09 junho, 2016

CASTRO, Jerónimo Osório de - ROTEIRO DO ATLÂNTICO NORTE (narrativas de viagens e aventuras vividas). Lisboa, Editorial Inquérito Limitada, 1957. In-8.º (19cm) de 184, [8] p. ; E.
1.ª edição.
Muito valorizada pela extensa dedicatória autógrafa do autor.
Interessante conjunto de crónicas de viagem - com especial relevância para as experiências vividas pelo autor junto dos pescadores portugueses nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia - produzidas a bordo do velho «Gil Eanes», cargueiro adaptado a navio-hospital da nossa frota bacalhoeira.
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"Novamente o navio de assistência [Gil Eanes] corria pelo mar, dessa vez para buscar os náufragos do lugre «Florentina», concentrados pelas autoridades dinamarquesas no pequeno porto de Faeringerhavnen, na Gronelândia. [...]
Veio ao encontro do navio português um bote branco, de vela colhida, navegando com o auxílio do motor. Eram da polícia costeira e vinham indicar o caminho sinuoso para o porto de destino, escondido atrás das penedias. [...]
Então, veio do fundo da enseada uma flotilha de barquitos, ajoujados ao peso dos homens e de mil e uma bugigangas. Remavam compassadamente, balanceando os corpos e, só pela maneira de remar, foram logo identificados como sendo portugueses. Eram os náufragos do «Florentina», mais os seus pequenos dóris, brancos e azúis..
Aproximaram-se, deixando transparecer uma alegria discreta, em breve chegando à fala com os do «Gil Eanes».
De entre esses dóris apenas um avançou decididamente, trazendo o capitão do lugre naufragado, enquanto os outros botes pairavam ao largo, numa amálgama desconexa.
Depois os homens barafustaram na ânsia mal velada de mais se aproximar. Embora não o querendo deixar transparecer, tinham os nervos descomendados e isso afinal mostravam à menor contrariedade. Eram náufragos, longos dias como que prisioneiros num país estranho.
Subiram a escada do portaló, jungidos ao peso de enormes sacos, malas e embrulhos variegados, que aos poucos levavam para a coberta do porão, que lhes destinaram para residir à falta de melhor.
Contavam coisas fantásticas, pelas quais depreendi que, na verdade, muito sofreram, mas que o seu sofrimento também fora agravado pelo seu rude individualismo.
Esses 63 pescadores que o «Gil Eanes» recolhera, assim dobrando a sua tripulação e obrigando o dispenseiro a prodígios de economia, pensavam que os iam colocar em Saint John's, de onde outro navio os levaria para Portugal. Quando lhes constou que os iam distribuir pelos outros lugres, houve natural azedume por entre eles, que acompanhavam de juras pitorescas e de ameaças irrisórias. Mas acabaram por aceitar, resignados, o destino que lhes davam, apenas se lamentando de algumas inevitáveis separações entre parentes ou conterrâneos, ou da superstição que ligavam a determinados navios onde iriam completar a safra. [...]
Imaginemo-los, vivendo a vida esforçada do lugre, este, fundeado dentro de um fiorde, para onde fugira acossado pela brisa.
Quando amainou, largou em busca do mar e do bacalhau, enquanto a bordo afanosamente se iscavam os aparelhos para a pesca. Ao leme iam o capitão Simões e o contra-mestre e, à proa, o imediato, a dirigir a manobra. Ainda soprava um resto de vento e o mar não estava manso. Mas era preciso sair, não perder mais dias de pesca, sempre a mesma (e quase heróica) obsecação.
Demandavam a barra, bem atentos às rochas, das quais se desviavam, não obstante a cerração. Contudo, numa volta de mar, mais forte, o navio descaiu bruscamente. Qual não foi o espanto de todos quando imediatamente se sentiu um grande choque, acompanhado de um estrondo aterrador. Logo após, o lugre adornou para estibordo, espalhando-se pelo mar algumas tábuas do casco, que flutuaram sinistramente. Mal se sabiam as causas. Apenas havia a certeza de que o navio encalhara e metia água com fartura."
(excerto de Os prisioneiros do rochedo)
Indice:
I. Espírito de aventura.1 - Ir pelo mar fora. 2 - Rumo ao Norte. 3 - Campos do Tamisa. II. Londres, de passagem. 4 - Ser estrangeiro. 5 - Museus maravilhosos. 6 - Parques quase naturais. 7 - Palácios de Deus. 8 - Resumo de uma noite. 9 - O coração da City. 10 - A metrópole e o seu mundo. III. Mar implacável. 11 - Ao encontro da bruma. 12 - O silêncio do mar. 13 - Vida e morte do bacalhau. 14 - Muitas velas no oceano. 15 - Pesca imprevista. IV. Luz de um outro mundo. 16 - Os homens são irmãos. 17 - Primeira visão da Gronelândia. 18 - Um funeral português em terras da morte branca. 19 - Prisioneiros dos rochedos. V. Horizonte sideral. 20 - Sol da meia-noite. 21 - O raio verde. 22 - Uma aurora boreal. 23 - Um morto foi lançado ao mar. VI. Habitantes da solidão. 24 - Gente do Árctico. 25 - História de esquimós. 26 - A vida mais dura que o homem pode viver. VII. Itinerário americano. 27 - Fazia calor na Terra Nova. 28 - Voando sobre as províncias ultramarinas canadianas. 29 - O vínculo francês deixado no Canadá. 30 - Cruzeiro da Península de Gaspê. 31 - O que se vê em Nova Iorque.
Encadernação em meia de pele com ferros gravados a ouro na lombada.
Exemplar em bom estado de conservação. Pequena falha de pele na extremidade inferior da lombada.
Invulgar e muito apreciado.
30€

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