RODRIGUES, F. Conceição - O PALACIO DA JUNTA GERAL E OS DEVANEIOS DO "MENINO E CONEGO". Funchal, Tip. Bazar do Povo, 1928. In-8.º (19,5x13,5 cm) de 79, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Polémica a propósito da venda do ex-Convento da Encarnação pelo Governo central à Junta Geral do Funchal, que resultou em madeirenses desavindos - clero e sociedade civil-, uns contra, outros a favor da decisão.
Questão momentosa na época, o presente trabalho foi redigido com graça e ironia, envolvendo ilustres personalidade da ilha. Inclui correspondência do autor publicada no Diário da Madeira.
Precede a obra propriamente dita, a carta-prefácio de Manuel Augusto
Martins (Funchal, 1867-1936), político local, Governador Civil do
Distrito do Funchal, sendo o primeiro a ocupar o cargo após a Instauração da República.
Opúsculo raro, por certo com tiragem reduzida. A BNP não menciona na sua base de dados.
"Foi além, nas terras alcandoradas do Porto do Moniz, que a mãe deitou ao mundo, para gaudio do seu S. José.
Menino e moço era um bambino encantador, com o seu barrete regional. Todos gosavam a belesa do creanço, fresco, pimpolho e ravissant. E tanto mimo lhe fizeram, tanto o carinho, tanta a festa, que na ladeira da vida ficou sempre menino.
A sua auto-biografia é comovente: «sacrificio de todas as fôrças na sinceridade da sua consciencia, sacrificio da sua saude e até do epouso em que seria licito conservar-se».
Menino de côro - todo ele se consagrava como unção á limpesa dos metais do altar.
Menino e conego é um assombro vê-lo coser para fóra tantos sermões glorificando a Santa Religião do Nazareno, aquele mesmo que correu a azorrague os vendilhões do Templo - Religião de bondade e de insenção, prégando o desptreso dos bens terrenos para só olhar ao predominio dos espiritos. Só valia o reino dos Céus.
Ha coisas que sempre ficam e assim é que o rev.º Gomes Jardim se agarra hoje á tocha flamejante dos Santos Evangelhos, com o mesmo fervor com que o fazia nos tempos de... menino e moço.
Então praticava os oficios porque o papá e a mamã o mandavam, mas agora, que penetrou em vastos e dificeis estudos religiosos, sabe nestas questões onde é que tem a sua mão direita.
E não diz isto por vaidade. Ele é tão modesto que nos seus arroubamentos misticos se metamorfoseia em humilde cordeiro, figura simbolica de Cristo imolando-se como vitima para resgatar os pecados da humanidade, ou seja - os votos que o clero madeirense andou desenfreadamente galopinando em eleições sucessivas para o partido do Dr. Afonso Costa, o Mata-frades autor da lei de Separação.
Trazido para a cidade, e mercê dos epicenos que o cercam, alguns sempre ás venias calipigias, que lembram a tirada:
Se te agarro,
Se te apanho,
Se te apilho.
não possue aquele verniz que só dá o trato social. Por isso se não podem levar a mal uns termos baroques, que não são parlamentares e muito menos de Catedral.
Menino de vila é positivamente menino-vilão."
(Excerto de III)
Francisco Conceição Rodrigues (Funchal, 1885 - Lisboa, 1943). "Abandonou a direção do Diário de Notícias a 19 de setembro de 1927, publicando no dia seguinte a sua despedida, onde alega que os seus “princípios não torcem nem quebram e, se possível”, cada vez os sentia mais arreigados no seu íntimo. Afirma que sempre se batera por uma cidade “que se transformasse numa terra de turismo, com hábitos europeus”, mas tinha de reconhecer “que parámos há muitos e muitos anos e é enorme a distância que nos separa dos países civilizados”. Considerava-se “à margem dos partidos políticos, que hoje não me interessam absolutamente nada”, mas entendia que perdera capacidade para dar o seu “concurso a bem da coletividade, para prestígio e engrandecimento da República”. O antigo diretor do Diário,
onde trabalhara 28 anos, retirou-se para Lisboa com a família, vindo o
filho, general Bettencourt Rodrigues (1918-2011) a tornar-se depois uma
das figuras militares incontornáveis do final da época de Salazar
(1889-1970) e da de Marcelo Caetano (1906-1980)."
(Fonte: https://www.arquipelagos.pt/imagem/f-conceicao-rodrigues-homenagem-do-pessoal-do-diario-de-noticias-do-funchal-20-de-setembro-de-1927-ilha-da-madeira/)
Exemplar brochado, por abrir, em bom estado de conservação. Conserva cinta promocional do editor reproduzindo, entre aspas, frase emblemática do prefaciador.
Raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
Com interesse histórico e regional.
20€

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