MONTEIRO, José de Sousa - OS AMORES DE JULIA. Scenas da antiga Roma. 2.ª edição. Lisboa, Livraria Classica Editora de A. M. Teixeira & C.ta, 1909. In-8.º (19x12 cm) de 286, [2] p. ; E.
Romance histórico cuja acção decorre no tempo de Jesus Cristo. História escrita com estilo irrepreensível e rico vocabulário. De acordo com Maria o'Neill, amiga e discípula do autor, trata-se, incontestavelmente, da sua melhor obra: "Se, em vez de ter nascido em Portugal, tivesse visto a luz em França ou Inglaterra, esta obra ter-lhe-ia dado fama universal, porque excede em muito o Quo Vadis".
"Pode, talvez, ser ainda para todos fórma acceita e viva de arte o romance historico mediante tres precisas condições:
Acção breve, condensada e rapida;
Caracteres escrupulosamente estudados na historia ou nos costumes, e intensamente expressos;
Scenas, cujos minimos accessorios, de extricta exacção archeologica, quanto possivel, quanto possivel se enlacem, se entreteçam, se fundam, na narrativa, - em traço ou côr.
Desvelei-me, com longo amor, paciente e caricioso, por que os espiritos attentos, finda a lição das paginas que seguem, digam, em sua consciencia illuminada: Pode."
(Preâmbulo)
"Era o quarto dia das kalendas de março do anno decimo quarto depois de Christo. Nas casas petricias as clepsydras gotejavam a hora nona.
O azul engasta-se sem macula no horisonte amplissimo: apenas, muito longe, no occidente, alguns cumulos se amontoam, como ovelhas aconchegadas no redil. [...]
Uma prescripção de Augusto veda a vehiculos, estranhos ao culto, o transito de Roma antes da hora decima: aconselhou-a a tortuosa estreiteza das ruas da cidade. Alta noute, emquanto atroam becos e viellas rufiões armados, prostitutas ebrias, voltas sanguentas, obscenas serenatas, as vias principaes enxameiam de carreiros, pragejando ao estralejar dos lategos, plaustros, pesados de novidades hortenses, petorritas atapulhadas guincham, sacudindo, nas asperezas do piso, as rodas barulhentas coo os cymbalos de Pan.
Por isso ás portas de maior frequencia, - á Collina onde se fundem as Vias Salaria e Nomentana, á Esquillina crusada das Vias Tiburtina e Prenestina, á Capena, serventia natural da Via Latina e da Via Appia - reune-se da nona á decima hora um sem-numero de cisios, rhedas, carpentos colossaes, carrucas tauxiadas. [...]
No couce da fila, á orla humida do bosque, pára um cisio, de aluguer jungido a dois velhos mús. Logo atraz uma rheda com varios fardos entre taipaes de madeira tosca. As mulas pendem tristemente as cabeças; da aridez do chão não lhes sorri febra de erva. Arquejam e agitam, fustigando-se, as caudas poeirentas. Varejeiras esvoaçam assustadas ou sevam-se famintas nas mataduras do couro, despellado, do latego.
No cisio sentam-se a par um homem corpulento, e uma rapariga de delgada pequenez. Collocaram-se, a principio, á cabeça da extensa renque. Depois, sem causa conhecida, desceram a occupar o logar extremo. Seduzira-os talvez o bosque, sagrado á inspiradora de Numa, a cujas sombra refoge a passarada chilreando em festa."
(Excerto de I - Ad veteres arcus madidamque Capenam)
José de Sousa Monteiro (1846-1909). "Nasceu na Praia (Cabo Verde) a 20 de agosto de 1846 e faleceu em Lisboa a 12 de outubro de 1909. Em Lisboa obteve o Curso Superior de Letras e o de Diplomacia. Foi diplomata, jornalista, escritor, deputado (1879-1882) e diretor-geral do Ministério das Finanças.
Pertenceu ao Instituto de Coimbra, foi comendador de Carlos III de Espanha e comendador de Leopoldo da Bélgica e recebeu ainda a Grã-Cruz da Ordem de Santiago.
Na Academia das Ciências de Lisboa foi eleito sócio correspondente da Classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras a 5 de junho de 1884 e efetivo a 25 de junho de 1891. Desempenhou nesta Academia os cargos de Vice-Secretário (1896), Secretário-Geral (?-1909) e Presidente da Classe de Letras (1909)."
Na Academia das Ciências de Lisboa foi eleito sócio correspondente da Classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras a 5 de junho de 1884 e efetivo a 25 de junho de 1891. Desempenhou nesta Academia os cargos de Vice-Secretário (1896), Secretário-Geral (?-1909) e Presidente da Classe de Letras (1909)."
(Fonte: https://arquivo.acad-ciencias.pt/authorities/20134)
Encadernação recente meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
15€
Reservado


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