05 agosto, 2016

FREITAS, Pedro de - MEMÓRIAS DUM FERROVIÁRIO (revisor de bilhetes). Descrição de 40 anos vividos em combóios: sugestiva lição de vida social, ferroviária, sexual, educativa, profissional, psicológica, etc. Montijo, [Edição do Autor], 1954. In-8.º (19,5cm) de 262, [2] p. ; il. ; B.
1.ª edição.
Capa de Amílcar Mota (Barreiro).
Interessante e curiosíssima colecção de crónicas, relatando as experiências do autor enquanto funcionário da CP, ao longo de quatro décadas. Ilustrada com retratos no interior do livro, e no início, com um retrato de corpo inteiro do autor, aos 60 anos de idade e à data desta publicação (Maio de 1954).
Contém dados estatísticos da época, logísticos e humanos, importantes para a compreensão da história e dimensão da empresa.
"Às voltas com as calamidades da guerra, um dia, nos campos de batalha da Flandres, em França, leio no jornal O Século, estar aberto concurso para revisores de bilhetes nos caminhos de ferro do Estado, direcção do Sul e Sueste.
Longe da Pátria e da família, suportava eu bem duramente os amargos efeitos da monstruosa guerra. Ao ler no jornal essa notícia, foi duplo o meu sofrimento moral por verificar que, sendo eu um ferroviário com direito à notificação do dito concurso, pelas vias competentes, se não fora a coincidência da leitura, para ali ficaria votado ao esquecimento.
Em missão oficial no estrangeiro, envergando uma farda que era a honra do meu país, não era de admitir que por essa circunstância melindrosa da minha vida de soldado eu fosse compelido a prejudicar os meus interesses e a comprometer o meu futuro.
Mas a providência é grande. E o acaso fez que eu visse nesse dia o jornal que deu, à minha alma, tão grande consolação.
Não deixo perder o momento de atingir o que mais ambicionava na minha profissão e, em requerimento feito em papel de campanha, pelas vias competentes do Corpo Expedicionário Português - C. E. P. - envio à Direcção dos caminhos de ferro esse documento.
E desde então ainda mais se me aviva o desejo de voltar aos ares pátrios, à vida dos combóios, ao seio da minha classe. Mas a maldita guerra parecia ser infinita, nunca mais acabaria...
Porém, ela - como de resto tudo no Mundo tem seus dias contados - um dia acabou.
Não foi operação imediata o meu regresso à vida da Pátria; só seis meses passados após o termo das hostilidades, eu piso as terras benditas do meu velho Portugal.
Alegria nos corações libertos de tantos e tantos pesadelos; alegria nos lares, nos amigos, nas coisas nossas conhecidas e estimadas e, após arrumação de vários assuntos inadiáveis, eu apresso-me a saber do resultado do meu requerimento para o concurso de revisor.
Por intermédio do Ministério da Guerra, e com alguns pareceres e muitos carimbos extravagantes, esse desconhecido papel de campanha, que me custara meio franco, entrara, para os devidos efeitos, na repartição competente. Mas seria eu admitido?!... - eis a grande interrogação.
As vagas eram largamente disputadas; os pretendentes são muitos e as «cunhas» apertadas. A minha qualidade de combatente parece servir de alguma consideração e, na devida altura, eu sou admitido ao concurso."
(excerto do Cap. XIII, Revisor de bilhetes)
Matérias:
Ex-Libris. Abertura. Primeira Parte - Cemitério ferroviário: I - A angústia dum capataz em manobras. II - O funeral da carruagem-salão. III - O carril. IV - A locomotiva. V - A oficina, o telégrafo e a sinalização. VI - O barco a vapor e a via fluvial. VII - A estação. VIII - O bilhete. IX - O salão de primeira classe - n.º 61- Segunda Parte - Vida profissional e suas vicissitudes: X - O princípio de uma vida. XI - Na vida dos combóios (guarda-freio e condutor). XII - Movimentos sociais da classe - Dois comandantes frente a frente. XIII - Revisor de bilhetes. Terceira Parte - Vida ferroviária: XIV - Revisor e fiscal (Alta escola de ensinamentos psicológicos e sociais). XV - Humorismo ferroviário. XVI - Na vida burocrática do caminho de ferro, os papéis é que mandam. Quarta Parte - No campo da reforma: XVII - O último combóio. XVIII - Retalhos duma vida. XIX - A vala dos «mortos-vivos». Nota final.
Exemplar brochado em bom estado de conservação.
Raro.
40€

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