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26 fevereiro, 2015

OS MARIALVAS. Reflexões de Braz Fogaça, petintal d’Alfama. Lisboa, Lallemant Frères, Typ., 1876. In-8º (19cm) de 78, [2] p. ; B.
Obra publicada sob anonimato, sabe-se que o seu autor foi José Joaquim Gomes de Brito.
Curiosíssimo trabalho de sátira e crítica aos costumes da época, tendo como pano de fundo a Lisboa boémia e viciosa, pródiga em “más práticas”. O marialvismo e os marialvas: a borga, as touradas, o fado, as mulheres, o vinho… - o autor não poupa nada nem ninguém -, a burguesia endinheirada à cata de “brazão”, a justiça, as autoridades, etc., todos concorrem para uma sociedade corrupta e corruptora.
“Ha tres cousas em que eu creio sobre todas as outras.
Creio sobretudo nos Marialvas, no fôro e na policia. Sim. Creio na omnipotencia d’aquelles, apesar do que por ahi corre em sua deshonra; creio na equidade dos que administram justiça, apesar dos gritos de dôr e de desespero, dos choros e dos brados de indignação, que se levantam a todo o momento contra eles; creio na seriedade, zelo e inteireza da autoridade civil, apezar…
[…]
Na celebre Esparta eram os escravos que, por obrigação, representavam um vicio; - entre nós muda a cousa de figura: representam os nobres e dinheirosos os sete vicios capitaes, e são o verdadeiro symbolo da depravação.
Ah! Quem os fizesse passeiar em torno das multidões a esses nobres e dinheirosos dissolutos com as suas nojentas amantes! Cantariam, sem ser preciso ordenar-se-lhes, scholios mais obscenos que os dos ilotas embriagados; mostrariam sobre a própria pelle as eflorescencias do vicio; dansariam, não só o fandango e o lundú lascivo, mas ainda o fado imundo; entregar-se-hiam a todas as provocações da luxuria e da orgia!
Triste espectaculo, na verdade! Mas que serviço!
Além de se vingar a moral ultrajada, o pudor insultado, desmascarar-se-hiam os actores d’essas repugnantes saturnaes; e demonstrar-se-hia ao povo, que o imposto sobre o trabalho dos proletários engorda a ociosidade e retribue a libertinagem dos senhores, dos cavalheiros do high-life.”
(excerto do texto)
José Joaquim Gomes de Brito. "Escritor e arqueólogo, diplomado com o curso superior de Letras, e oficial da Câmara Municipal de Lisboa, nasceu em Lisboa em 1843 e morreu em 1923. Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa e sócio honorário da extinta Associação Industrial Portuguesa. É vasta a sua bibliografia, composta sobretudo de artigos publicados em vários jornais da capital, a partir de 1876.”
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas e lombada com defeitos.
Invulgar.
35€