25 setembro, 2026

FERNANDES, José Augusto -
GENTE DE CÔR
. Porto, [s.n. - Oficina Tipográfica do Hospital do Conde de Ferreira-Porto], 1933. In-8.º (21x14,5 cm) de 80 p. ; B.
1.ª edição.
Conjunto de crónicas relacionadas com Timor (a maioria) e Macau, locais onde o autor terá prestado serviço militar.
Obra rara e muito curiosa, não mencionada na BNP. Nada foi possível apurar acerca do autor, a não ser, a indicação num outro livro seu, de pertencer à Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
"Produto dum cruzamento, nascera em Macau. Tentaram educá-lo, mas, tôda uma longa série de taras, inutilizou essa tentativa... Cresceu ao Deus dará até que, já homem, foi parar à tropa... Percorreu tôda a escala dos castigos e, por fim, lá foi ter a Timor, com a chancela de incorrigível...
Como tinha um verniz de ilustração empregaram-no. Filho de chinesa e talvez de indio, tinha todos os defeitos destas duas raças. Abafava sob a nossa moral, e as nossas leis eram para êle duma iniquidade absoluta...
Podia lá ser que êle quizesse beber, que êle tivesse sêde, que a cerveja estivesse ali, à mão de semear, em casa do chinês ou do monhé, e êle a não bebesse porque não tinha dinheiro...? Podia lá ser?! E como não podia ser, bebia e não pagava..."
(Excerto de Um milagre)
"Envelhecera em Timor. Para ali veio de Angola, novo ainda, num contingente de africanos... Alto, forte, espadaúdo, ligára-se a uma indígena e, com o tempo, veio-lhe o esquecimento da sua terra...
Deixára a tropa quando a velhice e o alcool o inutilizara e ficára por lá fazendo recados aos monhés e aos chineses...
Alma simples de bom, fiel como um cão, a negrura da sua tez era o seu único orgulho... Chamassem-lhe preto que o Pipa, abrindo a larga bôca num sorriso de satisfação, prestes respondia «pronto siô»!... E, filosóficamente, juntava: africano-preto, português-branco. Porque só o português era para êle branco, os outros, as outras raças, essas designava-as pelo nome da sua terra...
O branco era sempre o português; a sua língua, uma algaraviada de português e angola, era a língua portuguesa..."
(Excerto de O Pipa...)
"Pelas encostas da serra - de quebrada em quebrada - ouve-se o som dos batuques. O tam-tam repete-se, multiplica-se, aumenta de tom e ao longe novos tam-tans se ouvem, dando vida à paisagem. Em plena montanha, fronteiriça ao mar que distante se espraia numa quietude de lago, o som cavo dos batuques é bem como que o som dessa montanha, indefinível, mixto talvez do marulhar das ondas e do vento batendo as Tranças do arvoredo...
Um som grave, qualquer coisa que nos entristece, que nos faz olhar em roda num movimento instintivo de defesa, como se as próprias arvores, a água que canta despenhando-se, fôssem inimigos, e a sua voz fosse aquela, êsse tam-tam insistente, monótono, sem côr...
Da eminencia onde estávamos, via-se ao longe a fita branca da espuma orlando rembrandescamente o sopé da montanha e a floresta de folhas largas, dum verde macío onde a luz forte se adoça.
Pouco a pouco vão chegando os batuques.
Mulheres levando sob a axila do braço pequenos tambores que os dedos ferem, começam a orquestrar-se, arregimentando-se, e, em filas, avançam num bater cadenciado, certo, emquanto na frente, tauxiadas lâminas ao sol os homens pulam e guincham..."
(Excerto de O batuque)
Exemplar brochado em razoável estado de conservação. "Enrugado" e com manchas marginais por acção da humidade, sem prejudicar a mancha tipográfica.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
45€

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