25 janeiro, 2026

OOM, F. - ARMAS DE ARREMESSO. Anteriores ás de fogo.
Por... Revista Militar : Maio de 1917
. Lisboa, Tipografia Universal, 1917. In-4.º (24,5x17 cm) de 20 p. ; il. ; B.
1.ª edição independente.
Resenha monográfica sobre armaria antiga. Interessante subsídio para a história dos meios de ataque e defesa que precederam as armas de fogo.
Livro ilustrado no texto ao longo do livro com desenhos esquemáticos e uma fotogravura.
"Tem a guerra actual posto novamente em uso numerosos meios de ataque ou de defesa que pareciam sepultados para sempre no esquecimento, depois de terem tido largo emprego numa antiguidade mais ou menos remota.
As granadas de mão que outrora deram nome e fama aos orgulhosos granadeiros, tornam a ter uma diaria aplicação. Os morriões ou celadas de aço medievais de novo são feição caracteristica dos combatentes.
Renascem nas trincheiras as bêstas, as balistas e catapultas para arremessar varios projecteis a pequenas distancias, e até a propria funda se vê outra vez empregada largamente.
Pareceu-nos por isso de certo interesse recordar aqui o que eram as armas de arremêsso antigamente usadas, antes de se tornarem preponderantes as armas de fogo."
(Excerto da Introdução)
Índice: Dardos. | Fundas. | O «Boomerang». | A roda ou «chaca» indiana. | Arcos e flechas: - Arco europeu; - Arco oriental; - Bêstas. | Trons e engenhos.
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com pequenas falhas de papel marginais.
Muito invulgar.
Com interesse histórico militar.
Sem registo na BNP.
10€

24 janeiro, 2026

MACEDO, Diogo de -
O CHRISTÃO NOVO.
Romance historico do seculo XVI. Porto Imprensa Portuguesa, 1876. In-8.º (18x12 cm) de 179, [5] p. ; E.
1.ª edição.
Romance histórico ao gosto da época, baseado em factos verídicos da história de Portugal.
"Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de 1553, no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava casual ou intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de rendas de Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.
Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de cincoenta annos de idade. Em volta do pescoço alvejava-lhe uma das amplas gorgueiras encanudadas que, na frase picaresca de um novellista espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto de um melão collocado em cima de um prato de porcelana branca. Pronunciava-se-lhe bem um nariz em demasia grosso, era baixo de corporatura como qualquer burguez e parecia reforçado dos musculos como um legitimo descendente de Hercules. [...]
Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de um poderosa mulher  e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e esbeltos personagens do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta conversação com essa mulher em quem todos «descobriam raras e heroicas virtudes, grande zelo e piedade christan, grande brandura e affabilidade em obras e palavras para com grandes e pequenos.»
- Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da vossa nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das minhas esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de Arzilla ou das heroicas muralhas de Dio...
- Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco serve o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em vosso auxilio."
(Excerto de I - Ciumes de um rei)
Diogo de Macedo (1844-1938). Natural do Peso da Régua. Escritor e jornalista, área em que atingiu alguma projecção no segundo quartel do século XIX à frente de diversos jornais. Publicou dois romances: O christão novo (1876) e A rainha das aguas (1882).
Encadernação coeva meia de pele com ferros gravados a ouro na ,lombada. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Mancha de humidade de pouca monta visível nas últimas folhas, à cabeça, junto ao festo.
Raro.
45€
Reservado

23 janeiro, 2026

VALLE, Henrique Pereira do -
SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA ARTILHARIA PORTUGUESA.
[Por]... General. Lisboa, [s.n. - Tip. Duarte, Lda. - Lisboa], 1963. In-4.º (23x17,5 cm) de 14, [2] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Interessante estudo sobre as novas bocas de fogo que equiparam o exército português no período da Restauração da independência, importantes pela sua portabilidade e facilidade de manejo face ao existente até aí.
Opúsculo ilustrado com 4 figuras de peças de fogo, uma delas em página inteira: duas reproduções de estampas antigas, uma fotografia e um desenho esquemático.
"O aparecimento em Portugal, durante a Guerra da Restauração, das peças de panela correspondeu à necessidade de uma artilharia suficientemente potente, em alcance e calibre, com a mobilidade precisa para acompanhar a infantaria, quer em combate quer nas marchas itinerárias.
A artilharia desta época, pelo seu peso, estava impossibilitada de fazer mudanças de posição durante o combate e de, pela sua reduzida velocidade de marcha, acompanhar a infantaria.
Várias tentativas foram feitas, sem grandes resultados, para diminuir o peso das bocas de fogo, conservando estas, no entanto, o alcance e potência das peças clássicas de igual calibre mas de muito maior peso."
(Excerto do Estudo)
Exemplar em brochura, bem conservado. Cadernos separados das capas.
Invulgar.
10€

22 janeiro, 2026

AZEVEDO, J. Lucio de -
OS JESUÍTAS E A INQUISIÇÃO EM CONFLITO NO SÉCULO XVII. Por...
Lisboa, Academia das Sciências de Lisboa, 1916. In-4.º (23x14,5 cm) de 29, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Interessante subsídio para a história das relações entre a Companhia de Jesus e a Inquisição, e o poder político no Portugal de seiscentos, consubstanciada em documentos, muito deles inéditos, - cartas, projectos, pareceres, etc.
"[...] Desde o tempo de D. João III se repartyia entre o Santo Ofício e a Companhia de Jesus, o predomínio da política e na pública administração. Na primeira entrada manifestou-se o Tribunal da fé infenso àqueles que se propunham participar na tarefa de zelas a pureza da crença e a autoridade da Igreja. Era o rosnar do mastim, cioso de outro adventício que se lhe aproxima do pôsto. [...]
No período dos Filipes a fusão de interêsses foi completa. O govêrno espanhol cometera a leveza de agravar o clero em geral, e particularmente o Santo Ofício, lesando um e outro nos bens materiais, de que sempre foram as corporações eclesiásticas assás ciosas; a êste exigindo-lhe tornas dos confiscos na fortuna dos hereges, àquele em lhe impôr tributos de que se cria privilegiado, e esbulhá-lo de propriedades, provenientes de legados e doações, insubsistentes perante a lei. É certo que o Santo Ofício se não manifestou de modo ostensivo; mas lá estavam por êle os domínicos, que de mão dada aos jesuítas prepararam em esfôrço comum o movimento de Évora em 1637, e em seguida a revolução restauradora."
(Excerto do Ensaio)
João Lúcio de Azevedo (1855-1933). "É considerado um dos maiores historiadores portugueses do início do século XX, cuja obra continua a ser regularmente publicada. Viveu em Belém do Pará, no Brasil, e em Paris, França. Mas foi quando regressou a Portugal que dedicou mais tempo à escrita. Entre as suas obras contam-se os livros O Marquês de Pombal e a Sua Época, História de António Vieira, A Evolução do Sebastianismo, Histórias dos Cristãos-Novos Portugueses e Épocas de Portugal Económico."
(Fonte: Wook)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
15€

