31 outubro, 2026

FERREIRA, Armando - O MEU CRIME.
Novela. Lisboa, Portvgalia : Editora, 1925. In-8.º (21x13,5 cm) de 124, [4] p. ; B.
1.ª edição.
Curioso romance "sério", em oposição à habitual linha literária do autor, que ficou conhecido sobretudo pela sua veia humorística.
"Da altura a que cheguei vê-se a vida toda. Tenho 60 anos.
Olho para traz: longo caminho percorrido. Olho para a frente: curto trajecto ensombrado de nuvens... os remorsos... a consciencia. Sou o meu  unico juiz. Estou em face de mim proprio, serenamente, desafiando, um a um, os longos passos da minha vida até ao momento em que me vejo agrilhoado, acorrentado a um crime hediondo, infernalmente maquinado e que afinal só eu conheço.
O unico juiz mas, talvez, o mais implacavel!
Tenho a cima de mim, neste ermo onde me recolhi, o azul sempre bondoso do ceu; alongo a vista, sem termo, por vinhedos prodigos; não ouço senão suaves rumores, canticos de paz e amor. O ar, o silencio, a felicidade cristã deste recolhimento, revestem-se duma purpura rigida e solene como a toga de um magistrado austero.
Estou só com Deus. Estou só com a minha consciencia.
Matei um homem. É tão vulgar matar um homem, matar milhares até. Mas, onde a justioça encontra um caso que arruma e classifica nas taras, nas paixões, nos odios, nos instintos, não ha lugar para o meu crime, diabolica concepção do meu espirito, praticado não num minuto de irreflexão, de demencia, praticado não por um visionario ou um louco, mas, levado até á execução segundo um plano lento, imperceptivel, engenhada feitiçaria que levou mezes a ter o seu ponto final na bala que o prostrou. [...]
Deixai contar a minha horrenda historia em toda a sua verdade. E só a verdade aparecerá no bico da minha pena, porque não tenho que me defender de ninguem. Escrevo porque quero. Sou eu proprio que me acusa. Perante mim não tenho que esconder a verdade! Mas posso com ela praticar ainda algum bem: a minha punição em primeiro lugar; em seguida, atenuar qualquer mau nome, má recordação que deixasse a minha vitima naqueles que o conheceram e assistiram ao epilogo fatal da sua vida.
Será como um ramo de violetas singelas que irei depôr sobre o seu tumulo e que os outros ao verem, sempre viçosas, tristemente renovadas, dirão:
- «Afinal tinha alguem que lhe queria muito»...
Esse alguem sou eu, que o matei... Seu Pae!"
(Excerto do Preâmbulo)
Armando da Silva Ferreira (Lisboa, 1893 - 1968). "Foi um engenheiro, jornalista e escritor português. Nasceu na cidade de Lisboa, em 25 de Novembro de 1893. Em 1918, completou a sua formatura em engenharia.
Em 1918, foi nomeado como engenheiro do Ministério da Agricultura, e no ano seguinte foi convidado a ocupar o cargo de secretário da Anglo-Portuguese Telephone Company.
Iniciou a sua carreira como jornalista em 1918, no periódico A Capital, onde foi pouco depois promovido a chefe de redacção. Colaborou igualmente noutras publicações, incluindo o Comércio do Porto, ABC, Ilustração Portuguesa, Jornal da Europa Zé, O Século Ilustrado, Gazeta dos Caminhos de Ferro, e o semanário O Domingo Ilustrado (1925-1927). Também foi um teatrólogo destacado, tendo escrito crítica teatral no Diário Popular, Notícias Ilustrado e no Jornal do Comércio.
Deixou uma vasta obra literária, tendo escrito sobre vários temas, destacando-se principalmente como humorista. Uma das suas principais obras foi a série Lisboa sem Camisa, baseada no livro Lisboa em Camisa, de Gervásio Lobato. Fundou a Sociedade de Autores e Compositores Portugueses, e quando faleceu, era administrador da companhia Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro.
Morreu na tarde de 3 de Dezembro de 1968."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar em brochura, por abrir, bem conservado.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
35€

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