21 dezembro, 2017

CADORO (Carlos Faria), Barão de - DINIZ. Coimbra, Typographia França Amado, 1898. In-8.º (18cm) de 370, [2] p. ; E.
1.ª edição.
Curioso romance do final do século XIX, cuja personagem central é Diniz, moço vaidoso e mimado, que encara todas as contrariedades e inimizades que vai coleccionando - por conta da sua língua vituperina - como perseguições à memória de seu pai, antigo combatente liberal de cepa. A presente obra, retrata com com graça e subtileza a fútil sociedade cosmopolita da época, com os seus vícios, "favores" e convenções.
"Eram de uma vez dois nobres à volta de uma herança pingue, e que vinha de uma parente longiquo, avaro e desestimado. Esse dinheiro não tinha o travo da saudade, a pena do morto; caía-lhes em casa como premio grande da loteria.
A liquidação da herança seria facil, se o testamento, qua a regulava, não tivesse deixado certas migalhas a um orfão e a uma Irmandade. Assim tinha de haver inventario orfanologico e a Boa Hora, logo que tal soube, qual alcoviteira dos ricos, começou a esfregar as gigantescas e aduncas mãos. Escrivão, procuradores, advogados e louvados deixaram de aparar as unhas sem temer a porcaria nem o padre Antonio Vieira que tanto se ocupou d'esses apendices corneos.
A Justiça, essa divinisada figurita de marmora armada de balança para pesar as faltas, e de espada para cortar as demasias, era vendada como Cupido por não querer conhecer a quem feria. Agora perdeu essas classicas caracteristicas, e apresenta-se grosseiramente de tamancos, de saia de serguilha, colete de pano cru cingindo a aspera camisa de estopa contra o seco peito esteril, na figura antipatica das cardadeiras.. Em logar de pesar certo e de cortar direito como a symbolica figurita de marmore, carda e guarda para si a estriga limpa, deixando aos outros a estopa, arestas, etc. Não usa espada nem balança, mas carda. Se traz venda é para velhacamente espreitar por baixo. [...]
Eram dois fidalgos mas havia tambem um plebeu, e todos trez deviam herdar com egualdade. A principi muito amigos, muito condescendentes, muito - essa é boa! o que tu quizeres! - depois em grupos de dois contra um que mudava segundo o interesse mais vivo de dum d'aquelles, em guerra dissimulada, em intrigas, em cambapés, qté que os fidalgos por maior communidade de ambições e maior audacia de meios se conluiaram contra o plebeu, e o despojaram, o mais que puderam, e tudo isto se fez ao abrigo da lei, sob a protecção da... cardadeira."
(Excerto do Cap. I, Son Altesse, Ma Vanité)
Carlos de Faria (1849-1917). “Escritor, jornalista, político e diplomata. Natural de Lisboa, Carlos de Faria e Melo fixou residência em Aveiro, cidade onde se notabilizou como jornalista e escritor, tendo sido agraciado pelo Rei D. Carlos com o título de 1.º Barão de Cadoro. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Carlos de Faria iniciou, ainda muito novo, a sua carreira jornalística, tendo fundado e dirigido diversos jornais, alguns de cariz literário. Como escritor, publicou vários livros. Para além disso, desempenhou cargos políticos, designadamente o de Administrador do Concelho de Aveiro e o de Governador Civil do Distrito de Aveiro, tendo sido também Cônsul de Espanha em Aveiro. Carlos Faria foi redator efetivo do jornal “O Povo de Aveiro”. Fundou e dirigiu o jornal “A Locomotiva” (que se autointitulava “Periódico dos Caminhos de Ferro”). Com Gervásio Lobato, fundou o periódico “Comédia Portuguesa”, tendo ainda integrado a redação do “Jornal do Norte”, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. Como escritor, Carlos de Faria publicou várias obras de ficção, nomeadamente os livros intitulados “Um Conto de Reis”, “O Piano”, “Portugueses Cosmopolitas” e “Diniz”. Em colaboração com Joaquim de Melo Freitas, publicou a obra “Homenagem ao distinto explorador de África Serpa Pinto”. Para além disso, cooperou em diversas iniciativas de relevo na vida social e cultural aveirense.”
(fonte: http://sites.ecclesia.pt/cv/carlos-de-faria-jornalista-e-escritor/)
Encadernação da época em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado geral de conservação. Cansado; apresenta pequenos defeitos nas pastas e na lombada. Com algumas folhas soltas.
Raro.
25€

Sem comentários:

Enviar um comentário