JARDIM, Cypriano - PROJECTO DE AEROSTATO DIRIGIVEL. Inventado por... Extracto do Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes : N.º XLVIII - Lisboa - 1888. Lisboa, [s.l.], 1888. In-4.º (25x16 cm) de 26, [2] p. ; [4] f. desdob. ; B.
1.ª edição independente.
Separata factícia do Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, N.º XLVIII, 1888.
Importante projecto aeronáutico, pioneiro, com interesse para a história da aviação contemporânea portuguesa, o primeiro que entre nós se fez sobre este tema, na época ombreando com outros estudos do género desenvolvidos no estrangeiro, sobretudo em França, onde aliás, pela primeira vez, o invento foi testado pelo seu autor, sob o escrutínio atento e conhecedor de altas autoridades civis e militares internacionais. Ilustrado com 4 folhas desdobráveis reproduzindo desenhos esquemáticos do aparelho.
Na primeira parte do livro, no I capítulo, o autor faz uma súmula dos vários projectos de aerostatos que antecederam o seu, apresentando de seguida, no II capítulo, o seu trabalho. A segunda parte do livro - págs 15/6 - dão lugar ao Supplemento ao Projecto de Aerostato Dirigivel, que contém um figura desdobrável não numerada. A terceira parte - a partir da pág. 17 até final - é preenchida pelo Additamento descriptivo ao Projecto de Aerostato Dirigivel, que inclui 3 figuras desdobráveis numeradas de 1 a 3.
Obra rara, histórica, e muitíssimo interessante. A BNP não menciona.
"Senhores. - Apesar de todos os esforços, até hoje empregados por tantos professores e sabios estrangeiros, a fim de ser resolvido o problema da navegação aerea, por meio pratico, e que previna todas as circumstancias calculadas pelas previsões feitas para cada experiencia, é certo, que ninguem chegou até hoje a uma solução cathegorica..."
(Excerto do Cap. I)
"Submetendo ao julgamento da Academia Real das Sciencias portugueza um projecto de aerostato, que porventura julguemos o mais pratico, e portanto o mais approximado do que em absoluto deve ser uma locomovel-aerea, não temos nós o assomo de achar a resolução definitiva de um problema, que ha tantos annos resiste aos esforços de quantos o têem atacado.
O nosso proposito é outro. Acceitando, como demonstrado, o principio de que a velocidade do aerostato será sempre alcançada para os ventos normaes, entendemos que, os que trabalham na solução pratica do problema, devem seguir novo caminho, e fazer convergir todos os seus esforços para a questão, principal hoje, de prolongar os meios de acção, tornando exequivel a viagem aerea, que deve ser feita, afinal, em condições de segurança e duração capazes de animar a todos a preferir este systema ao antigo até hoje praticado. [...]
Ninguem pensava nos effeitos, para a segurança da viagem, da perda do hydrogenio nas descidas, e da perda do lastro nas subidas.
Ninguem pensou que nunca se poderia fazer uma viajem longa, desde que os meios que lhes forneciam a força propulsiva se extinguiriam rapidamente, tornando inutil, ao cabo de poucas horas, a vantagem que lhes provinha da velocidade alcançada.
É isto que nós tentamos remediar As viagens aereas não podem limitar-se ao transporte de um ou mais individuos para um ponto desviado 10 ou 15 leguas do primeiro.
Uma tal descoberta não pode ficar nos limites, estreitos hoje, de uma viagem de caminho de ferro.
Ha ainda muitas regiões ignoradas, onde a navegação maritima não logrou até hoje chagar. Lá irá o descobridor do espaço, quando de dentro da sua barquinha poder dominar, como rei dos ares, as inconstancias da atmosphera, e aproveitar, como ser intelligente e sabedor, as leis immutaveis da atracção universal."
(Excerto do Cap. II)
Cipriano Leite Pereira Jardim (1841-1913). "Nasceu em Coimbra no dia 24 de setembro de 1841. Aos 19 anos, alistou-se no exército como voluntário. Já levava feito o liceu, onde aprendera inglês e francês, latinidade, filosofia, história natural, oratória, geografia, história e cronologia.
[Em 1887], quando já era major, será outro o seu caminho: em setembro, o Ministério da Guerra enviou-o a França para adquirir um parque de aeroestação. Cipriano resolveu estudar o assunto e aproveitar a oportunidade de expor as conclusões aos congéneres franceses, apresentando a sua invenção, materializada por Henri Lachambre a 28 de dezembro, dia do 16.º aniversário da atribuição do título de visconde Monte São a seu pai e que herdara uns meses antes.
Ciente da necessidade da aprovação pelos pares, apresentou uma memória à Academia Real das Ciências de Lisboa. Meses depois, deu uma conferência na Sorbonne, perante uma numerosa assistência saída dos dois mil convites enviados a toda a comunidade científica e à imprensa francesa. De regresso ao reino, fez uma demonstração no Teatro de S. Carlos, no dia 23 de abril de 1888. Tudo dez anos antes de o brasileiro Santos Dumont apresentar o seu dirigível.
Cipriano mostrou um balão revolucionário, graças ao hidrogénio e a um motor de propulsão. Pegou nas experiências do pioneiro francês Charles Renard, apurou-lhe a forma e sobretudo o sistema. Até à data, “não se conhecia meio de fazer subir um balão na atmosfera que não fosse o de lançar fora da barquinha uma porção de lastro” e de libertar gás para a descida. “Uma viagem no balão Jardim será feita nas condições de uma viagem em caminho de ferro”, afirmava a revista “Ocidente” em 1888.
O português, dando ao aeronauta a capacidade de manobra, inventara o modo de evitar o “terrível choque com o solo” que constituía a aterragem. Embora não se percebesse porque fora 'dar o ouro' ao estrangeiro, Cipriano triunfara num país que gastava ”milhões de francos em estudos e experiências” sem conseguir obter “a última palavra sobre o assunto”. O governo francês há de agraciá-lo com a Legião de Honra, mas no seu país será promovido de posto ao mesmo tempo que irá caindo no esquecimento até à sua morte, como general reformado, no dia 27 de outubro de 1913."
(Fonte: https://expresso.pt/sociedade/2018-05-28-Cipriano-Jardim-inventor-desprezado)
Exemplar m brochura, bem conservado. Interior apresenta oxidação.
Muito raro.
Sem registo na Biblioteca Nacional.
150€