21 janeiro, 2026

AMARAL, Abílio Mendes do -
O PRIOR A SERRA DA ESTRELA E O CONVENTO DO RATO
. Viseu, [s.n.], 1974. In-8.º (22,5x17 cm) de 28, [4] p. ; B.
1.ª edição independente.
Interessante estudo sobre o Padre Domingos Dias Seixas, Prior de Vinhó (Gouveia), e a sua obsessão por Ana de S. Joaquim, religiosa da Ordem da Santíssima Trindade, sobre a qual publicou uma Memória, em 1740, circunstância misteriosa que o autor procura desvendar. Trabalho publicado em separata da Revista «Beira Alta».
Ensaio curioso, com interesse para o tema da vida conventual "forçada", e o empenho de certas religiosas em cumprir com a regra monástica a despeito da ausência de vocação.
Opúsculo muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor "Ao "prestigioso heraldista José de Campos e Sousa"
"Infere-se ter sido nos termos constantes dos Pareceres - com os necessários descontos - que o padre Seixas escreveu a vida da sua heroína.
Ela, Ana, de cuja formosura e juventude o nosso Prior nos dá ideia por intermédio de uma linda gravura, teria nascido a 23 de Outubro de 1709, na Rua da Confeitaria (Bacalhoeiros), junto ao arco ou nicho de Nossa Senhora da Oliveira, em Lisboa. Fora baptizada a 1 de Novembro do mesmo ano, na igreja de S. Julião, por ser a da freguesia onde viviam seus pais - António Jorge e Francisca Maria, «de boa vida e costumes limpos em geração e sangue e de mediana opulência».
Faleceu a 28 de Dezembro de 1736, tendo de idade vinte e sete anos, dois meses e cinco dias, e pouco mais de 10 anos de Religiosa.
Nove capítulos se encheram com as virtudes reveladas pela jovem, durante os 17 anos passados na casa paterna. Ao que parece, foi objecto de todos os mimos e cuidados nesse lar burguês da Lisboa do século XVIII."
(Excerto de II - Candidez e pureza)
"Falecida a mãe, houve de encarar-se o futuro da moça. O pai, atenta à religiosidade e a regra do tempo, começou as diligências para a internar num convento, vindo a optar pelo de Nossa Senhora dos Remédios, de Campolide, vulgarmente dito do Rato. Feito o ajuste, tratou da escritura. E a pequena em breve vestiria o hábito da Santíssima Trindade.
Quando ela transpôs a portaria, «um grande e fatal estrondo se fez ouvir, como sinal de que o Demónio se temia de tanta virtude». [...]
Em 20 de Agosto de 1727, no tempo da prelada e fundadora Madre Maria de S. Filipe, do Mosteiro de Santa Marinha, a menina professou, envolta nas cerimónias litúrgicas da Congregação. Naturalmente se esperava que, dali em diante, sua existência decorreria na doce beatitude e santa protecção da Virgem dos Remédios.
Porém, não tardou que uma profunda melancolia e um inexplicável alheamento a possuíssem, tornando-a indiferente à confissão e às orações. E tão grande vulto o caso assumiu que a comunidade se alarmou. Supuseram-na endemoninhada, havendo que recorrer ao auxílio de vários sacerdotes, para a curarem, mas eles iam-se sucedendo por desistência."
(Excerto de III - No rumo de maiores tribulações)
Índice:
I - O Livro e o Autor. II - Candidez e pureza. III - No rumo de maiores tribulações. IV - Relato oficioso. V - Um labirinto tentador.
Exemplar em brochura, bem conservado.
Muito invulgar.
20€

