02 março, 2026

LOUREIRO, Augusto -
A BRUXA. Scenas Açorianas.
Com um prefacio de Armando da Silva. Lisboa, Antiga Casa Bertrand - José Bastos, 1901. In-8.º (19,5x13,5 cm) de [2], 208, [4] p. ; [1] f. il. ; B.
1.ª edição.
Romance curiosíssimo, cuja acção decorre na Candelária, pitoresca povoação localizada no interior da ilha de S. Miguel, Açores. Inicialmente, em 1876, foi incluído num livro de contos com o título O Cego. Mais tarde, em 1882, substancialmente aumentado, foi publicado em folhetins no Diário de Notícias. Finalmente, em 1901, foi dada aos prelos esta versão, corrigida e aumentada, que não deixa de ser uma primeira edição, tantas são as alterações, na forma e no conteúdo, entre cada uma das versões.
Obra ilustrada com o retrato do autor em folha separada do texto.
"A Bruxa é o romance da vida das nossas aldeias açorianas, que o auctor estudou conscienciosamente: Os seus typos, a sua linguagem, os seus costumes são lidimos açorianos. Porventura algum dos seus personagens - permitta-me o meu caro Loureiro a indiscripção, - viveu em carne e osso antes de ser transportado para o livro. O regedor foi professor de latim do auctor, o cura seu companheiro de caçadas; a doida e o cego existiram tambem.
Além d'isso, o theatro onde o drama se desenvolve é bem nosso conhecido. É uma pequena povoação interior da ilha de S. Miguel, a Candellaria, com pouco mais de um milhar de habitantes. Os montes que se elevam do lado direito, com a sua encosta coberta de Calluna e Sphagnos, vão terminar nas cumieiras das Sete Cidades, essa pérola de purissimo Oriente encravada n'um annel de elevadas paredes volcanicas, cuja rudesa amacia a vegetação luxuriante dos Chryptomerias.
Fóra dos typos, fóra da paizagem, temos ainda na Bruxa uma descripção de varios dos nossos costumes. A ethnologia michaclense está egualmente estudada com amoroso cuidado. As festas do Espirito Santo, transformação de velhos cultos polytheiistas, com o symbolo phallico da pomba, desapparecidos de todo no continente desde o fim do segundo quartel do seculo passado, mas mantendo-se ainda vivas, nas ilhas, no Brazil e na India portugueza os usos nupciaes locaes, restos mais caracteristicos da phase social primitiva, que como todos os usos que se referem á familia, se conservam pela lei da persistencia, resistindo tenazmente contra todos os obstaculos assimilações, lá estão fielmente descriptos, pela habil mão do escriptor que é Augusto Loureiro, no seu romance açoriano.
Tudo isso: typos, paizagens, costumes, entrelaça-se n'uma historia idyllica de amor. Não ha, não póde haver romance sem amor, porque o amor é que dirige o mundo e é o mobil da maior parte das acções humanas.
Effectivamente a Bruxa é um lindo romance, de um entrecho docemente commovedor, de linguagem agradavel, e cuja leitura se pode recommendar com affoutesa."
(Fonte: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1902/N832/N832_master/N832.pdf) 
"Na aldeia havia um ancião, cuja idade, nem elle proprio sabia contar. Inquerido a este respeito, respondia:
- O que sei dizer é que quando entraram aqui os da Terceira, eu não fui obrigado a pegar em armas e a marchar para a acção da Ladeira da Velha, porque havia muito que eu passára da idade.
De tão severa moral e firmeza de caracter, como de bondoso coração, este homem era por todos estimado: iam consultal-o, não sómente em assumptos agricolas, mas em negocios e pendencias domesticas. Tratavamn'o sempre por tio Lourenço, nome pelo qual era geralmente conhecido.
O tio Lourenço estava invalido para todo o trabalho: alquebrara-lhe as forças, tolhera-lhe os membros, o maior inimigo dos velhos - o rheumatismo gottoso, molestia que muito tempo o havia prendido em casa, quasi sempre estatelado sobre o leito. Em quanto forças teve para lutar com tão implacavel inimigo, mesmo já adoentado, labutava sempre. Enviuvára cedo; e do matrimonio houvera uma unica filha a quem dedicava todos os affectos do seu coração."
(Excerto do Cap. II)
Augusto César de Sampaio Loureiro (1839?-1906). "N. Ponta Delgada, 2.1.1839 ? m. ibid., 4.9.1906]. Poeta e contista. Como poeta, deixou algumas líricas que o têm colocado entre os seus pares açorianos da última geração romântica. Como contista, foi o primeiro, nos Açores, a retratar ambientes e personagens predominantemente rústicos (cf. Silveira, 1977: 139). Tem prosa e poesia dispersas por jornais dos Açores e de Lisboa, onde viveu algum tempo.
Em Ponta Delgada e em Lisboa, dirigiu, redigiu ou foi proprietário dos jornais Gazetilha semanal (1864-?), Jornal de notícias (1871-1875), Revista universal: jornal dedicado aos interesses das ilhas adjacentes e provincias ultramarinas (1877), O figaro: diario portuguez e brazileiro (1881-1884), Os Açores (1904), e O Heraldo.
Era funcionário da Alfândega.
Obras. (1866), Chegada do Exmo. actor Francisco Alves da Silva Taborda. Ponta Delgada, s.e. [poesia]. (1866), Adeus a Taborda. Ponta Delgada, s.e. [poesia]. (1868), Justiça de Deus. Ponta Delgada, Typ. do Ecco Social [drama]. (1868), Hymno da banda marcial denominada Lealdade de Vila Franca do Campo [ms.], Ponta Delgada, s.e.. (1869), À Beira-Mar: contos, phantasias e digressões. Lisboa, Luso Britannica [contos]. (1872), Almanaque para todos para 1973. Ponta Delgada, Imprensa Commercial. (1873), Almanaque para todos para 1974. Ponta Delgada, Imprensa Commercial. (1874), Almanaque para todos para 1975. Ponta Delgada, Imprensa Commercial. (1875), Á Mme. Marie Pavoni Moretti dans as fête: au theatro michaelense. S.l., s.e.. (1876), Serões de Inverno. Ponta Delgada, Ed. do Autor [contos]. (1895), Hymno dedicado ao exmo. snr. João Lourenço da Silva [ms.]. Rabo de Peixe, s.e.. (1897), Biografia do Dr. Caetano de Andrade, A Actualidade, Ponta Delgada, n.º 66, 4 de Abril. (1897), Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro: memória da sua visita à ilha de S. Miguel em Julho de 1901, Ibidem, 20 de Julho [Ponta Delgada, Typ. A Vapor de Ferreira]. (1897), Perfil de Francisco Peixoto da Silveira, Ibid., 24 de Outubro. (1898), Perfil de Maurício Bensaúde (Moisés Bensaúde), Ibid., 6 de Março. (1901), A Bruxa, scenas açorianas. Lisboa, José Bastos. (1901), Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro: memória da sua visita à ilha de S. Miguel em Julho de 1901. Ponta Delgada, Typo-Lyt. A vapor de Ferreira & Cª. Typ. A Vapor de Ferreira.
Traduziu: (1872), Pagem ou flor de Maio de Ponson du Terrail. Ponta Delgada, Imp. Commercial e (1890), Bianca Cappello de Thomaz Anquetill. Lisboa, Typ. Portugueza."
(Fonte: https://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/Default.aspx?id=8251)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos. Assinatura de posse data na capa frontal.
Raro.
45€

Sem comentários:

Enviar um comentário