FARIA, Manoel Severim de - NOTICIAS // DE // PORTUGAL // ESCRITAS POR // MANOEL SEVERIM // DE FARIA // Chantre, e Conego da Sé de Evora. // EM QUE SE DECLARAÕ AS GRANDES // commodidades, que tem para crescer em // Gente, Industria, Commercio, Riquezas, // e Forças Militares por Mar, e Terra, as Ori- // gens de todos os Appelidos, e Armas das // Familias Nobres do Reyno, as Moedas, // que correraõ nesta Provincia do tempo dos // Romanos até ao presente, e se referem vari- // os Elogios de Principes, e Varoens Illus- // tres Portuguezes. // ACRESCENTADAS // PELO P. D. JOZÉ BARBOSA // C LER. REG. ACAD.DO N. DA AC. R. // Terceira Ediçaõ augmentada por // JOAQUIM FRANCISCO MONTEIRO // DE CAMPOS COELHO, E SOIZA. // TOMO I. // [vinheta tipográfica] // LISBOA // NA OFFIC. DE ANTONIO GOMES. // ANNO M. DCC. XCI. // Com lic. da R. Meza da Com. Ger. sobre o Exa- // me, e Censura dos Livros. In-8.º (15,5x10 cm) de [2], V, [9], 319, [1] p. ; E.
Interessantíssimo trabalho sobre o estado do país sobre diversos pontos de vista, escrito poucos anos após a Restauração, e mais tarde acrescentado, constituindo este "um excelente estudo dos recursos e das possibilidades de crescimento da nação nos domínios da indústria, do comércio, das artes".
Obra muitíssimo curiosa, não completa. Trata-se do Vol I (de II), porventura o mais interessante. Começa com uma pequena introdução - Aos Leitores (V pp.), seguindo-se a Vida de Manoel Severim de Faria, Escripta pelo Adicionador) (4 pp.), terminando esta parte inicial com o Index (5 pp.), seguindo-se o trabalho propriamente dito.
Este volume desenvolve os seguintes temas:
I - Dos meyos com que Portugal pòde crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ.
II - Sobre a ordem da Milicia, que antigamente avia em Portugal, e das forças Militares que hoje tem, para se conservar, e ficar superior a seus contrarios.
III - Da Nobreza das Familias de Portugal, com a noticia de sua antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazoens das Armas de cada huma.
"[...] Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos lavradores de escravos da Guinè, e mulatos. Pelo que apontaremos as causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que parece saõ as seguintes.
A primeira causa da falta de gente, que se padece neste Reyno, saõ as nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade, assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o commercio do mundo, toda via defraudaraõ muito este Reyno de gente, que lhe era necessaria. [...]
A segunda causa porque falta a gente deste Reyno, he pçor naõ terem officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meio, que Deos deo para a sustentaçaõ e cada hum; e como os homens naõ tem de que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se fazem vádios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens, e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa, que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar. [...]
A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ, porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ bastante povoadas, e naõ ha nellas lugar para se fundarem nòvos pòvos, que possa cultivar a gente, que cresce. E Alentejo, que podèra socorrer a esta falta (porque ha quasi taõ espaçoso, como o resto do Reyno) como está todo dividido em herdades de muitas folhas, ficaõ de ordinario as tres partes dellas por semear, faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher, e a commodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que naõ achaõ lugar, onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isso se embarca tanta gente para fòra da Barra, obrigando-os a necessidade de ir buscar terras em que vivaõ a outras parte do mundo; pois lhe faltaõ em sua propria Patria.
Estas tres saõ as causas da falta de gente popular deste Reyno; mas as da falta da gente nobre se pódem reduzir a duas. A primeira he a uniaõ de muitos Morgados numa pessoa. [...]
A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das melheres n obres; pois vai em tanto excesso, que pçoucos saõ os Fidalgos, que pódem casar huma filha..."
(Excerto de §. II. Como a gente naturalmente se multiplica, e a deste Reyno se vai diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque.)
Manuel Severim de Faria (Lisboa, 1583 - Évora, 1655). "Historiador, camonianista, percursor do jornalismo em Portugal e erudito notável, que muito reflectiu sobre o estado e a condição social do Portugal do seu tempo.
Foi
grande entusiasta pelo estudo do património cultural português tendo
reunido num museu grandes preciosidades das épocas grega, romana e
visgótica. Ficou também célebre a sua biblioteca onde se encontravam,
entre outras preciosidades, manuscritos originais e editio princeps
de obras de autores portugueses, obras chinesas e papiros egípcios.
Esta biblioteca foi, após a sua morte, integrada na do conde de Vimieiro
e veio a perder-se no terramoto de 1755.
Notícias de Portugal,
obra concluída em 1624 e impressa em 1655 (Lisboa), constitui um
excelente estudo dos recursos e das possibilidades de crescimento da
nação nos domínios da indústria, do comércio, das artes. Outros temas de
cultura histórica ocupam também um papel primacial no livro, onde o
autor examina questões de heráldica, genealogia e numismática."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7497)
Encadernação coeva de pele com nervuras e ferros gravados a ouro na lombada. Corte das folhas carminado.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Lombada apresenta-se algo desgastada nas extremidades. Com ex-libris de Alexandre Corrêa de Lemos colado no verso do frontispício.
Raro.
Com interesse histórico.
30€
Reservado


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