20 janeiro, 2026

BRITO, Rozalino Candido de Sampaio e - O MUNDO NÃO SE ENDIREITA MAS EU NÃO LARGAREI NUNCA O MUNDO. Segunda edicção precedida d'uns bons bocadinhos, e seguida d'outros ainda melhores. (Mimozissimo presente, que o comprador pode fazer a qualquer... asno, por exemplo). Porto, Typ. de Antonio José da Silva, 1873. In-8.º (18,5x13 cm) de [2], XXIV, 24 p. ; B.
Curiosíssimo opúsculo. Apesar de se tratar da segunda edição, esta poderia ser considerada uma 1.ª edição, tão grandes são as diferenças entre as duas  porque muito aumentada a presente, redigida com uma linguagem "terrível", conforme declara Rosalino: "talvez a mais terrivel que eu tenho escripto em toda a minha vida; mas é justa - é justissima". Assim, a primeira parte do livro (XXIV pp) é exclusivamente dedicada pelo autor à justificação da segunda edição, sendo a segunda parte preenchida com O mundo não se endireita.
Índice:
[Primeira parte]: Por conveniencia de futuro; Franqueza d'alma; Declarações muito necessarias; Uma attenção minha para com os criticos competentes; Prologo (tornado n'uma boa lição). [Segunda parte]: O mundo não se endireita mas eu não largarei o mundo. Vermes detestaveis ou viventes perigosos.
Rosalino Cândido de Sampaio e Brito (? - 1904). "Poeta e polemista, falecido a 7 de Maio de 1904 na cidade de Lisboa, onde passou os últimos anos da sua vida, anteriormente havia residido no Porto até cerca de 1868 e, em seguida, em Coimbra, cidade na qual terá permanecido nas duas décadas seguintes e à qual ficou intimamente associado em virtude da enorme popularidade que aí adquiriu pela sua actividade nas letras ou pelas suas “extravagâncias literárias”, como melhor esclarece Cardoso Marta numa das suas anotações à obra Cartas de Camilo Castelo Branco (1918).
Embora não estando matriculado em qualquer instituição de ensino em Coimbra, onde terá apenas frequentado uma aula regida por Manso Preto a quem, num episódio que ficou célebre em toda a academia, chegou a pedir dispensa em verso por não ter estudado a lição, aí conviveu com inúmeros académicos e ficou na memória de várias gerações, incluindo alguns autores como Trindade Coelho, Brito Camacho, Sá de Albergaria, Mário Monteiro e António Cabral, que o mencionam nas suas obras, qualificando-o como um filósofo, humanitarista, precursor do nefelibatismo ou como um louco.
Publicando grande parte da sua obra na cidade de Coimbra, incluindo o jornal filosófico Luz da Razão, do qual foi o único redactor e que se imprimiu no Porto entre 1867 e 1868 e, em seguida, em Coimbra, onde obteve grande popularidade, a sua vasta produção literária, exceptuando o romance A observação e o homem orgulhoso (1876), é composta sobretudo por inúmeros opúsculos que ele próprio vendia, marcados por um tom inflamado e uma predilecção pelo grotesco.
Cultivando essencialmente a escrita poética e a prosa ensaística, fórmulas que por vezes integrou na mesma obra, da sua produção enquanto poeta conhecem-se, entre outras, as publicações O jovem ancião (1875), Camões: homenagem aos antigos heróis portugueses e sobre todos ao seu divino cantor Luís de Camões (1880), O legendário misterioso (1881), Uns pontos nos is à minha moda constituídos sempre (18--), Uns santos do céu: em verso (e prosa) amaldiçoados por um diabo da terra (1883), Espontaneamente vestir a pele do lobo e arranjar lenha para as suas costas ou quid pro quo em sonetos (1887), Cupido e Baco na rua do Ouro em dia de S. Martinho (1887) e Um sonetão, sim, capitão (1890).
Além destas obras, foi ainda autor dos opúsculos de carácter polémico ou filosófico O que é uma tourada perante a civilização (1870), O número terrível da luz da razão (1874), A pobreza e a mendicidade humana: remédio para aquela e a extinção absoluta de esta (1877), Processo académico oferecido aos estudantes: consagrado ao riso e dedicado ao Conselho de Decanos de todas as faculdades no outro mundo (1878), Discurso: para ser recitado no sarau literário à memória de Camões pelos estudantes de 1881 (1881), A carta (as touradas) do Ex.mo Sr. Dr. Luís de Magalhães e a resposta de Rosalino Cândido de Sampaio e Brito (1888), Algumas sandices de Rosalino Cândido de Sampaio e Brito consagradas ao Sr. Emídio Navarro: não como ministro das obras públicas, mas sim como redactor-proprietário do jornal As Novidades (1888) e Um petisco! Um petisquinho! A novidade agora! Ou melhor Emídio Navarro com Rosalino Cândido de Sampaio e Brito não é tarea é um petisquinho, só um petisquinho! (1889)."
(Fonte: http://vcp.ul.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=34&Itemid=122)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Capas frágeis com defeitos.

Raro.
Sem registo na BNP.
25€

19 janeiro, 2026

MACHADO SANTOS, A CARBONÁRIA E A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO.
Textos de Joaquim Madureira, Augusto Vivero e António de la Villa. Precedido de um estudo por João Medina. Textos Universitários – Opúsculos / 1. Lisboa, Cooperativa Editora História Crítica, S.C.A.R.L., 1980. In-8.º (20x15 cm) de 56, [2] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Interessante documento histórico sobre a implantação da República e a acção da Carbonária. Valorizado pela introdução de João Medina (n. 1939), com inclusão de textos de conhecidos jornalistas da época a que reportam os acontecimentos: Joaquim Madureira (1874-1954), também conhecido pelo pseudónimo "Braz Burity", e os espanhóis Augusto Vivero (1879-1939) e António de la Villa (1881-?).
Ilustrado com fotografias a p.b.
"Se observarmos com atenção esta figura política que os historiadores parecem querer esquecer, não podemos deixar de sentir uma espécie de embaraço misturado com muita perplexidade, já que tudo se mostra contraditório e por vezes mesmo paradoxal no destino e na alma do homem que fundou a República, que foi o braço armado que, na hora decisiva em que todos desanimavam e alguns desertavam já, fez pender a balança da História para o campo dos revoltosos e, no reduzido acampamento da Rotunda, com uns quantos sargentos, praças e civis, verdadeiramente arrebatou a vitória nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910."
(Excerto do estudo de João Medina)
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Invulgar.
15€

18 janeiro, 2026

COSTA, Vieira da - A FAMILIA MALDONADO (pathologia social)
. Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, editor, 1908. In-8.º
(19x13 cm) de 437, [3] p. ; E.
1.ª edição.
Romance realista 
cuja acção decorre na zona de Lamego, porventura a obra mais importante do autor.
"Foi na tarde de um domingo d'Agosto, em 1886, que a familia Maldonado chegou a Lamego, para ahi fixar residencia.
Era aquella a hora habitual do passeio, e a população, endomingueirada, formigava, convergindo para o Campo das Freiras a ouvir a banda do 9, ou para a Alamêda a gosar a frescura dos arvoredos e das aguas correntes. Pela rua dos Mercadores, um pouco angulosa, como pela de Almacave, accidentada e larga, e ainda pela da Olaria, estreita e ingreme, ia um fervilhar de gente. Bandos elegantes de senhoras em toilettes alvadias, de estio, criadas de servir ou operarias de folga com lenços de côres variegadas, berrantes, homens de campo e da cidade em trajos de festa, cavalheiros fumando e discutindo, conegos roliços, vermelhaços, d'uma adiposidade suina, rolando penosamente a sua rotundidade, - tudo isto pejava os passeios, invadia as ruas; os alumnos do collegio, em filas, commandados pelos padres, passavam unidos em batalhão; e os officiaes do 9, fazendo tilintar nas lajes dos passeios ou nas pedras da rua as suas espadas, punham uma nota marcial na pacatez das ruas pacificas.
Poucos em Lamego conheciam a familia Maldonado, e por isso, quando o carro que a conduzia, um pesado char-á-banks empoeirado e com o tejadilho abarrotado de malas, começou a subir penosamente a rua d'Almacave, grande foi a curiosidade que o seguiu, e os que melhor o observaram puderam vêr, atravez das cortinas entreabertas, quatro senhoras novas e bonitas, um cavalheiro idoso de bigode e pêra já brancos, e uma creada magra, esgalgada, com perturberancias osseas no rosto já rugoso, e o queixo deformado n'um prognatismo de caricatura."
(Excerto do Cap. I)
José Augusto Vieira da Costa (1863-1935). "Nasceu em Salgueiral, concelho da Régua, em 14.3.1863. Aí morreu em 13.1.1935. Colaborou em vários jornais e revistas, nomeadamente na Ilustração Transmontana e em jornais do Brasil. Publicou os romances Entre Montanhas, A Irmã Celeste e A Familia Maldonado. Deixou organizado o romance O Amor, e a novela Sob a Folhagem. Já quase cego escreveu Portugal em Armas, publicado por ocasião da Grande Guerra. A cegueira deixou o na miséria pelo que a Câmara da Régua lhe estabeleceu uma pensão. O Dr. Fidelino Figueiredo publicou uma análise crítica sobre a sua obra."
(Fonte: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2555&action=noticia)
Encadernação meia de percalina com pastas recobertas de fantasia emoldurada por cercadura. Lombada lisa. Sem capas de brochura.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Com selo de biblioteca na lombada
.
Raro.
Indisponível

