COELHO, Trindade - TRINDADE COELHO : cartas, com um prefacio e notas de Paulo Osorio. Porto, Editadas por Paulo Osorio, 1908. In-8.º (19x12 cm) de 48 p. ; B.
1.ª edição.
Publicação da correspondência de Trindade Coelho para Paulo Osório, forma de este, prefaciador e editor, homenagear o autor de Os Meus Amores e In Illo Tempore, recém-falecido. Importante subsídio - "precioso documento psycologico" - para melhor compreensão do homem e da sua obra, editado pouco tempo após o regicídio.
"Em 1897, esse pobre Trindade Coelho, cuja face pallida eu vi ha pouco na serenidade muda do seu esquife de suicida, pontificava num pequeno grupo de praticantes em letras, ao qual eu, então em começo, pertencia. Seduzira a essa meia duzia de estreiantes, de aptidões mais ou menos definidas , a arte tão nova, tão difficil quanto apparentemente singela, enternecida, dôce, luminosa, que enche as paginas translucidas dos seus contos. Os Meus Amôres eram os amôres de nós todos, eram a nossa biblia; e, porque o Trindade, que sempre foi doido por creanças, nos aturava magnanimo, pelas paginas risonhas das nossa revistas, pelas dedicatorias dos nossos contos ou dos nossos livros, o seu nome andava sempre, illuminado e florido, como o de um padroeiro. [...]
Pobre Trindade! A dictadura, que tanto parecia opprimir o teu espirito e revoltar o teu raciocinio, foi derribada, espesinhada, apunhalada, vencida. E quando a causa que fôra a tua se erguia thriumphante, e a voz do paiz esturgia nas abobadas de S. Bento como tu perceituavas, e o imperio da lei augusta e poderosa se promettia, como era de tua ambição instante e apaixonada, e quando as cadeias da opressão se quebravam a tiros de carabina e o sol da felicidade parecia subir, embora laivado de sangue, a illuminar de novo a terra portuguêsa, tu, o combatente, o martyr, o propheta, o apostolo, só encontráste no teu destino uma solução - morrer! E d'essa dictadura e do homem que a representava tu tinhas, pouco antes do suicidio, esta impressão amarga e dolorosa que te trouxera ao espirito atormentado toda a contemplação amargurada da tua vida desfeita:
- Tenho na minha alma uma grande gratidão pelo João Franco. E gostava que elle o soubesse. Porque, quando alguem um dia lhe propôs que me demittisse, dizem-me que elle respondeu: não demitto esse homem porque tem uma mulher e um filho. E esses, agora, não se lembram sequer de que essa mulher e esse filho existem!"
(Excerto do Prefacio)
Paulo Mendes Osório (1882-1965).
"Activo partidário de João Franco, dedicou-se sobretudo ao jornalismo.
Em 1911, na sequência da queda da Monarquia, fixou-se em Paris, onde se
tornou colaborador de O Século e correspondente do Diário de Notícias, tendo dirigido a secção parisiense deste último. Da sua obra, podem salientar-se dois volumes de crónicas, Lisboa (1908) e No Fado (1911), para além do conto História dum Morto (1914), e Le Portugal et la Guerre
(1918), livro editado em França com tradução de Philéas Lebesque.
Dedica também vários estudos a Camilo Castelo Branco, de que se destaca
uma biografia do escritor, Camilo. A Sua Vida, o Seu Génio, de 1908."
(Fonte: https://modernismo.pt/index.php/p/706-paulo-mendes-osorio)
(Fonte: https://modernismo.pt/index.php/p/706-paulo-mendes-osorio)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos. Rubrica de posse na f. rosto.
Raro.
20€

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