ARESTA, Eugenio - A GUERRA DE SEMPRE. (Novela dum soldado). Porto, [Edição do Autor]. Depositario: A J. d'Almeida, [1920]. In-8.º (22,5x15 cm) de 238, [2] p. ; E.1.ª edição.
Romance sobre a Grande Guerra, realista, muito bem redigido, reflectindo a experiência do autor, capitão do C. E. P. na Flandres.
Narra a história de um soldado - João - desde a sua chamada, na sua
aldeia natal, passando pela dia a dia nas trincheiras lodosas, o
episódio de La Lys e o sofrimento que se seguiu, terminando com o seu
regresso à pátria e ao desânimo que dele se apoderou, pelos
acontecimentos socio-políticos do pós-guerra.
Livro impresso em Valongo na Tipografia Lusitana, dedicado "Á memoria dos meus soldados de Africa e de França mortos em campanha."
"Naquela
manhã, a praça da aldeia estava concorrida. No adro da egreja, um
grande ajuntamento ouvia lêr qualquer coisa, escrita num papel pregado
na porta grande. Mulheres cochichavam. Algumas lacrimejavam já, com a
emotividade facil do mulherio, que tira tristesas de tudo quanto lhes
altera o charco parado da vida. [...]
João
foi-se chegando mais, curioso e inquieto. De toda aquela gente
destacou-se uma velha a chorar, com grande gestos de desespero. Os
cabelos desfeitos, caiam-lhe ralos pelos ombros como estrigas desfiadas
de linho. Toda ela, convulsa e desesperada, soltava lancinantes gritos
amargurados. Gente saiu do adro. Nalguns grupos murmurava-se. João ouviu
profusamente falar em guerra, chamada de soldados, partida, enquanto
mais mulheres passavam chorando. [...]
Na
porta da egreja, colado aos cantos por quatro obreias vermelhas, estava
um papel azul. Era o que liam, era aquele bocado de papel que fizera no
adro o ajuntamento dos dias de festa. Ajuntamento sem alegria, onde em
vez de cantigas se segredavam coisas, com graves ares compenetrados e
tristes. Pareceia a João que os olhares se demoravam nele, com uma
especie de muda compaixão."
(Excerto do Cap. I, Para terra extranha)
Indice dos capitulos:
I
- Para terra extranha. II - A alma franceza. III - Longe da vista. IV -
A linha. V - Batalha [La Lys]. VI - Ruinas. VII - Abandonados. VIII -
Humilhados. IX - A dôr maior. X - Armisticio. XI - Amargura. XII - A
rua. XIII - Motim. XIV - Alvorada.
Eugénio Rodrigues Aresta
(1891-1956). "Nasceu em Moura, distrito de Beja, a 23 de Maio de 1891.
Escolhendo a carreira militar como futuro profissional, realizou os seus
estudos na Escola do Exército, tendo sido promovido na arma da
Infantaria: a Praça (1909), a Alferes (1914) e a Tenente (1917); e
nomeado Oficial instrutor de metralhadoras pesadas e adjunto da Comissão
Técnica da Arma da Infantaria. Sob comando do General Pereira da Eça,
integrou a Coluna Expedicionária a Angola, em 1915, distinguindo-se na
campanha para a ocupação da região do Cuanhama.
Com
a eclosão da 1.ª Guerra Mundial e subsequente participação de Portugal,
foi mobilizado para o Corpo Expedicionário Português e enviado para a
frente da batalha na Flandres, sendo agraciado pela sua ação militar com
a Cruz de Guerra e as "fourragères" da Torre e Espada e do Valor Militar.
De
regresso a Portugal após a assinatura do Armistício, a par da vida
militar iniciou a sua incursão na vida política filiando-se no partido
da União Republicana, de Brito Camacho. Assim, para além da colaboração
no jornal "A Lucta", foi eleito deputado por esse partido pelo
círculo de Beja entre 1921-1922 e entre 1922-1925. Colocado numa unidade
militar do Porto, onde veio a constituir família, decidiu então retomar
os estudos universitários, matriculando-se na 1.ª Faculdade de Lertas do Porto, no curso de Ciências Filosóficas.
Membro
da Maçonaria na Loja Progredior, agraciado com o grau de Mestre Maçon
em 1926, passou à oposição na sequência do triunfo da Ditadura Militar,
sendo um dos conspiradores da frustrada Revolta de 3 de Fevereiro de 1927,
no Porto, o primeiro dos golpes "reviralhistas". Esta participação
ditou a sua prisão e julgamento, sendo sentenciado à exoneração do
Exército e à deportação por um ano para S. Tomé e Príncipe. Concluiu a
licenciatura em Ciências Filosóficas em 19 de Julho de 1928, após o seu
regresso ao Porto, defendendo uma dissertação sobre o método filosófico
de Bergson, com a qual obteve a classificação de 20 valores.
Em
1933 foi reintegrado no Exército como capitão do Quartel-General da 1.ª
Região Militar; contudo, recusado o grau de Coronel devido ao seu
ideário político, quatro anos mais tarde solicitou a passagem à reserva,
optando pela carreira como docente no ensino liceal privado nos
Colégios de Almeida Garrett e de João de Deus, ambos na cidade do Porto.
De resto, a sua ligação aos movimentos de oposição ao Estado Novo
vedaram-lhe integralmente o ingresso nos ensinos liceal oficial e
universitário, para o qual fora recomendado pelo Dr. Aarão de Lacerda,
embora sem inviabilizar a publicação de manuais para o ensino liceal da
Filosofia, através da Editora Marânus.
Faleceu
a 20 de Agosto de 1956 na cidade do Porto, após uma doença prolongada
resultante dos gaseamentos sofridos na campanha da 1.ª Guerra Mundial."
(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)
Encadernação inteira de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Conserva a capa de brochura (colada na pasta anterior).
Raro.
A BNP menciona a obra com a indicação "sem informação exemplar".
65€
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