sala, asfixia-me de um modo insuportavel.
- Mas tu, Pedro Antonio, adoras o vermelho, o vermelho em fogo, nos teus quadros.
- Mas, nos meus quadros, eu domino essa côr, enquanto que aqui, esta luz domina-nos a tôdos.
Calaram-se. A orquestra, obedecendo á ansia as pernas que queriam redopiar, começou a tocar um tango, romantico, sentimental, venenoso.
Peitilhos lustrosos e decotes mordidos por colares de perolas falsas, unidos, colados, principiaram a ondular sobre o estrado, num ritmo voluptuoso, como se estivessem afogados num sonho de amor oriental.
Sobre os pares que obedeciam fanaticamente áquela musica que convidava a confidencias, caíam agora tiras de luz ainda mais rubra, mais febril, envolvendo os corpos em chamas, dando a sugestão de que os bailarinos dançavam dentro de uma grande e estranha fogueira."
(Excerto do Cap. I)
António Guedes de Amorim (Peso da Régua, 1901 - Lisboa, 1979). Foi um jornalista e escritor autodidacta. Tem crónicas e artigos dispersos pela imprensa - jornais e revistas. Escreveu contos, novelas e romances. A sua obra de ficção está dominada por histórias dramáticas e sobre conflitos sociais, que se desenrolam em ambientes mórbidos e sombrios. Numa primeira fase está próximo do naturalismo; a partir de 1939 envereda pela corrente do Neo-Realismo aproximando-se do Marxismo e, por fim, converte-se a um cristianismo dedicado a S. Francisco de Assis, "que certamente tornou mais conhecida a obra franciscana em Portugal e no mundo."
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
20€

01 fevereiro, 2020

AMORIM, Guedes de - A MULHER DO PRÓXIMO : novela. Lisboa, João Romano Torres, [1933]. In-8.º (19 cm) de 287, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Capa de Roberto Araújo.
Curioso romance de Guedes de Amorim, o terceiro da sua produção literária. A acção desenrola-se junto ao Douro, entre o Porto e a Régua.
"- Até amanhã, meu caro Bernardo.
Rodolfo de Alderete Tavira e Nápoles, conde de Jogueiros, depois das palavras de adeus, ficou com a mão estendida, dedos muito unidos, semelhando uma raspadeira de marfim, diante do amigo.
Bernardo Sernancelhe levantou-se do fauteuil onde estivera passando revista o exército de notícias do Times, e, depois de atirar um rápido olhar ao relógio, interrogou:
- Vais já para casa?
- Vou.
- Tão cedo? Ainda não chegámos á hora trágica: a meia noite...
- O club está hoje pior do que uma divorciada feia e honesta...
Bernardo Sernancelhe mostrou sobre o bigode, cortado já por alguns fios brancos, um sorriso irónico:
- Espera-te uma mulher...
- Não. Não me espera ninguem. Isto aqui, está monotono demais. Safo-me, antes de ficar mais sério e severo do que os moveis que nos rodeiam
- Bem. Acompanho-te.
O conde de Jogueiros achava melhor iludir o amigo com a verdade da monotonia que os cercava. Como os comerciantes, tambem êle considerava o segrêdo a alma dos negócios de amôr... [...]
O Club Portuense, o palacio da alta roda, a casa de família do mundo elegante nortenho, arrastava nas suas salas desertas a saüdade algida das noite de concerto e baile.
Á saída, o titular confessou:
- Já não se pode passar um inverno no Porto.
- Exageras, Rodolfo. Estamos ainda em Outubro.
- Oh! mas não há com quem se possa conversar.
- Sempre se estará aqui melhor que no teu solar do Douro.
- Hum! Duvido..."
(Excerto do Cap. I)
António Guedes de Amorim (1901-1979). “Escritor e jornalista português nascido em 1901, no Peso da Régua, e falecido em 1979. Como jornalista, consagrou-se no Porto, tendo iniciado a sua atividade em jornais académicos. Juntamente com a reportagem,cultivou a ficção e o género histórico. Publicou contos, novelas, biografias e romances, de que se destacam Aldeia das Águas (1939, vencedor do Prémio Ricardo Malheiros), Jesus Passou por Aqui (1963, vencedor do Prémio Cervantes) e Francisco de Assis Renovador da Humanidade (1960)."
(Fonte: infopédia)

Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Ligeiramente aparado à cabeça. Capas frágeis com defeitos marginais. Folha que precede o anterrosto apresenta falha de papel no quarto superior.
Raro.
15€

20 janeiro, 2019

COSTA, Vieira da - A IRMÃ CELESTE (pathologia religiosa). Lisboa, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1904. In-8.º (18,5cm) de 498, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Interessante romance realista/naturalista de forte pendor anticlerical.
"Foi por um bello dia de março, no momento preciso em que na torre da igreja matriz soavam as dose badaladas do meio dia, que as Irmãs de Caridade, ha tanto tempo esperadas, chegaram á vasta portaria do hospital, amontoadas dentro d'um velho landau fechado e poeirento, puxado por trez magros cavallos esqueleticos, d'ossaduras salientes.
Áquella hora não eram esperadas, e por isso não havia ninguem que as recebesse. O provedor estava ausente, o medico não chegara ainda; e só havia presente o velho pharmaceutico hospitalar, Norberto Taveira, sentado á janella da botica, no rez do chão da casa, a ler o Seculo."
(Excerto do Cap. I)
"Chamava-se, no seculo, Valentina de Castro Aboim de Noronha, a linda irmã Celeste, e tinha vinte annos. O pae, Manuel de Souza Aboim de Noronha, morgado de Valle de Cedros, e a mãe D. Maria Vasques de Castro, lá deviam residir ainda no velho solar da Beira, definhando dia a dia n'uma trizteza morna e inconsolavel, desde que a partida da filha os deixara n'uma solidão desolada como um abandono.
Quinta na ordem de nascimento, Valentina tornara-se filha unica por morte de seus quatro irmãos, fallecidos creanças. Ella mesmo não dera, a principio, esperanças de viabilidade, tão franzina, tão delicada era a sua compleição. O sangue dos paes, derrancado e empobrecido por successivos casamentos consanguineos, não transmittira aos filhos senão uma seiva dessorada e debil, - e d'ahi aquelle sersinho fraco e doentio, que a morte parecia a cada ameaçar com sua fouce impiedosa."
(Excerto do Cap.II)
"A installação da vespera, toda provisoria, só n'esse dia teve o seu caracter definitivo, - e desde então tudo entrou nas praxes determinadas, que o regulamento prescrevia.
Mas quasi logo começou mais uma vez a desenhar-se para Valentina o espectro sarcastico da desillusão, que tantas vezes a fustigara já com o rijo tagante do desgosto: as Irmãs, as santas Irmãs de Caridade, que ella sempre imaginara uns entes piedosos a desentranharem-se em dedicações sublimes pelos enfermos, surgiam agora, sem os atavios da consagração, o que real e verdadeiramente eram, uns simples typos mercenarios, cumprindo uma obrigação, que lhes era imposta."
(Excerto do Cap. III)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas, A Irmã Celeste e A Familia Maldonado. Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."

(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação. Sem f. anterrosto.
Muito raro.
Indisponível