17 janeiro, 2026

AUGUSTO, Arcebispo d'Evora -
HONOR VICTORIBUS!
Allocução proferida no templo de Sancta Maria de Belem no dia 20 de Janeiro de 1896 por occasião do solemne Te-Deum em Acção de Graças pelas victorias das armas portuguezas e feliz feito da Expedição a Lourenço Marques. Lisboa, M. Gomes - Editor : Livreiro de Suas Magestades e Altezas, 1896. In-4.º (23x15 cm) de 20 p. ; B.
1.ª edição.
Celebração de D. Augusto Eduardo Nunes, Arcebispo de Évora, em homenagem à campanha vitoriosa de Mouzinho de Albuquerque por terras de Gaza (Moçambique), que levou à pacificação da região e detenção do régulo Gungunhana.
"[...] Ao chegar a Lisboa a faustissima nova do arrojado, inverosimil e quasi phantastico feito que poz a corôa á longa e penosa campanha da Africa Oriental, a nação toda, desde o Minho ao Guadiana, desde a metropole até á minuscula aldeia perdida em serrania alpestre ou invia charneca, - desde o augusto Monarcha, chefe do estado e generalissimo do exercito, até ao mais obscuro proletario, - a nação toda, como uma só familia, como um só homem, se ergueu, acclamando frenetica os invictos guerreiros que tão briosamente defenderam a integridade das possessões, que são um como prolongamento do solo patrio, e sobredouraram de novo brilho, de brilho inextinguivel o escudo nacional!~"
(Excerto da Allocução)
Augusto Eduardo Nunes (Portalegre, 1849-1920). "Foi um bispo católico português. Entrou no colégio de Campolide com o desejo de ser sacerdote. Mais tarde ingressou no Seminário Patriarcal de Santarém e aí fez a formação sacerdotal revelando-se um aluno brilhante. Distingue-se de tal forma que foi escolhido para se ir formar em Teologia, na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, onde mais tarde chegou a leccionar, escrevendo o primeiro compêndio de Teologia Dogmática, que não teve beneplácito régio pelo facto de ser fiel à doutrina da Santa Sé. Em 13 de Novembro de 1884 foi nomeado arcebispo coadjutor de Évora (como titular de Perge). Alguns anos mais tarde, em 1890, por morte de D. José Pereira Bilhano, ascendeu a Arcebispo Metropolitano de Évora, cargo que exerceu até à sua morte, Julho de 1920. A seguir à revolução republicana de 1910 juntou-se aos restantes Bispos de Portugal, no protesto que fizeram na sequência da promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, em 1911. Na sua arquidiocese suportou alguns momentos difíceis durante os primeiros anos após a implantação da República, chegando mesmo a ter que fixar residência em Elvas, por ter sido exilado da sede arquidiocesana. Após o seu regresso a Évora teve de iniciar a reconstrução da diocese, visto ter sido expropriado o Paço Arquiepiscopal (atual Museu Regional de Évora), praticamente encerrado o Seminário Maior e encontrando-se muitas das paróquias desprovidas de pároco. Colaborou na revista Lusitânia (1914)."
(Fonte: Wikipédia)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Cansado. Capas frágeis com defeitos. Páginas oxidadas.
Raro.
15€

16 janeiro, 2026

VEIGA, Sebastião Philippes Martins Estacio da -
PROJECTO DE LEGENDA SYMBOLICA PARA A ELABORAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DA CARTA DE ARCHEOLOGIA HISTORICA DO ALGARVE. Submetido ao exame Da Academia Real das Sciencias de Lisboa, dos Instittutos scientificos e litterarios, dos Archeologos e Escriptores Portuguezes que se occupam de estudos archeologicos, geographicos e historicos a fim de poderem indicar quasquer outras antiguidades historicas de Portugal que não estejam symbolisadas nos quadros respectivos ás já classificadas no territorio do Algarve. Por... Socio Correspondente da Academia Real das Sciencias e da Sociedade de Geographia de Lisboa, etc. Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1885. In-4.º (24x16 cm) de 11, [1] p. ; B.
1.ª edição.
Importante projecto arqueológico, pioneiro, com interesse para a história da região algarvia.
Ilustrado no texto com lista de "sinais" (desenhados) - Signaes radicais, e, na página seguinte, com quadro-complemento alfa numérico - Quadro dos tempos, edades, periodos e épocas a que pertencem as antiguidades historicas descobertas no Algarve.
Nas mais adiantadas nações, em que os estudos da archeologia monumental vão logrando incalculavel progresso, está reconhecida, como indispensavel, a utilidade das cartas archeologicas, porque são estas cartas a base fundamental adoptada para o reconhecimento e manifestação das antiguidades de cada território, o quadro synoptico dos seus monumentos e o repertorio ou indice remissivo dos logares que ficaram caracterisando as nacionalidades extinctas. [...]
Com referencia ao Algarve, dividi os tempos historicos, comprehendendo a instituição da monarchia portugueza, em tantos periodos, quantas foram as nacionalidades que senhorearam aquelle territorio, sendo cada perioso subdividido em épocas e estas representadas por seus mais typicos caracteristicos..."
(Excerto do Projecto)
Sebastião Philippes Martins Estácio da Veiga (1828-1891) foi um importante arqueólogo e escritor português. Natural de Tavira, estudou no Liceu de Faro, frequentou a Escola Politécnica de Lisboa, e seguiu a carreira de oficial de secretaria da Sub-Inspecção Geral dos Correios e Postas do Reino.
Em 1876, após as fortes cheias ocorridas no Algarve, o gabinete de Fontes Pereira de Melo encarrega-o de fazer o levantamento dos vestígios arqueológicos que ficaram a descoberto, tanto nesta região (como as ruínas de Milreu), como no Alentejo. O resultado do seu trabalho dará origem à Carta Arqueológica do Algarve (1878), culminando na fundação do Museu Arqueológico do Algarve, em Lisboa. No ano de 1880, Estácio da Veiga secretaria o Congresso Internacional de Antropologia e de Arqueologia Pré-Histórica, em Lisboa."
(Fonte: https://fchs.ualg.pt/estacio-da-veiga)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
25€

