10 novembro, 2013

AMALIA, Narciza – NEBULOSAS : poesias. De… natural de S. João da Barra, provincia do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier : Livreiro-Editor do Instituto, [1872]. In-8.º (18 cm) de 192, [4] p. ; [1] f. il. ; E.
1.ª edição.
Raríssima edição original do único livro publicado por Narcisa Amália. Valorizada pelo extenso prefácio de Pessanha Póvoa que não se limita a elogiar e recomendar a obra da autora, antes faz uma breve incursão pela história da poesia universal, analisa o estado da poesia brasileira e o papel que Amália nesta poderia desempenhar.
Livro ilustrado com formoso retrato da autora em folha separada do texto.
“Narcisa Amalia será a impulsionadora e o ornamento de uma épocha litteraria mais auspiciosa que a presente. Hade redigir os aphorismos poeticos, como Aristoteles escreveu os da natureza.
Na historia da nossa literatura, o seu enthusiasmo moral, que é um culto do seu talento, terá uma consagração nos annaes do futuro desta legião de inteligencias que está celebrando as glorias do presente.
Não a conheço, mas eu imagino que em seu rosto a tristeza occupa o logar da alegria.
- «A funda melancolia
Não seguiu-a desde a infância,
Deus não fel-a triste assim…
Houve na sórte inconstância,
E se perdeu a alegria,
É de homens obra ruim.» -
A extremosa pureza dos seus pensamentos, o pudor da sua imaginação, bem inculcam que os seus paes lhe anticiparam um thesouro no abençoado curso da sua educação, no santo respeito da familia e amor da patria.
Eu penso que o écho das suas palavras é um concerto de pezares. Ella aborrece a canalha subalterna das lettras, porque ha uma canalha illustre que é mais fidalga que a nobreza de decreto; essa, ella estima e applaude.
Narcisa Amalia não é um typo; é uma heroina.
Senio acaba de pedir que não elogiem os seus livros de prosa.
Eu peço que julguem o livro de N. Amalia, livro que illumina a grande noite da poesia brasileira.
Quando houver um Conselho d’Estado ou um Senado Litterario, Narciza Amalia terá as honras de Princeza das letras.
Este livro ha de produzir tristezas e alegrias. É a primeira brazileira dos nossos dias; a mais illustrada que nós conhecemos; é a primeira poetisa desta nação.
Delphina da Cunha, Floresta Brazileira, Ermelinda da Cunha Mattos, Maria de Carvalho, Beatriz Brandão, Maria Silvana, Violante, são bonitos talentos. Narcisa Amalia é um talento feio, horrível, cruel, porque mata áquelles. Foram as suas antecessoras auroras efémeras; ella é um astro com orbitra determinada.” […] Quando neste paiz a Republica Politica galardoar os benemeritos da Republica Litteraria, Narcisa Amalia exercerá a sua dictadura.
Não é descrente por moda, como foram os imitadores de Musset; não é sceptica como os de Goethe, é republicana como Schiller, como Felix da Cunha, e Landulpho; é intangivel como a fatalidade. […] Estreou-se emancipada da poesia-piegas, do verso-capadacio, da literatura-artezã, que a hi vivem estucando e distillando biliosas sujidades e obscenas audacias.
Hade vir a épocha em que o sentimento de patriotismo reinvindicará os nomes desses talentos extraordinarios.
Seu estylo vigoroso, fluente, academico; a riqueza das rimas, tão euphonicas, tão reclamadas e necessarias ao verso lyrico, suas convicções falando á alma e á imaginação, justificam a sua já precoce celebridade, confirmam a sua sorprehendente e rapida aparição, precedida do respeitoso coro da critica sincera e grave.
Não sabe fingir nem falsificar.
A sua individualidade litteraria acusa um caracter leal e capaz de todos os sacrifícios pelas grandes causas.”
(Excerto do prefácio)
Narcisa Amália de Campos (1852-1924). “Poeta, jornalista e feminista, nasceu em 1852. Mudou-se para Resende aos 13 anos, acompanhando os pais. Publicou um livro de poesias «Nebulosas». Militou na imprensa – foi a primeira jornalista brasileira – e lutou pelos direitos das mulheres, pela libertação dos escravos e pela proclamação da República em nosso país. Faleceu no Rio, em 1924, no dia de São João. Dois livros foram escritos sobre sua vida e obra: “Narcisa Amália, vida e poesia”, de João Oscar, Campos dos Goytacazes, 1994 e “Um espelho para Narcisa – reflexos de uma voz romântica”, por Christina Ramalho, Elo Editora, Rio,1999.  A acadêmica Heloisa Crespo publicou em 2002, o poema cordel “Narcisa Amália”.” (carlosaadesa. wordpress.com)
