PINTO, Fortunato Correia - O MILAGRE. (Scenas da Beira). Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira : Livraria Editora, 1909. In-8.º (18,5 cm) de [8], 158, [2] p. ; C.
1.ª edição.
Romance rural realista de cunho profundamente anticlerical. Obra dedicada pelo autor a Miguel Bombarda, conhecido médico alienista, professor e político republicano, que em 6 páginas faz o elogio das suas qualidades morais e humanas, vituperando a classe política e a influência jesuítica.
"- Não, lá que um homem poupe aquillo que tem, não andando para ahi, a estraga-lo em coisas inuteis, é justo; mas que leve a sua sovinice a não dar uma de X para uma solemnidade religiosa, isso é que não tem justificação possivel! - dizia o José da Loja, dando palmadas rijas sobre o balcão, contrariando os argumentos apresentados por um dos frequentadores do estabelecimento para justificar o «brazileiro», como é de uso chamar aos nossos compatriotas que vão ao Brazil, o unico dos habitantes da aldeia que não quisera concorrer para a festa do Coração de Jesus, que d'ali a dias devia realizar-se.
O sr. José por certo não ligou sentido ás palavras que empregou - volveu o seu oppositor, que era um rapaz novo e d'aspecto delicado, mas agradavel - porque chamar sovina a quem, como o brazileiro, ahi gasta dinheiro a rodo, ha de concordar que é um contrasenso.
- Sim, eu quando disse sovina queria dizer... queria dizer... gaguejava o José da Loja, sem que lhe accudisse o termo salvador.
- Póde dizer que é sovina para coisas de religião - disse outro dos presentes, vindo em seu auxilio.
- É claro, é claro - confirmou o respeitavel commerciante empertigando-se e apresentando em toda a sua magestade o seu notabilissimo abdomen, ao mesmo tempo que ia sacudindo as moscas que n'um enxame numeroso teimavam em lhe não largar as grandes e polpudas orelhas e o tumido e oleoso pescoço, que a suja camisa, desabotoada, deixava completamente á vontade."
(Excerto do Cap. I)
Fortunato Correia Pinto (18??-19??). "Professor primário, republicano, conhece-se apenas uma obra de ficção, hoje ignorada quer enquanto texto literário quer enquanto documento: O Agitador."
(Fonte: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8814.pdf)
Encadernação cartonada do editor. O desenho da capa é de P. Guedes, sendo Dumas o gravador.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Capas apresentam manchas e pequenos defeitos.
Raro.
Sem registo na BNP.
Indisponível
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20 agosto, 2019
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17 abril, 2017
PINTO, Fortunato Correia - O AGITADOR (romance). Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, 1906. In-8.º (20cm) de 392, [4] p. ; B.
1.ª edição.
1.ª edição.
Romance histórico sobre o Ultimatum e de tudo o que se lhe seguiu.
“De Fortunato Correia Pinto (18??-19??), professor primário, republicano, conhece-se apenas uma obra de ficção, hoje ignorada quer enquanto texto literário quer enquanto documento: O Agitador. […]
O título certeiro coloca O Agitador do lado dos republicanos de acção revolucionária surgidos em 1890 e que se opunham ao directório do partido, maioritariamente legalista. Segundo a apresentação “A Quem Ler”, O Agitador foi escrito em 1900 e estava pronto a imprimir-se desde então, mas embaraços vários só permitem editá-lo em 1906. O texto de apresentação visa estabelecer o romance como fiel aos acontecimentos reais vividos pelo autor ou de que teve conhecimento. […]
Neste romance, a ausência duma transfiguração do real pelo universo imaginário próprio da literatura faz com que O Agitador pareça em boa parte um panfleto político ficcional.
A acção do romance começa no dia em que o país tem conhecimento do ultimato e da sua aceitação pelo governo, 12 de Janeiro de 1890.”
(fonte: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8814.pdf)
"Era ao anoitecer do dia 12 de janeiro de 1890.
O sol acabava de sumir-se na linha sinuosa da costa e um ambiente pesado, humido e frio succedia á poeira luminosa que a pouco e pouco fora desapparecendo na direcção do oceano, deixando a cidade immersa em desalegre penumbra e varrida pela brisa algida e cortante.
O Tejo, inquieto, ruidoso e monotonamente melancholico, mas sempre impressionavel, parecia cantar, n'uma melopêa triste, a historia d'esta ridente cidade, desta filha dilecta que já mias d'uma vez vira abatida, flagellada, reduzida á ultima extremidade, e que, graças a elle, resurgia do proprio abatimento e cada vez mais se engrandecia, enfeitava e aformoseava, tornando-se soberba e garrida, forte e importante, bella e inimitavel. [...]
Começavam a accender-se os candieiros, e sob aquella luz amarellenta e mediocremente diffusa, a multidão, sombria e revolta, formigava pelas ruas e pejava as praças.
Fallava-se alto, gesticulava-se colericamente, dizia-se sem rebuço o que se sentia, sem medo da policia, sem receio de compromettimentos.
A Inglaterra era coberta d'insultos, a realeza e os governantes eram atacados rancorosamente, empregando-se contra elles os epithetos mais ultrajantes."
(excerto do Cap. I, A colera popular)
Exemplar brochado em bom estado de conservação. Capas frágeis com pequenas falhas no corte superior.
Raro.
Com interesse histórico.
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