15 janeiro, 2026

O 9 DE ABRIL : luz do passado -
[AAVV]. [2.ª edição]. Pôrto, Tipografia Gonçalves, [1937]. In-8.º (19x14 cm) de [1], 26, [3] p. ; B.
Importante conjunto de crónicas e episódios dedicados ao 9 de Abril de 1918.
Trata-se de um apanhado de textos sobre o 9 de Abril, episódio desastroso da história militar portuguesa, também conhecido por Batalha do Lys, assinados por conhecidas figuras do meio literário e militar: Manuel Ribas; Freitas Soares; Rocha Martins; Gen. Ferreira Martins.
Inclui ainda um balanço do esforço de guerra feito pela Agência do Porto da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.
"O soldado desconhecido é o herói obscuro de tôdas as horas. Vem das serranias e das planícies. Apontam-lhe uma bandeira e logo lhe jura fidelidade. Marcha para a luta, combate e morre a cantar. É humilde e sabe olhar bem o sol, vendo nêle a luz suprêma que o guia na Eternidade.
Em ti, combatente obscuro, homem ignorado, vejo e sinto todo o potencial de energia, de coragem e de abnegação das grande multidões, sustentáculos das Pátrias e das Civilizações."
(Nove de Abril, Manuel Ribas)
"Dizem os relatorios da Grande Guerra, contam-no livros, narram as testemunhas alguns feitos que calam, ardentemente, num coração de português admirador, até às lágrimas, dos verdadeiros militares e, por isto, desprezando os que deixam de falecer, sob a farda, o brio, a coragem e a lealdade.
O major José Xavier Barbosa da Costa, comandante do 29 de infantaria, de Braga, pertence à categoria das figuras que não se podem esquecer, ao relembrarem-se heróis.
Ante o ataque brutal, violentissimo, do inimigo sôbre os postos de Dean End, êste oficial, com os seus homens, dispôs-se a receber o embate a que era quási impossivel resistir. Poucos são os combatentes, escasseiam as munições, não há trincheiras na linha aberta, possui-se apenas uma metralhadora para responder aos canhões e ao avanço dos infantes germânicos, ante os quais só há dois caminhos: recuar ou morrer!
Preferiu as probabilidades terriveis da ultima hipótese. Então, como um espartano, ou antes, como um português da época dos viso-reis, o major enviou para o quartel general a brigada a que pertencia o comunicado simbólico em cujas poucas letras palpita um poema:
«Já fiz todo o meu papel de major.  Agora é o do homem e simples oficial que procura reunir fugitivos»."
(Excerto de, Um Português à Antiga na Guerra Moderna, Rocha Martins)
Índice
:
Nove de Abril, Manuel Ribas. | Ao Povo Português : 1918-1937, A Agência do Pôrto da Liga dos Combatentes da Grande Guerra. | O Esfôrço da Raça (9 de Abril na Flandres), Freitas Soares. | Vultos e Sombras - Um Português à Antiga na Guerra Moderna, Rocha Martins. | A propósito do 9 de Abril : justiça aos portuguêses!, General Ferreira Martins.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro.
Sem registo na BNP.
25€

14 janeiro, 2026

GONÇALVES, Dr. Luís da Cunha -
A RESPONSABILIDADE CIVIL NA NAVEGAÇÃO AÉREA.
Pelo... Sócio efectivo da Academia das Sciências de Lisboa. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1931. In-4.º (25,5x16,5 cm) de 22, [2] p. ; B.
1.ª edição.
Importante ensaio jurídico sobre a aviação, dos primeiros que sobre o assunto se publicou entre nós.
"De todas as conquistas que a sciência e o esfôrço humano têem realizado no decurso dos séculos, se exceptuarmos a telegrafia sem fios, nenhuma outra, de-certo, tem feito tão rápidos progressos como a aviação ou a navegação através da atmosfera do globo terráqueo. [...]
Não contentes de voar no céu nacional ou continental, os aviões, quais pombas da Arca de Noé, vão atravessar os mares e ligar entre si povos separados por milhares de léguas. É Gago Coutinho com Sacadura Cabral mostrando o caminho do Brasil por ares nunca dantes navegados. É o francês Pelletier d'Oisy, é o italiano De Pinedo, é o inglês Sir Allan Cobham... [...]
Os aviões não são, porém, simples instrumento de audaciosas proezas. Terminada quási a fase heróica, por assim dizer, da navegação aérea, os aeromóveis vão-se tornando um meio normal de transporte de passageiros e comércio internacional."
(Excerto de I - Os progressos da aviação e os paralelos esboços do direito aéreo)
"Um dos mais graves problemas de direito privado que suscita a navegação aérea é o da responsabilidade civil pelos danos dela resultantes, não só a terceiros, mas aos que celebram contratos de transporte aéreo e ao próprio pessoal assalariado nela empregado. E as dificuldades de tão delicado problema derivam de não ser uniforme, nem moderno, o critério por que as diversas legislações regulam, em geral,  responsabilidade, não sendo também uniforme a êste respeito a orientação dos jurisconsultos.
Duas teorias opostas dominam nesta matéria: a teoria clássica, que só admite responsabilidade havendo culpa, e a teoria da responsabilidade sem culpa."
(Excerto de II - O problema da responsabilidade civil. Critério geral)
Índice:
I - Os progressos da aviação e os paralelos esboços do direito aéreo. II - O problema da responsabilidade civil. Critério geral. III - A responsabilidade extracontratual do direito aéreo. IV - A responsabilidade contratual no direito aéreo. V - Limitação e exoneração da responsabilidade. | Bibliografia.
Exemplar em brochura, por abrir, em bom estado de conservação.
Raro.
Com interesse histórico.
25€