“Narcisa Amália, a republicana admirada pelo Imperador Dom Pedro. Mesmo sendo defensora das ideias e dos ideais republicanos, Narcisa Amália era admirada e chegou a ser homenageada pelo Imperador Dom Pedro II, em reconhecimento pela qualidade da sua poesia.
“Dom Pedro II, em visita a Resende, manifestou o desejo de conhecer a escritora pessoalmente. Contaram os cronistas que o imperador caminhou até a padaria onde Narcisa morava e trabalhava, para ouvir de sua própria voz alguns de seus poemas.”” (“Dicionário Mulheres do Brasil”, página 437).
Por ter sido uma personalidade muito à frente da sua época, Narcisa Amália também sofreu perseguições, calúnias e contrariedades daqueles que não aceitavam que uma mulher, em meados do século XIX e primeiras décadas do século XX, pudesse ter a sua presença marcante na vida cultural do nosso país, destacando-se como protagonista na história da literatura e, mais ainda, como defensora da sua autoafirmação e desafiadora corajosa de todos os limites impostos pela sociedade daqueles tempos à mulher.
(Sinvaldo do Nascimento Souza, www.rioeduca.net)
“Primeira mulher a se profissionalizar como jornalista no Brasil, alcançando projeção em todo o país através de seus artigos, Narcisa Amália publica, em 1872, seu primeiro e único livro de poesias, Nebulosas, obra que a consagrou. Moradora da cidade de Resende (RJ), casou-se por duas vezes e por duas vezes também se separou. Porém, se a vida conjugal da poetisa não foi das mais tranquilas, o mesmo não se pode dizer de sua vida literária, marcada por um estilo parnaso, destacado por grandes intelectuais, como, por exemplo, Machado de Assis. Narcisa Amália escreveu poemas para vários jornais da época e, através do espaço que conquistou na imprensa, trabalhou intensamente em favor das causas abolicionistas, republicanas e, destacadamente, pelos direitos da mulher.”
Fragmento
Por que sou forte
(a Ezequiel Freire)
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia — ao sentir que desfaleço...
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: — aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
— E eis-me de novo forte para a luta.
Crítica
A nova geração
"As flores do campo [de Ezequiel Freire], volume de versos dado em 1874, tiveram a boa fortuna de trazer um prefácio devido à pena delicada e fina de D. Narcisa Amália, essa jovem e bela poetisa, que há anos aguçou a nossa curiosidade com um livro de versos, e recolheu-se depois à turris eburnea da vida doméstica. Resende é a pátria de ambos; além dessa afinidade, temos a da poesia, que em suas partes mais íntimas e do coração, é a mesma. [Naturalmente, a simpatia da escritora vai de preferência às composições que mais lhe quadram à própria índole, e, no nosso caso, basta conhecer a que lhe arranca maior aplauso, para adivinhar todas as delicadezas da mulher. Dona Narcisa Amália aprova sem reserva os "Escravos no Eito", página da roça, quadro em que o poeta lança a piedade de seus versos sobre o padecimento dos cativos. Não se limita a aplaudi-lo, subscreve a composição. Eu, pela minha parte, subscrevo o louvor; creio também que essa composição resume o quadro.”]
(Machado de Assis, Revista Brasileira, 1 dez. 1879).
Principais obras:
Nebulosas (1872); Nelúmbia (conto publicado no jornal Lux!, 1874); Por que sou forte (prefácio a Flores do Campo, 1874).
(in Clássicos Brasileiros: uma seleção de autores com obras em domínio público = Brazilian classics : a selection of authors with works in public domain / [organização, Aníbal Bragança ; versão inglesa, Iuri Lapa]. – Rio de Janeiro : Fundação Biblioteca Nacional; São Paulo : IMESP, 2011.)
Encadernação coeva em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada. Com defeitos, mormente, falhas nas extremidades da lombada e no revestimento da pasta posterior. F. anterrosto em falta. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação, sendo que as primeiras e últimas páginas do livro se apresentam levemente oxidadas.
Muito raro.
Com interesse para a História da literatura brasileira.
Indisponível

2 comentários:

  1. Boa noite. Estou muito interessado na 1° edição do livro Nebulosas de Narcisa Amalia da editora Garnier de 1872. Gostaria se saber onde poderia encontrar este raríssimo exemplar? Obrigado. Meu email: luizmello5160@gmail.com

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    1. Boa noite, O livro "Nebulosas" já não se encontra disponível. M. Cumprimentos, AM

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