18 junho, 2026

FIDALGO, Domingos Lopes -
IMPRESSÕES DE UMA VISITA ÁS CADÊAS DO ALJUBE E RELAÇÃO DO PORTO. (Hygiene). Dissertação inaugural apresentada á Escola Medico-Cirurgica do Porto e defendida sob a presidencia do Ex.mo Snr. Dr. Agostinho Antonio do Souto. Porto, Papelaria e Typogragia Morgado, 1899. In-8.º (21x14 cm) de 76, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Importante trabalho académico sobre dois dos principais estabelecimentos prisionais portuenses na época - a Cadeia do Aljube e a Cadeia da Relação do Porto, famosa por em tempos ter "abrigado", entre outros, Camilo Castelo Branco e o bandoleiro Zé do Telhado -, e as deploráveis condições de salubridade e tratamento desumano observado em ambas.
Obra polémica, afrontosa dos poderes instalados, foi recebida com desconfiança e incómodo pelas autoridades.
Exemplar valorizado pela dedicatória autógrafa do autor a seu colega Albino Soares Martins.
"Á luz de uma analyse superficial e preconceituosa poderá parecer, que inutil, senão prejudicial, será quebrar lanças pela população das cadêas, que só serve para manter a sociedade em constante risco, invadindo os direitos individuaes ou attentando de qualquer forma contra os interesses e liberdade dos outros. Depressa, porém, conheceremos a injustiça, se attendermos a que as prisões são habitadas por accusados e condemnados; que áquelles póde innocental-os amanhã uma investigação criminal mais conscienciosa, e a alguns d'estes poderia ter absolvido uma sociedade menos eivada de preconceitos, pois muitas vezes o pseudo-crime é uma revolta legitima de sentimentos ou direitos offendidos. Uma grande parte dos miseraveis habitantes das prisões para alli foram arremessados, porque a propria sociedade - honrada, porque farta - lhes creou ou sustentou um conjuncto de circumstancias incompatíveis com o caminho do dever. Mas o que é o dever? [...]
No nosso systema prisional o delinquente tem ensejo, senão de se iniciar em todos os segredos do crime, pelo menos de requintar e radicar os seus habitos ou instinctos maleficos. As prisões (exceptuada a penitenciaria central de Lisboa) são uma optima eschola, onde constantemente se ouve a apologia tão seductora do vicio, patheticamente descripto pelos reincidentes e já callejados. O noviço, a principio por medo de ser mal tractado ou vergonha de ser escarnecido e mais tarde com prazer, ouve e acquiesce a estas doutrinações. Pode ter entrado na cadêa innocente, mas tem de sair criminoso! Se n'uma sala encontramos, na mais perniciosa das misturas, assassinos, ladrões, salteadores, incendiários, devassos, etc., e n'outra mulheres honestas e prostitutas, creanças e velhas, principiantes e reincidentes!...
Que bella eschola de encyclopedicos! [...]
Resumidamente, que mais não posso, procurarei esfumar os horripilantes quadros do Aljube, e das Cadêas da Relação do Porto. Em seguida esforçar-me-hei por levantar estatisticas da mortalidade geral e pela tuberculose nas citadas cadêas, e comparal-as-hei com as congeneres da população livre do Porto e do Paiz. Por ultimo apresentarei algumas observações clinicas, que farão a contra-prova."
(Excerto de Introducção)
Domingos Lopes Fidalgo (1873-1948). "Em 1910 proclamou, em Ovar a quem tudo deu, da varanda dos Paços do Concelho, o novo regime e hasteou a bandeira republicana. Na dissertação final de curso, o jovem vareiro, republicano e democrata, de espírito irrequieto, que morreu como nasceu, pobre, mas honrado, dedicou o seu trabalho final à memória de sua mãe. Completou o curso de medicina em 1899, com a classificação final de suficiente, muito especialmente porque a sua tese, duma audácia implicativa para a época, desagradou ao júri, a todo o corpo docente e a certas autoridades, como nos diz Zagalo dos Santos. Voltou a Ovar para fazer clínica e logo mostrou ser um carácter íntegro, despreocupado com os interesses materiais e dedicado aos seus doentes. Serviu a grei, foi um precursor da verdadeira arte de fazer o bem pelo bem. De uma austeridade simples, irradiante, formativa de homens de carácter, diz-nos o Dr. António Luiz Gomes, filho, ilustre conferencista.
Ao longo da sua vida foi:
Presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ovar. Secretário do embaixador António Luís Gomes, no Rio de Janeiro. Serviu, ainda com o que viria a ser presidente eleito da República Portuguesa, Bernardino Machado. Governador civil do distrito de Aveiro, de Leiria e de Lisboa. Director clínico do hospital da Misericórdia de Ovar. Capitão médico miliciano, como voluntário, onde em França combateu os alemães, durante a primeira guerra. Chefe dos serviços de saúde na Campanha do Vouga. Primeiro director da Escola Primária Superior. Ilustre e dinâmico provedor da Misericórdia de Ovar. Director do semanário local «A Pátria»."
(Fonte: https://www.ovarnews.pt/o-largo-de-sao-joao-de-ovar-e-o-dr-domingos-lopes-fidalgo-paulo-bonifacio/)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação.
Raro.
50€

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