13 janeiro, 2026

FARIA, Manoel Severim de -
NOTICIAS // DE // PORTUGAL // ESCRITAS POR // MANOEL SEVERIM // DE FARIA // Chantre, e Conego da Sé de Evora. // EM QUE SE DECLARAÕ AS GRANDES // commodidades, que tem para crescer em // Gente, Industria, Commercio, Riquezas, // e Forças Militares por Mar, e Terra, as Ori- // gens de todos os Appelidos, e Armas das // Familias Nobres do Reyno, as Moedas, // que correraõ nesta Provincia do tempo dos // Romanos até ao presente, e se referem vari- // os Elogios de Principes, e Varoens Illus- // tres Portuguezes. // ACRESCENTADAS // PELO P. D. JOZÉ BARBOSA // C LER. REG. ACAD.DO N. DA AC. R. // Terceira Ediçaõ augmentada por // JOAQUIM FRANCISCO MONTEIRO // DE CAMPOS COELHO, E SOIZA. //
TOMO I. // [vinheta tipográfica] // LISBOA // NA OFFIC. DE ANTONIO GOMES. // ANNO M. DCC. XCI. // Com lic. da R. Meza da Com. Ger. sobre o Exa- // me, e Censura dos Livros. In-8.º (15,5x10 cm) de [2], V, [9], 319, [1] p. ; E.
Interessantíssimo trabalho sobre o estado do país sobre diversos pontos de vista, escrito poucos anos após a Restauração, e mais tarde acrescentado, constituindo este "um excelente es­tudo dos recursos e das possibilidades de crescimento da nação nos domínios da indústria, do comércio, das artes".
Obra muitíssimo curiosa, não completa. Trata-se do Vol I (de II), porventura o mais interessante. Começa com uma pequena introdução - Aos Leitores (V pp.), seguindo-se a Vida  de Manoel Severim de Faria, Escripta pelo Adicionador) (4 pp.), terminando esta parte inicial com o Index (5 pp.), seguindo-se o trabalho propriamente dito.
Este volume desenvolve os seguintes temas:
I - Dos meyos com que Portugal pòde crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ.
II - Sobre a ordem da Milicia, que antigamente avia em Portugal, e das forças Militares que hoje tem, para se conservar, e ficar superior a seus contrarios.
III - Da Nobreza das Familias de Portugal, com a noticia de sua antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazoens das Armas de cada huma.
"[...] Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos lavradores de escravos da Guinè,  e mulatos. Pelo que apontaremos as causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que parece saõ as seguintes.
A primeira causa da falta de gente, que se padece neste Reyno, saõ as nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade, assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o commercio do mundo, toda via defraudaraõ  muito este Reyno de gente, que lhe era necessaria. [...]
A segunda causa porque falta a gente deste Reyno, he pçor naõ terem officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meio, que Deos deo para a sustentaçaõ e cada hum; e como os homens naõ tem de que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se fazem vádios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens, e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa, que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar. [...]
A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ, porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ bastante povoadas, e naõ ha nellas lugar para se fundarem nòvos pòvos, que possa cultivar a gente, que  cresce. E Alentejo, que podèra socorrer a esta falta (porque ha quasi taõ espaçoso, como o resto do Reyno) como está todo dividido em herdades de muitas folhas, ficaõ de ordinario as tres partes dellas por semear, faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher, e a commodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que naõ achaõ lugar, onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isso se embarca tanta gente para fòra da Barra, obrigando-os a necessidade de ir buscar terras em que vivaõ a outras parte do mundo; pois lhe faltaõ em sua propria Patria.
Estas tres saõ as causas da falta de gente popular deste Reyno; mas as da falta da gente nobre se pódem reduzir a duas. A primeira he a uniaõ de muitos Morgados numa pessoa. [...]
A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das melheres n obres; pois vai em tanto excesso, que pçoucos saõ os Fidalgos, que pódem casar huma filha..."
(Excerto de §. II. Como a gente naturalmente se multiplica, e a deste Reyno se vai diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque.)
Manuel Severim de Faria (Lisboa, 1583 - Évora, 1655). "Historiador, camonianista, percursor do jornalismo em Portugal e erudito notável, que muito reflectiu sobre o estado e a condição social do Portugal do seu tempo.
Foi grande entusiasta pelo estudo do património cultural português tendo reunido num museu grandes preciosidades das épocas grega, romana e visgótica. Ficou também célebre a sua biblioteca onde se encontravam, entre outras preciosidades, manuscritos originais e editio princeps de obras de autores portugueses, obras chinesas e papiros egípcios. Esta biblioteca foi, após a sua morte, integrada na do conde de Vimieiro e veio a perder-se no terramoto de 1755.
Notícias de Portugal, obra concluída em 1624 e impressa em 1655 (Lisboa), constitui um excelente es­tudo dos recursos e das possibilidades de crescimento da nação nos domínios da indústria, do comércio, das artes. Outros temas de cultura histórica ocupam também um papel primacial no livro, onde o autor examina questões de heráldica, genealogia e numismática."
(Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7497)
Encadernação coeva de pele com nervuras e ferros gravados a ouro na lombada. Corte das folhas carminado.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Lombada apresenta-se algo desgastada nas extremidades. Com ex-libris de Alexandre Corrêa de Lemos colado no verso do frontispício.
Raro.
Com interesse histórico.
30€
Reservado

12 janeiro, 2026

ROCHA, Hugo - 
O SETUBALENSE AUGUSTO DA COSTA NO JORNAL E NO LIVRO. 
Conferência feita nos Paços do Concelho de Setúbal, em 11 de Dezembro de 1955
. Setúbal, Edição dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Setúbal, 1956. In-4.º (24x17 cm) de 48 p. ; [1] f. il. ; B.
1.ª edição.
Homenagem à memória do recém-falecido jornalista sadino Augusto da Costa (1899-1954), por ocasião do início das celebrações do centenário do jornal «O Setubalense».
Obra ilustrada em separado com fotografia do busto do homenageado, peça assinada pelo escultor Joaquim Valente.
"Quando a Câmara Municipal de Setúbal me convidou a fazer uma conferência sobre Augusto da Costa e a sua obra literária, como acto inicial das solenes comemorações do primeiro centenário da Imprensa setubalense, logo aceitei o convite por estes dois motivos: 1.º) porque se me proporcionava, assim, o ensejo de prestar homenagem à memória dum camarada que muito prezei e admirei; 2.º) porque se me oferecia o ensejo de rever Setúbal, a primeira cidade, depois de Lisboa, inscrita no meu itinerário nupcial, e indelével recordação. A homenagem a Augusto da Costa aí está, no despretensioso estudo que à sua figura e ao seu labor de homem de letras - e, também, de jornalista - consagrei. [...]
Setúbal, quanto à obra do Criador, isto é: à moldura e à ambiência, continua a ser a cidade que, há muitos anos, me cativou os olhos e a alma; no concernente ao artificial, isto é: à obra da criatura, afigurou-se-me, notando-lhe este e aquele sinais de progressos, cidade com as condições bastantes para se converter numa das mais notáveis, das mais consideráveis de Portugal."
(Excerto do Antelóquio)
"A jornada que, hoje, se inicia com esta sessão e que prossegue com a exposição a inaugurar amanhã precisa, talvez, de uma explicação prévia, embora breve. Trata-se de actos entre si ligados pela afinidade dos objectivos: homenagear a Imprensa setubalense, ao cabo de um século de existência e de luta, homenageando, do mesmo passo, um setubalense que, vindo da Imprensa, particularmente se distinguia nas letras nacionais, enriquecendo e honrando, deste modo, o património intelectual da sua terra.
No decurso deste ano, completaram-se cem anos sobre o aparecimento do primeiro jornal publicado em Setúbal. O acontecimento merecia ser assinalado, não só pela comemoração em si (um século é sempre um marco significativo no evoluir de tudo o que tem história), como, até, pelo facto de, neste capítulo, se ter Setúbal antecipado à maior parte das terras do País, ao criar a sua Imprensa própria."
(Excerto do Discurso proferido pelo Presidente da CMS, Dr. Jorge Botelho Moniz...)
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Muito invulgar.
Com interesse histórico e regional.
15€

