ALBERGARIA, Sá d' - A IRMÃ DOROTHÊA : romance. Volume I [II; III]. Porto, Livraria Chardron, 1902. 3 vols in-8.º (18x12 cm) de [16], 382, [2] p. ; [1] f. il. (I) / [4], 388, [4] p. (II) / 255, [1] p. (III) ; E.
1.ª edição.
Interessantíssimo romance naturalista em 3 volumes (completo), rotulado pelo autor como "simplesmente uma obra de verdade", cujo tema, no entanto, desafia os cânones da época.
Obra oferecida por Sá de Albergaria a Camilo Castelo Branco, "o maior mestre da lingua e o mais popular dos romancistas portuguezes", incluindo dedicatória laudatória de 3 páginas intitulada «Mestre!».
I volume inclui retrato do autor separado do texto.
"A meio da estrada que, atravessando a Serra do Carvalho, vae da Povoa de Lanhoso a Braga, encontra-se quasi sumida na reentrancia de dois asperos sêrros, mesmo á beira do cam inho, uma casinhola de mesquinha apparencia, tendo por cima da unica porta d'entrada este singular letreiro:
BINHO E TAVACOS
Que arrojado espirito de ganancia pôde inspirar a alguem a ideia de ir alli estabelecer-se, no reconcavo de uma serra arida e deserta, com um negocio de vinhos e tabacos, quando é sabido que, mesmo nas grandes cidades, estes generos, se não teem um largo consummo, são de pouco convidativos lucros para quem n'elles negoceia?
Como no mundo tudo se explica e não ha coisa que não tenha a sua razão de ser, é possivel que no decorrer d'esta veridica historia, chegue-mos a comprehender o pensamento secreto que presidiu á estranha phantasia commercial do tio Domingos Perneta - que assim se chamava o proprietario da taberna alludida.
Por agora, baste-nos saber que a Serra do Carvalho, que defronta com a lendaria serra da Falperra, era, ao tempo em que se passam os acontecimentos que vamos narrar, mal frequentada, principalmente de noite, em que os carros da carreira entre Lanhoso e Braga soffriam repetidos assaltos de malfeitores que, á mão armada, exigiam dos viandantes a bolsa ou a vida. [...]
Estamos no dia 20 de Maio de 1880. São onze horas da noite, e o ultimo carro da carreira acaba de passar com um grande tinido de campainhas e estalos de chicote, sem que o cocheiro apressado se lembrasse sequer de parar um pouco para pedir cigarros ou molhar a palavra á custa de algum passageiro generoso, como sempre acontece quando vae pessoa de respeito no carro.
- O Papa-Legoas não parou - disse de um extremo do balcão o tio Domingos Perneta para a esposa, a tia Quiteria de Thayde, que estava no outro extremo, sentada em uma cadeira de pau, a fiar n'uma roca, á luz baça de um sujo candieiro de petroleo pregado na parede.
- É que não leva freguezia de geito... - respondeu a tia Quiteria molhando o fio na ponta da lingua e fazendo girar o fuso a todo o comprimento do braço.
- Que o leve o diabo! - rosnou o taberneiro levantando-se n'um movimento de mau humor e indo á porta passeiar os olhos por toda a extensão da estrada deserta."
(Excerto de I - O homem da mascara negra)
António da Costa Couto Sá de Albergaria (São Miguel do Mato, Arouca, 1850 - Porto, 1921). "Foi um professor, jornalista, dramaturgo e escritor português. Escreveu também com os pseudónimos de João Chorinca e Gabriel da Rasa. Dedicou-se sobretudo ao jornalismo e à actividade literária. Fez parte da redacção de vários jornais humorísticos, tendo inclusive fundado alguns deles, como «O Sorvete», em 1878, e «O Porto Cómico», em 1880. Dirigiu inúmeros jornais, tendo sido redactor do Jornal de Notícias, onde, durante largos anos, manteve a secção «De raspão», famosa pela sua popularidade e pela qualidade dos versos humorísticos, pautados pela crítica social de tom irónico. Publicou alguns romances, dos quais se destaca «O Segredo do Eremita», bem como inúmeras peças de teatro de revista. Com efeito, dentre elas, destaca-se a opereta «O Diabo Louro», que foi a peça de inauguração do Teatro Carlos Alberto, no Porto, 14 de Outubro de 1897 e «O Brasileiro Pancrácio» (1893), que lhe granjeou grande popularidade nos palcos lisboetas."
(Fonte: Wikipédia)
Encadernação do editor em percalina com ferros gravados a seco e a ouro nas pastas e na lombada.
Exemplares em bom estado geral de conservação. Encadernações algo desgastadas. Apresenta assinatura de posse na f. rosto dos 3 volumes.
Raro.
75€



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