11 janeiro, 2026

NERY, Antonio Joaquim -
O GAIATO DO TERREIRO DO PAÇO, OU O GIL BRAZ PORTUGUEZ.
Pelo author dos Oculos da Velha. Tomo I [II; III; IV]. Lisboa, Typographia Nryana, 1845. 4 vols in-8.º (15,5x10 cm) de 413, [1] p. (I) - 412, [4] p. (II) - 413, [3] p. (III) - 445, [3] p. (IV) ; E.
1.ª edição.
Curioso romance histórico em 4 volumes (completo), cuja acção decorre na Lisboa de setecentos. Apesar de publicado anónimo, conhece-se o seu autor - António Joaquim Nery.
Obra rara, não mencionada na BNP, publicada pouco depois do Eurico de Herculano, obra icónica, das mais antigas neste género de literatura.
"O tanger do sino grande (não hera o dos Capuchos, mas do convento R.***) marcando as doze horas da noite, annunciava áquelles dos oradores de Lisboa nos bairros proximos á habitação dos bons padres, estar acabado o segundo dia de desvairada folia; que ia seguir-se-lhe o terceiro, o qual hera como a corôa do delírio nesse bom tempo... Vinte e quatro horas mais e começava a quaresma de 1700... e tantos.
Dava por a meia noite: finalisára o dia 2 de Fevereiro, e hera ja aquelle, em que a Igreja celebra a festividade do milagroso S. Braz, advogado contra os perigosos apertos do esophago, laringe, e faringe, o que tudo quer dizer garganta; e a tal hora ignorâmos se o sino, continuando a tanger, chamava os frades ao côro, ou se hera por simples formalidade, guardando a etiqueta dos toques, e que os bons padres tivessem bul de dispensa; isto na verdade não ha cousa, que mereça ser esmiuçada; rezassem, ou estivessem dormindo, nada faz ao caso; fora do local he provavel que não estivessem; mas emfim bom he não affirmar cousas, de que não ha verdadeiro conhecimento: muito mais que por serem padres, isso não... emfim os frades tambem são homens... e huma entrudada...
O certo de tudo isto he que á bulha de grandes pancadas soando na porta de ferro, que fechava os altos muros do adro, acorda o porteiro, e, não muito contente por lhe perturbarem o sancto repouso, ainda se arramancha sobre... sobre o que? sobre cortiças?.. revolve a cabeça sobre a pedra?..., Não, he de suppor que o reverendo masmarro descançasse o corpo em bom colxão de lã e travesseiro analogo, e abaffado com bons cobertores... [...]
A repettição das pancadas na porta de ferro fez julgar ao porteiro que não podia escapar ao incommodo d'erguer-se, e o fez, não apressado; mas finalmente sahio fóra, amantilhado no borel, e a cabeça resguardada no bicado capuz, e, tambem não apressando muito o passo, chegou ao cimo do muro, e d'alli sem enchergar, pois a noite estava bastante escura, perguntou: - "Quem está ahi?
- Sou eu, senhor padre Jeronymo" responde huma vóz de mulher, mas dolorida, como quem vinha afflicta... fraca mesmo. - "Sou a Leocadia, creada da senhora D. Valeriana."
(Excerto de Entrada)
"Nhôa devota! huma esmolinha á céguita? hum pocadinho de pão a mim, ao pequeno! dá? F...i...o! f...i...o!"
Esta parlenda commotora não teve resposta de prompto, porem os dois assovios, com que a findou, quasi tão alentados, como os de hum guardador de gado, determinando o movimento ao seu rebanho, de tal modo aturdirão a palmilhadeira, que, levando aos mãos aos ouvidos, grita, zangada: - Jesus! Sancto Nome de Jesus! o rapaz he um demonio! vejão os guinchos, que dá!?... fez-me perder duas malhas n'este acrescente!"
(Excerto do Capitulo I - Oito annos depois.)
António Joaquim Nery (1798-1866). "Natural de Lisboa, e nascido pelos annos de 1798 - E.
O Campeão Lisbonense. Lisboa, Typ. Patriotica 1822 a 1823 foi. - D'este jornal politico, de que foi redactor, offereceu elle uma collecção ás Cortes em 24 de Dezembro de 1822, como se vê no Diario do Governo n.° 304 de 26 do dito mez.
No mesmo anno escreveu e publicou alguns pequenos opusculos ou pamphletos políticos, taes como A Visão, O Anão demonstrador etc, que sahiram anonymos e foram impressos na mesma officina, em 4.º.
Traduziu, e fez imprimir na typographia de que era proprietario, rua da Prata n.° 17, durante os annos de 1841 a 1850, no formato de 8.°, a maior parte dos Romances de Paulo de Kock, a saber:
A Casa Rranca - O Coitadinho - O Homem dos três calções - 0 meu visinho Raymundo - Este Senhor!- A Donsella de Beüeville - Irmã Anna - O Barbeiro de Paris - Georgetta - Bigode - A Mulher, o Marido e o Amante - O Homem da Naturesa - A Leiteira de Montfermeil - Magdalena - O Senhor Dupont - Andre o saboyano - A Familia Gogó - Sem gravata - João - Um Joven Encantador - Irmão Tiago - O Amante da Lua etc.
Traduziu egualmente de Frederico Soulié:
Memorias do Diabo. Lisboa, na mesma Typ. 1842-1843. 8.° 8 tom.
Alem d'estas, compoz no mesmo estylo e gosto dos auctores traduzidos:
Robineau e Fifina, para servir de sequencia á Casa Branca de Paulo de Kock. Ibi, 1845. 8.° 4 tomos.
Os Oculos da Velha, ou a lente maravilhosa. Romance critico e original por... Auctor Novato. Ibi, 1844. 8.° 4 tomos.
O Gaiato do Terreiro do Paço, ou o Gil Braz portuguez, pelo auctor dos Oculos da Velha. Ibi, 1845. 8.° 4 tomos."
(Inocêncio, Vol. I, pp. 164)
Encadernações coevas meias de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplares em razoável estado geral de conservação. Cansados, envelhecidos. Pastas e lombadas apresentam falhas no revestimento. Assinatura de posse na f. rosto dos 4 vols, sendo que o 1.º está pejado de "gatafunhos". Com pequeno trabalho de traça, junto ao festo, visíveis nas primeiras 16 folhas do vol. I, e 30 folhas à cabeça, no vol. III, em ambos os casos sem prejuízo da mancha tipográfica.
Raro.
100€
Reservado

10 janeiro, 2026

MORENO, Mateus - GENERAL JOSÉ PAULO FERNANDES : o Homem - o Militar - o Patriota.
In-Memoriam. Por... Capitão do G. A. P. 2. [S.l.], [s.n.], [1933]. In-8.º (16,5x10 cm) de 16 p. ; B.
1.ª edição.
(Alocução proferida na sessão de homenagem realizada no Forte da Ameixoeira em 29 de Nov. de 1933).
Homenagem ao General José Paulo Fernandes (1871-1933), oficial português que fez parte do Corpo de Artilharia Pesada (CAP, CAPI, ou CALP, em francês), na Flandres, durante a Grande Guerra.
Exemplar muito valorizado pela dedicatória autógrafa do autor.
"Promovido a capitão, aí por 1911 ou 12, nessa data assume o comando da bataria de que era subalterno e nela vinca a sua passagem com novos estudos topográficos e de preparação do tiro, todos bem eveladores do seu muito saber e grande dedicação pelos progressos da arma a que pertencia.
Vem a Grande Guerra e, logicamente, é escolhido para fazer parte da élite artelheira que constituiu as missões preparatorias da ida das nossas tropas para o C. E. P. e aí lhe é ,depois, confiada, sem condições, toda a instrução dos subalternos e sargentos da missão portugueza."
(Excerto da Alocução)
Mateus Martins Moreno Júnior (1892-1970). Natural de Faro. "A paixão pela cidade que o viu crescer e pelo Algarve revelaram-se logo na mocidade, através da participação na imprensa e no movimento associativo locais. Presidiu à Academia do Liceu de Faro, onde fez estudos preparatórios. Fundou, em Outubro de 1911, o quinzenário académico A Mocidade, sendo da sua lavra a rubrica «Horas líricas», onde publicou muita poesia.
Em finais de 1914, Mateus Moreno veio para Lisboa para frequentar o curso de Matemáticas da Faculdade de Ciências. Terá sido essa a razão da transição da redação, administração e impressão da Alma Nova para a capital.
Nem mesmo a sua mobilização, em 1917, e ordem de marcha para França, incorporado no C.E.P., como alferes miliciano de artilharia de campanha, conseguiram interromper a atividade como escritor e como diretor da Alma Nova. No entanto, não é de excluir que as dificuldades que a revista registou no cumprimento da periodicidade, no final de 1916 e início do ano seguinte, se ficassem a dever, entre outras causas, à ausência de Mateus Moreno.
Redigiu e publicou alguns livros sobre o conflito militar e estudos técnicos sobre a sua arma, que foram apreciados pela hierarquia do exército. No que se refere à Alma Nova aí foram publicadas 5 cartas com as suas impressões da viagem e da chegada a França. Terminada a guerra, Mateus Moreno optou pela carreira militar frequentando a Escola de Guerra. Também fez o Curso Superior Colonial, em resultado do qual obteve algumas missões em Angola e desempenhou diversos cargos. Atingiu o posto de Major em 1942."
(Fonte: https://research.unl.pt/files/3627477)
Exemplar em brochura, bem conservado.
Raro.
25€

09 janeiro, 2026

JUNQUEIRO, Guerra - TRAGEDIA INFANTIL. Lisboa, Typ. de J. H. Verde, 1877. In-8.º (17x11,5 cm) de 33, [3] p. ; B.
1.ª edição.
Edição original desta rara e pouco conhecida obra do poeta, sendo uma das primeiras que publicou.

"Dois irmãos: a pequenita
em quatro annos sómente;
É d'uma graça infinita
D'um mimo suprehendente.

O seu corpo, que faria
O desespero de Phidias,
É leve como a alegria,
É doce como as orchidias.

Produzir um corpo tal,
Uma tão divina flor,
Só o vente maternal,
O estatuario do amor.

N'aquella boca graciosa
Não poisa de certo a abelha,
Por saber que não ha rosa
Tão fresca, nem tão vermelha.

Seus grandes olhos rasgados
Com limpidez infantil
Parecem mesmo talhados
No azul das manhãs de Abril."

(Excerto de Ella)

"Elle o rapaz tem tres annos;
Não ha nada mais gracioso
Do que os seus gestos ufanos
E o seu andar orgulhoso,

Quando vae com a irmãsinha,
Como quem leva uma flor;
Ella - a timida andorinha;
Elle - o forte, o protector."

(Excerto de Elle)

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923). "Poeta e político português, nascido em 1850, em Freixo de Espada à Cinta (Trás-os-Montes), e falecido em 1923, em Lisboa, Guerra Junqueiro é entre nós o mais vivo representante de um romantismo social panfletário, influenciado por Vítor Hugo e Voltaire. Oriundo de uma família de lavradores abastados, tradicionalista e clerical, é destinado à vida eclesiástica, chegando a frequentar o curso de Teologia entre 1866 e 1868. Licenciou-se em Direito em Coimbra, em 1873, durante um período que coincidiu com o movimento de agitação ideológica em que eclodiu a Questão Coimbrã. [...] Nos anos oitenta, participa nas reuniões dos Vencidos da Vida, juntamente com Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e António Cândido, entre outros."
(Guerra Junqueiro. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008.)
Exemplar brochado em bom estado geral de conservação. Com acidez no interior, sem a capa frontal. Deve ser encadernado.
Raro.
25€